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Mia Couto – o afinador de silêncios

“Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”

– Mia Couto, em “Antes de Nascer o Mundo”. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2009.

Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto (biólogo, jornalista e escritor), nasceu em 5 de Julho de 1955, na cidade da Beira, em Moçambique/África. É filho de Maria de Jesus e Fernando Coutoemigrantes portugueses. Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques para estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) – de 1976 a 1976; da revista semanal Tempo – de 1979 a 1981 e do jornal Notícias – de 1981 a 1985. Em 1985 abandonou a carreira jornalística.

Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, sendo atualmente professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades desta universidade. Como biólogo tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. – Avaliações de Impacto Ambiental. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca.

Mia Couto é um “escritor da terra”, escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos – o mundo vivo das histórias. Mia Couto é um excelente contador de histórias. É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa.

Atualmente é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países. Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e cinema. Tem recebido vários prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária.

É, comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.  Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra em 1999, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas em 2007, o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014.

Fonte: mozindico. (texto editado e atualizado pelos editores do site Templo Cultural Delfos).

Fonte: Templo Cultural Delfos

Autobiografia

Por Mia Couto

Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

 

Fonte:  Mia Couto, em “Vagas e lumes”. Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Tempo Cultural Delfos

Mia Couto: A casa

A casa
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

Fonte: Templo Cultural Delfos

Mia Couto: A adiada enchente

A adiada enchente
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me  tornei  antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E  eu a esperei
como  um  rio  aguarda  a  cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.

Mia Couto, em “Idades cidades divindades”. Lisboa: Editorial Caminho, 2007.

Fonte: Templo Cultural Delfos

IV Domingo do Advento de 1511: Tributo a Frei Antonio Montesinos

Como outros períodos da História, também a Modernidade se acha impregnada de luzes e trevas. Ao lado de valores tais como o da emancipação humana frente à teocracia, a cultura do absolutismo e dos avanços científico-tecnológicos, também se fizeram presentes valores tenebrosos, como o do processo de colonização das gentes do continente americano, em especial, os povos originários e, em seguida, de significativos contingentes do continente africano aqui escravizados.

Nascia o famigerado “pacto colonial”, aliança macabra entre as metrópoles colonialistas e a Igreja, em que a espada (poder temporal) e a cruz (poder eclesiástico) vieram de braços dados, para conquistar as terras, as gentes e suas riquezas, ricas experiências com a natureza e com o Sagrado.

A cruel experiência iniciada na atual República Dominicana, nas primeiras décadas de 1500, prosseguiu e se agravou enormemente, durante os séculos vindouros, seja no México (Astecas, Maias), seja na América Central, seja na América do Sul (especialmente, no Peru, contra os Incas, seja na Bolívia, no Paraguai, no Chile, no Brasil…). Tratou-se, além de trabalhos forçados e escravização em massa nas minas e nos canaviais,  de um genocídio de populações indígenas, estimado em mais de 70 milhões, dos quais 8 milhões nas minas de Potosí-Bolívia, algo muito superior ao famigerado Holocausto da II Guerra Mundial.

É neste contexto que aporta à “Santo Domingo” – atual República Dominicana – um grupo de missionários dominicanos, entre os quais, o rei Pedro de Córdoba, coordenador do grupo, Frei Antônio Montesinos, figura referencial destas linhas.

Se é verdade que sua “missão” nestas novas terras e em meio a estas novas gentes, consistia de acordo com o Pacto Colonial, em “cristianizar” os “infiéis”, não menos certo é que a vivência concreta dos dominicanos, diante deste pacto, provocou profunda reviravolta de sua postura frente àquele massacre aos povos indígenas.

Por mais obedientes que pudessem ser as autoridades eclesiásticas e reais, bem mais lhes falou o Evangelho.

Quem sabe, não os tenha tocado profundamente aquela passagem extraída do Livro dos Atos dos Apóstolos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” ? O fato é que, revoltados com os maus tratos, a inclemência, os castigos infligidos aos nativos, a imposição de trabalhos forçados, a mais cruel escravidão, a invasão de suas terras, de seus bens, a avidez de conquista do ouro e da prata, o desrespeito às crenças desses povos – tudo isto os levou a romperem com o “pacto colonial”.

Em consequência, trataram aqueles dominicanos de denunciar aqueles graves crimes, por meio de uma homilia. Elegeram seu confrade Antonio Montesinos para proferir aquela homilia, justamente no IV domingo de advento, mais precisamente em 21 de dezembro de 1511.

