O pesadelo judeu foi anunciado por Hannah Arendt já no início de 1948. Na época, Arendt prenunciou que poderia haver uma ruptura entre o Estado de Israel e os judeus da diáspora. Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.
A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.
Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.
Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.
O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).
Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.
Crédito: Jaber Jehad Badwan/Wikimedia Commons
No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.
Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.
Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.
Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.
O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano. Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina!
A retomada das viagens espaciais da Nasa à Lua com a missão Artemis 2 na última semana trouxe nas redes sociais comparações das fotos da Terra feitas agora pelos astronautas e as registradas há pouco mais de 50 anos, em 1972, quando os norte-americanos foram pela última vez ao nosso satélite. Um dos comentários que apareceu por aí foi de que seria possível ver nas imagens sinais claros do aquecimento global. Na de 1972 haveria muito mais gelo nos polos do que na de 2026.
De “cabeça para baixo”, em posição inversa àquela que estamos acostumados a ver o globo, as imagens trazem, no alto, a região Antártida. Com menos áreas brancas que a de 1972, parece mesmo que a Terra está com muito menos gelo em 2026.
Contrariando os princípios jornalísticos, acreditei, sem checar, que isso fazia todo sentido – afinal, sei bem que as áreas congeladas do planeta estão diminuindo – e acabei compartilhando uma dessas postagens no Instagram. Mas depois bateu a pulguinha atrás da orelha que é dever de bater em todo jornalista: “Será mesmo?” O enquadramento era diferente, poderia não ser bem aquilo.
Entrei em contato, então, com um dos maiores especialistas em Antártida no Brasil, o Francisco Aquino, mais conhecido como Chico Geleira, pesquisador do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele me explicou que não é possível comparar o gelo marinho e do continente antártico entre as duas fotos por causa do ângulo da imagem mais recente.
“Pela posição da foto mal dá para ver o gelo marinho na volta da Antártida. A posição da foto não favorece ver a Antártida, está muito no limite do horizonte da foto. Na de 1972, a posição favoreceu mesmo enxergar parte da África austral em direção à Antártida e por isso é fácil ver o gelo marinho”, afirmou.
O que não quer dizer, claro, que o problema não está lá. “Estamos batendo valores muito baixos de gelo marinho ao redor da Antártica em consequência da mudança do clima. Atingimos o mínimo de gelo no verão em 26 de fevereiro deste ano. E no inverno também temos visto valores menores de máximo de gelo”, explicou Chico Geleira.
De acordo com a Nasa, a Antártida está perdendo massa de gelo a uma taxa de 135 bilhões de toneladas por ano. A Groenlândia, quase o dobro disso: 266 bilhões de toneladas por ano, o que contribui para o aumento do nível do mar. O New York Times, aliás, publicou uma reportagem aterradora de como o mundo pode ser afetado com o derretimento da Antártida. Vale checar os gráficos aqui.
Não são poucos os indicadores que mostram como a Terra de 2026 está bem avariada, na comparação com a de 1972. A concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera saltou de 327 ppm (partes por milhão) para 424 ppm (dados de 2024), o que tem se traduzido em aumento da temperatura.
Se em 1972 a temperatura média da Terra ainda estava na média do século 20, hoje estamos falando de quase 1,5°C acima. Os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes do registro histórico. O nível do mar subiu mais de 10 centímetros nesses pouco mais de 50 anos. O aumento de ondas de calor e de eventos extremos é a face mais visível dessas mudanças.
Ainda assim, a Terra vista de fora continua sendo uma das coisas mais emocionantes das aventuras humanas pelo espaço. E um lembrete de que, apesar de chegarmos à Lua e termos planos para ir até Marte, de que talvez sejamos até capazes de montar bases habitáveis por lá, ainda este é o único planeta com capacidade de receber vida como a conhecemos. Não é papo de ambientalista dizer que não existe planeta B.
“Percebi não apenas a beleza do planeta, mas também a imensidão da escuridão ao seu redor, e como isso a torna ainda mais especial”, afirmou a astronauta Christina Koch, uma das tripulantes da missão e primeira mulher a sobrevoar a Lua.
“Isso realmente enfatizou o quanto somos parecidos, como a mesma coisa mantém cada pessoa no planeta Terra viva”, continuou. “Evoluímos no mesmo planeta, compartilhamos algumas características universais sobre como amamos e vivemos, e a singularidade e o valor disso se tornam ainda mais evidentes quando percebemos tudo o que existe ao nosso redor.”
Não foi só ela. O piloto Victor Glover, igualmente pioneiro – é o primeiro negro a viajar ao nosso satélite natural, também deu declarações muito tocantes. “Em todo esse vazio, nesse grande nada, essa coisa que chamamos de universo. Você tem este oásis, este lugar lindo onde podemos existir – juntos“, afirmou, em pronunciamento compartilhado pela Nasa no domingo de Páscoa.
Religioso, Glover evocou à Bíblia, mas pediu para que as pessoas, independentemente da crença, vissem aquilo como “uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais e que precisamos superar isso juntos”. Foi também uma mensagem pela paz em tempos de guerra.
Em 1968, quando a humanidade viu pela primeira vez a Terra do ponto de vista do espaço – a imagem clássica do “nascer da Terra” –, o astronauta Jim Lovell disse algo parecido a bordo da Apollo 8: “A Terra daqui é um grande oásis na grande vastidão do espaço”.
A imagem de 1968, que inspirou Caetano Veloso a compor Terra, é amplamente creditada como algo que impulsionou o movimento ambientalista no mundo. Já se sabia que estávamos alterando perigosamente o planeta, que ele era algo único e muito frágil nesse mundão, mas a gente ainda não tinha nem ideia do quanto.
Impossível não refletir, vendo novas fotos tão lindas e impactantes, sobre como aquela compreensão e toda a ciência gerada desde então – em grande parte com o auxílio de tecnologias de monitoramento desenvolvidas em decorrência da exploração espacial –, foram fundamentais para mostrar que o rumo está errado e para nos dar ferramentas para mudá-lo. Mas isso ainda não aconteceu. Vem bem a calhar um lembrete de quão rara é a Terra.
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Com a esperança de um futuro melhor se desfazendo para muitos nos Estados Unidos, a China começa a parecer um pouco mais atraente. (Jade Gao/AFP via Getty Images)
Para muitos nos Estados Unidos, a vida é sombria — tão sombria que alguns olham para a China e veem uma sociedade alternativa, que funciona decentemente e não permite que seus cidadãos caiam abaixo de uma “linha da morte”.
POR Seth Ackerman / Tradução de Pedro Silva / Jacobin Brasil, 31/03/2026
Amy Hawkins, do The Guardian, nos apresentou um retrato comparativo fascinante da consciência global, destacando duas tendências que se desenrolam em paralelo nas redes sociais estadunidenses e chinesas.
Em plataformas estadunidenses como o TikTok e o Instagram, “os jovens estão adentrando o mundo das maravilhas da cultura chinesa — desde beber água quente até jogar mahjong —, prática que vem com o título ‘Chinamaxxing’”, escreve ela.
Enquanto isso, na internet chinesa, “os EUA são vistos a partir de sua perda do controle que exerciam há décadas sobre o soft power, e esse controle está sendo substituído por uma tendência mais sombria: a linha da morte”.
Hawkins explica que as redes sociais, blogs e periódicos acadêmicos chineses têm, ultimamente, retratado “uma visão dos EUA como um inferno capitalista distópico”, governado pelo que um apresentador de notícias chinês chamou de “uma ‘linha da morte’ na sociedade estadunidense, onde a classe média despenca para uma subclasse”.
A linha da morte “expõe a natureza dual dos EUA: os vencedores alcançam o sucesso máximo, enquanto os perdedores caem em um abismo do qual não há retorno”.
O meme cativou tanto o imaginário chinês que, em uma coletiva de imprensa em Davos, em janeiro, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi repetidamente questionado por um jornalista da mídia estatal chinesa sobre a expressão “kill line”.
