Arquivo da categoria: Indígenas

Uma nova aldeia indígena no contexto urbano

Queridas irmãs e irmãos,

Aqui no grande Recife, neste início de janeiro, a novidade maior foi que irmãos e irmãs indígenas de vários povos que viviam na área urbana de Recife decidiram se juntar, ocupar um terreno que estava desocupado e dar assim início a um território que pode ser uma reserva indígena para os muitos/as indígenas que viviam na diáspora nesta região metropolitana. 

Desde o início de janeiro, 60 famílias pertencentes a vários povos originários do Nordeste, Brasil e Abya Ayla ocuparam um terreno próximo ao antigo engenho Monjope no município de Igarassu (norte do Estado de Pernambuco) mais ou menos a 30 quilômetros da capital. O terreno pertence à prefeitura e esta não quer ceder o terreno aos índios e já obteve a liminar de reintegração de posse contra a comunidade.

A retomada é formada por membros de vários povos indígenas que promoveram uma “emergência étnica” e formaram o povo “Karaxuwanassu”, assim como se organizam através da “Associação dos Povos Indígenas em contexto urbano” (ASSICUKA). Além de muitos dos povos originários de Pernambuco há várias famílias do povo Warao que vieram da Venezuela e também participam dessa reserva indígena que precisa da nossa solidariedade e do nosso apoio para se manter e ver seus direitos de existência respeitados.

A comunidade se organiza de acordo com as culturas e tem um conselho presidido por uma liderança escolhida por todos, liderança política (cacica) e liderança religiosa (pajé).

O que podemos fazer para apoiar?

1 – Penso que, antes de tudo, divulgar essa notícia e manifestar apoio popular para que da noite para o dia a prefeita não possa cumprir sua ameaça de despejar a todos e todas da área.

2 – Seria bom articular grupos de apoio nas diversas áreas. No campo político, jurídico e principalmente popular.

O nosso contato é através de Daniel Ribeiro, jovem advogado do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que está acompanhando a comunidade (Telefone e zap 81 – 9 8198941-1441).

(21/01/2023)

Com Lula, primeiro Ministério dos Povos Indígenas se torna realidade

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na tarde desta quarta-feira (11), em Brasília, da cerimônia de posses das ministras da Igualdade Racial, Anielle Franco, e dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara.

Pela primeira vez na história do Brasil, haverá um Ministério dos Povos Indígenas, que ainda integrará a Fundação Nacional do Índio (Funai). Durante a cerimônia, Guajajara anunciou que a Funai passará a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas e que será presidida pela primeira deputada federal indígena, Joenia Wapichana.

A ministra Sônia Guajajara, eleita deputada federal pelo PSOL de São Paulo nas últimas eleições, é reconhecida internacionalmente como ativista e líder indígena na luta pela promoção e direitos dos povos originários.

Durante a cerimônia, Guajajara recriou o Conselho de Política Indigenista, falou sobre a importância da demarcação de terras dos povos indígenas, da relevância da resistência e relembrou sobre os séculos de violência e violações contra os povos indígenas e o uso da Terra.

A ministra dos Povos Indígenas agradeceu a presença da ex-presidenta Dilma Rousseff, de todos presentes, e parabenizou o presidente Lula pela coragem de criar o ministério.

“Eu lhe parabenizo pela coragem e ousadia de reconhecer a força e o papel dos povos indígenas em um momento que é tão importante o reconhecimento do papel dos povos indígenas na defesa do meio ambiente com as mudanças climáticas, povos esses que resistem há mais de 500 anos a diários ataques e violentos, tão chocantes e aterrorizantes como vimos neste último em Brasília, porém sempre invisibilizados. Estamos aqui de pé para mostrar que não iremos nos render. O Brasil do futuro precisa dos povos indígenas”.

Guajajara também destacou as posses dela e de Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, como o “mais legítimo símbolo da resistência secular preta e indígena do Brasil”.

