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Carta aberta ao presidente Lula da Silva

Por Boaventura de Sousa Santos*

O estado de graça é curto. Não dura sequer cem dias (vide Gabriel Boric no Chile). A política simbólica é fundamental nos primeiros tempos

Prezado amigo Presidente Lula da Silva,

Quando o visitei na prisão em 30 de agosto de 2018, vivi no pouco tempo que durou a visita um turbilhão de ideias e emoções que continuam hoje tão vivas quanto nesse dia. Pouco tempo antes tínhamos estado juntos no Fórum Social Mundial de Salvador da Bahia, conversando, na companhia de Jacques Wagner, na cobertura do hotel onde o Lula estava hospedado. Falávamos então da sua possível prisão. O Lula ainda tinha alguma esperança de que o sistema judicial suspendesse aquela vertigem persecutória que desabara sobre si. Eu, talvez por ser sociólogo do direito, estava convencido de que tal não aconteceria, mas não insisti. A certa altura, tive a sensação de que estávamos a pensar e a temer o mesmo. Pouco tempo depois, prendiam-no com a mesma indiferença arrogante e compulsiva com que o tinham tratado até então. Sérgio Moro, o lacaio dos EUA (é tarde demais para sermos ingénuos), tinha cumprido a primeira parte da missão. A segunda parte seria a de o manter preso e isolado até que fosse eleito o candidato que lhe daria a tribuna a ser utilizada por ele, Moro, para um dia chegar à presidência da república.

Quando entrei nas instalações da Polícia Federal senti um arrepio ao ler a placa onde se assinalava que o Presidente Lula da Silva tinha inaugurado aquelas instalações onze anos antes como parte do seu vasto programa de valorização da Polícia Federal e da investigação criminal. Um primeiro turbilhão de interrogações me assaltou. A placa permanecia ali por esquecimento? Por crueldade? Para mostrar que o feitiço se virara contra o feiticeiro? Que um presidente de boa-fé entregara o ouro ao bandido?

Fui acompanhado por um jovem polícia federal bem parecido que no caminho se vira para mim e diz: lemos muito os seus livros. Fico frio por dentro. Estarrecido. Se os meus livros fossem lidos e a mensagem entendida, nem Lula nem eu estaríamos ali. Balbuciei algo neste sentido e a resposta não se fez esperar: “cumprimos ordens”. De repente, o teórico nazi do direito Carl Schmitt irrompeu dentro de mim. Ser soberano é ter a prerrogativa de declarar que é legal o que não é, e de impor a sua vontade burocraticamente com a normalidade da obediência funcional e a consequente trivialização do terror do Estado.

Prezado Presidente Lula, foi assim que cheguei à sua cela e certamente nem suspeitou do turbilhão que ia dentro de mim. Ao vê-lo, acalmei-me. Estava finalmente na frente da dignidade em pessoa, e senti que a humanidade ainda não tinha desistido de ser aquilo a que o comum dos mortais aspira. Era tudo totalmente normal dentro da anormalidade totalitária que o encerrara ali. As janelas, os aparelhos de ginástica, os livros, a televisão. A nossa conversa foi tão normal quanto tudo o que nos rodeava, incluindo os seus advogados e a Gleisi Hoffmann, presidenta do Partido dos Trabalhadores. Falámos da situação da América Latina, da nova (velha) agressividade do império, do sistema judicial convertido em ersatz de golpes militares, das sondagens que o continuavam a destacar, do meu receio que a transferência de votos não fosse tão massiva quanto esperava. Era como se o imenso elefante branco naquela sala – a repugnante ilegalidade da sua prisão por motivos políticos nem sequer disfarçados – se transformasse em inefável leveza do ar para não perturbar a nossa conversa como se, em vez de estarmos ali, estivéssemos em qualquer lugar de sua escolha.

Quando a porta se fechou atrás de mim, o peso da vontade ilegal de um Estado refém de criminosos armados de manipulações jurídicas caiu de novo sobre mim. Amparei-me na revolta e na raiva e no desempenho bem-comportado que se espera de um intelectual público que à saída tem de fazer declarações à imprensa. Tudo fiz, mas o que verdadeiramente senti é que tinha deixado atrás de mim a liberdade e a dignidade do Brasil, aprisionadas para que o império e as elites ao seu serviço cumprissem os seus objetivos de garantir o acesso aos imensos recursos naturais do Brasil, a privatização da previdência e o alinhamento incondicional com a geopolítica da rivalidade com a China.

