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Os tempos estão mudando

Leio que dezenas de opositores chineses — advogados, escritores, jornalistas, artistas e blogueiros — foram detidos, submetidos a prisão domiciliar ou afastados de suas casas nas últimas semanas, em escalada repressiva cujo objetivo óbvio é resguardar mais esta ditadura do  contágio das revoltas libertárias.

As pedras voltaram a rolar e a única certeza é a de que os verdadeiros revolucionários devem posicionar-se ao lado de todos aqueles que se revoltam contra tiranias.

Não importa que as nações ocidentais façam com a Líbia o que deveriam fazer também com a Síria, mas adotem dois pesos e duas medidas.

Não importa a posição que algumas dessas ditaduras obscurantistas, retrógradas e assassinas assumam no tabuleiro político internacional.

Importa apenas que oprimem seus povos e os seus povos estão se levantando contra elas, pouco a pouco, com o temor da repressão brutal cedendo lugar à esperança.

E o farão cada vez mais, pois o mundo se tornou um péssimo lugar para se viver nestas últimas quatro décadas de refluxo revolucionário.

É a hora da maré crescente. E a nova onda começa a vir do Oriente, mas — afirmo sem medo de errar –, acabará se espalhando por todo o planeta.

O mundo está prenhe de revoluções; quem viver, verá.

E quem for revolucionário, lutará.

Estamos exatamente como no final de 1963, quando Bob Dylan compôs The times they’re a-changin’, antecipando tudo que viria a seguir. O melhor ainda está por acontecer.

Para reacender a chama dos velhos guerreiros e tentar inflamar algum jovens que têm a retórica mas não o instinto dos revolucionários, eis uma bela tradução da canção de Dylan, agora mais atual do que nunca:

OS TEMPOS ESTÃO MUDANDO

Venham, pessoas,
por onde quer que andem
e admitam que as ondas
á sua volta cresceram.
E aceitem que logo
estarão cobertas até os ossos.
Se seu tempo para você
vale a pena ser salvo,
então é melhor começar a nadar
ou vai afundar como uma pedra,
pois os tempos estão mudando!

Venham, escritores e críticos,
aqueles que profetizam com a caneta.
E mantenham seus olhos abertos,
a chance não virá novamente.
E não falem tão cedo,
pois a roda ainda está girando
e não há como prever
quem prevalecerá,
pois o perdedor de agora
mais tarde vencerá,
pois os tempos estão mudando!

Venham senadores, congressistas,
por favor, escutem o chamado.
Não fiquem parados no vão da porta,
não congestionem o corredor,
pois aquele que pára
será um obstáculo no caminho.
Há uma batalha lá fora,
está rugindo
e logo vai balançar suas janelas
e fazer ruir suas paredes,
pois os tempos estão mudando!

Venham, mães e pais
de toda a Terra
e não critiquem
o que não podem entender.
Seus filhos e filhas
estão além de seu comando.
Sua velha estrada
está rapidamente virando pó.
Por favor, saiam da nova
se não puderem dar uma mãozinha,
Pois os tempos estão mudando!

A linha foi traçada,
a maldição foi lançada
e o lento agora
será o rápido logo mais,
assim como o presente agora
será em breve passado.
A ordem está
rapidamente se esvaindo
e o primeiro agora
será o último depois,
pois os tempos estão mudando!

Nota em resposta a Luiz Augusto Candiota

Na quinta-feira passada, dia 21, a Folha de São Paulo publicou o artigo “Agenda capitalista moderna para o Brasil”, assinado por Luiz Augusto Candiota, ex-diretor de política monetária do governo Lula. Em seu texto, curto porém direto, Candiota defende a atuação do Estado apenas na saúde, na educação e na segurança – embora afirme com rigor que caso o setor privado ofereça serviços “superiores” nessas áreas, deve substituir a infra-estrutura estatal. Segundo ele, o Brasil, hoje, precisa de “um capitalismo verdadeiramente competitivo, que estimule a abertura total de nossa economia e promova a produtividade, retirando por completo do Estado a participação em determinados setores”.

Muitos foram os trechos que chamaram minha atenção, mas me parece que um em especial deve ser esclarecido. “Não devemos temer aqueles que dizem ser o capitalismo concentrador de rendas e ampliador de desigualdades”, afirma Candiota. “Não há exemplos concretos de que isso seja verdade em regimes abertos, democráticos e de sociedades pluralistas, ou que tal regime tenha gerado frutos, em seu conjunto, mais prejudiciais do que o que praticamos por aqui”, explica.