Chegado o dia, Frei Antonio Montesinos se põe no púlpito e começa a fazer graves denúncias das autoridades daquela ilha, acusando-os de estarem em pecado mortal. Na homilia Frei Antonio Montesinos enumerou vários exemplos concretos de maus tratos sofridos pelos nativos, em oposição frontal ao espírito do evangelho.

Terminada a Missa, as mais altas autoridades daquela ilha dirigiram-se à casa dos frades dominicanos, e, atendidos pelo seu prior Frei Pedro de Cordoba, despejaram-lhe toda sorte de queixas contra Frei Antônio Montesinos, exigindo a presença deste. Reivindicavam do frade pregador sua retratação, no mesmo púlpito, no domingo seguinte. Tanto Frei Pedro, quanto Frei Antonio comprometeram-se a voltar ao tema, no domingo seguinte.

No entanto, ao retornar ao púlpito no domingo seguinte, como combinado, Frei Antonio Montesinos não apenas manteve todas as acusações feitas no domingo precedente, como empenhou-se em detalhá-las mais profundamente.

Graças aos escritos de Frei Bartolomeu de las Casas, desde a Espanha, temos o registro ou relato destas duas homilias, que fazemos questão de transcrever, nas linhas que seguem:

“SERMÃO PROFÉTICO DO DOMINICANO ANTÔNIO MONTESINOS EM DEFESA DOS ÍNDIOS “

Os primeiros dominicanos chegaram em 1510 à ilha Espanhola. Até fins de 1511 tinham chegado três grupos de dominicanos em Santo Domingo e a comunidade local compreendia 18 frades. A prática missionária de um só ano foi suficiente para reconhecerem que o maior obstáculo para conversão e catequese dos índios não era sua idolatria, mas a injustiça praticada contra eles. Não o índio pagão, mas o colonizador cristão estava em pecado mortal. Naquele memorável 4°. Domingo de Advento, os dominicanos convidaram o governador Diego Colombo, os oficiais do Rei e os juristas letrados para a sua Igrejinha de palha. Montesinos era apenas porta-voz de sua comunidade religiosa que em conjunto tinha preparado e assumido o sermão e suas conseqüências. Santo Domingo, 4° Domingo de Advento, 1511 Tendo chegado o domingo e a hora de pregar, subiu a púlpito o sobredito padre Frei Antônio Montesinos, tendo como tema e fundamento de seu sermão, que já levava escrito e assinado pelos demais: Ego vox clamantis in deserto. Tendo feito sua introdução e dito algo referente à matéria do tempo do advento, começou a exaltar a esterilidade do deserto das consciências dos espanhóis desta ilha e a cegueira em que viviam; o grande perigo que corriam de sua condenação, não dando atenção aos pecados gravíssimos em que com tanta insensibilidade estavam continuamente mergulhados e neles morriam. Em seguida volta a seu tema, falando assim: “Para vo-lo dar a conhecer, subi aqui, eu que sou voz de Cristo no deserto desta ilha, e por isso convém que com atenção, não qualquer, mas com todo o vosso coração e com todos os vossos sentidos, a ouçais; a qual será a maior nova que jamais ouvistes, a mais áspera e dura, a mais espantosa e perigosa que jamais imaginastes ouvir”. Exaltou esta voz por um bom tempo com palavras muito pungentes e terríveis, que lhes fazia estremecer as carnes e que lhes parecia que já estavam no juízo divino. Explicou-lhes qual era e qual o conteúdo daquela voz, de maneira tão grande e universalmente encarecida: “Esta voz, disse ele, é que todos estais em pecado mortal e nele viveis e morreis por causa da crueldade e tirania que usais com estas gentes inocentes. Dizei, com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão estes índios? Com que autoridade tendes feito tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam em suas terras mansas e pacíficas, onde tão infinitas delas, com mortes e estragos nunca ouvidos, tendes consumido? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem lhes dar de comer nem curá-los em suas enfermidades em que incorrem pelos excessivos trabalhos que lhes dais e morrem, dizendo melhor, os matais, para tirar e adquirir ouro cada dia? E que cuidado tendes de que alguém os doutrine, conheçam seu Deus e criador, sejam batizados, ouçam missa, guardem as festas e domingos?” “Eles não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto? Não percebeis isto? Como estais dormindo sono tão profundo e tão letárgico? Tende certeza que no estado em que estais não vos podeis salvar mais do que os mouros ou turcos que não têm e não querem a fé de Jesus Cristo”. Finalmente, de tal maneira explicou a