A serenidade e a dignidade com que o Lula enfrentou 582 dias de reclusão é a prova provada de que os impérios, sobretudo os decadentes, erram muitas vezes os cálculos, precisamente por só pensarem no curto prazo. A imensa solidariedade nacional e internacional, que fez de si o mais famoso preso político do mundo, mostraram que o povo brasileiro começava a acreditar que pelo menos parte do que fora destruído a curto prazo poderia ser reconstruído a médio e longo prazo. A sua prisão passou a ser o preço da credibilidade dessa convicção.

Prezado amigo Presidente Lula da Silva,

Escrevo-lhe hoje antes de tudo para o felicitar pela vitória nas eleições de 30 de outubro. É um feito extraordinário sem precedente na história da democracia. Costumo dizer que os sociólogos são bons a prever o passado, não o futuro, mas desta vez não me enganei. Nem por isso tenho maior certeza no que sinto necessidade de lhe dizer hoje. Como sei que não tem tempo para ler grandes elaborações analíticas, serei telegráfico. Tome estas considerações como expressão do que de melhor desejo para si pessoalmente e para o exercício do cargo que vai assumir.

1. Seria um erro grave pensar-se que com a sua eleição tudo voltou ao normal no Brasil. Primeiro, o normal anterior a Bolsonaro era para as populações mais vulneráveis algo muito precário ainda que o fosse menos do que é agora. Segundo, Bolsonaro infligiu um dano na sociedade brasileira difícil de reparar. Produziu um retrocesso civilizatório ao ter reacendido as brasas da violência típica de uma sociedade que foi sujeita ao colonialismo europeu: a idolatria da propriedade individual e a consequente exclusão social, o racismo, o sexismo, a privatização do Estado para que o primado do direito conviva com o primado da ilegalidade, e uma religião excludente desta vez sob a forma de evangelismo neopentecostal. A fratura colonial é reativada sob a forma da polarização amigo/inimigo, nós/eles, própria da extrema-direita. Com isto, Bolsonaro criou uma ruptura radical que torna muito difícil a mediação educativa e democrática. A recuperação levará anos.

2. Se a nota anterior aponta para o médio prazo, a verdade é que a sua presidência vai ser por agora dominada pelo curto prazo. Bolsonaro fez regressar a fome, quebrou financeiramente o Estado, desindustrializou o país, deixou morrer desnecessariamente centenas de milhares de vítimas da covid, propôs-se acabar com a Amazónia. O campo emergencial é aquele em que o Presidente se move melhor e em que estou certo mais êxito terá. Apenas duas cautelas. Vai certamente voltar às políticas que protagonizou com êxito, mas, atenção, as condições são agora muito diferentes e mais adversas. Por outro lado, tudo tem de ser feito sem esperar a gratidão política das classes sociais beneficiadas pelas medidas emergenciais. O modo impessoal de beneficiar, que é próprio do Estado, faz com que as pessoas vejam nos benefícios o seu mérito pessoal ou o seu direito e não o mérito ou a benevolência de quem os torna possível. Para mostrar que tais medidas não resultam nem de mérito pessoal nem da benevolência de doadores, mas são antes produto de alternativas políticas só há um caminho: a educação para a cidadania.

3. Um dos aspectos mais nefastos do retrocesso provocado por Bolsonaro é a ideologia anti-direitos capilarizada no tecido social, tendo como alvo os grupos sociais anteriormente marginalizados (pobres, negros, indígenas, Roma, LGBTQI+). Manter firme uma política de direitos sociais, económicos e culturais como garantia de dignidade ampliada numa sociedade muito desigual deve ser hoje o princípio básico dos governos democráticos.

4. O contexto internacional é dominado por três mega-ameaças: pandemias recorrentes, colapso ecológico, possível terceira guerra mundial. Qualquer destas ameaças é global, mas as soluções políticas continuam dominantemente limitadas à escala nacional. A diplomacia brasileira foi tradicionalmente exemplar na busca de articulações, quer de âmbito regional (cooperação latino-americana), quer de âmbito mundial (BRICS). Vivemos um tempo de interregno entre um mundo unipolar dominado pelos EUA que ainda não desapareceu totalmente e um mundo multipolar que ainda não nasceu plenamente. O interregno manifesta-se, por exemplo, na desaceleração da globalização e no regresso do protecionismo, na substituição parcial do livre comércio pelo comércio com parceiros amigos. Os Estados continuam todos formalmente independentes, mas só alguns são soberanos. E entre os últimos não se contam sequer os países da União Europeia. O Presidente Lula saiu do governo quando a China era o grande parceiro dos EUA e regressa quando a China é o grande rival dos EUA. O Presidente Lula foi sempre adepto do mundo multipolar e a China é hoje um parceiro incontornável do Brasil. Dada a crescente guerra fria entre os EUA e a China, prevejo que a lua de mel entre Biden e Lula não dure muito tempo.

