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Consciência, libertação, prática

São palavras muito usadas. Do que se trata, no entanto?

Se trata menos de mudar o mundo

Do que de eu me ter de volta

Eu ser quem sou

Grupos ou multidões dizendo querer mudar o mundo

As estruturas, o que quer que seja

Não necessariamente estão animados por anseios libertadores

Libertação é ser eu quem sou

Isto não se obtém de outra maneira a não ser

Recuperando a própria identidade

Fazendo o próprio lugar

É uma prática o que nos liberta

São ações

Amor é uma ação, não apenas um sentimento ou palavras

É bom lembrar

Paulo Freire, Karl Marx, Agnes Heller, Padre José Comblin

E muitas outras pessoas perto ou longe

São incentivos, provocações

Para um processo que dura a vida toda

Libertar a mente

Desfazer equívocos a nosso respeito

Construir uma realidade em que possamos realizar todas as nossas potencialidades

É uma prática. São ações interligadas.

Nunca é obra de uma ou muitas elites ou vanguardas

É gente em movimento.

Valores de consciência

Ter um espaço de comunicação disponível é um privilégio

Poder dizer não apenas o que se pensa mas o que se sente

Sentir que a vida volta a ser prioridade neste país

Saber que a educação, a arte e a cultura

Arte e consciência

Leitura e pesquisa

Estudo e trabalho

São pilares da sociedade

Pilares da comunidade

Pilares da família

Pilares da pessoa

Valores inegociáveis

Valores superiores são a vida

A saúde

A humanidade.

Honrar este espaço, quase já 23 anos depois

É celebrar a vida duplamente.

Talvez tenhamos aprendido

As armas matam

Um revolvinho incita à violência

A violência destrói.

Eu não sou mais do que alguém por ser branco

Ninguém é mais nem menos do que ninguém

Somos diferentes, isto é tudo

E a diferença é uma riqueza, não uma ameaça.

O ódio só destrói

As palavras têm força, movimentam

Que seja para a realidade, a solidariedade, a construção coletiva, o crescimento em conjunto.

Não digamos qualquer coisa, sem saber o que estamos dizendo

Uma palavra fora de lugar machuca.

Me perco quando te julgo e quando me julgo.

A realidade é uma universidade

Uma escola.

Todas e todos aprendemos.

Amar é mais do que um sentimento

É união, unidade, compreensão.

A inventividade revolucionária de Ludovico Silva

Em seu denso “Filosofia da Práxis” (Expressão Popular, 2007), Adolfo Sánchez-Vásquez, ao tratar de criatividades na perspectiva marxista, faz questão de assinalar que nem toda criatividade se reveste de relevância social, mas somente a que comporta uma intencionalidade revolucionária. Não raramente, deparamos com a mídia comercial a anunciar, com estardalhaço uma iniciativas pretensamente “original”, e quando analisarmos criticamente, nós a percebemos desprovida de predicado capaz de nos trazer uma inovação relevante, sob o ponto de vista da mudança social. Também ao interno das forças de esquerda, atribui-se valor extraordinário a certos feitos cuja contribuição resta, por vezes, duvidosa. Este não é, com certeza, o caso da figura do filósofo venezuelano Ludovico Silva (1937-1988), sobre quem nas linhas que seguem, me ocorre tecer umas brevíssimas notas.

Seu percurso inicial, a despeito das condições intelectuais familiares serem favoráveis (parentes próximos seus também se destacavam, especialmente no campo das Letras), seus primeiros anos de universitário se caracterizam por seu empenho e desempenho privilegiados, no campo das Letras, a partir da filosofia, que concluiu obtendo aprovação “Summa Cum Laude” pela Universidade Central da Venezuela. Alternou temporadas de estudos em Madrid (filosofia), e, Paris e na Alemanha (Filologia Românica).;

Já antes de seu giro pela europa, ele cultivava um gosto especial por línguas (além de espanhol. também o francês, o Alemão, entre outras), bem como pela literatura, pela poesia, pela comunicação (radiofônica)., ao tempo em que lograva promover interlocução com poetas latinoamericanos de renome, inclusive Ernesto Cardenal (Nicarágua). Também começou a despertar interesse pela leitura de Marx, inclusive sob O Capital, mantendo-se igualmente atento às outras obras marxistas.