“E estamos aqui hoje, nesse ato de coragem, para mostrar que destruir a estrutura dos Três Poderes não vai destruir a nossa democracia! Eu e Anielle Franco convocamos todas as mulheres do Brasil que nunca mais vamos permitir outro golpe no nosso país.”

“Travessia do luto à luta”

Anielle Franco iniciou seu discurso em agradecimento à família, a quem veio antes dela e às mulheres negras que seguraram a sua minha mão e nunca mais a soltaram desde 14 de março de 2018, dia em que a irmã vereadora Marielle Franco foi assassinada. Agradeceu ainda a todas as pessoas que fizeram da “travessia do luto à luta”.

“Desde o dia que tiraram a Marielle da minha vida e da sociedade brasileira, passamos a multiplicar o legado e a regar a semente da minha irmã com a criação do Instituto Marielle Franco. Os dias têm sido difíceis desde o golpe e em especial em 2018. Em meio a uma política de morte, nossa resposta foi a luta pela vida. Luta essa que nos trouxe quando finalmente o povo brasileiro subiu a rampa desse Palácio em um gesto marcante, que emocionou o mundo inteiro. Lula mostrou que o caminho para o Brasil do Futuro será liderado por aqueles e aquelas que resistem”.

A ministra da Igualdade Racial destacou que o Brasil que deseja construir junto como povo será com o protagonismo de mulheres negras, quilombolas, periféricas faveladas e de povos de comunidades tradicionais.

Aniele também falou sobre o combate ao fascismo, ao racismo e aos retrocessos contra a população negra no país durante o governo bolsonarista. Além disso, afirmou que o ministério somará ações nas áreas social, racial e de gênero.

Também anunciou que será relançado o Plano Juventude Negra Viva e que serão retomados programas para os povos quilombolas e ciganos, com regularização fundiária e fortalecimento o sistema nacional da promoção da equidade racial, em diálogo com todos os estados e municípios da União.

Lula sanciona injúria racial como crime

Durante a cerimônia, no Palácio do Planalto, Lula sancionou o Projeto de Lei n° 4566/2021, que tipifica a injúria racial como crime de racismo. A pena para o crime aumentou de 1 a 3 anos de reclusão para 2 a 5 anos.

O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados no início de dezembro de 2022 e é um substitutivo do Senado Federal ao Projeto de Lei 4566/21 (antigo PL 1749/15), da ex-deputada Tia Eron e do ex-deputado Bebeto.

Assista a íntegra da cerimônia:

Fonte: PT

(11/01/2023)

 

Noche de vigilia

Ya se escucha el canto de un gallo. ¿Será el anuncio de la revolución? El aumentativo de pueblo puede ser revolución, dice el poema de Affonso Romano de Sant´Anna.

Sea como sea, la cuestión es que estoy de nuevo por aquí. Esta vez no es el miedo o la ansiedad por un atentado terrorista o golpe de estado lo que me mantiene atento, sino más bien un viejo hábito de habitar mi tiempo. Jugar con palabras. Jugar a divertirme.

Todo se puso tan serio de repente. Personas que encontré en mi paso por la academia, ignoraban todo sobre los clásicos de la sociología. Eran dos doctores y una doctora. No citaré sus nombres ahora, para no dar publicidad a lo que detesto. La ignorancia pedante.

Saber que pasé por la universidad tuvo y tiene distintas connotaciones. Haber pasado por la  universidad me mostró la distancia entre lo que se dice conocer, y lo que de hecho se sabe y se practica.

En mi universidad de origen, la Universidad Nacional de Cuyo, tuve ejemplos de lo que llamaré acción integrada. El casamiento entre lo que se sabe y lo que se es y practica. Esto es lo que trato de mantener vivo y activo en mí.

En otras universidades, encontré de todo un poco. Algunas personas (mujeres y hombres) cuyos ejemplos me marcaron profundamente, y cuyos nombres guardo por tratarse de mi espacio interno.

