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Em um livro, o Papa e a alegria

Por Eugenio Bonanata e Giovanni Orsenigo

Em quase dez anos de pontificado, Francisco falou várias vezes sobre a alegria e agora será lançado o livro “La gioia” (A Alegria) que reúne vários pensamentos seus sobre o assunto. A introdução é de Mons. Dario Edoardo Viganò, que explica o significado desta atitude para os cristãos: “Não simples otimismo, mas sim a capacidade de olhar a história através do olhar de Deus”

“A alegria dos fiéis não é ingenuidade ou incapacidade de ver os problemas da história”. Mons. Dario Edoardo Viganò, vice-chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e das Ciências Sociais, ilustra assim o livro intitulado “A Alegria”, no qual escreveu a introdução. Um texto desejado pelo Papa, que reúne textos nos quais falou sobre este tema – extraído de encíclicas, homilias, discursos e mensagens – com o objetivo de dar ao leitor a oportunidade de embarcar no seu próprio caminho pessoal. “Não é um livro que se lê da primeira à última página, mas pode ser lido de forma desordenada”, explica Viganò. Na verdade, continua, “são textos que, especialmente neste momento de palavras gritadas, notícias terríveis e mortes, permitem alargar o coração, erguer o olhar e reapropriar-se da experiência de ser cristão”.

A alegria do vinho

“A Igreja é uma experiência de povo que vive a alegria”, esclarece o religioso, convidando-nos a refletir sobre a experiência das Bodas de Caná. A história do primeiro milagre de Jesus tem como ponto central o casamento, no qual, entretanto, falta um elemento importante, o vinho, que é um sinal de alegria. “Os jarros de purificação estão vazios”, sublinha o Viganò. E este é o símbolo de uma relação de amor agora consumada entre Deus e seu povo. Nem mesmo a lei e a purificação podem restaurar a paixão dessa relação. “É por isso que Jesus não está presente, mas é convidado”, continua. “De fato, é Cristo quem traz o vinho novo, sancionando assim uma aliança nova, eterna, última e definitiva”. Uma aliança que nasce neste primeiro grande milagre do vinho, ou seja, da alegria. É por isso que para Viganò “a Igreja é um povo de homens e mulheres que não vivem sob a Lei, mas que vivem na alegria de serem filhos e filhas de Deus”.

A alegria de viver do jeito de Deus

O dom do batismo nos permite receber a vida de Deus, tornando-nos assim filhos no seu filho Jesus. E isto nos torna capazes de viver as relações, em relação ao mundo ou a criação, no modo do Senhor. “Portanto a prioridade”, afirma, “não é o eu, mas sobretudo o outro, assim como é para Deus, cuja prioridade sempre foi o filho”. Ao contrário do que acontece com o ladrão crucificado no Calvário, que naquela ocasião diz a Jesus: ‘Se és realmente o Filho de Deus, salva-te a ti mesmo, e depois me salve também’. “Se não se vive a filiação em Deus”, continua Viganò, “os relacionamentos só serão instrumentais e funcionais, enquanto viver a alegria significa sentir a urgência de viver no modo de Deus”.

A estrutura narrativa

Para facilitar a leitura, o livro foi dividido em três áreas temáticas, ou melhor, em ‘três percursos de aproximação à alegria’, que são delineados a partir de três verbos: ‘ser’, ou seja, a identificação da alegria entendida como uma atitude pessoal e espiritual; ‘compartilhar’, que é a alegria no compromisso e na amizade social; ‘testemunhar’, que é a alegria de viver no modo de Deus. “Ler este livro”, assinala ainda, “é como caminhar nas páginas, da mesma forma que os discípulos de Emaús”. Nesta passagem do Evangelho, os discípulos só reconhecem Jesus ao partir o pão, mas se perguntam: ‘Será que ele não chega ao nosso coração enquanto conversa conosco?’ “O Espírito Santo”, conclui, “prepara o homem e a mulher para reconhecer o Senhor no ato de compartilhar o pão, mas ele trabalha antes disso, também quando estamos caminhando com uma pessoa que é desconhecida”.