5. O Presidente Lula tem hoje uma credibilidade mundial que o habilita a ser um mediador eficaz num mundo minado por conflitos cada vez mais tensos. Pode ser um mediador no conflito Rússia/Ucrânia, dois países cujos povos necessitam urgentemente de paz, num momento em que os países da União Europeia abraçaram sem Plano B a versão norte-americana do conflito e condenaram-se ao mesmo destino a que está destinado o mundo unipolar dominado pelos EUA. E será também um mediador credível no caso do isolamento da Venezuela e no fim do vergonhoso embargo contra Cuba. Para isso, o Presidente Lula tem de ter a frente interna pacificada e aqui reside a maior dificuldade.

6. Vai ter de conviver com a permanente ameaça de desestabilização. É a marca da extrema-direita. É um movimento global que corresponde à incapacidade de o capitalismo neoliberal poder conviver no próximo período com mínimos de convivência democrática. Apesar de global, assume características específicas em cada país. O objetivo geral é converter diversidade cultural ou étnica em polarização política ou religiosa. No Brasil, tal como na Índia, há o risco de atribuir a tal polarização um carácter de guerra religiosa, seja ela entre católicos e evangélicos ou entre cristãos fundamentalistas e religiões de matriz africana (Brasil) ou entre hindus e muçulmanos (Índia). Nas guerras religiosas a conciliação é quase impossível. A extrema-direita cria uma realidade paralela imune a qualquer confrontação com a realidade real. Nessa base, pode justificar a mais cruel violência. O seu objetivo principal é impedir que o Presidente Lula termine pacificamente o seu mandato.

7. O Presidente Lula tem neste momento a seu favor o apoio dos EUA. É sabido que toda a política externa dos EUA é determinada por razões de política interna. O Presidente Biden sabe que, ao defender o Presidente Lula, está a defender-se de Trump, seu rival em 2024. Acontece que os EUA são hoje a sociedade talvez mais fraturada do mundo, onde o jogo democrático convive com uma extrema-direita plutocrata suficientemente forte para fazer com que cerca de 25% da população norte-americana continue hoje convencida que a vitória de Joe Biden em 2020 foi o resultado de uma fraude eleitoral. Esta extrema-direita está disposta a tudo. A sua agressividade fica demonstrada pela tentativa recente de raptar e torturar Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara dos Representantes. Pensemos nisto: o país que quer produzir regime change na Rússia e travar a China não consegue proteger um dos seus mais importantes líderes políticos. E, tal como se irá observar no Brasil, logo após o atentado, uma bateria de notícias falsas foi posta a circular para justificar o ato. Portanto, hoje, os EUA são um país duplo: o país oficial que promete defender a democracia brasileira e o país não oficial que a promete subverter para ensaiar o que pretende conseguir nos EUA. Recordemos que a extrema-direita começou por ser a política do país oficial. O evangelismo hiper conservador começou por ser um projeto norte-americano (vide o relatório Rockfeller de 1969) para combater “o potencial insurrecional” da teologia da libertação. E diga-se, em abono da verdade, que durante muito tempo o seu principal aliado foi o Papa João Paulo II.

8. Desde 2014, o Brasil vive um processo de golpe de Estado continuado, a resposta das elites aos progressos que as classes populares obtiveram com os governos do Presidente Lula. Esse processo não terminou com a sua vitória. Apenas mudou de ritmo e de táctica. Ao longo destes anos e sobretudo no último período eleitoral assistimos a múltiplas ilegalidades e até crimes políticos cometidos com uma impunidade quase naturalizada. Para além dos muitos que foram cometidos pelo chefe do governo, vimos, por exemplo, quadros superiores das Forças Armadas e das forças de segurança apelarem a golpes de Estado e a tomarem publicamente partido por um candidato presidencial durante o exercício das suas funções. Estes comportamentos golpistas devem ser punidos exemplarmente quer por iniciativa do sistema judiciário quer por meio de passagens compulsórias à reserva. Qualquer ideia de amnistia, por mais nobres que sejam os seus motivos, será uma armadilha no caminho da sua presidência. As consequências podem ser fatais.

