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Notas de repúdio, além de inúteis, denotam mais covardia do que indignação

Por Leandro Fortes*
Pululam, nas redes sociais, lacrimosas notas de repúdio de radicais defensores da democracia contra o comício campestre feito por Jair Bolsonaro para o gado verde e amarelo postado no Setor Militar Urbano de Brasília, em frente ao Quartel General do Exército – aqui apelidado, por nós candangos e brasilienses, de “Forte Apache”.
Primeiro, o ato, em si.
Diante de um demente intoxicado pela própria insanidade, uma pequena multidão de fanáticos de extrema-direita ostentava faixas pedindo um novo Ato Institucional número 5, medida extrema tomada pela ditadura militar, em 1968, portanto, há 52 anos. O AI-5 fechou o Congresso Nacional, suspendeu o instituto do habeas corpus, suprimiu as liberdades individuais e serviu para prender opositores, torturar e matar presos políticos.
Não eram pessoas, portanto, que bradavam pelo fim da democracia, em frente ao Forte Apache. Eram fascistas, uma categoria de não humanos que, assim como o coronavírus, se dissemina como uma doença social quando o Estado de Direito está com a imunidade baixa. O fato de essa turba ser aliada ao vírus não é uma coincidência. Trata-se de afinidade epidemiológica.
Bolsonaro, enfiado numa camisa vermelha desbotada e dois números abaixo de seu manequim, intercalou as estultices de sempre com crises de tosse e perdas súbitas de equilíbrio. É um homem doente, desde sempre. Resta saber se há outras patologias que não as mentais, amplamente diagnosticadas.
O gado pró-AI-5 não requer muita observação. Trata-se de gente frustrada e infeliz, como são os fascistas, manadas exaustas de tanto carregar a própria mediocridade e que, agora, enxerga em Bolsonaro o messias de uma esperada era de estupidez. Pensam que, vingando-se do conhecimento, da ciência e da racionalidade que sempre os oprimiram, há de vir um admirável mundo novo onde cada indigente moral terá sua cota de felicidade, enfim.
Sim, são burros o bastante para acreditar nisso.
Volto às notas de repúdio.
Além de inúteis, denotam mais covardia do que indignação.
*Jornalistas pela Democracia
Fonte: Brasil 247
(20-04-2020)

Perguntas sem resposta

“Sou humano e nada do que é humano me é indiferente” Terêncio.
Como pode um legislador elogiar publicamente um torturador por rede nacional de TV e ficar impune? Este fato ocorreu em 2016, durante a votação do golpe parlamentar contra a Presidenta Dilma Rousseff
Como é possível que esse mesmo legislador se torne presidente do maior país da América do Sul, o Brasil, como resultado de um processo eleitoral evidentemente fraudulento? A disseminação de notícias falsas contra o candidato Fernando Haddad nunca foi punida.
Aonde conduz a impunidade? Quando condutas ilegais, que ferem sentimentos enraizados na população, ficam impunes, se desfazem os contornos do que seja considerado crime. Isto é o começo da extinção da existência social civilizada.
A vida têm valor em si, ou é apenas um meio (meio de produção, meio de enriquecimento, bem de uso) que é descartado quando já não serve mais?  
Fazemos estas perguntas por considerar que a desatenção e a indiferença diante de fatos que aparentemente não nos dizem respeito, acabam tendo consequências desastrosas para o conjunto da população.
Diante de uma pandemia em que morrem pessoas de maneira assustadora, esse mesmo “presidente” que fez apologia da tortura e da posse e uso de armas, exibe uma conduta totalmente contrária à que cabe esperar da autoridade máxima do país.
O que podemos esperar?
A vida têm algum valor?
Para que vivemos? Seguem as perguntas…
 
 
 
 
 

