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Uma nova aldeia indígena no contexto urbano

Queridas irmãs e irmãos,

Aqui no grande Recife, neste início de janeiro, a novidade maior foi que irmãos e irmãs indígenas de vários povos que viviam na área urbana de Recife decidiram se juntar, ocupar um terreno que estava desocupado e dar assim início a um território que pode ser uma reserva indígena para os muitos/as indígenas que viviam na diáspora nesta região metropolitana. 

Desde o início de janeiro, 60 famílias pertencentes a vários povos originários do Nordeste, Brasil e Abya Ayla ocuparam um terreno próximo ao antigo engenho Monjope no município de Igarassu (norte do Estado de Pernambuco) mais ou menos a 30 quilômetros da capital. O terreno pertence à prefeitura e esta não quer ceder o terreno aos índios e já obteve a liminar de reintegração de posse contra a comunidade.

A retomada é formada por membros de vários povos indígenas que promoveram uma “emergência étnica” e formaram o povo “Karaxuwanassu”, assim como se organizam através da “Associação dos Povos Indígenas em contexto urbano” (ASSICUKA). Além de muitos dos povos originários de Pernambuco há várias famílias do povo Warao que vieram da Venezuela e também participam dessa reserva indígena que precisa da nossa solidariedade e do nosso apoio para se manter e ver seus direitos de existência respeitados.

A comunidade se organiza de acordo com as culturas e tem um conselho presidido por uma liderança escolhida por todos, liderança política (cacica) e liderança religiosa (pajé).

O que podemos fazer para apoiar?

1 – Penso que, antes de tudo, divulgar essa notícia e manifestar apoio popular para que da noite para o dia a prefeita não possa cumprir sua ameaça de despejar a todos e todas da área.

2 – Seria bom articular grupos de apoio nas diversas áreas. No campo político, jurídico e principalmente popular.

O nosso contato é através de Daniel Ribeiro, jovem advogado do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que está acompanhando a comunidade (Telefone e zap 81 – 9 8198941-1441).

(21/01/2023)

Discipulado e Missão na Diocese de Pesqueira: A contribuição dos Missionários e Missionárias inculturados

Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os escolheu e os enviei, para que vocês vão e dêem fruto e este fruto permaneça (Jo 15, 16) 

Ao longo desses mais de cem anos – e mesmo bem antes deste período -, nossas gentes têm contado com o anúncio do Evangelho, no chão da diocese de Pesqueira, graças a dedicação, de ontem e de hoje, de muitos missionários e missionárias. Dentre os anunciadores da Boa Nova – homens e mulheres -, na experiência missionária vivenciada em nossa região, incluem-se  discípulos e missionários não nascidos no Brasil, vindos de diferentes países, que se inculturaram na  realidade do nosso povo, em especial os mais pobres.

Cada qual à sua maneira, esses missionários e missionárias, tendo deixado sua terra, sua família e seu povo, responderam generosamente à vocação de anunciar testemunhar a Boa Nova, doando-se à causa do Reino de Deus, enfrentando sucessivos desafios econômicos, políticos, culturais, psicológicos, inclusive ao interno da própria Igreja. Rendendo  um tributo a esses missionários e missionárias inculturados na vida eclesial de nossa Diocese e em outras comunidades vizinhas, rememoramos figuras de missionários e missionárias de várias Congregações Religiosas (masculinas e femininas): Oratorianos, Franciscanos, Doroteias, Redentoristas, Padres ’’fidei donum’’, sem esquecermos também a contribuição oferecida por irmãos e irmãs de outras confissões,como os Menonitas, só para citar alguns  exemplos, a título de ilustração.