9. É sabido que o Presidente Lula não põe grande prioridade em caracterizar a sua política como sendo de esquerda ou de direita. Curiosamente, pouco antes de ser eleito Presidente da Colômbia, Gustavo Petro afirmava que a distinção para ele importante não era entre esquerda e direita, mas antes entre política de vida e política de morte. Política de vida é hoje no Brasil a política ecológica sincera, a continuidade e aprofundamento das políticas de justiça racial e sexual, dos direitos trabalhistas, do investimento na saúde e na educação públicas, do respeito pelas terras demarcadas dos povos indígenas e da promulgação das demarcações pendentes. Acima de tudo, é necessária uma transição gradual, mas firme da monocultura agrária e do extrativismo de recursos naturais para uma economia diversificada que permita o respeito por diferentes lógicas socioeconômicas e articulações virtuosas entre a economia capitalista e as economias camponesa, familiar, cooperativa, social-solidária, indígena, ribeirinha, quilombola que tanta vitalidade têm no Brasil.

10. O estado de graça é curto. Não dura sequer cem dias (vide Gabriel Boric no Chile). O presidente Lula tem de fazer tudo para não perder o povo que o elegeu. A política simbólica é fundamental nos primeiros tempos. Uma sugestão: reponha de imediato as Conferências Nacionais para dar um sinal inequívoco de que há outra maneira mais democrática e mais participativa de fazer política.

Coimbra, 11 de novembro de 2022

*Diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador do Observatório Permanente da Justiça

Fonte: Sul 21

(11/11/2022)

Sem medo de ser feliz

Sin miedo de ser feliz.

Este texto podría haber sido escrito en portugués, una vez que se destina especialmente aunque no únicamente, a quienes tienen la responsabilidad por decidir los destinos de Brasil en las elecciones del 30 de octubre.

Lula o la barbarie.

Lula o la deshumanidad.

El hecho de que no use para escribir, el idioma de Paulo Freire y Cecilia Meireles, pero sí el de Jorge Luis Borges y el Martín Fierro, no deja, sin embargo, de gustarme.

Soy un inmigrante. Legué a Brasil en busca de una oportunidad. Una posibilidad. Y me quedé. Hice mi historia en medio de gente que iba como yo, abriéndose un espacio en el mundo. Un lugar en la sociedad.

Ahora las cosas han llegado a un extremo inimaginable. Algo que está en la presidencia de la república e intenta perpetuarse, ha agredido a este país, y a sus tradiciones, ha ofendido a la humanidad en todos sus matices y de tantas maneras, que parece inevitable tener que ponerle un freno a la abominación.

Ni siquiera ha respetado, eso que está hoy queriendo repetir la destrucción, la religión, la fe, lo más sagrado. Ha ofendido, o intentado ofender, pues algo me dice que va a tener su merecido, cosas que no deben ser mancilladas de ninguna manera.

El nombre de Dios, la confianza en Nuestro Señor Jesús Cristo, nada ha respetado esto que no tiene límites en abusar de la inocencia de la gente.

Sabemos que Jesús es por quienes sufren, está con quienes no tiene otro patrimonio que las lágrimas que les empujan a abrirse paso de todas formas, en busca de un lugar bajo el sol.

Los pobres y los migrantes, los excluídos en todos los sentidos, las mujeres y los niños y niñas, los trabajadores y trabajadoras, buscan desde siempre el amparo y la fuerza que viene de la fe, no importa cuál sea la religión.

Lo que hoy agrede a la humanidad de tantas formas tan aberrantes, no puede, no deben de ninguna manera, seguir adelante. Ha corrompido todo, las palabras, la función pública, el respeto, la historia, la memoria, la decencia, la inocencia.

Ha corrompido hasta lo que juzgábamos que no podría ser corrompido. Hay un solo nombre para esto, y es un nombre que aprendí a no pronunciar. Quienes me están leyendo conocen ese nombre.

Es quien afronta a Dios y a la humanidad. Es lo que abusa del amor y de la inocencia. Repito una y otra vez. Lo que está ahí confrontando a la humanidad, debe ser detenido a toda costa.