Humanizar sempre. Ditadura nunca mais

Nunca mais ditadura. Nunca mais tortura, sequestro nem desaparecimento de pessoas. Nunca mais perseguições políticas. Pela vigência irrestrita dos Direitos Humanos. Pelo retorno do Brasil ao mundo das nações civilizadas.
Apologia de crime é crime. Os crimes contra a humanidade são imprescritíveis. A democracia deve ser restabelecida no país. Pelo fim da impunidade à delinquência política institucionalizada. Pelo fim da blindagem parlamentar-midiática-judiciária à criminalidade institucional.
O ser humano não nasce pronto nem acabado. Vamos nos tornando humanos/as como consequência de um longo e laborioso processo que dura a vida toda. Este processo educativo e formativo envolve não apenas a aquisição da linguagem e das habilidades motoras, mas também a construção interna e social de uma noção de ser pessoa.
A manutenção das condições necessárias para que a pessoa venha a se tornar um ser humano, está explicitada na Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pelas Nações Unidas. Nos dias de hoje a existência humana está ameaçada por toda a parte.
Grupos voltados para a aniquilação do gênero humano ganharam o poder em alguns países, dentre os quais o Brasil. É o neonazismo, uma ideologia de morte que não têm base científica nem moral. O combate a esta nova tentativa de destruição da humanidade não deve nos encontrar indiferentes.
A defesa irrestrita dos Direitos Humanos deve ser o foco que nos guie no esforço para refazer no Brasil e na América Latina, a humanidade devastada pelos regimes neoliberais, pelo terrorismo de estado e pela ação perversa de uma mídia deformadora e manipuladora, sistematicamente a serviço da exploração e da injustiça.
 

Lula e Amorim, no ‘The Guardian’: defesa da soberania, do diálogo e da paz

Em artigo no jornal “The Guardian”, ex-presidente e ex-chanceller criticam a postura belicista de Bolsonaro e seu desprezo pelos prejuízos humanitários e econômicos
Em meio ao avanço do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-chanceler Celso Amorim defendem que o Brasil volte a demonstrar que é um país soberano, defensor da paz e da cooperação entre os povos e por isso admirado e respeitado no mundo. Ambos assinam artigo na edição de hoje (10) do jornal britânico The Guardian.
“É profundamente lamentável que o presidente do Brasil Jair Bolsonaro, movido por uma ideologia belicista de extrema direita e por uma vergonhosa subserviência ao atual mandatário norte-americano,  adote uma postura que contraria a Constituição brasileira e às tradições da nossa diplomacia, coonestando o ato de guerra  de Donald Trump, justamente no início do ano em que este concorrerá à reeleição”.
Bolsonaro chegou a dizer esta semana que Lula apoiou o enriquecimento de urânio acima de 20% em seu programa nuclear. A imprensa comercial brasileira costuma abordar os destemperos verbais de Bolsonaro como “polêmicos” e relativiza o fato de o presidente mentir. O jornal britânico, porém, acolhe a versão do ex-presidente e seu ex-ministro sobre a posição em relação às crises externas.

Lula e Amorim destacam participação do Brasil em acordo que levou a um convívio respeitoso – que Trump rompeu. (Reprodução)Lula e Amorim destacam a participação do Brasil em esforços diplomáticos que levaram a um acordo para um convívio pacífico entre Estados Unidos e Irã, firmado pelo então presidente norte-americano Barack Obama e abandonado por Donald Trump.

“Na paz, os países desenvolvem suas economias, superam diferenças e aprendem uns com os outros, promovendo o comércio, a cultura, o contato humano, a pesquisa científica e a cooperação humanitária. Na guerra, os países trocam mísseis, bombas e mortes, degradam a qualidade de vida de seus povos, provocam a destruição do meio ambiente e de ricos patrimônios históricos e culturais. A realidade tem demonstrado, de forma cada vez mais clara, que, na guerra, todas as vitórias são “vitórias de Pirro”.