Justamente neste ano,estamos a comemorar também os 50 anos do profético Documento’’ Eu ouvi os clamores do meu Povo’’, assinado por 11 Bispos nordestinos e 8 Superiores Religiosos do Nordeste. Dentre os signatários do mesmo texto, figuravam Dom Hélder Câmara, Dom José Lamartine Soares (respectivamente Arcebispo e  Bispo Auxiliar de Olinda e Recife), Dom Antônio Batista Fragoso (Bispo de Crateús -CE), Dom José Maria Pires (Arcebispo da Paraíba), Dom Francisco Austregésilo de Mesquita (Bispo de Afogados de ingazeira), Dom Severino Mariano de Aguiar (Bispo de Pesqueira), além de outros signatário Bispos e Superiores religiosos do nordeste. Acerca deste Documento, já tivemos a oportunidade de escrever algumas linhas (cf. https://textosdealdercalado.blogspot.com/2016/07/eu-ouvi-os-clamores-do-meu-povo-um.html) . Dadas as circunstância Históricas da época-em plena Ditadura Civil Militar, em seu período mais tenebroso, sob o General Médici-, este texto de 24 páginas comporta uma corajosa denúncia  profética,por meio de uma análise percuciente das condições de  emprobremesimento da maioria da população nordestina, agravadas pela sistemática perseguição, numerosas prisões e torturas de parcela de significativa de nordestino e brasileiros. Rememorar este Documento constitui também um dos objetivos  de nossa proposta.

Retornando ao foco de nossa Proposta-celebrar a memória de Missionários e missionárias inculturados à nossa realidade-,e não podendo, nestas breves linhas, rememorar detalhadamente cada um – cada uma – desses discípulos missionários, tratamos pelo menos de destacar aspectos  dos que nos impactam pela sua notória contribuição e testemunho da causa libertadora do povo dos pobres, em nossa região.

Em meados dos anos 60, por exemplo, contamos com a presença profética de Pe. Joseph Servat (o querido Pe. José Servat), dedicado missionário que cumpriu um denso serviço profético junto aos trabalhadores e trabalhadoras do campo em todo o Nordeste, inclusive da Diocese de Pesqueira. Francês de nascimento, ele chega ao Brasil, dirigindo-se ao Nordeste a convite de Dom Helder Câmara, em nome da Arquidiocese de Olinda e Recife. Notamos que nesta época, o Brasil estava impactado pela desventura do golpe de Estado perpetrado por forças empresarial-militares, inaugurando a tenebrosa Ditadura empresarial-militar que infelicita o Brasil durante longos 21 anos. Justamente em 1975, quando a ditadura militar recém-instalada havia desmontado, pelas perseguições e prisões, diversos membros da Ação Católica Especializada (JAC, JEC, JIC, JOC, JUC), é que Pe. Servat recebe a incubencia que, junto com alguns Padres, a exemplo do Pe. José Maria da Silva, da Diocese de Pesqueira, que estava respondendo a um IPM (Inquérito Policial Militar) perseguido que estava sendo pelo seu trabalho de Assistente da Jac (Juventude Agrária Católica), de prosseguir aquele trabalho de resistência, por outra via. É assim que, com o trabalho perseverante e conjunto com trabalhadores e trabalhadoras do campo, em várias Diocese do Nordeste, o Pe. Servat se empenha, com persistência, em semear novas sementes de resistência à Ditadura Militar, por meio de um plano de atividades organizativas, formativas e de mobilização dos camponeses e camponesas, especialmente na zona canavieira, mas também em várias microrregiões do Nordeste.

A respeito de Padre José Servat vale a pena conferir uma longa entrevista que ele concedeu ao Professor Antônio Montenegro que,reunindo mais outras quatro entrevista sobre missionários ”Fidei Donum” que atuaram no Nordeste,fez publicar no livro intitulado “ Travessia” (pela Companhia Editora de Pernambuco).

Outra figura veneranda de Missionário atuante na Diocese de Pesqueira  foi o Padre Armando Biehl. Ele atuou em nossa Diocese, na Paróquia de Jataúba, desde 1973, durante vários anos. Ele veio da França, onde havia acumulado longa experiência de  Missionário e de peregrino,tendo feito peregrinação (a pé), da França a Palestina. Vindo para o Brasil, trabalhou inicialmente na zona canavieira de Sergipe, onde travou conhecimento com um jovem casal de agricultores da região: Paulo Carlos de Sousa e Nadja de Sousa – a quem adotou como filho. Nos inícios dos anos 70, a convite de Dom Severino Mariano de  Aguiar, então Bispo Diocesano de Pesqueira, chegaram a Jataúba Padre Armando, Paulo (primeiro Diácono Permanente de nossa Diocese,ordenado em 1973), Nadja e seus primeiros filhos.