voz que antes muito exaltara que os deixou atônitos,  muitos como que fora dos sentidos, outros mais empedernidos e alguns um tanto compungidos, mas nenhum, pelo que verifiquei depois, convertido. Concluído seu sermão, desce do púlpito com a cabeça não muito baixa, porque não era homem que quisesse mostrar temor, assim como não o tinha, nem se preocupava muito por desagradar os ouvintes, fazendo e dizendo o que segundo Deus lhe parecia conveniente. Com seu companheiro vai a sua casa de palha onde talvez não tivesse o que comer senão sopa de couve sem azeite, como algumas vezes lhes acontecia. Tendo saído, a igreja encheu-se de murmúrio, que, segundo creio, mal deixaram acabar a missa. Pode-se bem imaginar que não foi lido leitura do Menosprecio del mundo às mesas de todos naquele dia. Tendo acabado de comer, não devendo ter sido muito gostosa a comida, reúne-se toda a cidade na casa do Almirante, segundo nesta dignidade e ofício real, D. Diego Colombo, filho do primeiro que descobriu estas índias, especialmente os funcionários do rei, tesoureiro e contador, feitor e vedor, e concordam em ir repreender e assustar o pregador e os outros, que o castigavam como homem escandaloso, semeador de doutrina nova, nunca ouvida, condenando todos, e que tinha falado contra o rei e seu domínio que tinha nestas índias, afirmando que não podiam ter os índios, tendo eles sido dados pelo rei, e estas eram coisas gravíssimas e irremissíveis. Chamam à portaria, o porteiro abre, dizem-lhe que chame o vigário e aquele frade que tinha pregado tão grandes desvarios; sai só o vigário, padre venerável, Frei Pedro de Córdoba; dizem-lhe com mais autoridade do que humildade que mande chamar o que tinha pregado. Responde, pois era prudentíssimo, que não havia necessidade, que se sua senhoria e mercês mandavam algo, ele era prelado daqueles religiosos e ele responderia. Insistem muito com ele para o mandar chamar; ele, com grande prudência e autoridade, com palavras muito modestas e graves, como era seu costume falar, se escusava e desviava. Finalmente, porque era dotado pela divina Providência, entre outras virtudes naturais e adquiridas era pessoa tão venerável e tão religiosa que com sua presença mostrava ser digno de toda reverência. Vendo o Almirante e os demais que com argumentos e palavras muito autoritários o padre vigário não se convencia, começaram a abrandar, humilhando-se, e lhe pedem que o mande chamar porque lhe querem falar estando presente e perguntar como e em que se fundamentavam para se decidir a pregar uma coisa tão nova e tão prejudicial, em desserviço do Rei e dano de todos os habitantes daquela cidade e de toda esta ilha. Vendo o santo varão que iam por outro caminho e que moderavam o brio com que tinham chegado, mandou chamar o dito padre frei Antônio Montesinos. Maldito o medo com que veio. Sentados todos, o Almirante primeiro propõe por si e por todos sua questão, dizendo que, tendo aquele padre sido ousado em pregar coisas em tão grande desserviço do rei e dano de toda aquela terra, afirmando que não podiam ter os índios, tendo eles sido dados pelo rei, que era senhor de todas estas índias, especialmente tendo os espanhóis conseguido aquelas ilhas com muitos trabalhos e subjugado os infiéis que as tinham; e porque aquele sermão tinha sido tão escandaloso e em tão grande desserviço do rei e prejudicial a todos os habitantes desta ilha, que determinassem que aquele padre se retratasse de tudo o que tinha dito; caso não o fizesse, eles poriam o remédio que fosse conveniente. O padre vigário respondeu que o que aquele padre tinha pregado fora parecer, vontade e consentimento seu e de todos, depois de muito bem examinado e conferido entre eles, e com muito conselho e madura deliberação se tinha decidido que fosse pregado como verdade evangélica e coisa necessária para a salvação de todos os espanhóis e dos índios  desta ilha, os quais viam perecer cada dia, sem ter deles mais cuidado do que se fossem animais do campo; eram obrigados a isso por preceito divino em primeiro lugar pela profissão que tinham feito no batismo como cristãos e depois por serem frades pregadores da verdade; achavam que nisso não estavam desservindo ao rei, que para cá os tinha enviado para pregar o que achassem que era necessário pregar às almas, para o servirem com toda fidelidade, e que tinham certeza que, se Sua Alteza fosse bem