Leia a íntegra do artigo

“BRASIL AJUDOU OS EUA E O IRÃ EM DIREÇÃO À PAZ. DIÁLOGO É A ÚNICA RESPOSTA”

O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani por meio de bombas lançadas a partir de um drone, por ordem expressa do presidente dos Estados Unidos, lançou o Oriente Médio – e o mundo – na mais grave crise para a segurança global desde o fim da Guerra Fria, no final do século passado. Ao ordenar unilateralmente a execução de um militar da mais alta hierarquia do Irã em solo iraquiano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump violou o Direito Internacional e deu, de forma perigosa e irresponsável, um passo temerário na escalada de um conflito com potencial impacto em todo o planeta.
Ainda não conhecemos exatamente qual será extensão da reação do Irã a esse ato de guerra não declarada. Mas já vemos prejuízos para a paz e a segurança na região com o previsível ressurgimento da do Estado islâmico no Iraque e o retraimento de Teerã em relação aos compromissos sobre limites de enriquecimento de urânio.
Podemos, também, apontar com certeza quem ganhará e quem perderá com um novo conflito bélico, tenha ele as proporções que tiver.
Há quem sempre lucre com a guerra: os fabricantes de armas, os governos interessados em pilhar as riquezas de outros Estados (sobretudo o petróleo), as megaempresas contratadas a peso de ouro para reconstruir o que foi destruído pela insensatez e cobiça dos senhores da guerra.
E há os que sempre perdem: as populações civis, mulheres, crianças, idosos e, sobretudo, os mais pobres, condenados à morte, à fome, à perda de suas moradias e à emigração forçada para terras desconhecidas, onde enfrentarão a miséria, a xenofobia, a humilhação e o ódio.
Como presidente e chanceler do Brasil, na primeira década deste século, mantivemos diálogos com presidentes norte-americanos e altas autoridades iranianas, na tentativa de construir a paz, que acreditávamos ser o que mais importava aos povos do Irã e dos Estados Unidos.
Juntamente com a Turquia negociamos com o Irã a “Declaração de Teerã”, a partir de uma solicitação do próprio Presidente Barack Obama, feita em encontro à margem de uma Cúpula do G8 ampliado em 2009 na Itália.
Este acordo, celebrado em 2010, saudado por especialistas em desarmamento de diversas partes do mundo, inclusive o ex- Diretor da Agência de Energia Atômica e Prêmio Nobel da Paz, Mohammed El Baradei, tinha o potencial de encaminhar uma solução pacífica para a complexa questão do programa nuclear iraniano.
Além de tornar o mundo um lugar mais seguro, estávamos contribuindo para que os dois países, inimigos ferrenhos desde a revolução islâmica de 1979, pudessem desenvolver  um convívio pacífico e mutuamente respeitoso, conforme desejo expressado pelo próprio presidente norte-americano.
Infelizmente, fatores de política interna e externa nos Estados Unidos impediram sua adoção naquele momento. Alguns anos mais tarde, porém, Obama firmou acordo de sentido semelhante com o governo iraniano, posteriormente abandonado por Donald Trump
Somos e seremos sempre defensores intransigentes da paz. Há, sim, uma guerra urgente que precisa ser travada por todas as nações: a guerra contra a fome, que ameaça um em cada nove habitantes deste planeta. O que se gasta num único dia de guerra aliviaria o sofrimento de milhões de crianças famintas no mundo. É impossível não nos indignarmos com isso.
Antes mesmo da nossa posse, em novembro de 2002, em visita à Casa Branca, tivemos o primeiro encontro com o então presidente George W. Bush. Havia por parte do governante norte-americano uma obsessão em atacar o Iraque, com base em alegações, que se revelaram falsas, sobre posse de armas químicas e apoio a terrorismo. Dissemos ao Presidente que o a nossa obsessão era outra: acabar com a fome e reduzir a pobreza em nosso país.
Não nos envolvemos na coalizão contra o Iraque e condenamos o uso unilateral da força. Apesar disso (ou, mesmo, por causa disso), Bush respeitou o Brasil. Cooperamos em situações difíceis, como a criação do Grupo de Amigos da Venezuela e as negociações comerciais da OMC. Mantivemos boas relações e contatos frequentes sobre temas regionais e mundiais, mesmo com nossas divergências. O Brasil foi um dos pouquíssimos países em desenvolvimento convidados para a Conferência de Annapolis, convocada pelos Estados Unidos para discutir a retomada do processo de paz no Oriente Médio, em 2007.
Temos a convicção profunda, lastreada na experiência, de que a paz e o diálogo entre as nações são, não apenas desejáveis, mas possíveis, desde que haja boa vontade e persistência. Sabemos que soluções obtidas pelo diálogo são muito mais justas e duradouras do que aquelas impostas pela força. A triste situação em que o Iraque ainda vive, dezessete anos após o fatídico ataque de 2003, é a prova mais eloquente da fragilidade dos resultados obtidos por meio de ações militares unilaterais.
Na paz, os países desenvolvem suas economias, superam diferenças e aprendem uns com os outros, promovendo o comércio, a cultura, o contato humano, a pesquisa científica e a cooperação humanitária. Na guerra, os países trocam mísseis, bombas e mortes, degradam a qualidade de vida de seus povos, provocam a destruição do meio ambiente e de ricos patrimônios históricos e culturais. A realidade tem demonstrado, de forma cada vez mais clara, que, na guerra, todas as vitórias são “vitórias de Pirro”.
É profundamente lamentável que o presidente do Brasil Jair Bolsonaro, movido por uma ideologia belicista de extrema direita e por uma vergonhosa subserviência ao atual mandatário norte-americano,  adote uma postura que contraria a Constituição brasileira e às tradições da nossa diplomacia, coonestando o ato de guerra  de Donald Trump, justamente no início do ano em que este concorrerá à reeleição.
Já que faz pouco caso dos prejuízos humanitários provocados pela guerra, Bolsonaro deveria levar em consideração as relações comerciais entre Brasil e Irã, país com quem temos um superávit de mais de US$ 2 bilhões por ano. Acima de tudo, deveria preocupar-se com a segurança do nosso país e do nosso povo, empurrado a apoiar uma guerra que não é sua.
Neste momento crítico que vive a humanidade, o Brasil tem que voltar a demonstrar o que verdadeiramente é: um país soberano, defensor da paz e da cooperação entre os povos, admirado e respeitado no mundo.
Fonte: Rede Brasil Atual
(10-01-2020)