Solamente Lula y la movilización social y nacional que encabeza, pueden detener lo abominable. No se dejen manosear, no se dejen abusar de nuevo, no se dejen bestializar otra vez. Nunca. Por nada de este mundo.

Tenemos derecho a la vida, a la felicidad, a la salud y a todo lo demás.

Vote en Lula y Alckmin el 30 de octubre.

Abusados e Negligenciados: estudo do UNODC revela violências sofridas por migrantes

Um estudo conduzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostrou que migrantes ilegais são frequentemente vítimas de tortura, estupro, sequestro e prisão em cativeiros. 

O Escritório chegou a esta conclusão após entrevistas com migrantes, especialistas e até operadores de tráfico humano em rotas no oeste e no norte da África, Mar Mediterrâneo e América Central.

O relatório “Abusado e Negligenciado” também aponta que poucas ações são tomadas por autoridades para investigar estes crimes e, em alguns casos, agentes públicos são responsáveis pela violência.

As entrevistas ainda mostraram que homens são submetidos a trabalhos forçados e violência física, enquanto as mulheres estão mais expostas a crimes sexuais, levando a gravidez indesejada e abortos.

Tortura, estupro, sequestro e prisão em cativeiros. Estes são os tipos de violência extrema a qual migrantes, que usam redes de tráfico humano para fugir de seus países de origem, são frequentemente submetidos. Apesar da gravidade desses crimes, poucas ações são tomadas pelas autoridades para coibi-los. Em alguns casos, funcionários públicos nacionais chegam a ser cúmplices dos abusos.

Estas são conclusões de um estudo divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). O relatório “Abusado e Negligenciado” (disponível em inglês), analisa entrevistas feitas nos últimos três anos com migrantes, traficantes e especialistas na área, para determinar os diferentes tipos de violência infligidas a homens e mulheres e apresentar as motivações que levam ao abuso durante os trajetos de migração.

As entrevistas, conduzidas principalmente nas rotas de trânsito no oeste e no norte da África, Mar Mediterrâneo e América Central, apontaram que a violência é usada por traficantes ou outros agressores como forma de punição, intimidação ou coerção e, não raro, sem motivo aparente.

Gênero – De acordo com a coordenadora da pesquisa, Morgane Nicot, homens migrantes são submetidos a trabalhos forçados e violência física, enquanto as mulheres estão mais expostas a crimes sexuais, levando a gravidez indesejada e abortos.

No entanto, para ela, todos estão em risco de tratamentos desumanos e degradantes e há poucas evidências de que esses crimes levem a investigações nos locais onde são cometidos– especialmente em países de trânsito.

Entre os motivos que levam a negligência está o medo que alguns migrantes sentem em serem tratados como criminosos por estarem em situação irregular. Em entrevista, outros relataram que temem punições por terem cometidos atos que são considerados ilegais em alguns países, como aborto, relações sexuais fora do casamento ou com pessoas do mesmo sexo.

Nicot explicou que também há relatos de migrantes que não buscam as autoridades, porque os agressores são funcionários públicos, muitas vezes envolvidos na operação de tráfico. “Esses oficiais incluem guardas de fronteira, policiais e funcionários que trabalham em centros de detenção”, esclarece.

Legenda: Jovem que fugia da violência no México foi detida enquanto viajava para encontrar a mãe nos EUA
Foto: © Adriana Zehbrauskas/UNICEF

Poucas informações- Embora existam estatísticas sobre mortos no mar, em desertos ou sufocados em contêineres, poucos dados revelam os reais motivos da violência e dos abusos aos quais os migrantes são submetidos e o impacto sobre eles.

Outro “ponto cego” no tema são informações sobre como as autoridades lidam com a questão. Segundo Nicot, essa foi a principal razão da investigação conduzida pelo UNODC. O relatório dedica-se também a examinar como os policiais respondem aos casos de tráfico humano e destaca as dificuldades que autoridades enfrentam para processar esses crimes.

Aos profissionais da justiça penal e governos, o estudo oferece diretrizes sobre como investigar e processar casos internacionais de violência e abuso, levando em consideração a segurança e violações dos direitos das mulheres.

Tráfico – O contrabando de migrantes é uma atividade criminosa, que consiste no pagamento para que organizações ilegais façam a travessia de pessoas em situação de vulnerabilidade, em diferentes fronteiras. As vítimas geralmente desejam deixar seus países de origem, mas não conseguem ter acesso aos meios legais para fazer este procedimento.