Lo que ahora me trae aquí, no es esta introducción ya demasiado larga pero necesaria, sino algo muy concreto. Mi tiempo es más bien estas horas que preceden al amanecer. Me gustaba levantarme tempranito antes de ir al Liceo Agrícola Sarmiento, en Mendoza, Argentina, donde estudiaba. Tomaba unos mates y leía escuchando radio.

Ayer tuve la alegría de escuchar al Presidente Lula y a su ministra indígena, Sonia Guajajara. Uno y la otra son personas actualizadas. Viven este tiempo. Son contemporáneas de la modernidad, o como se quiera llamar al tiempo actual.

Vivir el propio tiempo es para mí lo más precioso. Que nos roben el presente es lo más penoso. Esto último es lo que vino sucediendo durante la larga noche que llegó a su fin el día en que venció las elecciones la fórmula Lula y Alckmin.

Lenguaje. Lenguajes. Palabras. ¿Qué estoy diciendo? ¿A quién me dirijo? ¿Para qué escribo? El tiempo actual es vertiginoso. Todo es rápido. Pero la vida tiene ritmos más lentos. Despacito. Puedo vivir mi tiempo de varias maneras.

Lula y Sonia Guajajara me recuerdan que podemos vivir y de hecho vivimos nuestros propios tiempos, modos y valores, en medio de una sociedad diferenciada, en medio de gente con valores totalmente diferentes (cuando no opuestos) a los nuestros.

Lula dijo que los atentados del domingo 8 de enero son obra de personas que desconocen la realidad, tal como su mentor, fugitivo, que desde el exterior desconoce que fue derrotado por el electorado, en elecciones limpias.

Desconocer la realidad es especialidad y norma de ese contingente de gente sin rumbo ni dirección, que se deja llevar por quien le dice algunas palabras clave y le pone un dinerillo en la mano, o le ofrece cargos y poder.

Sonia Guajajara, ministra de los pueblos indígenas, dijo que su ministerio bien podría llamarse ministerio de la vida o de la tierra. Su alegría y espontaneidad fueron un regalo para mí, cansado de caras siniestras en el poder.

Campanha lança 30 candidaturas indígenas em 20 estados, em iniciativa unificada inédita

Por DW Brasil

Em uma articulação sem precedentes, 30 candidaturas de movimentos indígenas em 20 estados se lançam este ano na disputa aos Legislativos federal e estaduais, tendo como base uma agenda comum de enfrentamento à degradação do meio ambiente e às violações de direitos dos povos originários. Desse total, 12 concorrem à Câmara dos Deputados e 18 tentam uma vaga nas assembleias legislativas de 15 estados. A lista de candidaturas foi publicada nesta segunda-feira (29) no site da Campanha Indígena.

A mobilização é capitaneada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Outras sete organizações regionais também participam, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab); Conselho do Povo Terena; Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme); Grande Assembleia do povo Guarani (Aty Guasu); Comissão Guarani Yvyrupa (CGY); Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (Arpin Sudeste) e Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin Sul).

As candidaturas prometem “aldear a política”, combatendo os retrocessos impostos pelo atual governo do presidente Jair Bolsonaro (PL). “Com relação aos nossos povos, considerados por esse governo como minorias inferiores, houve um desmonte sem precedentes das instituições e políticas específicas conquistadas por nós a partir da Constituição de 1988”, diz o manifesto conjunto das candidaturas.

Para a presidência da República, sem citar nomes, a campanha defende a escolha por uma candidatura “que tenha compromisso com as lutas e reivindicações históricas das maiorias oprimidas e excluídas”. Para o Legislativo, pregam o apoio a candidatos que “se identifiquem com a defesa da democracia, da justiça social, dos direitos humanos, do meio ambiente, da soberania nacional e dos nossos direitos fundamentais”.