De que lado você está?

A humanidade não têm tendência. Ou você é humano/a ou não é. Muita gente faz de conta, tenta fazer crer que se preocupa com quem sofre, com as pessoas excluídas, com quem passa fome. Mas você não pode fingir que é humano/a. Ou é ou não é.
Aprendi com a minha história de vida que a humanidade não se divide em esquerda ou direita, crentes ou ateus, etc. Há toda uma indústria que tenta nos convencer do contrário. A direita seria quem se ocupa do poder e do dinheiro, da dominação e da exploração, e a esquerda seria quem se ocupa da justiça social e dos direitos, das condições de vida dos menos favorecidos.
O que eu aprendi com a minha experiência de vida é que esquerda e direita são dois lados da mesma moeda. Dois lados do poder. Pessoas que procuram o poder tendem a se desincumbir do ser humano. O poder nos torna cegos/as. Percebi isto na universidade, no movimento estudantil, nos grupos espirituais e/ou religiosos.
Meu foco está em um lugar anterior, um lugar em que o que conta é a pessoa. Creio que isto permaneceu em mim desde o começo. Ainda hoje tenho uma prevenção, uma espécie de detector, um sinal de alarme, quando vejo pessoas que se mostram como demasiadamente identificadas com uma crença ou ideologia, com uma instituição. Aí têm.
Depois do golpe de estado de 1976 na Argentina, tratei de compreender o que é que tinha acontecido. Comecei a pesquisar e a estudar. Li relatórios da Conadep (Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas), do CIDH-OEA, da OPS-OMS. Percebi que o que tinha acontecido fora uma guerra de um estado terrorista contra a população civil desarmada.
A imprensa repetia a versão dos golpistas de que tinha se tratado de uma operação de limpeza para salvar a Argentina do comunismo. Não fora um confronto de esquerda versus direita. Fora uma operação de extermínio orientada a quebrar psicologicamente a população.
Finda a ditadura certos setores e personagens tentaram se apropriar de uma vitória que na verdade se deveu mais à ação das Madres de Plaza de Mayo do que a qualquer outro setor ou movimento. Tentaram roubar a história e a memória. Os genocidas e seus apoiadores foram julgados e condenados por tribunais comuns, num fato inédito no mundo.
Essa história não pode se repetir nunca mais. Nunca mais campos de concentração na Argentina. Nunca mais tortura, sequestro, desaparição de pessoas. Esta reflexão tenta resgatar um eixo, um foco, que para mim deve presidir não esta ou aquela atividade interna ou externa, mas o dia a dia.
A defesa dos direitos humanos não pode ser uma ação esporádica ou eventual. Há de ser um agir contínuo e integrado. Uma convergência independente de qualquer ideologia ou doutrina, no cuidado e na promoção da vida humana em todas suas dimensões. Um exercício pessoal e comunitário em que o valor da vida esteja sempre presidindo, orientando e motivando, mobilizando, abrindo espaços, animando a criatividade, expandindo horizontes.