Migrantes podem estar fugindo de um desastre natural, conflito, perseguição ou violência de gênero. Outros são motivados por oportunidades de emprego, educação ou buscam reencontrar suas famílias.

Através de uma série de protocolos internacionais, a ONU e seus Estados-Membros reconhecem a necessidade de assistir e proteger os migrantes traficados e não tratá-los como criminosos por causa de seu envolvimento no ato de travessia irregular.

Fonte: Nações Unidas – Brasil

(05-01-2022)

TRAÇOS DA MÃE-ÁFRICA: em busca de nossas raízes (XXXII)

TRAÇOS DA MÃE-ÁFRICA: em busca de nossas raízes (XXXII)

Patrice Lumumba vive na memória revolucionária dos Povos Africanos, em especial do Povo do Congo. Estamos dando seqüência à matéria anterior sobre o Congo, mais precisamente sobre a grande figura do revolucionário Patrice Lumumba, nascido na Aldeia de Onalowa, em Sankuru, ao Norte da Província de Kasai, em 1925. Diferentemente de outras lideranças do movimento de libertação, que eram membros de grandes tribos que rivalizavam o poder – inclusive Joseph Kasabuvu (que seria eleito presidente) – Lumumba pertencia a uma pequena tribo (Batetela). Enquanto os que se mostravam ciosos da tomada do poder em função de suas respectivas tribos, Lumumba enfatizava a unidade de todas as tribos tendo como meta a liberdade de todos os Congoleses.

Lumumba passou por uma educação cristã, no seu próprio país, tanto de orientação protestante quanto de tradição católica, pela influência dos missionários. Já adulto, teve oportunidade de fazer uma rápida temporada, um estágio de estudo na Bélgica, ocasião em que tratou de entrar em contato com aliados da causa de libertação.

A vida próxima do seu Povo e seu senso de justiça não tardaram a provocar nele mais do que uma mera inquietação, um compromisso com a causa de libertação do seu Povo. Não se conformava com o tipo de relação de exploração e de dominação ao Estado belga e às multinacionais a que vivia submetida sua Gente. Não hesitou, primeiro, em forjar a unidade interna das diferentes tribos, visando a uma luta de libertação do jugo dos invasores. É assim que, em 1958, funda com outros militantes o Movimento Nacional Congolês, como um relevante instrumento de luta pela independência de sua terra e de sua Gente.

Para tanto, tratou de levantar apoio internacional, numa conjuntura bem complexa, dada a bipolarização então dominante: quem não estava a favor dos países capitalistas, tinha que recorrer ao apoio do bloco soviético. Lumumba e seus camaradas também não tiveram escolha alternativa. Um opção de verdadeiro alinhamento era algo pouco provável, naquela conjuntura.

Outra empreitada quase impossível era manter-se num mundo dominado por uma ONU dependente das grandes potências capitalistas. Mas, Lumumba permanecia firme. Numa de suas falas, deixava bem clara sua aposta: “Um dia, a história terá sua palavra a dizer. Mas, não será a história que se ensina na ONU, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a história que se ensinará nos países libertados do colonialismo e de suas marionetes. A África escreverá sua própria história, uma história feita de glória e de dignidade.”

(Trad. página http://www.sankurufoundation.org/patrice_lumumba.htm)

Por conta desse trabalho, o cerco ia se fechando contra a metrópole belga e as multinacionais, agora acuadas, não apenas pelas lutas internas pela independência, como também desde fora, a partir das forças que se aliaram à mesma causa. De modo que, em 1961, foi dado um importante passo, com a realização das eleições, da qual Patrice Lumumba resultaria eleito Primeiro Ministro, em companhia de Joseph Kasabuvu, eleito presidente, o qual cederia às pressões dos invasores, e terminaria por tramar um golpe para destituir Lumumba de seu cargo. Amplamente apoiado pelas forças colonialistas, ele consegue perseguir ferozmente, torturar e matar Lumumba, poucos meses depois de empossados no governo.

Pelos poucos elementos aqui enunciados, sobre a trajetória política de Patrice Lumumba, alguns pontos podemos destacar como lição de grande atualidade. Destaco apenas um deles: é equivocado tudo apostar na origem de classe. Há trabalhadores pobres que, ao se deixarem seduzir pelo fascínio do poder, facilmente mudam de lado, traindo sua própria classe, como aconteceu ao presidente Joseph Kasabuvu, que, pressionado pelas forças colonialistas, não hesita em entregar o próprio companheiro de governo. O que importa é o compromisso com a causa dos empobrecidos.