Bernie Sanders nunca se cansa de salientar que 60% dos estadunidenses vivem em um limite orçamentário, o que, por algum motivo, enfurece um certo tipo de especialista de internet. Quando publiquei sobre esse fenômeno no ano passado, ilustrei o ponto com o gráfico abaixo, que mostra que, enquanto os ricos nos Estados Unidos acumulam reservas de caixa cada vez maiores em relação à sua renda, o resto da população não conseguiu fazer o mesmo:
(Reprodução)
Como se vê, os estadunidenses são singularmente incapazes de criar reservas de poupança a partir de seus rendimentos.
Isso pode ser observado no gráfico abaixo, que relaciona a renda disponível com os ativos financeiros não relacionados à aposentadoria para famílias em cada decil de distribuição de renda e ativos, do 10º ao 90º percentil, em nove países. (Os dados são provenientes do Luxembourg Wealth Study, que harmoniza os números para torná-los comparáveis entre os países. Para os especialistas em dados, “ativos financeiros não relacionados à aposentadoria” corresponde a “ativos financeiros” [FIN] menos “contas de aposentadoria quase líquidas” [RETQLIQ] na Pesquisa de Finanças do Consumidor do Fed.)
Todos os dados são de 2018 ou 2019 (exceto para a França, que são de 2014).
(Reprodução)
Assim, por exemplo, embora a renda disponível mediana das famílias australianas seja 12% menor do que a das famílias estadunidenses, elas possuem 60% mais ativos financeiros. No Canadá, os números são: 5% menos renda e 43% mais ativos. Na Dinamarca, são 19% menos renda e 74% mais ativos. Na França, são 28% menos renda e 41% mais ativos.
Uma pista para explicar as causas desse fenômeno, pode ser encontrada no manual técnico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre estatísticas de renda disponível, que citei na minha última publicação:
Conforme o manual explica, a renda disponível exclui “bens e serviços fornecidos pelo governo que beneficiam os indivíduos, mas que são fornecidos gratuitamente ou a preços subsidiados”, que “geralmente incluem educação, saúde, assistência social, transporte e serviços culturais” […].
Essa omissão “apresenta dificuldades quando a oferta desses serviços difere muito” entre os países, porque em países onde esses gastos públicos “são relativamente escassos, será necessária uma renda maior para manter um determinado padrão de vida do que em um país onde uma ampla gama de benefícios é oferecida, considerando-se todas as outras condições iguais”.
Mas a análise estatística não serve de consolo aos adolescentes estadunidenses pobres e confinados em casa, viciados no TikTok, que só podem contemplar melancolicamente o savoir-vivre chinês através de seus pequenos portais de internet:
Enquanto os internautas na China se espantam com a ideia de um EUA assolado pela pobreza e pelo caos, para seus homólogos estadunidenses a situação é bem diferente.
Com o “Chinamaxxing”, adolescentes estadunidenses estão adotando truques tradicionais do estilo de vida chinês, como beber água quente ou usar chinelos dentro de casa. O slogan da tendência? “Você me encontrou em uma fase muito chinesa da minha vida”.
Una sensación de paz. Entereza. Pertenecimiento. El adentro y el afuera vienen siendo una sola y la misma cosa.
Fuí más lejos de lo que pensé que podría llegar.
Y el presente es una novedad que aprendo a habitar.
La Tierra Prometida, como decía el padre Comblin, está en nuestro propio corazón.
Si somos peregrinos.
Y yo soy.
No abandoné el camino del amor. Sigo esa luz intermitente.
Una historia argentina florecida en Brasil.
Sigo aterrizando en el presente.
Un presente que cada vez más me encuentra atento y despierto para una inserción social más plena, más abierta al compartir, al aprendizaje y crecimiento mutuo.
Educación permanente.
Resiliencia.
¿Qué silencio es posible hoy?
Ignorar el trayecto recorrido, sería perder lo hecho, lo aprendido.
La saturación informativa, el aluvión contínuo de noticias de carácter diverso y disperso, y no siempre confiables, confunden y apartan de un centro interior.
Como miembro de un movimiento de liberación humanizadora, que incluye el arte y la pluralidad de saberes, así como el centramiento en la experiencia, fortalezco el sentido del vivir.
Y la plenitud que por ahí vengo alcanzando, el placer de meramente estar aquí vivo y entero, no encuentro palabras para transmitir.
Se aceitar ato de Temer, STF abrirá caminho à Ferrogrão e Arco Norte, que ameaçam reduzir floresta a mar de soja. Sete mil mulheres e homens iniciaram uma marcha. Estão convencidos de que a região merece outro projeto e futuro.
Em 8 de abril, a Suprema Corte retomou o julgamento que pode resultar na redução dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, no sudoeste do Pará. Caso a ameaça se concretize, estará estabelecida base legal para a construção da Ferrogrão, uma obra que atenta contra a natureza e os direitos dos povos originários. No mesmo dia, 14 etnias indígenas do Baixo Tapajós caminharam em direção ao tribunal. Não é apenas um gesto simbólico, mas uma tentativa de intervir no cerne de uma decisão que, mais uma vez, pode ser tomada sem a presença efetiva daqueles que serão mais impactados por ela. O contraste é revelador.
De um lado, STF analisa a constitucionalidade da alteração dos limites da unidade de conservação através de medida provisória – assinada pelo então Presidente Michel Temer. De outro, povos indígenas afirmam, de corpo presente, que não há legitimidade possível quando territórios são decididos à revelia de quem os habita. Uma delegação indígena acompanhou o julgamento no interior da Suprema Corte, enquanto centenas de lideranças de diferentes povos assistiram à sessão do lado de fora, diante de um telão instalado para esse fim. O aparato de segurança no entorno do tribunal foi reforçado, evidenciando que não se trata apenas de um julgamento técnico, mas de uma decisão que mobiliza territórios na defesa de seus direitos.
Durante a sessão, no entanto, o julgamento foi adiado pelos magistrados e deveria retornar à pauta na sessão seguinte, em 9/4. Segundo informou Auricélia Arapiun em manifestação pública, as lideranças indígenas do Baixo Tapajós seguirão mobilizadas e vigilantes, acompanhando cada desdobramento da decisão.
Formalmente, o julgamento trata da constitucionalidade de uma medida provisória que reduziu os limites de uma unidade de conservação.
Materialmente, decide sobre a viabilidade de um projeto muito maior: a consolidação da Ferrogrão como eixo estruturante do Arco Norte e, com ela, a reorganização funcional da Amazônia como corredor global de exportação de commodities.
Os defensores da Ferrogrão insistem em tratá-la como obra de infraestrutura. Uma ferrovia de 933 quilômetros, conectando Mato Grosso ao Pará, destinada a reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro. Soma-se a isso o argumento recorrente da descarbonização do transporte de grãos, que sustenta a substituição de modais rodoviários por ferrovias e hidrovias como forma de reduzir as emissões gases que agravam a crise climática.
Mas essa narrativa é contestada pelos povos afetados. Como afirmou o cacique Gilson Tupinambá, em conversa na TI Tupinambá, “Se querem diminuir a emissão, parem de destruir as florestas para plantar soja”. Essa retórica desenvolvimentista mostra-se insuficiente e politicamente enviesada.
A Ferrogrão não é uma obra; é um sistema. Ela se articula com a BR-163, com portos públicos e privados, com estações de transbordo e, sobretudo, com as hidrovias do Tapajós. Segundo dados apresentados pelo GT de Infraestrutura e Justiça Socioambiental da Amazônia, no médio e baixo curso do rio Tapajós há mais de quarenta portos construídos, em operação ou previstos. O que está em curso não é apenas a instalação de uma ferrovia, mas a montagem de uma engrenagem territorial que reorganiza fluxos, redefine usos e altera profundamente o sentido da ocupação da Amazônia.
Nesse modelo, rios deixam de ser territórios vivos e passam a ser canais de escoamento. Territórios deixam de ser espaços de existência, morada dos encantados, e tornam-se plataformas logísticas destinadas ao mercado internacional.
O Tapajós, hoje, é o nome de uma disputa.
O julgamento no STF explicita um padrão recorrente na forma como grandes projetos avançam sobre a Amazônia. Não se trata apenas de construir infraestrutura. Trata-se de ajustar o território para que ela seja possível.