Fonte: Vatican News

Um percuciente panorama do legado marxiano

UM PERCUCIENTE PANORAMA DO LEGADO MARXIANO: considerações esparsas sobre o livro de José Paulo Netto “Karl Marx, uma biografia”. São Paulo: Boitempo, 2020” *

José Paulo Netto compõe um seleto grupo de pesquisadores de excelência, no complexo e vasto universo do Marxismo. Já há algumas décadas, ele vem contribuindo, com sucessivas pesquisas, neste campo ao qual tem aportado reconhecida contribuição científica. Mais recentemente, ele nos brinda com uma densa biografia sobre Karl Marx, sempre empenhado em rigorosa investigação biobibliográfica do filósofo da Práxis.

Duzentos e quatro anos após seu nascimento e cento e trinta e nove anos após seu encantamento, Karl Marx (1818 – 1883) continua amado e seguido pelos “de baixo”, ao mesmo tempo em que execrado pelos “de cima”…

Por incontáveis razões, chama a atenção o atribulado percurso existencial de Marx. Uma delas tem a ver com a crescente fúria que despertou – e ainda desperta! – nos setores dominantes e dirigentes de ontem quanto de hoje. Tratam-no como um profeta proscrito, ainda que pouco lido, até hoje. Com efeito, a despeito do trabalho hercúleo de seus escritos, o certo é que, quase um século passado desde a concepção e início do grande movimento pela publicação completa de seus escritos (e de Engels) – cadernos, manuscritos, livros, notas, artigos e vasta correspondência – iniciativa que se conhece pela sigla MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe): Edições completas de Marx e Engels. O Projeto comporta 114 volumes, dos quais até aqui publicados 65, menos de 2/3… Ainda há, por certo, muito a se conhecer do legado de Marx.

A propósito ainda de MEGA, cumpre lembrar que este grande projeto se vem cumprindo em duas fases: o MEGA I, que se cumpriu entre 1924 e 1938, do qual foram publicados 39 volumes, e o MEGA II iniciado em 1954, estendendo-se ao presente. Importa igualmente assinalar que, no período entre o MEGA I  e o MEGA II, foi realizado o MEW (Marx-Engels Werke) por meio de uma parceria entre organismos marxistas, russo e alemão, projeto do qual resultaram publicadas algumas dezenas de volumes, em alemão.

Há que se reconhecer, por outro lado, que mesmo sem se haver lido esta parte, do que de Marx já se deveria conhecer, da outra parte que dele se sabe, ainda resta amplamente ignorado, seja por seus inimigos, seja por parte expressiva dos militantes da Classe Trabalhadora.

Também neste sentido, revela-se de grande importância e atualidade, a iniciativa do Prof. José Paulo Netto. Com efeito, desde a biografia preciosa por Franz Mehring, sobre Marx, em 1918, (cuja tradução no Brasil se fez somente em 2013), seguida por vários outros biógrafos e biógrafos, podemos constatar tratar-se de um trabalho investigativo de excelência, inclusive por oferecer relevantes esclarecimentos acerca dos últimos anos vividos por Karl Marx.

Aspectos da biografia que reputo mais tocantes

Começamos por ressaltar a qualidade investigativa e estética do trabalho. As fontes de que se valeu, destacam-se pela sua eminente qualidade, bem como respeitável quantidade dos títulos consultados, trazendo ainda uma notável diversidade temática e de posições políticas. Agrega-se a tais marcas a qualidade estética de sua exposição.

Ao largo de mais de oitocentas páginas, bem distribuídas em densos oito capítulos, José Paulo Netto, nos traz à tona uma extensa e complexa gama de elementos significativos do curso existencial de Marx, de modo a enfatizar – como se costuma esperar de um autor de excelência – o percurso intelectual do biografado.