João Pessoa, 14 agosto de 2007.

Ir além do local, requer a luta. Macro e micro interagem, a toda hora

Ir além do local, requer a luta. Macro e micro interagem, a toda hora

 

Na necrófila gestão bolsonarista

Cemitério do mundo vira o Brasil

 

Jovens clamam, com Greta, pelo clima

Só em atos confiem, não em promessas

(Greta Thunberg critica políticos por ‘ignorarem’ a crise climática – Internacional – Estado de Minas)

 

Adriático a migrante é cemitério

Assim como de covid é o Brasil

 

Cemitério-mor é Mediterrâneo

Pros migrantes do mundo esquecidos

(Opera Mundi: Naufrágio no Mediterrâneo deixa mais de 100 migrantes mortos (uol.com.br)

 

Movimento que cuida da raiz

Nos convoca a uma nova sociedade

(RAiZ – Movimento Cidadanista – Página inicial | Facebook)

 

Em pesquisa, na PUC paulistana

Marques lista os estragos da lava jato

(Relações indecentes [recurso eletrônico] (tirant.com))

 

Democracia não é uma coca-cola

Padrão único, uniforme em todo o mundo

 

Bem comum dos humanos, a vacina

Revoguemos patentes privatistas

 

“CPF cancelado”, macabra senha

Com que brinda a COVID, Bolsonaro

(Foto de Bolsonaro com cartaz de ‘CPF cancelado’ gera críticas nas redes sociais | Sonar – A Escuta das Redes – O Globo)

 

Sobre Harris e Obama, diz Jalil

Gente preta que usa máscara branca

(Opera Mundi: ‘Sou um revolucionário e um otimista’, diz ex-Pantera Negra (uol.com.br))

 

Pois investida de Biden sobre Lula

Mal escondem o interesse do Império

 

Bem abaixo do que rege a lei das selvas

Pazuello é aprendiz de troglodita

(Ex-ministro Eduardo Pazuello é flagrado sem máscara em shopping de Manaus (cnnbrasil.com.br))

 

Contra Dilma, generais tonitruantes

Cordeirinhos, submetem-se a Bolsonaro

(Em áudio vazado, general Ramos diz que tomou vacina escondido, vê risco à vida de Bolsonaro e tenta convencê-lo a se imunizar – 27/04/2021 – Poder – Folha (uol.com.br))

 

Desgoverno vencido na CPI:

Presidente: Aziz; relator: Renan

 

Palestinos são vítimas de apartheid

Relatório denuncia Israel

(https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/relatorio-de-ong-acusa-israel-de-promover-apartheid-e-perseguir-palestinos.shtml)

 

CPI empareda o desgoverno

Oito a três: uma vitória acachapante

 

A que ponto se aviltam os militares:

General se vacina às escondidas

 

CPI inicia com o recado:

Crime contra os humanos não prescreve

(Leia a íntegra do discurso de abertura do relator da CPI da Covid-19 | VEJA (abril.com.br))

 

Holocausto brasileiro será julgado:

Que os réus então paguem pelos crime

 

Desgoverno continua ataque à China

Desta vez, Paulo Guedes volta à cena

(Vídeo: Guedes exalta os EUA e diz que ‘o chinês criou o coronavírus’ – CartaCapital)

 

João Pessoa, 28 de abril de 2021.

Lula: “Estamos na 3ª Guerra Mundial e o inimigo é muito perigoso”

A oposição resiliente do ex-presidente Lula ao governo de Bolsonaro – ocupado com um projeto de extermínio em massa no Brasil – continua projetando suas ideias para o mundo. Após o histórico discurso em São Bernardo ganhar as manchetes dos maiores jornais e agências de notícias do planeta, Lula vem habituando-se a conceder entrevistas internacionais. Depois da conversa com a âncora da CNN Christiane Amanpour, exibida na quinta-feira (18), agora é a vez do francês Le Monde destacar “a extraordinária energia de Lula” no texto de abertura de uma longa entrevista divulgada nesta sexta-feira (19).

Na entrevista, Lula fez um apelo aos líderes mundiais para que convoquem uma reunião extraordinária a fim de buscar soluções para a crise, sob o risco de os efeitos da pandemia se estenderem por muitos anos. Para o ex-presidente, pela primeira vez na história da globalização, o mundo vive um novo conflito, desta vez com todos os países cercados por apenas um inimigo, a Covid-19.