A principal marca da ação Missionária de  Padre Armando como também de Paulo e Nadja – foi sua profunda inserção na organização e formação de dezenas de Comunidades do campo, na área rural de Jataúba, bem como de sua integração nas ações pastorais conjuntas das Comunidades das Dioceses de Pesqueira, Caruaru e Garanhuns.  Com efeito, desde meados dos anos 70/inícios dos anos 80, graças ao trabalho conjunto de coordenação das comunidades de Caruaru, Garanhuns e Pesqueira, por meio de distintas atividades organizativas e formativas, em especial por meio dos encontros anuais mais conhecidos como “o Natal das Comunidades” dos quais entre as figuras de referência destacamos o Pe. Pedro Aguiar (Caruaru), Frei Juvenal (Garanhuns) e Pe. Reginaldo Mazzon (Pesqueira).

As comunidades rurais de Jataúba, além da sede da Paróquia, ainda hoje dão testemunho do denso legado do Pe. Armando Biehl, que em conjunto o Diácono Paulo e sua esposa Nadja, percorriam frequentemente todas essas comunidades, seja em função dos trabalhos litúrgicos, seja em função do acompanhamento de suas organizações populares e sindicais. Não surpreende, a este propósito, o depoimento prestado pelo Prof. Francisco de Assis Batista, da UEPB/Campina Grande, ao revelar que, em suas andanças pelo Cariri paraibano, em especial por São João do Tigre, teve acesso a um livro de Atas do Sindicato Rural de São João do Tigre, na qual consta Assinatura como visitante do Pe. Armando Biel. Vários outros testemunhos foram igualmente prestados pela gente pobre daqueles sítios, a exemplo do depoimento prestado pelo missionário leigo Zé Duda, que destacava a capacidade de serviço e de humildade do Pe. Armando, contando até que o Pe. Armando, ao visitar o seu sítio, se dispunha a fazer a limpeza dos ambientes da casa,inclusive recolhendo os penicos e jogando fora o conteúdo.

Dentre tantos Religiosos e Religiosas e Missionários que atuaram em nossa Diocese – Franciscanos, Doroteias, Redentoristas e de outras Congregações-, os redentoristas, Congregação à qual também pertence Dom José Luiz Salles, atual Bispo Diocesano de Pesqueira, tiveram um papel relevante, valendo lembrar a atuação de vários deles: Os holandeses Pe. Jaime, Pe. Estevão, Pe. Antonino, Pe. Gabriel, Pe. Frederico, os últimos dos quais com atuação em Garanhuns e nos vizinhos municípios paraibanos São Sebastião do Umbuzeiro, Camalaú, São João do Tigre, sempre com notável dedicação profética à causa libertadora dos empobrecidos. Ainda dentre estes, cumpre ressaltar a atuação missionária específica de Pe. Estevão, que se ocupava do trabalho missionário, de formação e de promoção dos Direitos Humanos, tanto nas comunidades rurais, quanto nas comunidades da periferia urbana da Paróquia de São Cristóvão em Arcoverde.

Acerca da atuação Missionária de Pe. Estevão, em conjunto com Pe .Jaime, vale destacar pelo menos duas de tantas iniciativas por eles protagonizadas:

– O bom uso das instalações paroquiais especialmente do Salão dedicado, inclusive a formação e à oferta de cursos e análises da conjuntura socio-eglesial;

– O funcionamento regular, por anos a fio, do Boletim “O’Redentor Informa’’, utilizado não apenas para a circulação de notícias das comunidades Paroquiais, mas também como espaço de análise e reflexão crítica sobre a realidade socio-eglesial;

– A animação permanente das comunidades rurais da Paróquia;

– A colaboração e a solidariedade prestadas ao Centro de Defesa dos Direitos Humanos – CDDH -, inclusive em defesa do povo Indígena Kapinawá, no Município de Buíque – PE, bem como em apoio aos trabalhadores e trabalhadoras rurais ocupantes da fazenda caldeirão, no Município de Pedra – PE.

Diversos Padres “Fidei Donum” que atuaram em nossa Diocese, desde meados dos anos 60. Dentre eles: Padre Giovanni Toniutti, Pe. Bruno D’Andrea, aqui chegados em 1965, seguidos por outros, inclusive pelo Pe. Mario Marangon. Mas, pelas razões acima apresentadas queremos destacar a figura do Pe. Reginaldo Mazzon, que continua até o presente, já contando com 59 anos de trabalhos missionários no Brasil, entre a Bahia (Diocese de Feira de Santana – BA, por exemplo), e em nossa Diocese desde inícios dos anos 70, sempre acompanhando as Comunidades Eclesiais de Base.