Marx nasceu em Trier (Alemanha), em 5 de maio de 1818, de uma família judia, cujo pai, para exercer a profissão de advogado, precisou converter-se – com a família – ao cristianismo de confissão luterana. Desde cedo, o jovem Karl se mostrou um estudante aplicado, ainda antes de ingressar na Universidade, onde cursou os primeiros anos de Direito, logo migrando para o curso de filosofia, aí também se associando ao grupo de jovens hegelianos de esquerda. Hegel, a quem Marx não conheceu em vida (Hegel falece em 1831, quando Marx tinha apenas 13 anos), constituía  a referência maior no campo das ideias, na Alemanha, razão por que exerceu poderosa influência também sobre os jovens universitários daquela época.

Foi igualmente em Filosofia que Marx obteve seu Doutorado, em 1841, tendo elaborado sua tese acerca da diferença entre os sistemas filosóficos de Demócrito e Epicuro. Pouco tempo depois, enamora-se e casa com a jovem Jenny Von Westphalen, de ascendência aristocrática. União da qual resultaram suas filhas e seus filhos: Jenny Caroline, Jenny Laura, Edgar, Henry Edward Guy (“Guido”), Jenny Eveline Frances (“Franziska”), Jenny Julia Eleanor, enquanto o sétimo faleceu em 1857, tendo vivido condições precárias, em razão da opção política de Marx, de entregar-se avidamente à tarefa de desvendar os labirintos do Capital. Também, atribui-se a Marx a paternidade de Frederick, fruto de uma relação com Helena Demuth.

Ainda sob a influência Hegeliana, mas dela já tomando certa distância, Marx empenha-se, por volta de 1843, em esboçar uma primeira crítica à Filosofia do Direito de Hegel, partindo de sua perspectiva religiosa de mundo. Desenvolve sua famosa “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, na qual cuida de argumentar que é o ser humano, e não a Religião, que deve assumir a centralidade do processo de emancipação humana. Isto implica a defesa de que é o ser humano que cria a religião, e não o contrário, como propugna Hegel. Para Marx, a religião expressa, para os oprimidos, “o coração de um mundo sem coração”, o protesto contra este mundo, à medida que os oprimidos recorrem a religião como um alívio, como um suspiro, como um ópio, diante das cruéis desventuras de um mundo sem coração.

Mais adiante, ainda de meados de 1840, datam seus famosos manuscritos dos quais ganham especial relevo os “manuscritos econômico-filosóficos”, de 1844, nos quais Marx esboça, com precose acuidade (era um jovem de 26 anos), uma percuciente análise da condição humana, tal como vivenciada sob o sistema burguês. Entre tantos pontos a merecerem destaque, limitamo-nos a sublinhar seu sentimento de indignação diante da crueldade capitalista, que impede os trabalhadores, de desenvolverem suas potencialidades, de se desenvolverem como seres humanos em sua plenitude, sendo tantas vezes impedidos de fruirem a contemplação estética de um quadro ou de desenvolverem seus talentos artísticos.

A partir de 1844, firma-se uma sólida parceria com seu amigo Engels – “parceiro de vida” – com quem passa a produzir relevantes textos, a exemplo de “A ideologia alemã”, “a sagrada família” e o próprio “Manifesto comunista”, de 1847/1848, entre outros.

Trata-se, como se percebe, de um jovem profundamente inquieto e comprometido com o trabalho ininterrupto de investigação. No livro “A ideologia Alemã” Marx e Engels empenham-se em analisar criticamente a filosofia alemã, a partir de um exame judicioso dos elementos ideológicos contidos na filosofia Hegeliana. Importa, por outro lado, observar o constante aprimoramento que Marx vai desenvolver, em seus escritos posteriores, acerca de Ideologia, inclusive em “O Capital”. Este “detalhe” é, inclusive, percebido e levado em conta por Marxistas contemporâneos, a exemplo de Ludovico Silva, filósofo Venezuelano que, ao examinar a obra de Marx, em especial seu conceito de “mais-valia”, descobre nela existente uma nova dimensão: a “mais-valia ideológica”; e de István Mészáros, especialmente em sua obra “O Poder da Ideologia” (São Paulo, Boitempo, 2004, ainda que o livro tenha aparecido em 1995) em que Mészáros, com base em Marx, assume o conceito de Ideologia, para além de sua componente de falsa consciência, como uma manifestação específica de consciência social, completamente a serviço dos valores do Capital.