Lendo o trecho acima, me pergunto, sinceramente, se a afirmação de Candiota provém de uma ignorância sobre a história mundial e brasileira ou, então, se é fruto do desejo de apoiar uma política econômica que certamente o favorece espetacularmente – ainda que, para isso arrase com a vida de milhões (sim, milhões) de pessoas. Afinal, o resultado de um Estado completamente ausente aliado à desregulamentação do mercado não só não é uma opção democrática, como traz inúmeros revezes às sociedades.

Exemplos claros disso são o Chile de Pinochet, a África do Sul de Mandela e Thabo Mbeki, a Rússia de Yeltsin e Putin, a Polônia do Solidariedade, o Iraque pós-ocupação estadounidense, a China de Deng Xiaoping e a Bolívia das décadas de 80 e 90. Em todos esses países, só para citar alguns, foram implantados conjuntos de políticas econômicas que tinham, em seu cerne, três pontos principais: privatizações em massa (com ampla liberdade às corporações e às remessas de lucros), desregulamentação governamental (fim de subsídios e do controle de preços, enfraquecimento da esfera pública etc.) e cortes profundos nos gastos sociais.

Em todos os casos, no entanto, a adoção dessas políticas não trouxe melhoria na qualidade de vida da população mas, pelo contrário, alianças promíscuas entre grandes conglomerados de corporações e políticos e empresários locais influentes. No fim, o que se observou, de forma geral, foi um aumento da desigualdade social. No Chile, o desemprego alcançou 30% (em comparação com a taxa de 3% no governo Allende) e as crianças não tinham mais leite para tomar nas escolas públicas, já que uma das primeiras medidas da desregulamentação estatal foi cortar o programa do leite. Na Bolívia de Víctor Paz, 28 mil trabalhadores foram demitidos, os salários perderam 70% do seu valor real e o número de bolivianos que usufruíam de seguridade social caiu 61%. Na África do Sul, desde 1994, quando Mandela chegou ao poder, o número de pessoas que vivem com um dólar por dia dobrou, chegando a 4 milhões, enquanto a população que vive em barracos aumentou 50%.

Apesar disso, na maioria dos casos não só a inflação cedeu, como o PIB aumentou e houve crescimento econômico. Não houve, porém, nenhuma distribuição da riqueza. As estatísticas médias da renda per capita escondem, invariavelmente, grupos de milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e da miséria. E por que? Simplesmente porque quando impera o livre comércio ortodoxo da Escola de Chicago de Milton Friedman (que Deus não o tenha, por sinal), a lógica da maximização dos lucros impede qualquer tipo de avanço social significativo.

E por isso mesmo, aliás, não é democrático. Se existe uma camada ampla e majoritária da população que é empobrecida, logicamente espera-se que essas pessoas votem por políticos que tenham como plataforma a real distribuição da riqueza (o que não tem nada a ver com a cooptação petista dos movimentos sociais). No entanto, em todos esses casos citados, das três uma: ou as demandas populares foram suprimidas por violências cruéis que acabaram com as liberdades civis (Chile, Iraque e China), ou a ajuda financeira internacional engessou os governos eleitos a partir de cartilhas econômicas do FMI, do BID etc. (África do Sul e Polônia) ou políticos populares eleitos, uma vez no poder, cederam a essa promiscuidade corporatista (Bolívia e Rússia). E, quando digo “corporatista”, falo de um Estado policial e corrupto que, aliado às grandes corporações, combate e oprime os trabalhadores, a classe que, afinal, sustenta a economia do mundo inteiro.

Os dados estão todos aí, e vêm de estatísticas de organismos internacionais e de documentos que foram tornados públicos por comitês de investigação. Não, não se trata de teoria da conspiração. Para a jornalista Naomi Klein, trata-se da ascensão do “capitalismo de desastre”.

(*) Ricardo Cabral é jornalista. Entre em contato com o autor pelo @_ricardocabral

Exemplo chinês

O crescimento da economia chinesa é proporcional à degradação ambiental do país, cuja situação serve de alerta para outras nações emergentes. Por João Reis (*), da redação.

A China enfrenta hoje uma grave crise ambiental. Seus dois principais rios – o Azul e o Amarelo –, que cortam boa parte do vasto território chinês, estão poluídos, assim como o ar do país, que chega a afetar nações vizinhas, como as Coréias do Sul e do Norte.

Tais condições vêm provocando uma série de problemas à sociedade chinesa, traduzindo-se em perdas à economia – em 2007, foram gastos 64 bilhões de dólares com problemas decorrentes da degradação de seu meio ambiente, o equivalente a 3% de seu PIB – conseqüentemente, num empecilho ao próprio desenvolvimento da China.