Pe. Reginaldo, hoje com seus bem vividos 87 anos, estará completando, no próximo dia 30 de junho, 60 anos de ordenação presbiteral, dos quais 59 anos a serviço do povo nordestino, especialmente na Diocese de Pesqueira, onde atuou como Pároco-Vigário em várias Paróquias: Paróquia de São Pedro (Belo Jardim), Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (Sertânia), Paróquia de (Poção), Paróquia de Mimoso, e atualmente a serviço das CEBs diocesanas sempre em trabalho conjunto com as CEBs da Diocese de Caruaru e a Diocese de Garanhuns. Ele também segue atendendo a múltiplos convites de serviço sacramental, em especial para o Sacramento da Penitência, convite feito por diversos colegas Padres, inclusive junto ao Santuário da Divina Misericórdia, em Serra das Varas (Arcoverde -PE), pelos Franciscanos, na Paróquia da Imaculada Conceição, em Pesqueira, e pelo Pároco da Catedral. A seguir, cuidamos de destacar seu trabalho específico junto às CEBs. Desde o início de sua atuação missionária, empenhou-se em participar ativamente dos trabalhos de organização das CEBs. Ainda nos anos 70, juntou-se ao esforço interdiocesano (Caruaru, Garanhuns e Pesqueira) de caminhada das CEBs, por meio da realização de diversas atividades, das quais vale ressaltar.

  • Em tempos de grande estiagem como durante o período de 1969-1983, já a serviço das CEBs compôs a equipe que foi participar, em Caucaia – CE, de um relevante Seminário organizado pelo Regional Nordeste da CNBB, em busca de pistas de enfrentamento da grande estiagem. Da caravana participante deste Seminário fizeram parte,além do Pe. Reginaldo,também Pe.Pedro Aguiar, Irmã Maria Emelia Ferreira, entre outros;

  • A Participação e a animação do Natal das Comunidades,celebrado há mais de 40 anos pelas comunidades pertencentes às Dioceses de Caruaru, Pesqueira, Garanhuns, iniciativa que consta de um programa realizado,ao longo do ano,por essas comunidades,do qual a Novena do Natal constitui uma das atividades centrais. Novena elaborada em mutirão pelas equipes das três Dioceses;

  • Pe.Reginaldo acompanhado de nossa Coordenação diocesana de CEBs,têm comparecido, com frequência, aos encontros interdiocesanos,geralmente realizados no Santuário das Comunidades,no Sítio Juriti,a 5 km de Caruaru;

  • Juntamente com os demais membros da Coordenação  Diocesana das CEBs, Pe.Reginaldo anima presencialmente as reuniões e os encontros,desde sua preparação, seja em Pesqueira,seja em Belo Jardim, seja em Jataúba,seja em Sertânia, etc;

  • Também constam da agenda de nossas CEBs os preparativos e a participação nos Encontros Intereclesiais das CEBs, inclusive para o próximo:XV Intereclesial, a acontecer, em julho próximo, em Rondonópolis – MT.

  • Nunca é demais lembrar nosso reconhecimento e gratidão,não apenas a estas figuras aqui destacadas,como também a tantas pessoas anônimas que têm dedicado sua vida ao Reino de Deus e sua justiça, em nossa Diocese e em nossa Região.Por meio desses Missionários e Missionárias inculturados no meio do nosso Povo,nosso objetivo é o de fazer memória do Discipulado e da Missão, em meio aos pobres de nossa Região.

João Pessoa, 25 de Janeiro de 2023

Festa litúrgica da conversão de São Paulo.

Democracia enfraquecida: é preciso superar as lógicas parciais, afirma o Papa

Por Bianca Fraccalvieri

Em audiência ao Corpo Diplomático, Francisco citou o Brasil ao manifestar sua preocupação com o enfraquecimento da democracia. “Sempre é preciso superar as lógicas parciais e trabalhar pela construção do bem comum.”

Guerra, vida, liberdade e democracia: estes foram os temas tratados pelo Papa Francisco ao receber em audiência os embaixadores acreditados juntos à Santa Sé, para o tradicional encontro de felicitação de Ano Novo.

Nesta ocasião, o Pontífice faz um articulado discurso analisando os temas mais candentes para a comunidade global. Antes de iniciar, Francisco agradeceu pelas mensagens de condolências que recebeu por ocasião da morte de Bento XVI e pela solidariedade manifestada durante as exéquias.