As candidaturas prometem “aldear a política”, combatendo os retrocessos impostos pelo atual governo do presidente Jair Bolsonaro (PL). “Com relação aos nossos povos, considerados por esse governo como minorias inferiores, houve um desmonte sem precedentes das instituições e políticas específicas conquistadas por nós a partir da Constituição de 1988”, diz o manifesto conjunto das candidaturas.

Para a presidência da República, sem citar nomes, a campanha defende a escolha por uma candidatura “que tenha compromisso com as lutas e reivindicações históricas das maiorias oprimidas e excluídas”. Para o Legislativo, pregam o apoio a candidatos que “se identifiquem com a defesa da democracia, da justiça social, dos direitos humanos, do meio ambiente, da soberania nacional e dos nossos direitos fundamentais”.

Fonte: Rede Brasil Atual

(29/08/2022)

A saga martirial dos povos originários: O caso dos Waimiri-Atroari

O processo colonizador, agravado pela expansão capitalista, em escala mundial, desencadeou uma sucessão de ataques a terras e gentes pelo mundo afora. Até na Oceania temos registros de hostilidades por parte dos invasores ocidentais, contra os aborígenes, haja vista, por exemplo, o relato (imaginário?) partilhado pela escritora Marlo Morgan, no livro intitulado “Uma Mensagem do Outro Lado do Mundo”, ed. Alma Livros (“Mutant message down under”, Haper Collins Publishers, 1994), sobre o qual já tivemos oportunidade de comentar, há uns quinze anos, na revista da FAFICA “Interfaces de saberes”.

Há farta documentação dando conta das atrocidades cometidas pelos colonizadores ocidentais contra nossos povos originários, nos diversos continentes, inclusive no continente americano. Nas periferias urbanas seus jovens e adultos indígenas perambulam sem destino, tornando-se presas fáceis de trabalhos análogos a escravidão, ou reféns da dependência alcoólica e de drogas.

Sorte semelhante continua reservada aos demais povos originários, inclusive nas Américas do Norte, Central e do Sul. No caso dos Estados Unidos, são diversos os registros históricos dos massacres cometidos pelos colonizadores comprovando também a devastação de suas terras e territórios. No Canadá, têm sido denunciados os maus tratos cometidos contra os indígenas até pelos cristãos. Em sua recente visita a este país, o Papa Francisco pediu perdão aos povos indígenas pelos malfeitos de que têm sido vítimas.  De volta a Roma, ainda em viagem, em entrevista concedida a jornalistas, o Papa Francisco não hesitou em denunciar o genocídio praticado pelos cristãos contra os povo originários do Canadá (Cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-07/papa-francisco-coletiva-jornalistas-a-bordo-voo-retorno-canada.html) . No México e na América Central, é igualmente conhecida a tragédia de que foram alvo os Astecas e os Maias, assim como na América do Sul, sofreram as mesmas atrocidades os Incas, os Aymaras, os Mapuches e os povos originários do Brasil, desde as invasões europeias de 1492.

 

Nas linhas que seguem, voltamos nosso olhar especial para apenas um desses povos, os “Waimiri-Atroari”, situados no Amazonas.

Como os demais povos originários de outras regiões, os Waimiri-Atroari vivem há séculos na mesma região amazônica. Com suas organizações, com sua cultura, com suas crenças, com seus rituais, os Waimiri-Atroari viveram em paz até por volta de 1830, quando começaram a ser invadidos e perseguidos por caçadores, castanheiros, seringueiros, madeireiros, garimpeiros… Desde então, resistem bravamente. Tal a sua bravura nas ações de resistência e autodefesa que os brancos invasores os denominavam como “os índios mais ferozes do Brasil”. Quem vivia sossegado em seu território, e, tendo passado a ser agredido, tinha o dever de se defender, com seus meios próprios. Esta situação nos faz lembrar um dito satírico: “que bichinho malvado! a gente mexe com ele e ele morde”…