Importa, igualmente, observar que foi também neste mesmo período da publicação de elaboração de “A Ideologia Alemã” que Marx dirige a Feuerbach as famosas Onze Teses, das quais nos permitimos destacar três:. a Tese 2 defende que a verdade não se demonstra por discurso, mas pela prática; a tese 3 sustenta que os seres humanos não são meros produtos das circunstâncias, mas também eles são capazes de mudar as circunstâncias, para o que os educadores também devem ser (re)educados; e quanto a Tese 11, sublinha um traço fundamental da filosofia da Práxis: não basta entender o mundo, de formas diferentes: urge transformá-lo.

A tese 11, também implícita na metáfora da Coruja de Minerva, exposta por Hegel como símbolo da sabedoria, que alça voo a tarde, emblema do poder de interpretação da realidade por um lado, e por outro Marx exalta o galo gaulês por anunciar, o seu canto na madrugada, despertando os viventes para a construção de um novo amanhecer para a humanidade.

Exercitando uma de suas marcas de analista de excelência, José Paulo Netto nos brinda com largos trechos de análises rigorosas do contexto histórico, característica da produção de Marx. Ele o faz, com talento e rigor, sempre que apresenta uma nova obra de Marx, tendo sempre o cuidado de apontar os fatores determinantes que influenciaram a análise de Marx através de sua vasta obra. Não apenas no que diz respeito ao chamado “jovem Marx” – cujas obras principais foram acima mencionadas -, mas igualmente no tocante às suas obras posteriores, as do Marx maduro,  distinção, aliás, que ele reconhece, contrapondo-se, porém, a qualquer tentativa de separação entre o jovem Marx e o Marx maduro.

Após meados de 1840, a produção de Marx vai alcançando notáveis traços de amadurecimento crítico. Já na elaboração, em parceria com Engels, do “Manifesto Comunista” de 1847/48, podemos observar uma densa leitura de natureza histórica de modo, a obter uma síntese genial do espectro amplo e profundo, sublinhando sua compreensão fundamental de como a História se apresenta, em sua essência, como uma sucessão de antagonismos de classes sociais.

É também nas páginas deste Manifesto, no qual Marx e Engels, em nome do principais representantes dos relevantes coletivos de Trabalhadores, em âmbito internacional, propunham seu Programa de lutas, do qual se destacam 10 pontos, dos quais a abolição da propriedade privada dos meios de produção.

Não obstante o respeito que Marx tinha pela figura de Proudhon, principal representante do Socialismo Utópico, que gozava de grande prestígio de vários Segmentos de Trabalhadores. Marx fazia questão de externar suas críticas contundentes as teses de Proudhon. Isto se deu, por exemplo, em resposta ao livro “Filosofia da Miséria”, ao qual Marx retrucar com o livro “Miséria da filosofia”.

Foi, contudo, nos anos de 1850, que a produção marxiana começa a apresentar um grau mais apurado em suas pesquisas, demonstrando novo estado de apuração e amadurecimento crítico. Tal apuração se dá, em grau maior, à medida que ele retoma em novo estilo, o conceito de “Economia Política” que herdara de Engels, havia mais de uma Década, quando do seu encontro com Engels, em Paris, ocasião em que passam a firmar uma “parceira” de vida.

Enquanto isso, na França, agravavam-se cada vez mais os fatores de explosão social, em razão das condições e crescentes desigualdades impostas pela classe dominante ao conjunto dos trabalhadores, de modo a eclodir o crescente confronto de classes – situação que Marx analisa cuidadosamente, em vários textos posteriormente publicados do livro “As Lutas de Classes na França de 1848 a 1850”.

Já não mais contando com a “A Gazeta Renana”, onde publicara relevantes textos analíticos e críticos, tal como também o fizera nos “Anais Franco-Alemães”, Marx doravante cuida de rastrear mais sistematicamente, os fundamentos da Economia Política, recorrendo aos economistas clássicos ingleses, em especial a Adam Smith e David Ricardo, onde vai encontrar uma preciosa fonte para sua compreensão objetiva do metabolismo do Capital, a partir do profundo desmascaramento que vai realizar dos mecanismos mais sórdidos de exploração da Classe Trabalhadora, hipocritamente escondidos pelos teóricos burgueses.