informado a respeito do que aqui acontecia e o que sobre isso eles tinham pregado, se consideraria bem servido e lhes daria as graças. Foi de pouco proveito a fala e os argumentos dela que o santo homem apresentou em justificação do sermão para satisfazê-los e aplacá-los da alteração que tinham recebido ao ouvir que não podiam ter índios, como os tinham tiranizados, porque aquele não era caminho para que sua cobiça se fartasse; porque, tirados os índios, ficavam defraudados de todos os seus desejos e aspirações; e assim, cada um dos que estavam ali, mormente os principais, dizia, dirigido ao propósito, o que desejava. Todos concordavam que aquele padre se retratasse no domingo seguinte do que tinha pregado e chegaram a tanta cegueira que lhes disseram que, se não o fizesse, preparasse suas tralhas para embarcar e ir para Espanha. O padre vigário respondeu: “Certamente, senhores, nisso teremos muito pouco trabalho”. E era certamente assim porque suas coisas não eram senão os hábitos de tecido grosseiro e muito tosco que vestiam, e umas mantas do mesmo tecido com que se cobriam de noite; as camas eram umas varas colocadas sobre forquilhas que chamam cadalechos; e sobre elas alguns feixes de palha; e o que era usado para a missa e alguns livros, podendo talvez caber tudo em duas arcas. Vendo em quão pouco os servos de Deus tinham todas as espécies de ameaças que lhes faziam, tomaram a abrandar, como que pedindo-lhes que tomassem a examinar o assunto e, bem examinado, fosse moderado em outro sermão a ser dito para satisfazer o povo que ficara e estava sobremaneira escandalizado. Finalmente, insistindo muito em que fosse moderado o que fora pregado no primeiro sermão e o povo sossegado, concederam os padres, para se despedir deles e dar fim a suas frívolas importunações, que fosse assim em boa hora, que o mesmo padre frei Antônio Montesinos tomaria no domingo seguinte a pregar e voltaria ao assunto e diria, sobre o que tinha pregado, o que melhor lhe parecesse e, na medida do possível, se esforçaria em os satisfazer e tudo o que foi dito fosse explicado. Tendo combinado isto, foram embora alegres com esta esperança. Eles, ou alguns deles, logo publicaram que tinham combinado com o vigário e os outros frades que no domingo seguinte aquele frade havia de se desdizer de tudo o que tinha dito; e não foi preciso convidá-los para ouvir aquele segundo sermão, porque não havia uma única pessoa em toda a cidade que não se encontrasse na igreja, convidando uns aos outros para que fossem ouvir aquele frade, que havia de desdizer tudo o que tinha dito no domingo passado. Chegada a hora do sermão, tendo subido ao púlpito, o tema para fundamento de sua retratação e desmentido foi uma sentença do Santo Jó, no cap. 36, que começa: Repetam scientiam meam a principio et sermones meos sine mendatio esse probabo: ”Tomarei a referir desde seu princípio minha ciência e verdade, que no domingo passado vos preguei e aquelas minhas palavras, que tanto vos amarguraram, mostrarei serem verdadeiras”. Tendo ouvido seu tema, os mais avisados imediatamente perceberam onde ia parar, e foi muito sofrimento deixá-Io continuar. Começou a fundamentar seu sermão e a relatar tudo o que no sermão passado tinha pregado e a corroborar com mais argumentos e autoridade o que afirmou de ter injusta e tiranicamente aquelas pessoas oprimidas e fatiga das, tomando a repetir sua ciência, que tivessem como certo não poderem se salvar naquele estado; por isso se remediassem com o tempo, fazendo-os saber que a nenhum deles confessariam, mais do que aos que andavam assaltando, e que comunicassem aquilo e escrevessem a quem quisessem para Castela; em tudo isso tinham certeza que serviam a Deus e não pequeno serviço faziam ao Rei. Acabado o sermão, foi para sua casa, e todo o povo na igreja ficou alvoroçado, grunhindo e muito pior do que antes indignado contra os frades, considerando-se, da vã e iníqua esperança que tiveram de que o dito frade se retrataria, defraudados, como se o frade não se retratasse, a lei de Deus, contra a qual eles agiam oprimindo e extirpando estas pessoas, tivesse mudado. fonte impressa: LAS CASAS, Bartolomé de. Historia de las Indias (1559). Madrid, 1875/1876 , liv. 3, cap. 4 e 5. SUESS, Paulo (org.). A Conquista Espiritual da América Espanhola. 200 documentos – Século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 407 – 411.”