A redução de 832 hectares do Parque Nacional do Jamanxim, objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF, não ocorreu no vazio. Ela decorre de uma medida provisória que constitui a base jurídica necessária para o traçado da Ferrogrão. Sem essa alteração promovida pela medida provisória, o projeto encontra obstáculos legais relevantes. Com ela, ganha viabilidade.
A questão, portanto, ultrapassa o debate jurídico sobre medidas provisórias ou limites de unidades de conservação. O que está em jogo é a consolidação de um modelo em que áreas protegidas podem ser redefinidas para acomodar projetos econômicos previamente estabelecidos. E isso nos leva a uma dimensão mais profunda do conflito.
A leitura territorial permite compreender que unidades de conservação de proteção integral não são apenas instrumentos de preservação ambiental. Elas também podem operar como dispositivos de gestão geopolítica do território. Historicamente, a criação dessas categorias, especialmente em contextos pouco participativos, está associada à restrição do uso pelas populações tradicionais, à ruptura de vínculos territoriais e à erosão do pertencimento. O território passa a ser formalmente protegido pelo Estado, mas também politicamente esvaziado.
Décadas depois, esse mesmo território pode ser redimensionado, flexibilizado ou parcialmente desafetado para viabilizar empreendimentos considerados de utilidade pública, como mineração, energia e infraestrutura logística.
O que se observa, então, é um movimento de longa duração: primeiro, reorganiza-se o território sob a lógica da proteção ambiental; depois, reconfigura-se esse mesmo território sob a lógica da exploração. Nesse sentido, o caso do Parque Nacional do Jamanxim não é uma exceção. Ele revela um método.
Essa dinâmica se insere em um quadro mais amplo, a atualização de um padrão de desenvolvimento dependente. A Amazônia é progressivamente integrada a circuitos globais não como centro de decisão, mas como espaço funcional à exportação de commodities.
Infraestruturas como a Ferrogrão não apenas transportam produção. Elas induzem a expansão da própria fronteira produtiva. Estudos apontam que o conjunto de projetos associados à ferrovia pode provocar centenas de milhares de hectares de desmatamento nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, falham em garantir rastreabilidade efetiva das cadeias produtivas do agronegócio e minimizam, nos estudos oficiais, a extensão real dos impactos sobre povos indígenas, comunidades tradicionais e patrimônios culturais. Em março de 2026, o Tribunal de Contas da União suspendeu a análise da concessão da Ferrogrão ao apontar graves irregularidades financeiras e socioambientais, com destaque para a ausência de consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas potencialmente afetados pelo empreendimento.
Esses impactos socioambientais incidem diretamente sobre a economia e segurança alimentar regional. Os rios amazônicos e as florestas não são apenas paisagens, mas sistemas produtivos complexos que garantem alimentos para milhões de pessoas, por meio da pesca e do manejo tradicional. A degradação desses ambientes, seja por dragagem, contaminação ou alteração do regime hidrológico, compromete cadeias alimentares inteiras, reduz estoques pesqueiros e afeta tanto comunidades locais quanto centros urbanos que dependem desses recursos. Ao mesmo tempo, processos de contaminação por sedimentos, mercúrio e outros poluentes ampliam riscos à saúde coletiva e fragilizam a soberania alimentar desses territórios.
Há, ainda, centenas de sítios arqueológicos identificados na área de influência, incluindo locais de profunda relevância para povos como os Munduruku. Mas esses elementos frequentemente aparecem como notas técnicas, e não como fundamentos para a decisão. O território é reduzido a variável.
É nesse ponto que a questão da consulta livre, prévia e informada, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, se torna central.
Não se trata de um detalhe procedimental. Trata-se do critério mínimo de legitimidade democrática em contextos de intervenção sobre territórios tradicionais. E, no entanto, esse direito segue sendo sistematicamente negligenciado.
O episódio ocorrido no dia 07 de abril, em Brasília, é emblemático. Uma audiência na Câmara dos Deputados sobre hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins foi cancelada após a mobilização de 14 povos do Baixo Tapajós, representados por Lukas Tupinambá, que denunciaram, em manifestação pública na Câmara dos Deputados, a ausência dos povos diretamente impactados, mesmo com milhares de indígenas reunidos na cidade para o Acampamento Terra Livre 2026.
Não era falta de presença física. Era ausência de inclusão política.
O que diferencia o momento atual de outros ciclos de conflito na Amazônia é a transformação do movimento indígena em sujeito político com capacidade efetiva de incidência. Os povos do Baixo Tapajós têm demonstrado, de forma consistente, que não apenas resistem, mas produzem resultados.
Nos últimos anos, ocuparam instituições públicas, pressionaram governos, enfrentaram grandes corporações e sustentaram mobilizações prolongadas até que decisões fossem revistas. A recente revogação do Decreto nº 12.600/2025 – que privatizava as hidrovias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins — não foi um gesto espontâneo do Estado. Foi resultado direto de uma estratégia política baseada em ocupação, permanência e articulação. O que se vê no deslocamento dessas lideranças ao STF é a continuidade desse processo.
Não se trata de protesto. Trata-se de disputa. Há, no entanto, um descompasso evidente na forma como o Estado opera. Quando se trata de garantir a fluidez econômica, decisões são rápidas. Projetos avançam, normas são flexibilizadas, licenças são ajustadas.
Quando se trata de assegurar direitos territoriais, o tempo se alonga. A consulta não acontece, a participação é limitada, os protocolos são ignorados.
Essa assimetria revela uma hierarquia implícita: a economia estrutura o tempo do Estado e os direitos tentam alcançá-lo.
Enquanto tramita o processo no STF, 7 mil indígenas permanecem no ATL 2026 em Brasília, evidenciando que não são variáveis de ajuste em um projeto de desenvolvimento que nunca ajudaram a definir.
A Ferrogrão não é inevitável. A transformação dos rios em hidrovias não é o único caminho. O Arco Norte é escolha. Escolha sobre o território, sobre quem pode habitá-lo e, sobretudo, sobre quem pode decidir seu futuro. O que está em julgamento, portanto, não é apenas a legalidade de uma unidade de conservação. É a legitimidade de um modelo de poder. Diante disso, a pergunta que ecoa do Tapajós até Brasília permanece incontornável: quem tem o direito de decidir a Amazônia?
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Especialista em gestão socioambiental aplicada ao licenciamento ambiental. Foi observador da sociedade civil na COP30 e idealizador da COP dos Líderes Estudantis do Estado do Pará. Atualmente desenvolve trabalho de campo no Pará acompanhando mobilizações socioambientais e territoriais.
Duas revoluções tecnológicas distintas estão em curso, e elas competem pela nossa atenção e recursos limitados – bem como pela prioridade política. Qual caminho recebe investimento sustentado e qual permanece marginal moldará os futuros que as sociedades serão capazes de construir.
Por um lado, há a IA generativa, que alguns descrevem como uma tecnologia de propósito geral, semelhante à eletricidade ou à internet. Seus defensores afirmam que, ao automatizar tarefas no setor de serviços – onde o crescimento da produtividade há muito tempo está defasado – a IA pode tirar as economias avançadas da estagnação1, ao mesmo tempo em que reorganiza os fundamentos culturais e até cognitivos da vida humana.
No entanto, a lacuna entre a promessa e o desempenho permanece grande. Fora de aplicações restritas, os ganhos de produtividade têm se mostrado difíceis de demonstrar2. Os “agentes” de IA – sistemas concebidos para planejar e executar tarefas complexas de forma autônoma – são repetidamente anunciados, mas permanecem por se concretizar, sublinhando a falta de confiabilidade3 dos sistemas generativos em geral. E, ao contrário dos motores das revoluções tecnológicas passadas, que reduziam os custos por meio de economias de escala, a IA generativa é extraordinariamente faminta por energia4 – o que a coloca em rota de colisão com a outra transformação tecnológica da era: a transição verde.
Esta revolução também carrega o potencial de reorganizar a vida em um nível fundamental – remodelando a forma como a energia é produzida e distribuída, como as cidades são construídas, como os alimentos são cultivados. Mas, impulsionada por grandes avanços nas tecnologias solar, eólica e de baterias, a transição verde exibe uma característica definidora das revoluções tecnológicas que a IA não tem: declínios de custo rápidos e sustentados5.