Cumpre, ainda neste período, ressaltar a qualidade científica da produção marxiana, atestada, por exemplo, na elaboração, em 1852, do seu famoso “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, do qual, entre outros elementos, vale sublinhar a passagem em que sustenta que “Os homens fazem sua própria história mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

Dando sequência ao seu frenético ritmo de pesquisa, enfrentando as mais duras adversidades de sobrevivência, sua e de sua família, Marx segue apurando a qualidade de suas análises, dedicando-se especialmente a questão do método, sobretudo a partir de meados de 1850, como se verifica, por exemplo, em seu célebre prefácio de 1859, prefácio ao seu livro “contribuição à crítica da Economia Política”.

De todo este intenso labor grávido de “inventividade revolucionária” (expressão cara a Adolfo Sanchez-Vasquez, em seu “Filosofia da Práxis”), culminando em sua obra-prima “O Capital”, em quatro livros, dos quais o 4º não veio a público, tendo sido o Livro 1 publicado em 1867. O “Grundrisse” (esboços) constituem um volumoso conjunto de escritos, registros, análises, estudos, resumos, observações, não obstante sua publicação, se tenha verificado décadas após a morte de Marx, compõem um conjunto de cadernos elaborados em 3 períodos: os primeiros registros correspondem ao período de 1857 a 1859; o segundo período corresponde aos escritos elaborados entre 1861 a 1863; enquanto o último conjunto de escritos relativos aos Grundrisse se refere ao período de 1865 a 1867.

Os “Grundrisse” representam para Marx um verdadeiro laboratório, abrigando, em detalhes, extratos de livros, jornais e documentos, anotações críticas e até breves textos analíticos feitos por Marx, ainda que sem caráter conclusivo. Ou seja: dos Grundrisse Marx fez seu laboratório investigativo, espécie de longos rascunhos não destinados à publicação, uma vez que representam apenas seu método de investigação, algo bem distinto do seu método de exposição, este sim, destinado a publicação, uma vez que seus textos publicados assumiam uma forma mais elaborada, inclusive esteticamente exposta, mais sistematizada e devidamente aprimorado, como se observa no Livro I de “O Capital”.

Outro aspecto que Marx contrapunha às teses hegelianas de sua filosofia do direito, tinha a ver com a defesa idealista que Hegel faz do Estado, por ele considerá-lo uma espécie de tutor da sociedade civil, apto a dirimir os conflitos e antagonismos presentes na sociedade civil e apto a iluminar os caminhos de justiça e prosperidade. Ao contrário dessa posição Hegeliana, Marx sustentava que ao espelhar as contradições e antagonismos da sociedade, fazia prevalecer os interesses dos setores dominantes. Neste texto, Marx, com seus 26 anos, ainda não falava nas classes sociais antagônicas aí predominantes, limitando-se a tratá-las como “estamentos”. Ainda quanto aos manuscritos econômicos filosóficos, devemos salientar a presença já então de um texto de economia política, embora ainda vazado predominantemente de uma abordagem filosófica.

Nos “Grundrisse”, por conseguinte, se acha ainda que menos desenvolvido, conceitos chaves que vão aparecer de modo mais preciso e mais completo em O Capital. Assim se dá em relação a conceitos, tais como “mercadoria”, “dinheiro”, “valor”, “Mais-Valia”, “fetiche”, entre outros. Um outro traço digno de nota no percurso existencial de Marx, tem a ver com sua postura de revolucionário,  ao mesmo tempo em que se sentia profundamente empenhado do relevante labor investigativo, se sentia constantemente a acompanhar todo aquele cenário de ebulição crescente das lutas sociais, tendo inclusive que intervir em debates e encontros com vários segmentos de dirigentes e operários, tal como despendeu enorme tempo e energia para acompanhar de perto os fatos e acontecimentos protagonizados pela inspiradora e rica experiência revolucionária da Comuna de Paris em seus feitos épicos de 1871, sobre a qual dedicou uma percuciente análise – “A Guerra Civil na França”.