No entanto, foi a partir do seu regresso da Europa, que Ludovico Silva dedicou atenção especial, a um mergulho profundo e crítico acerca do legado de Marx. Já tinha em torno de trinta anos de idade quando iniciou um período de leitura mais detida da obra de Marx, sem que isto em nada tenha afetado a qualidade e a excelência do seu trabalho. Muito ao contrário. Com efeito, em 1970, nos vai brindar com um dos textos mais fecundos – “A Mais Valia Ideológica”, seguido de “Teoria e Prática da Ideologia”.

Conquanto fosse também um marxólogo importa assinalar que Ludovico Silva militando em distintas trincheiras anticapitalistas, especialmente no campo da Filosofia e da Literatura (mais particularmente da Poética: os jovens, os chamavam “Ludo, o Poeta”) – campo de militância no qual faz lembrar a militância de Antonio Candido – ofereceu ao campo revolucionário latinoamericano valiosas contribuições, por meio de obras tais como “O Estilo literário de Marx”, “Anti-manual para uso de Marxianos, Marxistas e Marxólogos”, entre outros.

Pela forma como trata e analisa minuciosamente a obra de Marx, Ludovico ganha autoridade e respeito, perante os militantes e pesquisadores do legado marxiano, de modo a elaborar um trabalho hermenêutico persistente das obras de Marx, insurgindo-se  de modo contundente, contra toda postura dogmática – principalmente contra o Marxismo soviético, postura a qual se deve, inclusive, a ocultação durante décadas, de parte expressiva da obra de Marx, atitude agravada pelo comportamento ultra-seletivo de partes ou trechos dos escritos Marxianos. Notemos, por exemplo, que a publicação dos “Manuscritos Econômico-Filosóficos” só veio a lume em 1932.

O primeiro grande impacto de sua obra foi causado por seu livro “A Mais-Valia Ideológica”, publicado em 1970. Nele, o autor se revela sobremaneira criativo, ao formular, em linha sequencial ao conceito de “Mais-Valia” da lavra de Marx, a categoria “Mais-Valia ideológica”. Partindo da formulação marxiana do mais-valia, Ludovico se dá conta da carga semântica igualmente presente nas relações capitalistas, da dimensão imaterial do mecanismo de exploração e geração do lucro, observável na extração material de mais-valia, desta feita arrancada, na exploração física/material do trabalhador alienado, mas do seu espírito e da sua psiquê, a medida que tal exploração se estende, do chão da fábrica, para o lar do trabalhador, de modo que os aparelhos ideológicos – especialmente os meios de comunicação de massa, da indústria cultural – mantém prisioneiro o trabalhador: ele se torna refém de suas ideias, toda grade de valores, de crenças, de ideias que o mesmo sistema dominante faz circular, dia e noite, pelo rádio, pela televisão, na família, na escola, na igreja, etc. Outro aspecto não menos importante contido na “Mais-Valia Ideológica”, tem a ver com a descoberta pelo explorado de que, dando-se conta dos mecanismos de exploração por ele sofridos, passa a enfrentá-los, neles identificando seu inimigo de classe: o patronato, o sistema capitalista.

A partir desta brevíssima notícia acerca de Ludovico Silva e de aspectos de seu legado – cujo intento é apenas o de instigar especialmente os jovens das classes populares – importa agora ressaltar alguns ensinamentos recolhidos de sua contribuição teórica.

Um primeiro ponto a destacar de seu legado: o entendimento de que também Marx e em qualquer outro clássico não devemos tomar como acabada sua produção, como se fosse algo cristalizado ou congelado no tempo, a ser mecanicamente aplicado em toda e qualquer conjuntura. Ao contrário, até em respeito a essas mesmas figuras que não se cansam de insistir sobre o caráter histórico e, portanto, mutável da realidade, não se trata de assumi-los como uma obra acabada, fechada, válida integralmente para qualquer situação.

O bom entendimento das teses marxianas feito por Ludovico Silva se mostra, com efeito, bastante fecundo, especialmente, no caso do conceito de “mais-valia”, à medida que, vai além de uma interpretação meramente econômica, ou seja, partindo do seu alcance especialmente econômico. Ludovico Silva o estende criativamente à esfera ideológica, isto é, mostra como a extração da mais-valia não se dá apenas no chão da fábrica. O mesmo trabalhador, que é sugado no ambiente fabril, também vai ser sugado no próprio ambiente do lar. Aqui a exploração se faz no plano ideológico, por meio do componente ideológico, fazendo-o refém da grade de ideias, valores, crenças incutidas pelo sistema patronal, através dos meios de comunicação, da propaganda, dos programas radiofônicos e televisivos, todos controlados pelo patronato que financia a mídia hegemônica.