https://www.youtube.com/watch?v=EpM6FjQGylg

EM MEMÓRIA DE ANTONIO MONTESINOS

EM DEFESA DAS VÍTIMAS DA COLÔNIA

Por Alder Júlio Ferreira Calado

Quem me inspira esta data aniversária

Que incide também no Advento?

De memória fazer segue o intento

De quem foi convertido em mero pária

Das figuras dantescas, sanguinárias

A pilhar as riquezas dessas gentes

Reduzindo a escravas cruelmente

E em nome do deus dos Espanhóis

Através de estratégia a mais feroz

Implantando o terror em corpo e mente

Faz quarenta mil anos – até mais

Que nativos habitam o continente

Aí vivendo em paz harmonicamente

E quinhentos também, da invasão faz

De europeus que de ouro, vêm atrás

Seu legado, porém, é homicida

Escravizam os nativos, lhes tiram a vida

Do que diz o Evangelho, faz o contrário

O seu crime é horrendo, faz um calvário

Espalharam o mal, são ecocidas.

Foi no quarto Domingo do Advento

Na República atual Dominicana

Que episódio exemplar daí emana

Mil e quinhentos e onze não é isento

Da homilia profética – um monumento

Proferida por Antonio de Montesinos

Dominicano valente, profeta fino

Acusando homicidas da elite

Desumanos cristãos não admite

Muito longe ecoou aquele sino…

Nestas terras, nas águas, nas florestas

Nossas gentes viviam o “bem-viver”

Sem no ouro ou na prata os olhos ter

O seu modo de viver bem o atesta

Muito antes da saga indigesta

A feliz relação com o Ambiente

Com ele agindo, de modo permanente

A cultura, a fé nos ancestrais

Nos faziam viver clima de paz

Tudo altera, a invasão dos inclementes…

Vindo em busca de riquezas, ouro e prata

Espanhóis desbravando o Oceano

E em La Española, chegam insanos

Abordando os nativos – forma, ingrata

Esta gente invasora, então, destrata

“Requerimiento” lê pra eles, em Latim

A invasão colonial se deu assim

Documento dizia do Rei a Terra

As riquezas também ele encerra

Os nativos tiveram triste fim

Diz o rei, “Doravante”, tudo isto é meu

Doravante, povos, terras, são colonos

É lei minha, esta lei não abandono

E os Índios tornando escravos seus

Adorando, inclusive, o mesmo deus

Todo o mundo servindo, submisso

Isto é meu e eu firmo um compromisso

Mas, os povos indígenas dizem não

Resistindo, o tempo todo lutarão

Até hoje, Índio enfrenta tudo isso.

Caravelas, canhões, armas letais

Militares, na praia, desembarcando

Atendendo às ordens do comando

Dos nativos se apossam mais e mais

E roubando, de vez, a sua paz

Em atitude de guerra, invadem tudo

Os nativos, porém, não ficam mudos

Como podem, resistem, São contidos

Preferindo ao seu Deus prestar ouvidos

Seu projeto tinha este conteúdo

E se pondo no púlpito, assim diz:

Ó, vós todos, ouvi-me atentamente

Coisa igual nunca ouvistes precedente

O que vós praticais, neste país

Contra as gentes daqui vos insurgis?

Vós tratais essas gentes como escravos

Espancais, explorais, seus jovens bravos

Às piores condições os reduzis

Tudo em nome do ouro, dos rubis

E de fome os matais, sem desagravo

João Pessoa, 17 de dezembro de 2021.

Traços da Mãe África: em busca de nossas raízes (IX)

No vasto e multifacetado universo literário africano, que, em artigos precedentes, mal começamos a aflorar, perguntamo-nos, agora, qual vem sendo o lugar ocupado pelas mulheres escritoras? O que para elas tem significado fazer literatura no feminino? Qual é o perfil dessas escritoras? Como vêm accedendo a um universo tão marcado – não só na África, aliás – pela ampla hegemonia masculina? O que vêm tematizando em seus romances, em seus contos, em suas peças teatrais, em breve, em seus escritos? Mesmo sabendo dos limites – inclusive de espaço -, ousamos ensaiar alguns passos na direção dessas questões.