O mundo em que vivemos é moldado pelas tecnologias que adotamos. As tecnologias não são meras ferramentas; elas reorganizam práticas sociais, remodelam identidades e aspirações e expandem o leque de futuros que as pessoas podem vislumbrar de forma significativa. Escolher a IA generativa ou a energia verde como o caminho tecnológico dominante alteraria profundamente a forma como vivemos e trabalhamos.
Em termos técnicos, a transição verde parece a candidata mais forte para uma revolução verdadeiramente transformadora, mas o potencial técnico por si só nunca garante a realização. Do ponto de vista econômico, aquilo que é considerado promissor não é simplesmente descoberto de forma passiva. Deve ser ativamente produzido por meio de decisões de investimento. Quais sistemas são desenvolvidos posteriormente e, portanto, quais inovações podem amadurecer em sistemas sociotécnicos, depende de como o investimento é organizado e de quem o controla.
Sob o capitalismo, esse controle está concentrado num conjunto restrito de mãos – capitalistas de risco, executivos corporativos e burocracias estatais -, cujas decisões são orientadas para a rentabilidade e a competição geopolítica. Esta concentração restringe drasticamente a gama de caminhos tecnológicos que podem ser seguidos, ao mesmo tempo em que suprime a contestação pública sobre os propósitos a que as tecnologias são feitas para servir. Libertar-se desta restrição requer mais do que uma melhor regulação de tecnologias individuais. Requer abrir as próprias decisões de investimento à participação democrática, para que futuros alternativos possam ser articulados, debatidos e perseguidos por razões que vão além da rentabilidade e da rivalidade geopolítica.
Em dois6 artigos7 na New Left Review, delineei um quadro para uma economia multidimensional concebida para libertar o desenvolvimento tecnológico dos seus grilhões capitalistas, permitindo que um leque mais amplo de pessoas e valores sociais molde os sistemas de produção. Os indivíduos receberiam créditos para usar no consumo e as empresas transacionariam em pontos para cobrir custos operacionais e adquirir insumos intermediários. Os pontos remanescentes não poderiam ser convertidos em rendimento pessoal nem retidos para financiar investimento futuro. Este sistema digital de moeda dupla bloquearia os canais por meio dos quais o sucesso de mercado atualmente se realimenta no aumento da riqueza pessoal e no controle expandido sobre o investimento futuro. Em vez disso, Conselhos de Investimento setoriais – compostos por representantes eleitos dos trabalhadores, consumidores, da sociedade em geral e especialistas técnicos – alocariam fundos de investimento dedicados entre propostas concorrentes lideradas por empresas. O investimento não geraria uma taxa de retorno monetária. O que importaria, em vez disso, seria como qualquer proposta em particular poderia melhorar os resultados sociais e a que custo. Uma Matriz de Dados aberta tornaria mais visíveis as contrapartidas (trade-offs) envolvidas na escolha entre propostas alternativas.
Evgeny Morozov criticou8 este quadro em The Ideas Letter. Ele argumenta que a IA generativa é uma tecnologia revolucionária que quebraria o modelo que proponho. A sua afirmação baseia-se numa compreensão particular da “criação de mundos” (worldmaking) tecnológica. Na sua visão, a IA é criadora de mundos num sentido mais forte do que, digamos, a energia renovável – onde o imaginário social já está em vigor e o desenvolvimento tecnológico envolve, em grande parte, inovar em torno de objetivos conhecidos. Ainda não sabemos para que serve a IA ou que formas de vida ela irá reorganizar ou inventar; seus usos e significados emergirão, argumenta ele, apenas por meio da experimentação.
A indeterminação não é exclusiva da IA. Revoluções tecnológicas anteriores – das ferrovias à eletricidade e à internet – também passaram por períodos em que as aplicações eram incertas e o investimento avançava mais rápido do que a compreensão; expansões especulativas foram seguidas de colapsos9, à medida que visões concorrentes eram testadas e a maioria falhava. A alegação de Morozov é que a IA pertence claramente a esta classe de tecnologias. Visto que o seu futuro não pode ser especificado antecipadamente, argumenta ele, ela deve ser explorada por meio de experimentação de final aberto, em vez de guiada por propósitos articulados coletivamente.
A resposta preferida de Morozov à indeterminação é a proliferação: a prossecução simultânea de muitos projetos de IA pelas cidades, cooperativas e movimentos, cada um sondando uma possibilidade diferente. Qualquer sistema de investimento organizado democraticamente que pergunte antecipadamente para que servem as tecnologias – e que aloque recursos em conformidade – obstruiria, na sua visão, o processo por meio do qual uma tecnologia como a IA poderia vir a descobrir o seu propósito. Justificar antes de explorar disciplinaria a inovação e cortaria o dinamismo experimental de que as tecnologias criadoras de mundos necessitam.
O que esta resposta contorna silenciosamente, no entanto, é o problema central da economia: como alocar recursos escassos entre usos concorrentes. As tecnologias criadoras de mundos não expandem simplesmente o espaço de possibilidade; elas também forçam escolhas sobre quais possibilidades serão perseguidas amplamente e à custa de que alternativas. Alguns dos projetos de IA que Morozov celebra – pequenas experiências no nível de empresas ou iniciativas comunitárias – exigem pouco financiamento adicional. Porém, outros – sistemas municipais de IA incorporados em escolas, clínicas ou administrações habitacionais – dependem de extensas infraestruturas de dados, trabalho técnico especializado e grandes quantidades de poder computacional e energia. Estes projetos são, inevitavelmente, intensivos em capital e recursos. Eles competem por capacidade de investimento limitada não apenas entre si, mas também com outras prioridades sociais urgentes, como a necessidade de descarbonizar rapidamente os sistemas energéticos.
Uma vez reconhecida esta restrição econômica, o pluralismo por si só já não é uma resposta adequada. No entanto, Morozov não oferece qualquer relato de quem alocaria recursos entre caminhos tecnológicos concorrentes, nem de como tais decisões seriam tomadas, avaliadas e revistas ao longo do tempo.
É aqui que a crítica de Morozov ao meu quadro falha o alvo. Ele trata a experimentação local e o controle coletivo como princípios opostos. Para sustentar esta visão, ele reinterpreta as instituições que proponho – que são concebidas para organizar o conflito político-econômico sobre decisões de investimento – como obstáculos administrativos que sufocariam o dinamismo tecnológico. Mas, estas instituições não visam suprimir a experimentação; visam organizá-la politicamente, fornecendo mecanismos para selecionar, expandir, rever e abandonar projetos concorrentes quando nem tudo pode ser perseguido ao mesmo tempo. A experimentação e a seleção política não são alternativas. São momentos complementares num único processo.
No quadro que proponho, as empresas submetem propostas de mudança tecnológica ou organizacional em grande escala a Conselhos de Investimento setoriais, que alocam fundos limitados por meio de procedimentos democráticos. Morozov argumenta que avaliar tais propostas ao longo de múltiplas dimensões – um efeito de democratizar o investimento e separá-lo da rentabilidade – operaria como uma restrição processual excessiva sobre a inovação, especialmente no caso do que ele chama de tecnologias criadoras de mundos, como a IA.
Ao ler o meu argumento desta forma, Morozov assimila-o a um modo familiar de crítica tecnológica, aquele em que sistemas como a IA generativa são criticados por viés10, insustentabilidade ou degradação da qualidade do trabalho11 e depois são sujeitos a apelos por contenção. Após uma década em que as redes sociais e os smartphones produziram danos amplamente reconhecidos que o Vale do Silício não conseguiu resolver – amplificando a distração, piorando a saúde mental, acelerando a propagação de teorias da conspiração e aprofundando a desigualdade – a resistência pública a qualquer perturbação adicional é inteiramente racional. Por que se deveria esperar que as pessoas, mais uma vez, se submetessem às experiências de engenharia sociotécnica do Vale do Silício sem qualquer garantia de que os danos resultantes serão levados a sério?
Lido por meio desta lente, no entanto, o quadro que proponho acaba por aparecer como um campo de permissão que se estreita, em vez de um espaço de possibilidade em expansão. As tecnologias disruptivas quase sempre violam as normas existentes; sob um regime em que cada violação deste tipo deve ser resolvida antecipadamente, os projetos que mudam o mundo seriam fáceis de bloquear e difíceis de realizar. É esta imagem proceduralista que leva Morozov a sugerir que, no meu quadro, Conselhos de Investimento woke domesticariam o desenvolvimento tecnológico cedo demais – forçando possibilidades emergentes a justificarem-se antes de terem tido a oportunidade de gerar novas práticas e novos significados por meio do uso.