Como fato eclesial marcante, Francisco citou a decisão da Santa Sé e da República Popular Chinesa de prorrogar por mais dois anos o Acordo Provisório sobre a nomeação dos bispos. “Espero que esta relação de colaboração se possa desenvolver em prol da vida da Igreja Católica e do bem do povo chinês.”

A imoralidade das armas atômicas

Mas o fio condutor do pronunciamento do Papa foi a Encíclica Pacem in terris de São João XXIII, que está completando em 2023 sessenta anos de sua publicação. Neste texto, consta a preocupação com a ameaça nuclear durante a crise dos mísseis de Cuba – ameaça que se repete ainda hoje. “Não posso deixar de reiterar, aqui, que a posse de armas atômicas é imoral.” “Sob a ameaça de armas nucleares, todos somos sempre perdedores!”, completou.

Aprofundando a III guerra mundial em andamento, Francisco citou primeiramente a Ucrânia, reiterando seu apelo “para que se faça cessar imediatamente este conflito insensato”. Mas nomeou ainda a Síria, Israel e Palestina, Líbano, o Cáucaso, o Iêmen, Mianmar e a península coreana. Falando da África, mencionou as nações da costa ocidental, e recordou a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul, dois países que visitará daqui poucos dias.

As viagens de 2022 também foram recordadas. No Bahrein e no Cazaquistão, o tema foi o diálogo inter-religoso. No Canadá, a colonização ideológica. Em Malta, o naufrágio da civilização ao lidar com o tema da migração.

Mulheres não são cidadãos de segunda classe

Fica então a pergunta: num tempo assim conflituoso, como reatar os fios de paz? Para São João XXIII, a paz é possível à luz de quatro bens fundamentais: a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade.

Estes bens vêm à tona respeitando os direitos humanos e as liberdades fundamentais de cada pessoa. Mas não é o que acontece às mulheres, por exemplo, em muitos países consideradas cidadãos de segunda classe. Não é o que acontece aos nascituros, que encontram a morte no ventre materno. “Ninguém pode reivindicar direitos sobre a vida doutro ser humano, especialmente se inerme e desprovido de qualquer possibilidade de defesa”, recordou o Papa.

O direito à vida é ameaçado também onde se continua a praticar a pena de morte, como está acontecendo nestes dias no Irã, na sequência das recentes manifestações que pedem maior respeito pela dignidade das mulheres. Até o último momento, disse o Papa, a pessoa pode mudar e se converter, fazendo seu enésimo apelo para que a pena de morte seja abolida nas legislações de todos os países da terra.

Cristianismo incita à paz

A paz exige também educação, antídoto contra a ignorância e o preconceito, e liberdade religiosa. “Em cada sete cristãos, um é perseguido”, recordou Francisco. “O cristianismo incita à paz, porque estimula à conversão e ao exercício da virtude.”

Retomando o tema de sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, o Papa reafirmou que “juntos, pode-se fazer muito bem! Basta pensar nas louváveis iniciativas destinadas a reduzir a pobreza, ajudar os migrantes, contrastar as alterações climáticas, favorecer o desarmamento nuclear e prestar ajuda humanitária”.

A propósito do cuidado da “casa comum”, o Pontífice citou a adesão da Santa Sé à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, com a intenção de dar o seu apoio moral aos esforços de todos os Estados para cooperar numa resposta eficaz e adequada aos desafios colocados pela alteração climática.

Enfraquecimento da democracia

Antes de concluir, Francisco manifestou sua preocupação com o “enfraquecimento” da democracia, cujo sinal são crescentes polarizações políticas e sociais, que não ajudam a resolver os problemas urgentes dos cidadãos.

“Penso nas várias crises políticas em diversos países do continente americano, com a sua carga de tensões e formas de violência que exacerbam os conflitos sociais.” E o Papa citou três países: Peru, Haiti e, nas últimas horas, o Brasil. “Sempre é preciso superar as lógicas parciais e trabalhar pela construção do bem comum.”

“Senhoras e Senhores, seria maravilhoso que, ao menos uma vez, pudéssemos encontrar-nos apenas para agradecer ao Senhor Todo-Poderoso pelos benefícios que sempre nos concede, sem nos vermos constrangidos a enumerar as situações dramáticas que afligem a humanidade.”