Mais adiante, já após a publicação do Livro I de “O Capital”, que teve uma progressiva divulgação, para além da Alemanha, é curioso notar-se que até em uma Itália grandemente influenciada pelas ideias de Bakunin, Marx também passaria a suscitar grande interesse, haja vista a iniciativa proposta por Carlo Cafiero, e aceita por Marx, de elaborar um resumo do Capital, intitulando-o “O Compêndio de ‘O Capital”.

A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) fundada em 1864, por um conjunto de diferentes correntes políticas, dentre os quais militantes marxistas, militantes anarquistas, constitui uma fecunda experiência de cooperação entre revolucionários marxistas e revolucionários anarquistas, cujo ápice se deu por ocasião da primeira revolução proletária, a Comuna de Paris. Em seu livro “Afinidades revolucionárias: nossas estrelas vermelhas e negras. Por uma solidariedade entre marxistas e libertários”, Michel Lovy apresenta uma série de episódios marcantes, de modo a salientar de forma convincente diversos exemplos concretos da cooperação efetiva entre revolucionários anarquistas e marxistas. Tanto neste livro, quanto em sua conferência proferida, no Rio de Janeiro, a propósito das comemorações dos 150 anos da fundação da AIT (cf. https://www.youtube.com/watch?v=ILzsOctQt9s&t=2559s), ele faz questão de mencionar vários episódios, inclusive na primeira metade do século passado, a exemplo da Guerra Espanhola e da resistência ao Nazismo na França.  Ainda a propósito deste fecundo período de parceria entre Marx e Engels, se tem a gerar um impacto positivo sobre Marx, além da leitura do texto intitulado “Esboço da crítica da economia política” Engels tinha então seus 24 anos. O texto que Engels repassara a Marx “A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”. Importa com efeito salientar o extraordinário aprendizado de Marx, a partir desta leitura, o que nos permite reconhecer, que ele, não tendo nascido marxista nem comunista, aprendeu a tornar-se assim com Engels. Nessa toada de tantos episódios de dissensos e entrechoques, mas também de convergências e cooperação entre marxistas e anarquistas, nunca é demais lembrar da Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual também faziam parte revolucionários marxistas e anarquistas.

Em 1864, Marx foi convidado a redigir as teses básicas defendidas pela AIT, relevante documento em que se pode ler: “a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra dos próprios trabalhadores”.

Por outro lado, como já prenunciado no Manifesto do Partido Comunista (1847-1848) o sucesso do movimento operário só seria assegurado contando com o protagonismo de um Partido operário capaz de encarnar e assumir processo organizativo e formativo, e de lutas da classe trabalhadora, tanto no âmbito nacional, quanto em escala internacional. Daí a decisão de se fundar o Partido Operário Alemão, que teve como principal liderança a figura polêmica de Ferdinand Lassalle, que defendia a bizarra tese de um “Volkstaat” (Estado Popular).

Dada a conhecida rivalidade entre revolucionários marxistas e anarquistas, aquele episódio de fazer constar em um programa de um Partido Comunista a defesa do Estado (Estado Popular) foi bastante explorado por Bakunin atribuindo a Marx a suposta paternidade daquela expressão. Diante disto, tanto Marx quanto Engels se mostraram  profundamente queixosos contra Lassalle por receberem tal acusação de Bakunin, até porque é conhecida a posição crítica de Marx frente ao Estado. Em consequência dessa polêmica, o Partido Operário Alemão foi obrigado a corrigir seu equívoco programado.

Em consequência deste mal entendido de que foram vítimas Marx e Engels importa lembrar a sua posição autêntica constante da retificação redigida por Marx na famosa “Crítica ao Programa de Gotha”, que dentre outros pontos sustenta a necessidade história do fenecimento do Estado, como condição da perspectiva comunista de abolição das classes sociais.