Esta interpretação se assenta numa básica caracterização equivocada de como o desenvolvimento tecnológico se desenrola no meu relato. Eu não digo que a mudança tecnológica chega totalmente formada dos laboratórios de pesquisa e depois entra na produção sujeita à revisão do Conselho de Investimento, como Morozov sugere. Tal como no capitalismo, a maior parte da inovação no meu quadro é incremental e local, surgindo dentro das empresas e não fora delas.
Sob o capitalismo, o espaço para a experimentação ao nível da empresa é estreito. As empresas só podem inovar na medida em que prometem baixar custos ou aumentar receitas e fazê-lo da forma mais rentável possível. Mesmo quando os trabalhadores identificam formas de melhorar a sustentabilidade ou a qualidade do trabalho, tais possibilidades são tipicamente excluídas por não serem rentáveis, antes de poderem ser seriamente testadas. O blitzscaling12 pode adiar temporariamente esta restrição, mas apenas para a intensificar mais tarde: uma vez que a rentabilidade se torna imperativa, a inovação é redirecionada para a monetização, degradando produtos e serviços num processo que Cory Doctorow chama de “merdificação”13. O resultado é uma subutilização dramática da inteligência coletiva gerada por meio da participação partilhada dos trabalhadores na produção: o conhecimento tácito incorporado nas rotinas de trabalho, nos padrões de coordenação entre departamentos e na resolução quotidiana de problemas.
Uma economia multidimensional é concebida para remover este gargalo. As empresas em boa situação mantêm total autonomia sobre como gastam os seus orçamentos operacionais. São livres para reorganizar fluxos de trabalho, experimentar novas tecnologias e contratar novos fornecedores por meio de transações de mercado comuns, que não requerem aprovação prévia dos Conselhos de Investimento. Como o financiamento do investimento futuro não está vinculado à rentabilidade esperada, a experimentação pode perseguir uma gama mais ampla de objetivos. Quando são propostos investimentos de maior escala, estes precisam apenas apresentar um caso substantivo de que melhorariam os resultados sociais de alguma forma concreta, em qualquer dimensão social ou ecológica relevante.
Muita experimentação, deve-se enfatizar, não requer investimento algum – apenas um uso diferente do tempo e da atenção dentro das operações normais. Quando custos modestos estão envolvidos, estes podem ser cobertos por orçamentos operacionais comuns ou por meio das alocações diretas de fundos de investimento que as empresas recebem para manutenção regular e melhorias menores. As empresas estão também inseridas num ecossistema de inovação mais amplo – reorientado para formas multicriteriais de progresso – incluindo institutos de pesquisa, consultorias e organizações tecnológicas de base comunitária que apoiam a resolução criativa de problemas.
As propostas de investimento em grande escala entram em cena apenas depois de as possibilidades já terem sido exploradas na prática e se ter demonstrado que merecem expansão. Uma escola, por exemplo, pode experimentar livremente ferramentas de IA existentes para apoiar o ensino ou melhorar os resultados de aprendizagem, realocando tempo do pessoal ou fundos operacionais para explorar possibilidades cujo valor ainda não é totalmente conhecido. Mas, propor o desenvolvimento de uma nova aplicação de IA adaptada ao currículo de um distrito – juntamente com o hardware e o pessoal técnico necessários para a implementar em todo o sistema – é uma questão diferente. Se tal projeto custasse 20 a 30 milhões de pontos, e o orçamento anual de investimento do setor da educação fosse de 100 milhões de pontos, financiá-lo deslocaria outras prioridades.
É aqui que o apelo de Morozov à criação de mundos de final aberto (open-ended worldmaking) esbarra numa restrição inescapável. Mesmo quando os propósitos e efeitos de uma tecnologia só podem ser descobertos por meio do uso, comprometer recursos com um caminho em vez de outro obstrui alternativas. Uma questão não pode ser evitada: o que merece financiamento e em que medida? Os procedimentos democráticos de investimento existem precisamente para tornar tais contrapartidas (trade-offs) explícitas, contestáveis e coletivamente vinculativas, em vez de as deixar para serem resolvidas implicitamente por meio da rentabilidade, do poder de lobby ou de decreto administrativo.
Morozov resiste à ideia de definição de direção pública não só porque a trata como um freio à experimentação local, mas porque a entende como a imposição de uma concepção do que é bom única e democraticamente autorizada – fixada antecipadamente e aplicada a partir de cima. Nesta leitura, os Conselhos de Investimento teriam primeiro de estabelecer um conjunto determinado de valores e pesos, depois usá-los para selecionar e disciplinar propostas de inovação, reduzindo a coordenação pública à aplicação administrativa de um quadro valorativo predefinido. É esta imagem de equilíbrio de valores ex ante e de triagem processual que leva Morozov a ver a definição de direção como inerentemente hostil ao pluralismo e à descoberta – e a recuar, em vez disso, para a experimentação local dispersa conduzida com recursos públicos partilhados.
Porém, a experimentação ao nível da empresa, por mais indispensável que seja, não é suficiente. O problema não é apenas que os investimentos de grande escala envolvem recursos escassos e, portanto, exigem escolha. Uma questão adicional é que muitas das transformações que mais importam não podem ser alcançadas por empresas agindo isoladamente. Elas dependem de padrões de investimento que se acumulam ao longo do tempo. Projetos separados devem alinhar-se para construir infraestruturas partilhadas, capacidades cumulativas e tecnologias interligadas. Onde os investimentos se alinham, complementaridades entre empresas permitem que a experimentação num lugar reforce transformações noutros lugares.
As empresas capitalistas estão estruturalmente mal equipadas para realizar tais esforços coordenados. As transições em grande escala exigem coordenação entre empresas e setores que os mercados capitalistas têm dificuldade em proporcionar, mesmo que as grandes corporações atinjam por vezes uma coordenação parcial dentro das suas próprias indústrias. É por isso que os Estados historicamente intervieram para financiar14 e organizar15 inovações tecnológicas que marcaram época, da internet à energia solar. A sugestão de Morozov de que eu negligencio o papel do Estado na organização da mudança tecnológica é intrigante, dado quão central é o investimento publicamente coordenado no meu relato. A verdadeira questão não é se a coordenação pública é necessária, mas como podem os sistemas de investimento ser organizados de modo a definir uma direção entre empresas sem colapsar em hierarquias tecnocráticas de comando e controle.
Levar a sério as complementaridades entre investimentos significa que os Conselhos de Investimento não podem tratar as propostas como pedidos de financiamento independentes a serem julgados pelos seus próprios méritos. Os Conselhos devem avaliar não só propostas individuais, mas como os portfólios de investimentos se somam em caminhos de desenvolvimento concorrentes. Mesmo dentro de um único setor, múltiplos futuros estarão sempre disponíveis, dependendo de como os investimentos são combinados, sequenciados e dimensionados ao longo do tempo. A agricultura pode orientar-se para a hidroponia automatizada16 e carne cultivada em laboratório ou para a agroecologia17 e consumo convivial; a construção pode favorecer novas habitações de baixo consumo energético18 ou a reabilitação de edifícios existentes19.
A definição de direção deste tipo não pressupõe acordo. Em vez disso, os Conselhos de Investimento podem permanecer locais de contestação política contínua, em que facções concorrentes – não o conselho como ator unificado – articulam diferentes prioridades e procuram orientar a inovação para os futuros que defendem. Neste quadro, a experimentação no nível da empresa já é orientada por tais horizontes alternativos. Mesmo onde os resultados são incertos, a experimentação raramente é sem direção: as empresas exploram possibilidades à luz dos futuros que estão a tentar ajudar a realizar, baseando-se em imaginários sociotécnicos20 que ligam a resolução local de problemas a transformações mais amplas. Os Conselhos de Investimento intervêm no ponto em que trajetórias concorrentes devem ser confrontadas politicamente e devem ser tomadas decisões sobre quais delas devem ser ampliadas.