A este respeito, cumpre observar o alcance deletério da “Mais-Valia Ideológica”, sob um duplo efeito: do ponto de vista estritamente econômico, extrai do trabalhador a vantagem ou o lucro do seu sobretrabalho, ao mesmo tempo em que, com a mais-valia ideológica, ao incutir em sua cabeça falsas explicações sobre a verdadeira causa de seu empobrecimento, anula sua capacidade de exercício crítico, impedindo ou dificultando extremamente sua capacidade de resistência, o que resulta em uma vantagem significativa para a manutenção e fortalecimento do mesmo sistema de exploração. Por outro lado, em se tratando de uma experiência dialética, ao sofrer a exploração, o trabalhador também acaba apreendendo sua capacidade de lutar contra a exploração, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito coletivo. Ao observarmos nossa atual conjuntura, nos damos conta da impactante atualidade deste relevante legado de Ludovico Silva. Inspirados em seu frutuoso trabalho, somos historicamente instados a nos servir do seu achado (mais-valia ideológica) como um valioso instrumento político-pedagógico de fortalecimento de nossa tarefa organizativa, formativa e de luta, nos diferentes campos de atuação e militância de nossas organizações de base.

À medida que nossas organizações de base, articulando adequadamente sua tríplice tarefa (organizativa, formativa e de luta), forem capazes de assegurar condições favoráveis aos trabalhadores e trabalhadoras de exercitarem uma leitura crítica do mundo, acabarão fazendo impactantes descobertas, à semelhança das que fez o “Operário em Construção” do célebre poema de Vinícius de Moraes, a merecer especial atenção nos trabalhos de base.

João Pessoa,  25 de Julho de 2022

Foto: Karl Marx

Da solidão à leitura coletiva: Clubes de leituras ampliam a discussão da literatura

Por Aneliza Moreira

Em expansão no país encontros fomentam à leitura e ampliam as percepções sobre os livros

Os clubes de leitura ganharam o Brasil nos últimos anos. Tem para todos os gostos, livros escritos por mulheres, infanto-juvenil, sobre a América Latina, clássicos da literatura, política, literatura brasileira, entre outros.

Os clubes são organizados por editoras, livrarias, bibliotecas e por quem é entusiasta da literatura e são espaços de compartilhamento de ideias de quem leu cada livro. Geralmente funciona assim: o livro do mês é divulgado e, na data marcada, participantes e mediadores conversam presencial ou virtualmente sobre as várias leituras possíveis daquele livro. Em alguns, o próprio escritor ou especialista na temática também participa dos encontros que acontecem em bibliotecas, escolas ou centros culturais.

Mulheres

Um dos clubes que mais se destacam – e bem antes da pandemia – é o ‘Leia Mulheres‘, que completou sete anos em março e já está presente em mais de cem cidades brasileiras, de todos os estados do país e no exterior, em países como Suíça, Berlim e Portugal.

O Leia Mulheres surgiu em 2015, a partir de uma mobilização da escritora Joanna Walsh que propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014) que consistia em promover a leitura de escritoras.

Artigo | Expressão Popular: “Pediria meio pão e um livro”

Uma das três organizadoras do Leia Mulheres” é a coordenadora de marketing na Editora Nós, Michelle Henriques. Ela explica que, em cada cidade, o clube ganha um enfoque. No caso de São Paulo, são selecionados previamente os livros, alternando diferentes editoras, gêneros literários e o país de origem das escritoras para passar pelos mais diversos tipos de literatura.

“A leitura sempre foi um ato muito solitário para mim e creio que para outras pessoas da minha geração, que antes do boom da internet liam o livro e não tinham com quem falar sobre ele. As redes sociais ajudaram no compartilhamento de leituras e os clubes também tem isso, você chega no encontro, ouve opiniões diferentes e cria uma nova ideia sobre o livro”, relata.

