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Poesia é o lugar da vida

É o que somos e o que é

É o que será e sempre foi

É o que permanece e amanhece

É o que nos sustenta em todo tempo

E o que nos alimenta enquanto é tempo

E o que nos orienta a toda hora

O que nos chama na aurora

Mais além de rimas

É a rima que nos arrima

O rio que nos leva ao mar

O mar que nos acolhe

O sol que nos ilumina

A esperança que floresce

A primavera que permanece

A flor que sou e és e é tudo que existe e é belo

A unidade por trás da diversidade

A pluralidade que nos espelha

É ela que nos acompanha

E o pai que foi e é amigo

O amigo que nos aceita como somos

As crianças que trazem a vida de volta

Montanha e mar

Tudo isto e mais

Na exata medida de todas as coisas

É o que é poesia.

Janelas da alma

Escreveria, como tantas vezes, escreveria. Deixaria que as vozes, os sentimentos, as memórias, a vida, em uma palavra, a vida vivida, viessem lhe dizer coisas. Para que a vida não passe em branco.

Ao escrevermos, tomamos conhecimento do que sentimos, das nossas experiências, a nossa percepção, a realidade. É um exercício muito fácil. É como desenhar.

Basta levar uma caderneta, umas folhas, um caderninho, até um celular, e pronto. Em qualquer lugar onde você estiver, pode fazer um desenho, um rascunho, uma anotação.

Trazer o mundo mais para si, e partilhar. Guardar uma imagem bonita, que lhe chamou a atenção. Uma paisagem, árvores ou flores, a vista do mar, a rua em frente à sua casa. Trata-se de criar, trazer o mundo para nós, fazê-lo nosso. A arte permite isto.

Ler é também uma atividade criativa, você se adentra no mundo do livro que está nas suas mãos. Amplia os seus horizontes, conhece outros lugares e situações.

No espetáculo de ontem do Brasil Esperança, foi possível perceber os alcances maravilhosos do afazer artístico. Sentimentos costuram, constroem unidade, saram das feridas da vida.

Canções, músicas, poesia, dança. Janelas da alma. A pessoa que não cria, não se torna propriamente humana. Viramos gente a partir do momento em que traçamos um caminho em direção ao nosso próprio ser.

Tornamo-nos a pessoa que somos, mediante a atividade construtiva de cada dia, costurada e encadernada pela consciência, o sentimento e a reflexão. Desta forma a vida torna-se nossa. E não há ameaças nem medo que possam nos destruir. Porque a arte nos adentra e nos unifica com o eterno. É o mais fácil dos caminhos que conduzem a Deus.

Da trabalho, mas o resultado é certo. Você poderá tentar várias vezes, mas afinal vai conseguir. E a recompensa é uma sensação de paz, sossego e contentamento, que são difíceis de explicar. Aliás, sentimentos não se explicam, se desfrutam.

Vamos atrás do que nos dá prazer, nos faz sentir bem, nos alegra, nos plenifica!

O que a memória ama, fica eterno

Por Adélia Prado

Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí: quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, àquela época…

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos… mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Prá eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite… ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve, daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

Fonte: União Farmacêutica de São Paulo