Este é o papel da diplomacia, que deve aplanar os contrastes para favorecer um clima de mútua colaboração e confiança. Para Francisco, é ainda mais do que isso, é “um exercício de humildade, pois exige sacrificar um pouco de amor-próprio para entrar em relação com o outro a fim de compreender as suas razões e pontos de vista, contrastando assim a soberba e a arrogância humanas que são a causa de toda a vontade beligerante”.

A Santa Sé mantém relações diplomáticas com 183 países. A estes, acrescentam-se a União Europeia e a Soberana Militar Ordem de Malta.

Fonte: Vatican News

Para retomar nossa vocação profética

Neste 2º Domingo do Advento, o evangelho lido nas comunidades, Mateus 3, 1 – 12 nos traz a figura de João Batista como quem primeiro anuncia e testemunha a vinda do reino de Deus, ou dos céus, como diz Mateus.

Para Mateus, quem começou o evangelho foi João Batista, profeta de Israel. João revela que a mensagem do reino é comum aos dois testamentos. Não há solução de continuidade. O fio condutor é o profetismo, a capacidade de ver os sinais do reino e fazer a vontade do Pai para que o reino e sua justiça sejam sempre a prioridade. Em Mateus, Jesus representa a verdadeira realização do Judaísmo: a plenitude da lei e dos profetas.

As palavras de João pedindo conversão e justiça (e não apenas ritos), são atuais. Ele pede arrependimento, conversão. Esse apelo: “Arrependei-vos, o reino dos céus está chegando” (Mt 3, 2). O original grego diz: “Mudem de mente(metanoiete), porque o reino divino acabou de chegar (em grego: eggiken). Alguns textos traduzem como “está perto ou próximo”. Só se for geograficamente porque em termos de tempo, conforme esse evangelho, já chegou. E só Mateus diz isso. Já chegou!

Afirmar que o reino já chegou, mesmo quando vivemos na realidade social e política, uma situação oposta ao projeto divino, é uma profecia corajosa. É subversiva em relação a todos os impérios e aos nossos costumes e convenções costumeiras. Naquele tempo, afirmar que o reino de Deus já chegou era negar o poder do império. E o evangelho afirma isso no tempo em que o Império Romano era mais poderoso e atuante.

Hoje, o que significa afirmar que o reino de Deus já chegou? Como podemos afirmar que esse reino chegou, se o mundo parece caminhar na direção contrária ao reino? Qualquer pessoa pode ver que, que tanto na Igreja Católica, como em Igrejas evangélicas e pentecostais, muitos ministros e grupos cristãos se fecham em uma forma de religião narcisista e auto-referencial, descomprometida com a profecia do reino como transformação do mundo.

Ao contrário disso, o reinado divino pede antes de tudo conversão, isso é, “voltar atrás” e regressar a uma relação de aliança de fidelidade e compromisso com Deus. Mais tarde, o próprio Jesus vai dizer: “Não é quem me diz: Senhor, Senhor, que entra no reino, mas quem, de fato, realiza a vontade do Pai”(7, 21). De qualquer modo, João acolhe a todos e não se considera ele mesmo como realização das profecias. Ele vê as profecias realizadas na pessoa do Cristo, que vem após ele.. Esse “virá após mim”(v. 11) significa que o Cristo o seguirá como discípulo.  Jesus se insere na história como discípulo de um profeta e é acolhido pelo povo como profeta. Também nós, se somos verdadeiramente cristãos,  temos de ser discípulos do profeta Jesus e viver o profetismo que nos é pedido.

Para revitalizar o profetismo, Joao Batista se coloca no deserto entre o rio Jordão e a terra prometida. É o lugar da antiga conquista da terra e do Êxodo. Foi pelo rio Jordão que, segundo a Bíblia, os hebreus entraram na terra prometida (Js 3, 14- 17). Então, o Jordão tem uma dimensão simbólica na história de Israel. Era como se, ao ser mergulhado/a naquele rio, (batizada), as pessoas e comunidades passassem de um império do mal (de Roma) ao reinado divino. A palavra usada para significar “banho” (miqweh) tem duplo sentido: banho e esperança. Daí que o batismo de João podia ter um sentido de anúncio do Reino futuro.