Por esta razão, o controle democrático sobre o investimento não pode estabelecer o consenso nem recorrer a ele. Tem de estruturar lutas entre trajetórias alternativas de desenvolvimento – ou “mundos”, no sentido de Morozov. A coordenação é alcançada no meio do conflito, precisamente por meio dos procedimentos de seleção que Morozov descarta.
No entanto, mesmo estes níveis empresarial e setorial de coordenação são insuficientes para resolver os problemas mais urgentes que as sociedades contemporâneas enfrentam. A transição verde, por exemplo, exige mudanças simultâneas nos sistemas energéticos, redes de transporte, habitação, sistemas alimentares e padrões de consumo. É por isso que o meu quadro inclui não só a inovação ao nível da empresa e os procedimentos de seleção ao nível da indústria, mas também comitês de coordenação interindustriais. Estes órgãos assumiriam a responsabilidade por projetos sociais de grande escala – como ecologizar a economia, encurtar a semana de trabalho ou reparar injustiças históricas -, organizados por meio de mandatos renováveis de cinco anos. Assembleias de cidadãos ajudariam a decidir sobre abordagens amplas. Os comitês de coordenação utilizariam então fundos de investimento para reduzir o custo de investimentos complementares entre setores, funcionando como uma forma de política de crédito orientada por missões21.
No entanto, a coordenação intersetorial não pode ser uma razão para contornar a política: todos os projetos devem estar ligados a empresas específicas e passar pelo mesmo processo de disputa de proposta e seleção. Os conflitos sobre a coordenação são ainda momentos de formação coletiva de valor, nos quais as prioridades são clarificadas e a sua relevância é atualizada por meio da emergência, do debate e da seleção entre futuros alternativos.
Como parte do seu esforço para forçar o meu argumento a uma falsa oposição entre experimentação local e tomada de decisão coletiva, Morozov caracteriza erroneamente o meu quadro como exigindo que a sociedade determine os seus valores antecipadamente, lhes atribua pesos e depois os aplique administrativamente para governar a vida econômica. Esta leitura equivocada permite a Morozov apresentar a experimentação com IA generativa como algo exclusivamente resistente à direção coletiva, com o fundamento de que as experiências realizadas para descobrir novos usos também transformam os valores e aspirações daqueles que se envolvem nessas experiências. Mas, isto não é uma peculiaridade da IA.
Muitas das escolhas consequentes que as pessoas e as sociedades fazem são transformativas22 precisamente neste sentido. Ter um filho, migrar para outro país, comprometer-se com uma vocação – bem como integrar novas tecnologias na sociedade ou na economia -, tudo isso remodela as preferências, capacidades e autocompreensões dos envolvidos. Agir não realiza meramente valores prévios; revisa-os ao longo do tempo.
O meu quadro nem nega nem procura escapar a esta relação recursiva entre ação e valoração; ele a institucionaliza. Os valores são clarificados, contestados e recompostos ao longo do tempo à medida que as sociedades agem, confrontam consequências e revêem os seus compromissos à luz do que essas ações revelam ou transformam. Os valores não são, de forma alguma, tornados politicamente inarticuláveis por serem formados por meio da prática neste sentido.
Numa tentativa de fazer valer a sua objeção, Morozov tenta assimilar o meu argumento a conhecidas abordagens que priorizam os valores associadas a pensadores como Amartya Sen23 e Martha Nussbaum24, bem como a quadros formais de teoria da decisão25 tais como análise de decisão multicritério – abordagens nas quais me baseio, mas que também critico explicitamente. Nessas perspectivas, a tarefa é primeiro especificar o que importa da forma mais clara possível – capacidades ou dimensões do bem-estar – e depois usar essas especificações para orientar políticas, como em projetos como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU26 e os indicadores da OCDE para além do PIB27.
Nas sociedades capitalistas, os quadros que priorizam valores permanecem em grande parte ineficazes porque colidem com o motor subjacente do sistema: o investimento orientado para o lucro. Mais fundamentalmente, porém, essas abordagens caracterizam mal como os valores operam. As pessoas raramente sabem antecipadamente quantos valores possuem, como os classificar ou até mesmo o que valores como sustentabilidade ou “bom” trabalho significam na prática.
As abordagens que priorizam valores dependem da mediação tecnocrática para traduzir tais prioridades em ação. Peritos são encarregados de especificar definições e pesos – com base em pesquisas ou procedimentos deliberativos – e depois operacionalizá-los como regras de decisão. O julgamento gerencial exercido dentro de restrições administrativas desloca o desacordo político. Isso obstrui o processo por meio do qual os valores são realmente formados – agindo com base em compromissos, confrontando consequências e revendo prioridades à luz da experiência.
No meu quadro, em contraste, o objeto da escolha coletiva não são os valores como tais, mas projetos políticos e existenciais rivais, cada um dos quais incorpora um entendimento particular de quais valores importam, como devem ser operacionalizados e como devem ser priorizados uns em relação aos outros. Formas concorrentes de composição entre valores são articuladas e contestadas por meio de propostas concretas e das justificações oferecidas para escolher entre elas. A relevância social mais ampla e o significado prático dos critérios emergem então retroativamente, por meio de decisões sobre quais projetos são financiados e a que escala. É assim que o meu quadro abre espaço para a política – política real – dentro da própria economia. Morozov invoca o “meio fragmentado” (broken middle) de Gillian Rose para sugerir que qualquer quadro institucional separará falsamente o decidir do fazer. Porém, as instituições que proponho são concebidas precisamente para manter os dois entrelaçados.
A única exceção parece ser a Matriz de Dados, que articularia critérios como indicadores para analisar a atividade econômica. Porém, isto não significa que os valores seriam definidos antecipadamente. A Matriz de Dados não funciona como um algoritmo de planejamento ou uma autoridade de tomada de decisão, como Morozov presume. O seu papel é explicitamente informacional e político, não executivo. Ela agregaria dados públicos sobre produção e consumo e os ligaria aos impactos ecológicos, sociais e subjetivos a jusante, para que as consequências de escolhas de investimento alternativas pudessem ser previstas e debatidas.
Como não serve a qualquer função executiva, a Matriz de Dados não impõe um quadro valorativo único e coerente; nem opera como um ponto de controle obrigatório no processo de decisão. As decisões de investimento são sempre tomadas prospectivamente, com base em informação incompleta e expectativas contestadas. Por esta razão, os dados recolhidos para a Matriz de Dados devem eles próprios permanecer abertos à contestação.
Cientistas cidadãos28, juntamente com empresas, associações e grupos políticos, poderiam solicitar que os indicadores existentes fossem modificados ou que novos fossem adicionados, incluindo indicadores alternativos que operacionalizem valores de diferentes maneiras. O objetivo da Matriz de Dados é usar uma ampla base de informação pública para tornar as interpretações rivais do que importa inteligíveis, parcialmente comparáveis e politicamente consequentes – sem substituir a medição pelo julgamento nem adiar a decisão em nome da completude epistêmica.
O significado deste quadro torna-se mais claro por contraste: o capitalismo neutraliza a política mais ampla de valores aqui descrita, tornando-a economicamente irrelevante. Sejam quais forem as palavras dos críticos ou mesmo dos governos, o sucesso econômico continua a ser medido em termos de uma única dimensão avaliativa: ganhos de eficiência econômica, resultando em lucros mais elevados e maior crescimento do PIB. Todos os outros valores são relegados ao estatuto de restrições externas, limitando a atividade econômica sem a direcionar. No quadro alternativo que proponho, múltiplos valores permeiam a escolha dos planos de produção, de modo que o progresso se desenrola ao longo de várias dimensões em simultâneo – com implicações complexas para a forma como as pessoas trabalham e vivem.
Escolher entre caminhos disponíveis pode alargar ou contrair o campo de possibilidades. Alguns futuros tornam-se mais fáceis de realizar; outros são efetivamente obstruídos; e as compreensões das pessoas sobre o que importa mudam à medida que avançam no tempo – muito semelhante ao relato de Morozov sobre a criação tecnológica de mundos. A diferença é que, no meu quadro, este processo é entendido desde o início como político porque se desenrola sob condições de escassez que forçam a escolha coletiva entre futuros rivais.