Lula, o professor

Por Gustavo Conde

O mundo inteiro resiste à chegada da real democratização dos sentidos, dos gestos e das práticas coletivas, viabilizado por um conjunto de plataformas que faz entrelaçar pessoas reais. Velharias institucionais, ferozmente politizadas e excludentes, como o poder judiciário, a igreja e a imprensa, vão sendo mantidos à fórceps, em suas estruturas viciadas, em que a covardia é o parâmetro moral mais evidente. 

As instituições têm pânico ao novo e à soberania intelectual porque estão ainda baseadas em conceitos fortemente hierarquizados que, por sua vez, ignoram, subestimam e criminalizam a interação digital.

Eles vivem no século 19, gostam de frases em latim, de gramáticas, de dicionários e de filósofos europeus, de preferência mortos. Estigmatizam a cultura oriental e árabe e assoviam quando o assunto resvala no genocídio em curso do continente africano.

O mundo sangra, como já sangrou antes.

O instituto da concessão de prêmios honorários é também um corolário desse atraso cognitivo, com sua excessiva formalidade e sua lógica classista. A estética da premiação se arrasta como herança colonial, ração das vaidades, recompensa das domesticações.

A condescendência com que prêmios são rifados para aplacar a dor da falta de reconhecimento são prática risível do nosso tempo, infelizmente ainda pouco clara aos que se lambuzam em convenções para degustar restos de festa no coquetel tóxico da aceitação social.

O desdobramento óbvio desta prática heteronormativa é a estética da competição, que esmaga o pensamento político sobretudo do segmento autointitulado democrático. Militâncias a rodo acham uma ofensa pertencer à oposição e usam – com imenso orgulho – o verbo “perder” para significar um resultado eleitoral.

O texto jornalístico e as redes sociais

Esse período de transição entre o que morre e o que nasce também repercute na dimensão da produção textual. O formato consagrado do texto jornalístico, com suas decrépitas convenções seculares, chega a assustar pelo acanhamento estilístico.

Jornalistas gostam de seguir regras e têm orgulho disso. O trabalho de domesticação histórica nessa área do trabalho semi-braçal realmente foi bem feito, tenho de admitir.

No mundo da produção textual institucionalizada, a rigor, temos também o pânico ao novo, a fobia ao diferente e a execração da clarividência. A concepção semântica que por ali grassa faz ruborizar qualquer pesquisador iniciante no campo dos estudos da linguagem.

Desconhecem desdobramentos metonímicos, uso retórico do tempo verbal e protocolos persuasivos de encadeamento anafórico, nomes sofisticados para práticas absolutamente banais do faber discursivo, dominadas com facilidade por qualquer aluno do ensino médio.

Pior do que isso, esses processos de confecção textual estão presentes, mas como na justiça brasileira, eles são seletivos. Entender que ‘Academia Sueca” é desdobramento metonímico de ‘Prêmio Nobel’ pode ser ‘barrado’, enquanto aceitar ‘Paulo Guedes’ como referência de ‘ministério da economia’ é chancelado tranquilamente, sem uma gota de vaselina.