Parte significativa da elaboração bio-bliográfica de Marx feita por José Paulo Netto, se acha voltada para os últimos anos de Marx, mais precisamente de 1880 a 1883. Em seu trabalho, José Paulo Netto, com base em diversos autores, destaca diferentes atividades intelectuais protagonizadas por Marx, ainda que já experimentando precárias condições de saúde. A este respeito, a par de uma intensa correspondência travada com tantas figuras espalhadas pelo mundo, Marx desenvolve uma admirável curiosidade epistemológica de amplo espectro: da antropologia (aqui se destacando seu profundo interesse pelos escritos de Morgan), pela Matemática, pela Química (em função da Agricultura), pela biologia… foi também, na segunda metade dos anos 1880 (1884), igualmente influenciado pelos estudos antropológicos, que Engels escreve  “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, depois que publicou, em 1877 o polêmico “Anti-Dühring”, do qual consta o texto “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”.

Descontado compreensivelmente o arrefecimento do seu ritmo de trabalho durante seus últimos anos de vida. Marx seguiu trabalhando até a véspera de seu passamento (março de 1883). Além de sua valiosa incursão por novos campos de conhecimentos dedicou um tempo considerável a atender e a conversar com numerosas pessoas que o visitavam, visitas das mais diversas partes do mundo.

Digno ainda de notar durante esse período é seu especial interesse em empreender e interpretar as condições econômico-políticas vigentes na Rússia. Para o que não hesitou em estudar o Russo. Igualmente prova deste interesse é a correspondência mantida, em Francês, com uma figura de referência russa – Vera Zasulitch, sem deixar de lembrar ainda seu empenho em compreender como se dava a formação social de países como a Índia. Isto também representa seu compromisso internacionalista, para além do Ocidente.

 

Considerações Sinópticas

Uma das motivações fortes que experimentei ao rabiscar estas linhas foi a de estimular os leitores e leitoras a lerem o livro do Professor José Paulo Netto (a quem também sou grato por haver traduzido o livro de Enrique Dussel A produção teórica de Marx: um comentário aos Grundrisse, da Editora Expressão Popular, do qual tive a honra de receber um exemplar autografado quando da sua vinda à UFPB, em João Pessoa, em 2013. Em consequência, a fortiori, também me move o objetivo de incentivar os leitores e leitoras a beberem na fonte.

Enfatizamos a título de arremate a qualidade crítica e estética da bibliografia produzida pelo Prof. José Paulo Netto. lega-nos uma densa contribuição historiográfica de grande alcance para os nossos dias.

Quanto a Karl Marx, mais de duzentos anos após seu nascimento, seu legado segue se mostrando de enorme atualidade para o exitoso tratamento da barbárie capitalista; e, ao mesmo tempo, segue a interpelar a mulheres e homens de hoje, em especial, os jovens, a fazermos nossa parte, nesta gigantesca e processual empreitada de irmos construindo na perspectiva de Ernst Blöch (entre o “já” e o “ainda não”) um novo modo de produção, de consumo e de gestão societal, em harmonia com a Mãe-Terra e os Viventes.

 

João Pessoa, 05 de novembro de 2022.


*Texto resultante de gravação em áudio, degravado por Heloíse Calado Bandeira, Gabriel Luar Calado Bandeira, e Eliana Alda de Freitas Calado, a qual revisou o texto. Elizabeth de Pontes Santos leu em voz alta, para o autor destas linhas, o livro integral de José Paulo Netto. A todas, meu agradecimento.

O país verdadeiro

O que faz um país?

O trabalho, o estudo, a ciência, a cultura, a saúde

Nada disto é possível sem comida.

As pessoas precisam se alimentar, precisam se divertir, precisam confiar umas nas outras

Precisam querer viver e poder viver

Para não cairmos num discurso vazio, temos que dizer claramente que apoiamos o retorno do Brasil à normalidade democrática

As eleições de outubro acenam com esta possibilidade

Pode ser que optemos pelo fim do regime de exceção

O fim da delinquência política institucionalizada

O fim da plutocracia que é, como todas e todos sabem, o regime em que domina o dinheiro

Pode ser que tenhamos aprendido, depois destes anos todos de descaminho e inversão de valores, o valor de uma existência respeitosa

Um começar o dia com o canto dos pássaros e pássaras

A esperança que o sol nos traz

Antes de votar medite, escute a si mesma e a si mesmo

Escolha quem se parece com você

Quem embora nascido pobre, soube trabalhar para o país inteiro, sem exclusões

Temos a possibilidade de sair deste pesadelo

Precisamos voltar a ter orgulho do Brasil

Um país com tradições de acolhimento, trabalho fecundo e criativo

Educação libertadora

Livros para toda a gente, minha gente!