É dessa forma que os Waimiri-Atroari em numerosos episódios tiveram e têm que enfrentar uma luta renhida e desigual, não apenas contra invasores individuais ou em pequenos grupos, mas as próprias investidas do Exército, em especial no episódio da construção da BR 174 (eles a chamam “BR um, sete, quatro”), por construção em seu território, entre 1968 e 1988. Quem está de fora e de longe não percebe a gravidade do que estava acontecendo – uma verdadeira desgraça para os Waimiri-Atroari -, na medida em que esta BR introduziria uma série de consequência e ameaças:

  • Escancarava aos invasores todos os meios de agressão ao seu território;

  • Passaria a permitir livre acesso a garimpeiros e madeireiros e grileiros;

  • Sua vida cotidiana passava a ser gravemente alterada, em seu dia-a-dia, em sua organização, em seus costumes, em sua cultura;

  • A BR 174 se torna a porta de entrada de doenças letais para os nativos, que, vivendo isolados dos brancos, não dispunham de recursos, nem de acesso a serviço de saúde regulares…

 

Com efeito, por conta de sucessivas e continuadas investidas de toda sorte de invasões e de ataques, às aldeias perdem o sossego por causa das ameaças; cresce o número de vítimas de perseguições, de ataques, de abusos de mulheres e adolescentes, tendo os nativos que enfrentar todo tipo de contaminação (gripe, malária, sarampo e outros males, sem que possam recorrer a vacinas e tratamentos, dado o grau de isolamento da “civilização”. Tem que conviver com vários tipos de crueldades infligidas pelos não-Índios provocadas pela exploração desordenada de garimpos, a poluírem o subsolo, o solo, os rios, os peixes, as plantas e os próprios nativos. Têm que enfrentar a desenfreada extração de madeira, a derrubada da mata, com tudo o que representa tal devastação.

Impedidos de viverem em sua própria terra, sentem-se forçados a se afastarem: de início, os Waimiri-Atroari viviam a cerca de 50km de Manaus; depois tiveram que viver a cerca de 300 km de Manaus. Hoje vivem na fronteira entre Amazonas e Roraima.

Conforme estimativa feita no último quartel do século XIX, os Waimiri-Atroari chegavam a cerca de dois mil habitantes, apenas nos limites correspondentes a um rio. Em 1983, tal população era estimada em cerca de apenas 300 habitantes

Marcados por um profundo “ethos” comunitário – extensivo aos demais povos originários, os Waimiri-Atroari imprimiram em sua organização uma dinâmica de formação de um sólido consenso de modo que despendem largo tempo no exercício interno do diálogo com o propósito de maturar uma posição de consenso, diante dos impasses e em razão da tomada de decisões.

 

Aprendendo com os povos originários

Do modo de vida e da saga martirial dos povos originários temos muito a aprender. Aprendamos com eles que somos parte viva da Mãe Natureza, de sua espiritualidade cósmica, que nos faz sentir irmanados, não apenas entre nós, humanos, mas também com toda a comunidade dos viventes: minerais, plantas e animais. Como habitantes da Terra, compartilhamos responsabilidades recíprocas, quanto às nossas origens e destinos. Aprendemos com eles que não somos donos, mas filhos da Mãe Natureza, e irmãos e irmãs dos que habitam nesta Casa Comum. Mantenho viva, na memória,  a este respeito, um denso depoimento prestado pelo Cacique Xicão Xukuru, pouco antes de seu assasinato em 1998, que vale ser conferido (cf. https://www.youtube.com/watch?v=lMCzb0eLY7g ). Neste sentido, importa realçar 2 traços relevantes da vivência e da cultura dos povos originários: a força mística inspirada pelos ancestrais e o senso de co-responsabilidade manifesto no cultivo da persistência. O teólogo José Comblin faz menção, em seu convívio com membros dos indígenas equatorianos, em Rio Bamba, em que se declara impressionado pela persistência daquela gente, em distintas circunstâncias. Procedimento semelhante manifesto também pelos povos indígenas bolivianos, haja vista sua força comunitária e sua organização na sustentação do Governo Evo Morales, conforme ele próprio reconhece em recente entrevista (cf. https://www.brasil247.com/americalatina/evo-morales-explica-papel-do-reino-unido-no-golpe-da-bolivia-de-2019-91op7vcg ).