Partimos de uma constatação: também em solo africano, vem sendo cada vez maior a participação das mulheres como autoras de títulos literários. Basta que se recorra a alguns mecanismos de busca na internet, e logo aparece uma série de sites, em Inglês, em Francês, em Espanhol, em Italiano, em Português, contendo listas de nomes de escritoras dos mais distintos países da África. Sites que não se limitam a listar nomes. Também fornecem dados biográficos, seus principais livros, páginas antológicas, comentários e críticas sobre vários deles. Entre outros, consultamos, por exemplo: http://www.arts.uwa.edu.au/AFLIT/FEMEChomeEN.html  Aparecem às dezenas, e por país.

Fato deveras auspicioso, em que pese ainda persistir o desequilíbrio de gênero. Parece um fenômeno cuja evolução vem se firmando, sobretudo, a partir das últimas décadas. Elementos do perfil dessas autoras o confirmam. Por exemplo, sua faixa etária. Embora encontremos autoras nascidas nos anos 30 e 40, uma parte significativa é formada por jovens escritoras, nascidas nos anos 60 e 70. São procedentes de diferentes países. Trazem em comum, em grande parte, o fato de terem tido que migrar para as ex(?)-metrópoles para assegurarem o prosseguimento de seus estudos universitários. Fato que tem conseqüências significativas, em sua trajetória existencial e de escritoras.

Se, por um lado, dificilmente obteriam êxito garantido, caso tivessem permanecido em seus respectivos países – embora isso possa ter acontecido a algumas -, por outro lado, não se deve desconsiderar o preço que têm de pagar por tal migração. Autores como Agostinho Neto já levantavam essa preocupação. O problema dos condicionamentos ideológicos a que, não raro, terminam cedendo. O seu êxito também vai depender da forma como tais escritoras se inserem no universo de valores ocidentais. Vale, porém, lembrar, da parte de várias escritoras, sua capacidade de resistência à sedução metropolitana, e de se manterem fiéis aos bons valores de sua Gente.

Ao focarmos aleatoriamente, por exemplo, trajetórias de escritoras como Mouna-Hodan AHMED, Mariam ABDOU, Gisèle HOUNTONDJI, podemos ter um recorte, ainda que simbólico, desses desafios. AHMED nasceu em Djibouti, em 1972. Concluídos o primário e o ensino médio, parte para a França, a fim de fazer curso superior. Seu principal romance Les Enfants du khat tematiza a situação das crianças envolvidas com a planta “khat”, um vegetal alucinógeno considerado referência de uma droga leve. Atualmente, leciona Francês num liceu de Djibouti, e dedica-se a escrever, pois afirma que “Eu escrevo para ser melhor com os outros.” ABDOU, por sua vez, nasceu em Madagascar, no final dos anos 70, aos sete anos, teve que migrar para a França, onde presta vestibular (o “Bac”, como lá se diz) para o Curso de Teatro, e, por meio de seus contatos com Benjamin Jules-Rosette, fundador do “Teatro Negro”, vai se firmando nos recitais e em montagem de peças de dramaturgia tematizando o cotidiano dos Negros, em peças  também apresentadas por atrizes e atores Negros.

De sua parte, Gisèle HOUNTONDJI, nascida no Benin, em 1954, apresenta um percurso semelhante. Após fazer curso primário e médio em sua terra natal, segue, também ela, para a França, para fazer um curso superior, enfrentando um leque de desafios, inclusive o racismo. Conseguiu viajar por vários países, na África (especialmente pelos países limítrofes ao Benin) , na Europa e na América do Norte. Considera-se uma “cidadã do mundo”. Sua principal obra é o romance intitulado Une Citronnelle dans la neige. No site acima mencionado, encontra-se disponibilizado um breve e instigante conto seu, intitulado Daniel. De volta à terra natal, a autora atua como intérprete de conferência.

Ao buscarmos fazer uma leitura crítica desses e doutros escritos, um instrumental valioso a não se dispensar é o recurso a áreas como a Sociologia, a História, ä Antropologia, além da Lingüística, dadas as interfaces como cada autora constrói as tramas de suas obras literárias. Voltaremos ao assunto, na próxima edição de ABIBIMAN.

 

João Pessoa, 23 de Maio de 2009.