Os livros nos livram da idiotice, da imbecilidade, da estreiteza de miras

Um país se faz somando, colaborando para o bem comum, coexistindo com as diferenças

Podemos encerrar esta etapa sinistra em que fomos comandadas e comandados por alguém sem qualquer qualidade

Uma pessoa sem senso de humanidade.

Do outro lado, vemos voltar a se apresentar como alternativa, o maior estadista que já existiu no mundo

Lula enfrentou a fome, a perseguição política, a prisão injusta, a violência da imprensa venal, a calúnia e a difamação.

E não se dobrou, não se quebrou.

Pense bem.

O que você quer?

Lula livro

É um perigo! 
Sair de casa e se deparar com alguém lendo Guimarães Rosa. De repente, ao sair com seu companheiro ou companheira, ser surpreendido por alguém lendo Machado de Assis, em um café ou lanchonete.
E no piquenique, seu filho brincando ver, subitamente, alguém lendo Cecília Meireles.
E nas páginas policiais de um jornal, todos os dias, ler  um escrito de Jorge Amado, Vinícius de Morais e Carlos Drumond de Andrade.
Quem entra numa biblioteca não tem apreço pela ignorância. Está premeditando praticar um atentado contra o desconhecimento, uma emboscada à desinformação.
Fico imaginando um mundo com as facções disputando em rodas de leitura quem vai espalhar obras do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo e do Parnasianismo.
Fico pensando qual será minha reação se, andando despreocupadamente pela rua, alguém armado com um livro, disser: parado aí, isso é um poema! E me atingir com rimas de Cora Coralina.
E se no cruzamento, com o sinal fechado, alguém bater no vidro e, de livro em punho, anunciar um trecho de João Cabral de Melo Neto.
Já pensaram se em vez de violência contra a mulher os homens passarem a praticar leitura com as mulheres. Ou num ato mais tresloucado ainda, dedicar-lhes poesias.
Poesias são melhores do que rosas e flores, pois podem ter todos os cheiros, todas as cores e podem ser despetaladas com bem me quer e mais me quer e não murcham nunca.
Se todo cidadão tiver a autorização para portar um livro, inclusive fora de casa, ele estará seguro contra a idiotice, a burrice e a incompetência.
Faltou o apedeuta dizer que se ele não for reeleito ouviremos por aí, absurdos como “analfabeto bom é analfabeto letrado” ou, então, como “razão em cima de tudo, amor em cima de todos”.
Já que Lula está livre, a palavra de ordem agora é Lula livro.
(Autoria desconhecida)

Livros ou armas?

Livros são armas

Armas contra a burrice

Contra a imbecilidade

Contra a ignorância

Contra o abestalhamento

Livros são não apenas os livros

Livros são ler o mundo

Livro-me me lendo no mundo

Livro-me da manipulação

Livro-me da alienação

Aprendi a ler livros e contos

Poemas e histórias

Meu mundo se fez e se faz em livros

São as armas preferidas da luta contra a covardia e a canalhice.

Não seja carne de canhão!

Leia! Saiba de si!

Ande com um livro, não com uma arma

A recomendação é de Lula

Um livro irá lhe trazer paz

Conhecimento

Escolha boas leituras

Há incontáveis livros bons em todas as livrarias

Em todas as bibliotecas

Inclusive na Biblioteca Comunitária do Mar

Em Jacumã, no município do Conde, Paraíba.

Somente um burro ou uma burra podem incentivar a matança

E covardemente se esconder na imbecilidade.

Cultura a gente vê por aqui!