Na citada entrevista do Papa Francisco, chama a atenção o fato de se referir aos povos originários como portadores de excelência de dotes poéticos, por conta da harmonia que sustentam com a Mãe Natureza, razão pela qual se sente muito tocado pelo paradigma do “Buen Vivir”. Trata-se, por conseguinte, de lições a extrair de sua contribuição.

 

João Pessoa, 02 de agosto de 2022

Povos indígenas: nossos mestres e doutores

Com o assassinato recente do indigenista Bruno Pereira e o do jornalista  inglês Dom Phillips no vale do Jari amazônico e mais que tudo pelo abandono que sofreram por parte do atual governo, de viés genocida, por longo tempo, durante da pandemia do Covid-19 que, ao todo, deve ter custado a vida de cerca de mil indígenas, a questão dos povos originários ganhou as manchetes nacionais e internacionais.

Surpreendente, embora tardio, foi o pedido de desculpa do Papa Francisco em sua visita em julho ao Canadá, às famílias de crianças indígenas, arrancadas de seu meio e internadas em colégios católicos com muitas mortes. Eles não se contentaram com essa desculpa papal. Uma das lideranças corajosamente disse ao Papa:parem de nos fazer superar esta tragédia, queremos que nos entendam, que respeitem a nossa sabedoria ancestral, que favoreçam a nossa cura e nos deixem viver segundo as nossas tradições. Algo semelhante disseram indígenas bolivianos por ocasião da visita do Papa João Paulo II: a Bíblia que nos dão, entreguem-na aos europeus, pois eles precisam dela mais do que nós porque foram eles que de forma desumanizadora nos colonizaram e quase nos dizimaram.

Nunca pagamos a dívida centenária que temos para com os povos originários brasileiros, latino-americanos e caribenhos. Eles são os hóspedes originários destas terras que lhes estão sendo invadidas e roubadas em função da voracidade dos madeireiros, do ouro e da mineração.

O cuidado para com tudo o que existe e vive

Agora que estamos sob um alarme ecológico planetário, sem saber que soluções encontrar face ao crescente aquecimento do planeta, descobrimos, finalmente, como eles com sabedoria tratam a natureza, o cuidado para com as florestas e a Mãe Terra. Eles são nossos mestres e doutores no sentimento de pertença, de irmandade e de respeito por tudo o que existe e vive. Nutrem uma profunda concórdia entre eles e com a comunidade de vida, coisa que nós há séculos perdemos. Estamos sofrendo os danos irremissíveis de nossa devastação. Ainda não tiramos as lições que Gaia, a Pacha Mama e Mãe Terra nos está dando com a intrusão do Covid-19. Buscamos volver à ordem anterior, justamente aquela que propiciou a irrupção de inúmeros vírus, o último, a varíola do macaco. Elenquemos alguns valores de seu modo de estar neste mundo natural.

Integração sinfônica com a natureza.

O índio se sente parte da natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos convivem,m e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são exímios ecologistas. A Amazônia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações indígenas que ai vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de toda floresta amazônica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas de recursos”, desenvolvendo espécies vegetais úteis ou bosques com alta densidade de castanheiras e frutas de toda espécie. Elas foram plantadas e cuidadas para si e para aqueles que, por ventura, por ai passassem.

Os Yanomami sabem aproveitar 78% das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em conta a imensa biodiversidade da região, na ordem 1200 espécies por área do tamanho de um campo de futebol.

Para eles a Terra é Mãe do índio. Ela é viva e por isso produz todo tipo de seres vivos. Deve ser tratada com reverência e respeito que se deve às mães. Nunca se há de abater animais, peixes ou árvores por puro gosto, mas somente para atender necessidades humanas. Mesmo assim, quando se derrubam árvores ou se fazem caçadas e pescarias maiores, organizam-se ritos de desculpa para não violar a aliança de amizade entre todos os seres.