Hoje, podemos atualizar isso dizendo: Só se vive um cristianismo profético retomando uma espiritualidade sócio-político libertadora. Só assumindo as causas da libertação, podemos ser profetas como João Batista e como Jesus e, assim viver o Advento como tempo de retomada da expectativa do reino.

Assumir as causas da libertação, nós assumimos junto com todos os movimentos sociais e partidos de esquerda que lutam pela transformação do país e do mundo. No entanto, talvez alguém de vocês me perguntem se não há algum diferencial nessa profecia do reino que é a nossa, ou seja, a profecia propriamente cristã.

Não parece que Jesus tenha se preocupado com isso. Ele quis, ele  mesmo se inserir no caminho da esperança e do movimento profético. No entanto, sem dúvida, há algo de próprio e de novo neste anúncio de João Batista sobre o batismo (mergulho) nessa vida nova. A vida nova que propomos para o mundo tem de começar por nós mesmos que devemos nela mergulhar (ser batizados).

Profetas como Isaías, Jeremias e Oséias apresentam a aliança do Senhor como um casamento de Deus com o seu povo. Agora, João diz que o povo rompeu com este casamento e Jesus é o Casamenteiro que vem reatar este casamento de Deus com o povo. No evangelho, João afirma que não precisará desatar as sandálias de Jesus porque Jesus representa Deus, o Esposo da humanidade. Por isso, João Batista fala do gesto de desatar as sandálias dizendo que não é digno de desatar as sandálias do Messias. É uma imagem que remete à cultura patriarcal da sociedade israelita antiga, mas comparar a  aliança com Deus com a intimidade do casamento pode ser atual. Temos de redescobrir como viver uma fé profética, que se expressa no compromisso social e político transformador e, ao mesmo tempo, se renova na relação carinhosa e afetuosa da relação de intimidade com Deus.

(03/12/2023)

Oitava do Natal – A Palavra Divina se faz carne em nossas coletividades

Oitava do Natal 

(Festa de Maria Mãe de Deus) – Lc 2, 16-21

Na Liturgia deste tempo de Natal, se repete muito esta palavra do Evangelho: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). É o evangelho lido durante o dia 31 de dezembro. É o nosso modo de reconhecer a presença divina na pessoa do homem Jesus de Nazaré.

Dom Pedro Casaldáliga pedia para que alargássemos o mais possível a compreensão dessa verdade de fé. Ele afirmava: “O Verbo se fez índio”. “O Verbo se fez carpinteiro na oficina de José”. Isso significa que o Cristo, como Palavra de Deus assume nossas realidades, nossas famílias, nossas culturas.

Até que ponto, você que está lendo essas linhas acredita profundamente nisso?

O nosso irmão e companheiro de comunidade Gildo Xucuru nos diz que, nestes primeiros dias do ano novo, os sábios do povo Xucuru costumam ir para a serra sagrada do Ororubá (município de Pesqueira, PE). Na montanha, passam uma noite em vigília à espera do amanhecer. Quando, no horizonte, aparece a primeira barra do dia, ao olharem o céu, dizem algo sobre o ano novo que se está iniciando. Ali, em sua sabedoria ancestral, ouvem a voz da natureza e reconhecem nela uma revelação divina sobre a vida para este ano novo.

Você interpreta isso como simples costume folclórico ou aceita como instrumento através do qual o Amor Divino fala a cada cultura? Aqui fica o convite para acolhermos as sabedorias ancestrais como expressões da encarnação do Verbo Divino que continua se fazendo carne entre nós.

Neste primeiro dia do ano, as Igrejas antigas celebram o oitavo dia da festa do Natal quando a tradição recorda a circuncisão, rito no qual, com oito dias de nascido, o menino recebe oficialmente o nome de Jesus. A partir de uma tradição antiga, a Igreja Católica dedica este dia a Maria, mãe de Jesus. De fato, independentemente dos conflitos dogmáticos de cultura grega que criaram este conceito da “Mãe de Deus”, é bom pensar que Deus se humaniza a tal ponto de ser como qualquer um de nós que teve ou tem mãe.

Contemplar em Maria, a mãe de Jesus é ver nela a imagem de toda comunidade de fé que gera Cristo em nós. Se não fosse Maria, não teríamos Jesus que nasceu de Maria. Se não fosse a comunidade de fé (a nossa comunidade), Jesus não é gerado em nós, em nossas vidas e nossa missão.