Desde a eclosão do “boom” econômico chinês, há aproximadamente 10 anos, políticos, ambientalistas, entre outros, não deixam calar a pergunta: e se os chineses começarem a consumir na proporção em que crescem? Preocupam-se porque sabem que o mundo não suportaria um novo Estados Unidos. Não há “infra-estrutura natural” para dar conta de mais de 1 bilhão de indivíduos, em apenas um das centenas de países, vivendo como o american way of life designa.

As autoridades chinesas, aparentemente, já tomam providências, ainda que tais ações reflitam a iminência das olimpíadas de Pequim, em 2008, podendo ser apenas provisórias, sem projeções a longo prazo. Se for o caso, a preocupação persiste: se as atividades chinesas já prejudicam países próximos, dentro de alguns anos poderão ter implicações em todo o ecossistema terrestre.

A situação vivida pela China serve de lição a outros países emergentes, incluindo o Brasil. Regidos ainda por um modelo de desenvolvimento insustentável, por serem utilizados pelas nações mais desenvolvidas como zonas industriais, fazendas, plantações e, atualmente, até como reservas de oxigênio, esses países gabam-se por seus superávits e pelo crescimento na produção e exportação, enquanto superexploram seus recursos naturais. Ao invés de perpetuarem tais condições – quase que de subserviência – os países emergentes deveriam investir em educação, em pesquisas, formalizar patentes e, principalmente, planejar seu desenvolvimento com responsabilidade socioambiental.

Caso não haja uma mudança de paradigma, com a aplicação de modelos que conciliem as necessidades humanas e a preservação ambiental, tanto a China como o Brasil e a Índia poderão seguir o mesmo caminho que os países desenvolvidos já vem trilhando há algum tempo, deixando um ‘rastro de sujeira’ que é responsável pelas atuais condições do meio ambiente terrestre.

É preciso, portanto, que os países emergentes se unam para pressionar o resto do mundo a adotar práticas sustentáveis, principalmente os países desenvolvidos. Afinal, num mundo globalizado, em que o fluxo internacional de capitais dita o ritmo de desenvolvimento de países em todo o planeta, aqueles que não adotam estratégias de crescimento agressivas, quase sempre prejudiciais ao meio ambiente, saem perdendo (recebem menos investimentos; são considerados rústicos e obsoletos). Daí a importância de se promover uma transformação radical nos modelos que regem as relações produtivas em escala planetária, a começar pelas principais potências mundiais.

(*) João Reis é estudante de jornalismo e colaborador da Revista Consciência.Net

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http://www.consciencia.net

Artigo: O que está em jogo

Publicado no jornal O Dia em 18/04/2008

Têm chamado atenção os protestos a nível global contra o governo da China, pouco antes do início dos Jogos Olímpicos de Pequim. O evento entrou no palco do debate público por meio das manifestações de monges budistas adeptos da não-violência e de outras minorias, que exigem respeito aos direitos fundamentais.

A participação nos Jogos é o maior feito possível para um atleta e um boicote pleno poderia representar a ruína de milhares de sonhos. Por outro lado, os esportistas não podem ignorar o contexto social e a força dos protestos mundiais. O governo chinês, que considera o boicote um “show político”, argumenta que oportunistas se aproveitam de sentimentos de identidade cultural para obter benefícios particulares.

O Tibete, invadido pela China em 1951, tem 2.300 anos, e a população possui idioma, legislação, etnia e religião próprias. Não são meros rebeldes que protestam contra um governo central e poderiam ser cooptados por líderes mal-intencionados. O território é riquíssimo em minerais e os rios que lá nascem banham praticamente toda a Ásia Central. Estão em jogo a soberania de um povo e interesses econômicos.

Cada povo possui raízes históricas para realizar ações de desobediência civil, tal como fez Mahatma Gandhi na Índia. É preciso um esforço para entender cada situação. Não cabe, portanto, a um ou outro intelectual iluminado determinar o que é válido, pois a idéia do boicote aos Jogos está consolidada em todo o mundo — ao ponto de os maiores líderes serem obrigados a se posicionar a respeito, contra ou a favor. O pano de fundo é uma cultura milenar de um povo que não se submete ao imperialismo cultural, militar ou político.

GUSTAVO BARRETO é jornalista e integrante do Movimento Humanista. Leia no Jornal O Dia, Revista Nova-e, Portal Tem Notícia,

Olimpíadas na China e o Tibet

Em 1896 iniciaram-se as olimpíadas modernas que se realizam a cada quatro anos, promovendo a paz mundial. Em agosto a China será a sede da versão número 29 dos jogos. Porém, três olimpíadas foram suspensas devido às guerras mundiais e três versões consecutivas foram boicotadas por muitos países (Montreal 1976, Moscou 1980, Los Angeles 1984). Leia o artigo de Isaac Bigio clicando no título.