“Desde o início da pandemia, nem o G20 nem o G8 se encontraram para falar sobre o assunto. É urgente”, disse Lula.  “Apelo ao presidente Emmanuel Macron: chame o G20. Ligue para Joe Biden, Xi Jinping, Vladimir Putin. Estamos em guerra, é a Terceira Guerra Mundial e o inimigo é muito perigoso”, alertou Lula.

Para o ex-presidente, “a vacina não deveria ser um produto de mercado como é hoje, mas se tornar um bem comum da humanidade”.

Governo genocida

Na conversa com o diário francês, Lula demonstrou indignação com a situação de penúria pela qual passa o povo brasileiro e reafirmou que o país é refém de um governo genocida, mais preocupado em armar a população do que combater a fome e promover a educação.

“Comecei na política nos anos 1970 e nunca vi meu povo sofrer como hoje. Pessoas morrendo nos portões dos hospitais, a fome voltou”, lamentou Lula. “E, diante disso, temos um presidente que prefere comprar armas de fogo ao invés de livros e vacinas. O Brasil é chefiado por um presidente genocida. É realmente muito triste”.

“Salário, emprego, vacina, educação”

Para o ex-presidente, a população não quer armas, e sim a experiência ter ter três refeições por dia, colocar os filhos na escola e poder trabalhar em paz. Uma realidade, segundo ele, possível, e já provada pelas administrações petistas.

“O que o povo quer é o que o Partido dos Trabalhadores lhes ofereceu no passado muito recente: um salário, um emprego, vacinas, educação, crescimento”, ressaltou o líder petista. “Acho que é possível reconstruir um país mais humano”.

Lula enfatizou a necessidade de desarmar o país. “As pessoas precisam de empregos, livros, investimentos em cultura. É isso que temos que recuperar no Brasil. E o povo sabe que existe um partido que é capaz de fazer isso: é o PT”.

Prestígio internacional

Lula lembrou os anos de crescimento econômico e prestígio internacional vividos pelo Brasil quando era presidente. “Quando eu estava no poder, o Brasil tinha 4,5% de desemprego, um salário mínimo que aumentava a cada ano. Éramos uma espécie de queridinhos, a sexta potência mundial”, disse Lula.

E acrescentou: “Eu brinquei com meus colegas franceses e ingleses, falando para eles: “Em breve, a gente ultrapassa vocês e vamos ameaçar a Alemanha!” Tudo isso para dizer que o povo brasileiro merece coisa melhor que o atual governo”.

País sem presidente

Lula voltou a culpar Bolsonaro pelas quase 290 mil mortes no Brasil, destacando que o governo não tem qualquer plano de combate ao surto de Covid-19. Ele elencou as medidas mínimas que poderiam ser adotadas caso o Brasil contasse com  um presidente.

“Com o surgimento da Covid-19, um presidente que tivesse a noção do que significa governar teria criado um comitê de crise”, explicou. “Ele teria chamado o ministro da Saúde e os melhores cientistas do país. Esse comitê se reuniria uma vez por semana para divulgar as informações à sociedade brasileira e decidir sobre as medidas a serem tomadas para todos”.

“Bolsonaro é tão ignorante”, lamentou o ex-presidente. “Ele acredita que, ao se recusar a admitir a gravidade da pandemia, a economia vai se recuperar novamente. A única cura é vacinar o povo brasileiro”, apontou.

A força histórica do PT

Lula destacou a força histórica do PT, um partido de massas “com as melhores raízes na sociedade brasileira” e que continua a ser uma força política preponderante, a maior no campo progressista. Ele ressaltou a importância de lideranças fortes do partido, como a ex-presidenta Dilma Rousseff e o candidato à Presidência em 2018, Fernando Haddad.

O líder petista reafirmou também que o projeto do partido é governar para todos os brasileiros, e não para grupos e familiares, como faz Bolsonaro.

“Minha prioridade sempre será os mais pobres, os trabalhadores, os habitantes das periferias”, frisou Lula. “Quem recebe mais atenção e recursos comigo será sempre o mais necessitado. Porque o dever do PT é permitir a ascensão social dessa população e acabar com as desigualdades de um país marcado por 350 anos de escravidão”, explicou.

Fonte: PT

(19-03-2021)