Essa relação sinfônica com a comunidade de vida é imprescindível para garantirmos o futuro comum da própria vida e o da espécie humana.

Sabedoria ancestral.

Conhecendo-se um pouco as diversas culturas indígenas, identificamos nelas profunda capacidade de observação da natureza com suas forças  e da vida com suas  vicissitude . A sabedoria deles se teceu  através da sintonia fina com o universo e  da escuta atenta da linguagem da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu com a terra, integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar ser humano com a  natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados embora sua tecnologia seja finíssima mas não contemporânea.

Intuitivamente, atinaram com a vocação fundamental de nossa efêmera passagem por esse mundo que é captar a majestade do universo, saborear a beleza da Terra e tirar do anonimato aquele Ser que faz ser todos os seres, chamando-o por mil nomes Palop, Tupã, Ñmandu e outros.  Tudo existe para brilhar. E o ser humano existe para dançar e festejar esse brilho.

Essa sabedoria precisa ser resgatada por nossa cultura secularista e desrespeitosa das várias formas de vida. Sem ela dificilmente pômos limites ao poder que poderá destruir o nosso ridente Planeta vivo

Atitude de veneração e de respeito.

Para os povos  indígenas, bem  como para alguns contemporâneos, como o recém falecido James Lovelock, o formulador da teoria da Terra como Gaia, tudo é vivo e tudo vem carregado de mensagens que importa decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela se comunica por seus odores. Possui braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas, une o  Céu com a Terra por suas raízes e  pela copa. Eles conseguem, naturalmente, captar o fio que liga e re-liga todas as coisas entre si e com a Divindade. Quando  dançam e tomam as beberagens rituais fazem uma experiência de encontro como Divino e com o mundo dos anciãos e dos sábios que estão vivos no outro lado da vida. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa aprender deles.

A liberdade, a essência da vida indígena.

Nos dias atuais a falta de liberdade nos atormenta. A complexidade da vida, a sofisticação das relações sociais geram sentimento de prisão e de angústia. Os povos indígenas nos dão o testemunho de uma incomensurável liberdade. Baste-nos o depoimento dos grandes indigenistas, os irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas: “O índio é totalmente livre, sem precisar de dar satisfação de seus atos a quem quer que seja… Se uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre”. Essa liberdade é tão apresentada pela extraordinária liderança Krenak e por seus escritos, Ailton Krenak.

A autoridade, o poder como serviço e despojamento.

A liberdade vivida pelos indígenas confere uma  marca singular à  autoridade de seus caciques. Estes nunca têm poder de mando sobre os demais. Sua função é de animação e de articulação das coisas comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade individual. Especialmente, entre os Guarani se vive esse alto sentido da autoridade, cujo atributo essencial é a generosidade. O cacique deve dar tudo o que lhe pedem e não deve guardar nada para si. Em algumas tabas se pode reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos  mais pobres, pois, o resto foi tudo doado.  Nós ocidentais definimos o poder sob sua forma autoritária:“a capacidade de conseguir  com que o outro faça aquilo que eu quero”. Em razão desta concepção, as sociedades são dilaceradas permanentemente por conflitos de autoridade.

Imaginemos o seguinte cenário: caso o cristianismo, se tivesse encarnado na cultura social guarani e não naquela greco-romana, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo. Mas sua marca registrada seria a generosidade e o serviço humilde a todos. Então, sim, poderiam ser testemunhas d’Aquele que disse:”estou entre vós como quem serve”. Os indígenas teriam captado essa mensagem como co-natural à sua cultura  e, quem sabe, livremente aderido à fé cristã.

Como se depreende, em tantas coisas, reafirmo, os indígenas podem ser nossos mestres e nossos doutores, como se dizia dos pobres na Igreja dos primórdios.

(01/08/2022)