O gênero “artigo de opinião” também padece desses mesmos males e ocupa um momento técnico bastante limitador, ainda que haja, no meio deste imenso cativeiro, faíscas soberanas de encorajamento intelectual.

Há ainda o efeito colateral da massificação do sentido e do texto, via redes sociais. Sujeitos fragilizados pelas transversalidades do tempo e do esquecimento buscam ‘temas quentes’ e ‘polêmicos’ pela única e exclusiva razão do ‘alcance’ e da famigerada ‘monetização’. Não se trata de relevância, mas de efeito viral.

Isso tudo, diga-se, no circuito autodesignado “progressista”. Trata-se, miseravelmente, do mesmo protocolo observável nas hostes bolsonarianas e na comunicação de guerra de Steve Bannon: joga-se para a plateia, como o faz Luciano Huck, explorando a miséria humana, num espetáculo degradante de contemplação ‘freak’, cafona e vulgar.

Existem até aplicativos que oferecem as palavras mais “quentes” do momento, levando esse subjornalismo a entrar na ciranda do algoritmo ao mesmo tempo em que, hipocritamente, o critica.

A linguagem não é um compêndio de regras

Tudo isso é transitório e apenas desvela o sintoma máximo do colapso de sentidos que se alastra pelo mundo do comentário: a morte de uma linguagem.

Nessa transição, usa-se recursos obsoletos para reger textos-autópsia e roça-se métodos falsamente inovadores para mergulhar fundo na mediocridade da repetição incessante do mesmo.

É pilotar uma Ferrari como se fosse um fusca – com o perdão da analogia pequeno-burguesa.

Permita-me humildemente dizer: o usuário de rede, como sói acontecer com espécimes humanos, gosta de significado, não do significante – ou: o que nos torna humanos é o sentido, não sua forma bruta (que, isolada, é apenas um rastro formal e opaco).

Admitamos: a lalia jornalística se assustou com a pletora enunciativa das redes sociais. Um textão anônimo de Facebook é muito mais amplo, complexo e necessário do que um artigo bem comportado alçado ao panteão do colunismo de vitrine.

Toda essa injunção história do velho contra o novo é, a despeito de ser traumática e enfumaçada, saborosa. Pesquisadores da linguagem e do sujeito deitam e rolam com distúrbios, sintomas, cegueiras e autoindungências – por isso, gostamos de ver até a polida cena degradada da interpretação e confecção de texto, confinadas no mundinho do certo/errado.

O movimento de manada está muito mais associado àqueles que gozam de posições institucionais e estudo formal (os gloriosos ‘funcionários do mês’) do que à massa que busca sua significação histórica ‘sentindo’ os fenômenos sociais e tecnológicos que os cercam.

Essa institucionalidade pesada e obsoleta, que ainda perdura nas democracias, nos credos, nas corporações, na justiça e na imprensa, busca a todo custo negar o ‘novo’ (um ‘novo’ específico, sem dúvida) e taxá-lo como ameaça.

Percebe-se, a contento, que o mundo da normatização trata, concretamente, da perpetuação de poderes, não de seu estilhaçamento democrático, que dá voz à uma extensão social muito mais ampla e virtuosa (porque verdadeiramente coletiva e espontânea).

Um tutorial de youtuber sobre qualquer produto disponível no mercado, por exemplo, tem uma qualidade crítica e técnica infinitamente melhor do que qualquer manual de instrução – além da dimensão do afeto interlocutório, componente imprescindível a todo e qualquer processo de significação digno de atenção.

Essa é a dimensão da diferença entre um texto institucionalizado, ardendo a regras do ‘bom jornalismo’, e um mero tuíte que deflagra um fenômeno de sentido muito mais denso e corrosivo, não importando se para o bem ou para o mal.