::“Para as mulheres pobres a dificuldade é maior de se imaginarem escritoras”, diz pesquisadora::

Ao longo destes sete anos, são incontáveis as escritoras que foram tema do Leia Mulheres desde escritoras independentes até os clássicos e para diferentes públicos, entre elas, estão Elena Ferrante, Carolina Maria de Jesus, Aline Bei,  Rupi Kaur e Judith Butler..


Encontro Leia Mulheres em São Paulo com a participação da escritora Aline Bei / Leia Mulheres

Segundo Henriques, a leitura pode ser uma arma para combater a misoginia no atual cenário político brasileiro.

“Esperamos que a leitura possa reverter essas ideias e pensamentos errados que foram normalizados nos últimos anos de governo Bolsonaro. A literatura é transformadora e os debates podem trazer mudanças positivas para a situação que o país está vivendo agora”, afirma.

Diálogos

A escritora Thais Campolina está à frente de dois clubes: é organizadora do Clube Cidade Solitária e mediadora do Leia Mulheres em Divinópolis (MG). Ela diz que se descobriu apaixonada por esse processo que acontece a partir da troca sobre o mundo literário. Para Thais, o clube proporciona um exercício estético e político, mas também vai além do livro, pois tem a ver com escuta e respeito.

“Quando a gente incentiva a leitura e o acesso à cultura, os clubes de leituras são muito importantes, porque eles encorajam pessoas a lerem mais que não necessariamente é em quantidade, mas em qualidade também. Porque quando você lê para discutir, você lê mais atento e diferente e essa leitura é importante incentivar em uma era em que têm tudo está na palma da mão”, assegura.

Diversidade

Campolina ressalta que há muitas iniciativas para promover a leituras de livros escritos por mulheres, LGBTQIA+, e negros e mas para popularizar a leitura é preciso promover o acesso à literatura para esses grupos.

“O clube de leitura é o jeito mais fácil de atrair novos leitores, mas é difícil chegar até eles, porque o país tem pouca tradição de leitura não só por causa de questões culturais, mas principalmente pela desigualdade social, que estamos vivendo um momento que muita gente está com dificuldade de sobreviver, de pagar aluguel e conseguir comida, então é muito desafiador incentiva a leitura quando a gente está enfrentando todos esses problemas”.

Bibliotecas

Os clubes de leituras também acontecem em espaços como bibliotecas. O Mulheres Negras na Biblioteca surgiu em 2016 quando em um curso de biblioteconomia em que as três únicas alunas da sala perceberam que na biblioteca da instituição não havia obras de escritoras negras.

A partir de então, foi feito um levantamento nas bibliotecas de São Paulo sobre a presença da literatura negra nos acervos, porque não estava presente e se o público se interessava por essas obras. O resultado foi que alguns espaços diziam que não havia demanda e foi aí que elas assumiram a responsabilidade de formar esse público leitor, como explica Juliane Sousa, uma das mediadoras do projeto.

“A gente vem entendendo através das nossas atividades que é preciso tirar o que seria o empecilho do público de se aproximar do texto. A nossa estratégia foi promover a leitura de contos de escritoras negras, porque o conto é um texto curto, a pessoa só precisa chegar até o encontro ou se tiver passando, é só ela sentar e ali ela já vai sair com um texto lido de uma mulher negra”, afirma.

Mulheres Negras na Biblioteca faz também parceria com as editoras para sortear no clube de leitura exemplares dos livros selecionados. “Estamos falando de todo universo de leitura que envolve editoras, festivais e escolas que não olha para essas autoras negras como interessantes para o mercado editorial. Então quando o público passa a levar pra casa esses livros e comprar de outras autoras negras, a editora e as instituições entendem que têm público, a gente começa a mobilizar”.

A dica de Thais para quem quer começar é buscar assuntos que te causam curiosidade ou interesse e participar de clubes online.

Conheça:

Leia Mulheres

Clube Cidade Solitária

Querido Clássico

Coletivo Escreviventes

Nossa Literatura

Mulheres Negras na Biblioteca

Edição: Daniel Lamir

Fonte: Brasil de Fato

(28/05/2022)

Nunca mais

Palavras e expressões antigas renovam seu significado

Mantém o original e acrescentam algo novo

Nunca mais

A frase do corvo no poema de Edgar Allan Poe, “O corvo”

Nunca mais

O título do informe da Conadep, sobre o desaparecimento de pessoas durante a ditadura argentina

Nunca mais

Nunca mais dizer nada contra mim, nem para mim mesmo nem para ninguém.