De acordo com o lecionário ecumênico, o evangelho lido nas comunidades é Lucas 2, 16- 21. Começa pelas palavras “Quando os anjos se afastaram, os pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém para ver o que aconteceu”. Parece final de festa. O extraordinário passou e agora se trata de ver a realidade. Os pastores ouviram uma palavra maravilhosa de promessa de salvação. Foram a Belém, mas o que encontraram ali foi uma realidade muito simples, muito pobre e sob certo ponto de vista decepcionante. O desafio foi ver aquela família pobre e sem teto e ver ali o começo da realização de um projeto maravilhoso de Deus.

Em nossas vidas, muitas vezes, é preciso que também os anjos tenham se afastado. Às vezes, ao ver e ouvir pessoas religiosas, temos a impressão de que vivem sempre na presença de anjos. Não se dão conta de que, no mundo em que vivemos e na cultura em que estamos, os anjos se foram embora. A missão nos envia à inserção no meio do povo, sem anjos nem sinais do céu. Só mesmo a abertura para ver a presença e atuação do amor divino no meio da vida como ela é…

Este evangelho é praticamente o mesmo lido nas celebrações da aurora e da manhã do dia 25, tenho apenas acrescentado o verso 21: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo, antes de ser concebido”.

Sabemos que o rito da circuncisão está ligado a culturas patriarcais. Consideramos a chamada circuncisão das meninas uma crueldade ainda mais violenta contra a mulher e o seu corpo. No entanto, o sentido original do rito nos ensina que, desde muito crianças,  somos tocados no que há de mais íntimo de nós mesmos, na própria identidade sexual, de modo que todo o nosso ser e nosso corpo entrem em sintonia com o mais profundo do nosso projeto de vida. Ao lembrar a circuncisão de Jesus em seu oitavo dia de vida, podemos dar graças ao ver como Deus assume a cultura humana de um povo, mesmo com seus aspectos culturais que podemos criticar (como o patriarcalismo ou o machismo).

Ao dizer que aos oito dias de nascido, Jesus foi circuncidado, o Evangelho mostra que ele se inseriu plenamente na cultura do seu povo. Ao inserir-se na cultura coletiva e pertencer ao povo judeu, ele assume seus valores e também suas limitações e lacunas. E é neste processo de inserção cultural e histórica que recebe o nome de Jesus. Ieoshuá significa “Deus é Salvação”. Hoje podemos traduzir o nome de Jesus como “Deus Amor é Libertação e Bem-viver”. E a própria vida de Jesus tornou sempre verdadeiro o nome que lhe foi dado como missão.

Hoje vivemos em um mundo no qual muita gente que diz ter fé testemunha um Deus patriarcal, violento, cruel e exclusivista, ou seja, amigos dos que lhe obedecem e inimigo dos que não seguem a lei que Ele, Deus teria imposto. Cada vez mais é preciso, seja em que religião nos situarmos, deixar claro que se cremos em Deus só pode ser um Deus que só possa amar e se é Deus nunca possa ser fonte de ódio, intolerância e exclusivismo. O irmão Roger Schutz dizia: Deus só pode amar.

De acordo com o evangelho, essa foi a missão de Jesus. Testemunhar isso seja a nossa missão neste ano novo. Há mais de 50 anos, os papas consagram o 1º de janeiro como “dia mundial da Paz”. Neste ano de 2023, a mensagem do papa Francisco para este dia tem como tema: “NINGUÉM PODE SALVAR-SE SOZINHO. JUNTOS, RECOMECEMOS A PARTIR DA COVID-19 A TRAÇAR CAMINHOS DE PAZ. Ao contemplar Maria como mãe de Jesus deixemos que, assim como este evangelho diz, também nós, como Maria, “guardemos todas essas coisas, meditando-as no coração”(v. 19).  Comecemos este ano novo com uma prece da espiritualidade indígena: “Ao despertar para um novo dia ou iniciar um caminho novo,

 olhamos para o Avô Sol  e para o Espírito presente

em todo o mundo que nos rodeia.

Não o vemos, mas cremos

que ele está ali e quer tomar conta de tudo,

através do comportamento certo que nos inspira.

 

Se trilhamos pelo lado certo do bem e do amor,

somos como os braços e as pernas do Espírito que nos move

e vai mexendo com a gente para o lado bom,

sem nem a gente notar”

(Testemunho de um velho cacique Kayapó). 

(31/12/2022)