O que é intrigante na crítica de Morozov é que este núcleo político desaparece de vista. Um quadro concebido para organizar o conflito sobre o investimento – para tornar as contrapartidas (trade-offs) visíveis, contestáveis e vinculativas quando nem tudo pode ser perseguido ao mesmo tempo – é reinterpretado como um sistema de fechamento administrativo que disciplinaria prematuramente a experimentação. A sua análise não é simplesmente uma compreensão equivocada do quadro que proponho, mas uma inversão da sua intenção: ela lê um relato destinado a politizar a criação de mundos como uma tentativa de a suprimir.
Esta leitura equivocada faz mais do que distorcer o meu argumento; ela desarma a capacidade de Morozov pensar sobre o que uma economia política alternativa real exigiria. Ao rejeitar a coordenação de mercado29, ele esvazia o espaço institucional no qual a experimentação descentralizada ao nível da empresa pode de qualquer modo ocorrer. Ao recuar perante a coordenação política, ele fica sem qualquer estratégia para organizar o investimento em escala, alinhar projetos complementares ou rever prioridades ao longo do tempo sob restrições reais de recursos. O que resta não é uma economia política, mas um conjunto de aspirações normativas – gestos em direção a características desejáveis de um futuro socialista sem qualquer relato das instituições capazes de sustentar a experimentação local ou coordenar a transformação coletiva.
Quando Morozov tentou explicar como um sistema pós-capitalista poderia vir a ser coerente, ele recorreu a programas de pesquisa mal adaptados à tarefa, precisamente porque falham em endogeneizar as transformações dinâmicas, quer dos valores sociais, quer do desenvolvimento tecnológico. As críticas que Morozov dirige ao meu quadro aplicam-se, assim, com muito maior força às alternativas que ele próprio avança.
Por exemplo, a proposta de Daniel Saros para um socialismo digital, que Morozov elogiou30 na New Left Review, distingue entre créditos e pontos, como o meu quadro faz, mas insere esta distinção num leilão recorrente que redefine preferências e alocações em cada ciclo. Não oferece qualquer teoria do investimento, qualquer relato da moldagem política da produção, ou qualquer conceção de inovação tecnológica criadora de mundos. De fato, Saros abandonou a ideia pouco depois de escrever sobre ela.
A viragem de Morozov para a cibernética (tomando emprestado31 e depois expandindo32 o trabalho de Eden Medina33) sofre das mesmas limitações. A cibernética é uma teoria de sistemas que detecta desvios e restaura a coerência em resposta a perturbações. Mesmo nas formulações mais sofisticadas de Stafford Beer, a preocupação central não é a inovação, mas a viabilidade: manter a identidade de um sistema sob condições mutáveis. Os sistemas de gestão cibernéticos adaptam-se a objetivos, mas como esses objetivos entram como pressupostos políticos exógenos, a cibernética não pode explicar a sua transformação dinâmica, quer por meio da inovação tecnológica, quer do conflito político. Como programa de pesquisa, a cibernética também está há muito esgotada.
Estes limites importam porque o que Morozov trata como um desafio único da IA – a formação endógena de mundos por meio do uso – é, de fato, uma característica geral de períodos de mudança tecnológica rápida. Tais momentos não expandem simplesmente o espaço de possibilidade; eles forçam escolhas coletivas sobre quais possibilidades serão realizadas amplamente e quais permanecerão marginais ou não realizadas. O problema, então, não é como governar uma tecnologia excepcional, mas como organizar a produção quando o dinamismo tecnológico colide com a capacidade de investimento finita e com prioridades sociais em mudança.
Contrariamente à leitura de Morozov, abordar este desafio não requer tratar a tecnologia como neutra nem assumir que os valores devem ser definidos antecipadamente. Os mercados podem ser mantidos como espaços de experimentação descentralizada, onde as possibilidades são trazidas à superfície e exploradas. As instituições políticas, por sua vez, devem assumir a responsabilidade pela coordenação do investimento: decidir quais trajetórias são ampliadas, revistas ou abandonadas à medida que as suas consequências se desenrolam. Num futuro pós-capitalista, Morozov pode desejar seguir um caminho aceleracionista da IA generativa; eu priorizaria uma transição verde rápida. Outros defenderão transformações mais lentas e cautelosas, ou formas totalmente diferentes de reorientação tecnológica.
Estes desacordos não podem ser resolvidos apenas pela experimentação local, nem pela deliberação orientada para o consenso, nem pelo controle estatal tecnocrático. Devem, em vez disso, ser confrontados política e democraticamente, por meio de instituições capazes de reorganizar a produção ao longo do tempo diante de um desacordo sustentado sobre quais futuros devem ser construídos – e quais devem ser deixados para trás.
***Aaron Benanav é professor assistente de Desenvolvimento Global na Cornell University e autor de Automação e o futuro do trabalho (Boitempo, 2025). Atualmente, ele está escrevendo um livro sobre economia multidimensional.
MALTERRE-BARTHES, Charlotte. A moratorium on new construction. Cambridge/MA (EUA): MIT Press, 2025.
JASANOFF, Sheila; KIM, Sang-Hyun (eds.). Dreamscapes of modernity: Sociotechnical imaginaries and the fabrication of power. Chicago: The University of Chicago Press, 2015.
MEDINA, Eden. Cybernetic revolutionaries: Technology and politics in Allende’s Chile. Cambridge/MA (EUA): Mit Press, 2011.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
Tecnopolíticas da vigilância: perspectivas da margem, organizado por Fernanda Bruno, Bruno Cardoso, Marta Kanashiro, Luciana Guilhon e Lucas Melgaço
Coletânea crítica que explora as complexidades da vigilância na era tecnológica, abordando desde a política e a cultura até a resistência contra os mecanismos de controle sociotécnicos. Oferece perspectivas inovadoras sobre como os dados impactam nossa sociedade e nossa privacidade.
Automação e o futuro do trabalho, de Aaron Benanav
O discurso da automação tecnológica tem sido amplamente mobilizado por empresários, políticos, jornalistas e formadores de opinião para sustentar prognósticos ora catastróficos, ora idílicos. Nesse livro, o professor da Universidade Cornell contrapõe-se a essas previsões ao argumentar que não é a tecnologia, mas o longo declínio da economia capitalista, o responsável pelo desemprego e, sobretudo, pelos subempregos contemporâneos.
Colonialismo digital, de Deivison Faustino e Walter Lippold
Uma debate provocador sobre o colonialismo digital, suas ramificações e impactos contemporâneos. Explora temas como racismo algorítmico, soberania digital e o papel das tecnologias na perpetuação das desigualdades. Vozes renomadas do debate nacional contribuem para esta discussão fundamental.
O valor da informação: de como o capital se apropria do trabalho social na era do espetáculo e da internet, de Marcos Dantas, Denise Moura, Gabriela Raulino e Larissa Ormay
Com a ótica da teoria marxiana do valor-trabalho, revela como a informação se tornou mercadoria fundamental nas relações de produção e consumo. Exploa os aspectos da propriedade intelectual, trabalho não remunerado em plataformas digitais e a produção de valor nos campeonatos de futebol.
Legenda: Assim como no organismo a saúde depende de circulação, numa casa o bem-estar depende de palavras que atravessam pontes. Foto: PeopleImages/Shutterstock.
Se o corpo vive de circulação e equilíbrio, o mundo também. Quando o fluxo trava e a “defesa” vira ataque, todos pagam a conta.
Nascemos pequenos. Tudo começa quando duas células diferentes se encontram e, ao se fundirem, inauguram o milagre da multiplicação. A fecundação — esse instante em que um espermatozoide encontra um óvulo e forma a primeira célula do embrião — é, no fundo, uma história sobre cooperação: da diversidade surgem tecidos; dos tecidos, órgãos; dos órgãos, um ser único, capaz de sentir, pensar e escolher. Não há coração sem pulmão, nem cérebro sem sangue. Cada parte assume uma tarefa específica, e o conjunto só floresce porque ninguém tenta existir sozinho.