Resta mencionar um exemplo político dessa convivência sempre turbulenta entre novo e velho e suas respectivas denegações. O movimento político que reveste o Brasil nesta janela histórica de 20 anos é exatamente decorrente desse fenômeno.

O efeito-Lula

A elite financeira brasileira, normativizada e severamente limitada nas suas formulações teóricas de turno, viu-se encurralada por um metalúrgico que ensinou um país inteiro a pensar com a própria cabeça.

Essa elite viu um trabalhador, sem o estudo formal, tornar-se o maior realizador de políticas para a ampliação do… Estudo formal (pode parecer paradoxal, mas não é).

Essa elite viu um torneiro-mecânico abrir uma fenda sutil na estrutura das democracias capitalistas e introduzir um elemento novo na discussão macroeconômica: o ser humano.

Essa elite viu um sindicalista ser o responsável pela maior expansão econômica de um país continental, associada à inclusão social e distribuição de renda – sem afetar os lucros dos bancos e dos grandes empresários.

Ora, diriam uns, por que esse ‘gênio’ da macroeconomia e inclusão social não taxou, então, esses ganhos estratosféricos do empresariado? Porque ele é mais gênio do que essa significação rasteira de ‘genialidade’, oriunda da semântica prejudicada de nossa elite, intelectualmente inerte de tão bem alimentada.

A resposta é: se se erodisse um milímetro o lucro desses empresários subdesenvolvidos, todo o processo de inclusão social, distribuição de renda e acúmulo soberano de capital estaria comprometido (eles são vingativos, como a história recente confirmou).

A genialidade de Lula atende pelo nome de ‘pacifismo’. Sem a domesticação do estudo formal, ele pôde ousar e impor uma lógica espontânea, intuitiva e consistente de orquestração gerencial (lembrando que a intuição não acontece se seu portador não estiver conectado às realidades sociais de turno).

Lula sempre foi e continua sendo o ‘novo’, a possibilidade real de se produzir sínteses virtuosas de maneira incessante, sobretudo por ele não ser um ente político que perambula dentro da caixinha infame do bom comportamento elitista.

No primeiro segundo que a tradução corrente das novas tecnologias de comunicação e produção de texto chegarem ao conhecimento de Lula, ele formulará uma nova política de inclusão, desta vez, não mais meramente social, mas sim ‘operacional’, para que cidadãos-usuários de rede usem todo o seu potencial para gerar riqueza e soberania.

Lula é um gerador nato de riqueza e soberania. Antes mesmo das redes sociais, ele sintetizou e vocalizou a voz de milhões em seu discurso, na forma e no conteúdo. Sua palavra reverbera não porque ele tem seguidores, mas porque sua voz é forjada no tecido mesmo da coletividade social em todo o seu espectro polifônico.

Por isso Lula viaja o país sem parar, por isso Lula conversa com todos sem cessar, por isso Lula resistiu a todos os golpes que lhe tentaram impingir.

Por isso, ele é o preso político mais importante do planeta e da história: porque essa prisão significa a resistência a novas práticas políticas que varrem os nichos autoproclamados e privilegiados de poder e, ainda, instalam o protagonismo insinuante e afetuoso do povo soberano.

Lula mostrou ao mundo o que, de fato, é democracia, em um momento, talvez, em que o próprio mundo não estivesse preparado para receber essa lição – o Brasil, nem se fala.

É por isso que o processo de libertação de Lula é o processo de libertação de todos nós, dessas amarras que nos empurram de volta para um passado violento, excludente e individualista.

Lula nos deu a liberdade em um momento em que não estávamos preparados para ela. Agora, ele nos oferece a possibilidade de liberdade plena, uma vez que poderemos nos libertar em conjunto: ele de uma pena injusta e nós, de um aprisionamento atávico, estrutural, classista e intelectual.

Não há parâmetros para a monumentalidade subscrita na biografia de Lula. Ela transborda humanidade por todos os poros, por todas as reentrâncias, por todas as imperfeições.

Lula é o maior professor da história deste país. Ele nos ensinou a ser gente.

Fonte: Brasil 247

(14-10-2019)