Esse é o segredo do corpo saudável: complementaridade e limite. Um órgão não “vence” o outro; ele cumpre o seu papel e, ao fazê-lo, ajuda o todo a se manter em pé. Imagine, porém, se uma parte resolvesse se declarar soberana. Se a cabeça, por pensar, exigisse obediência; se o coração, por abastecer todas as células, decretasse que tudo lhe pertence; se os pulmões, por sustentarem o fôlego, decidissem fechar a passagem do ar quando contrariados. A tirania interna seria apenas a primeira etapa do colapso.
No organismo, o excesso que cresce sem medida ganha um nome duro: câncer. Na vida social, há excessos parecidos — forças que se anunciam como grandeza, mas operam como doença.
Doenças são avisos de que o equilíbrio foi rompido. O AVC, por exemplo, ocorre quando o sangue — esse rio que leva oxigênio e vida — deixa de alcançar uma área do cérebro: às vezes porque um caminho se fecha e entope; às vezes porque um vaso se rompe e derrama. Em poucos minutos, o que sustentava a rotina vira emergência. Já as doenças autoimunes nascem quando a defesa, criada para proteger, se confunde e ataca a própria casa: o sistema imunológico enxerga inimigos onde há vida e fere aquilo que deveria proteger.
De um jeito ou de outro, o corpo paga caro quando o fluxo trava ou quando a proteção vira agressão. Há um espelho disso no mundo — e ele não está apenas nos mapas, mas no preço do gás de cozinha, do combustível, na conta de luz, no remédio em falta na farmácia e no prazo que a encomenda não cumpre.
Sociedades também têm circulação. Têm veias e artérias feitas de estradas, portos, aeroportos, cabos submarinos, satélites e rotas marítimas; e têm um “sangue” econômico e simbólico composto por energia, alimentos, insumos industriais, dados, crédito, trabalho e confiança. Quando esse fluxo corre bem, o cotidiano parece natural. Quando ele trava, a crise se espalha com a velocidade de uma correnteza represada.
Em termos práticos, guerras, disputas geopolíticas, bloqueios e sabotagens funcionam como trombos e hemorragias na corrente do comércio: encarecem combustíveis, elevam seguros, alteram rotas, atrasam cargas, quebram cadeias produtivas e multiplicam a incerteza.
O que parecia distante chega ao bairro na forma de escassez, inflação e ansiedade coletiva. A guerra, como uma inflamação que se alastra, raramente fere apenas um ponto: altera o ritmo de tudo o que depende de caminho livre.
E isso também vale para a família, esse pequeno corpo onde a vida aprende a se organizar. Quando a comunicação fica estagnada, como água parada, o afeto começa a perder oxigênio: crescem os mal-entendidos, instala-se o silêncio como castigo, e cada um passa a “sobreviver” no seu quarto, na sua rotina, na sua razão. O que não é dito vira peso; o que não é escutado vira distância. Assim como no organismo a saúde depende de circulação, numa casa o bem-estar depende de palavras que atravessam pontes — conversas difíceis, pedidos de desculpa, combinados claros e, sobretudo, a coragem de voltar a se enxergar como parte do mesmo todo.
Os países — como indivíduos — têm identidade, história, feridas, sonhos e maneiras próprias de organizar a vida. Essa diversidade é riqueza, não ameaça. O problema começa quando um ator decide “ser grande”, “ser o maior” à força, como se grandeza fosse a capacidade de impor medo, destruir cidades e dizimar populações, cercar rotas ou transformar a diplomacia em ultimato. Num mundo interdependente, a fantasia de potência sem limite costuma produzir o efeito contrário do que promete: mais instabilidade, mais reações em cadeia, mais radicalização. Ninguém respira sozinho num planeta atravessado por cadeias de produção, migrações, tecnologia e guerras.
As comparações médicas não explicam tudo, mas ajudam a compreender. Se o câncer é a célula que cresce sem respeito ao organismo, o autoritarismo — interno ou externo — é o poder que se expande sem reconhecer fronteiras éticas. Se o AVC é a interrupção súbita do fluxo que sustenta a vida, o bloqueio de rotas e a ruptura logística interrompem o que sustenta cidades e famílias. E, se a autoimunidade é a defesa que ataca a própria casa, a política do inimigo permanente cria sociedades que se ferem por dentro: suspeitam do diferente, criminalizam o diálogo, naturalizam a violência e transformam divergência em traição.
A consequência aparece como conta a pagar. Quando o trigo encarece, o preço do pão sobe; quando o fertilizante falta, a safra aperta; quando o petróleo dispara, o transporte pressiona toda a economia; quando a tecnologia vira campo de batalha, o trabalho e a educação sofrem. E, ao mesmo tempo, há um efeito menos mensurável, mas igualmente corrosivo: a sensação de que o mundo se tornou um lugar em que a força fala mais alto do que as leis e em que a regra muda conforme quem grita.
Talvez a pergunta de fundo seja simples e antiga: que tipo de grandeza queremos premiar? A grandeza medida em força bruta pode até parecer vitória no curto prazo, mas cobra juros altos — em luto, deslocamentos, fome, medo e ressentimento que atravessam gerações. A grandeza que sustenta a vida, ao contrário, é a que reconhece limites, protege civis e a natureza, preserva canais de negociação e mantém a circulação do necessário. Não é idealismo ingênuo: é pragmatismo de sobrevivência. No corpo, saúde é fluxo, coordenação e respeito entre funções. No corpo social e internacional, saúde também é isso: interdependência assumida com responsabilidade e multilateralismo.
Num tempo em que a guerra volta a organizar o noticiário e o mercado, vale lembrar a lição elementar do organismo: não existe parte que prospere sozinha quando o todo entra em colapso. Ser grande, então, talvez seja menos dominar e mais cuidar — do caminho por onde passa o pão, do espaço mínimo onde ainda é possível reconhecer o outro como humano. Quando a circulação volta e a defesa reaprende seu lugar, a vida respira. E respirar, hoje, já é uma forma de resistência.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que vai encaminhar ao Congresso Nacional, ainda nesta semana, um projeto de lei para acabar com a escala de trabalho 6×1 no Brasil. A proposta, segundo ele, visa assegurar mais qualidade de vida para a população e terá a garantia de que o salário não será reduzido.
Em entrevista ao portal ICL, nesta quarta-feira, 8, Lula indicou que o governo pretende apresentar sua própria proposta para fortalecer o debate e garantir que a redução da jornada seja implementada com proteção aos trabalhadores. “Estou mandando o projeto de lei essa semana para o Congresso Nacional”, disse.
A decisão de enviar um projeto ocorre paralelamente à tramitação da PEC na Câmara, liderada pelo presidente da Casa, Hugo Motta. A proposta deve ser encaminhada em regime de urgência, o que garante sua tramitação total em até 45 dias.
“Hugo Motta tem uma PEC que ele gostaria de colocar em votação, mas o governo vai apresentar o seu projeto”, disse o presidente.
Lula destacou que o projeto do governo deixará explícito que não haverá redução de salários, combatendo o que classificou como “terrorismo” contra a proposta.
“O trabalhador fica com medo que o salário dele vai reduzir, porque esse é o grande terrorismo que se faz. Vai trabalhar menos, vai ganhar menos salário. Isso no projeto vai estar claro que o salário não reduz. A ideia é a redução da jornada sem redução do salário”, afirmou.
Segundo o presidente, a medida representa uma forma de redistribuir os ganhos de produtividade. “A tecnologia permitiu que produzisse mais, portanto o trabalhador ganha um pouco mais”.
E questionou: “Os avanços tecnológicos não deveriam ser acompanhados de aumento de salário, de ganho de produtividade? Não deviam ser acompanhados de redução da jornada de trabalho?”.
Lula relembrou sua própria experiência como operário. “Eu fazia quatro peças por dia. A empresa comprou uma máquina que fazia 80 por dia. Era o mesmo cara [que operava a máquina], era eu. Aquele ganho nunca foi para mim. Foi para a empresa”.
“A juventude quer mais tempo para estudar, as pessoas querem mais tempo para ficar em casa. […] A gente tem que reeducar o cara que trabalha, voltar para casa e ajudar a mulher no serviço de casa”.
Lula também ressaltou que o modelo permitirá adaptações por meio de negociação coletiva. “Você tem que deixar uma brecha para negociação. Não pode ser uma coisa rígida para todas as categorias”.