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Aprendendo a viver em Havana

Pagina 13

Por Soraya Zanforlin (*) / Página 13,

Estamos em Havana há 20 dias. Já passamos por apagões, falta d’água e recebemos mensagem de fake news acerca da situação cubana, vimos a chegada de ajuda humanitária – Comvoy e Nuestra América, vimos algumas poucas gotas de combustível liberado, a criação de lei para investimento de cubanos que vivem exilados e expatriados em Cuba.

Respiramos fundo, e tocamos a vida como nossa vizinhança faz. Faltou luz? Uma hora chega ou não, lance mão da lanterna devidamente carregada com luz solar, e, ao mínimo sinal de que a luz chegou, coloque tudo a carregar. Faltou água? Há de aprender a economizar e ter alguma em estoque para quando houver falta. Dá-se um jeito para tudo aqui. Há de cultivar a paciência e ser criativo.

O bloqueio energético existe há 65 anos. Faz parte da vida. Desta vez, não está pior do que quando a URSS caiu na década de 80, dizem alguns. Vivemos sempre com água até o pescoço, dizem outros.

Sabemos que estamos numa condição muito, mas muito privilegiada. Não estamos longe do centro da cidade e tampouco vivemos num bairro sem infraestrutura. No entanto, podemos perceber que, com a criação das Mipymes – Micro, pequenas e médias empresas, cria-se uma casta de empreendedores, vê-se por todo lado essas lojas grandes e pequenas, e ontem aprendemos que há um tipo de Mipyme para veículos, o que explica a quantidade de veículos de porte médio e grande por aqui.

Conhecemos também os mercados estatais – o Água e Sabão –, onde se pode comprar o que está disponível e sempre em dólares. Há ainda os mercados (minimercados) em parceria com países estrangeiros. Perto de onde vivemos, há um minimercado em parceria com a Espanha onde se encontra de tudo um pouco. Pode-se comprar com cartão de crédito em ambas as lojas. O que não se aceita é cartão de banco americano.

Agora, não se engane, não é todo mundo que tem acesso às compras nesses locais. O câmbio aqui é perverso.

Há ainda (e o meu preferido) os Agros. Agros são feiras dos produtores locais. estamos no tempo da pinha (parece um abacaxi pequeno), e lá se vende de um tudo. Aliás, o melhor doce de goiaba que já comi é daqui.  E também as bodegas, onde os cubanos retiram com sua libreta os produtos básicos a preços subsidiados pelo estado. Nas bodegas, há escassez de alimentos para entrega. Quero crer que a ajuda humanitária chegue às bodegas de forma a torná-las mais completas.

Todos sabem sobre o embargo, mas, mesmo assim, a tal água no pescoço tem subido para as narinas. E Havana surpreende, o cerco apertando e a vida continua, não há tempo para sofrência (só nos boleros). Nas últimas semanas, temos visto e vivido demonstração de que, apesar de tudo, a vida presta.

Filas de crianças e professores fazem aulas de educação física num sol de rachar, futebol, corrida de saco, camisa, numa alegria de emocionar, e a alegria não para por aí. Sábado é dia dos trovadores, sentam-se na praça de Armas e falam/ouvem poemas. No último sábado, foi a vez de Leyla Leyva, lançando seu livro de nome Mataremos al hijo. Antes disso, tomamos um triciclo para chegarmos até a praça de Armas. Disse ao motorista: “Ganhei meu dia hoje”. Eu andava tão chateada com tudo que eu via, e esse cara conversou tanto com a gente um marxista convicto, já aposentado e que nos disse: “Cuba é meu amor”, que lia desde muito pequeno à luz de uma lamparina a óleo. E foram assim seguindo tantas coisas boas durante o caminho: uma mulher cantava lindamente na rua, paramos para almoçar e nesse restaurante um outro grupo de música me levou às lágrimas, pois cantavam Tu me acostumbraste.

Na volta para casa, vimos um mundo de crianças que abria um festival internacional de ballet. Crianças de todas as cores, mães e pais acompanhando as crianças. As meninas do sapateado chegaram fazendo um som vibrante com seus sapatos, e seguimos de pronto o cortejo da meninada, com direito a colocar a bandeira do Brasil na posição correta (do contrário, seguiria nosso pavilhão de cabeça para baixo no cortejo), uma alegria juvenil e sorrisos que contagiavam.

Como é que pode? Com a água no pescoço, toda essa gente ainda teima e teima e baila e canta e toca a vida adelante. A dignidade desse povo é maior que toda a dificuldade que passam. Viver em Cuba transforma você. E não é pouco.

(*) Soraya Zanforlin, militante do PT na cidade de Campinas (SP).

O silêncio de março

Agência Pública

Caminhada do Silêncio resgata a memória e a dor das vítimas da ditadura

Uma crônica de Marcelo Oliveira / Agência Pública, 4 de abril de 2026 04:00

Há quarenta anos, o último domingo de março deixou de ser apenas um dia no calendário para José. Transformou-se em um rito, uma peregrinação solitária que ele cumpria com devoção até o antigo DOI-CODI, um porão da tortura no Brasil ditatorial. Quando os velhos amigos daquela época sombria, companheiros das prisões no Congresso da UNE em Ibiúna, perguntavam o motivo de tal penitência, a resposta vinha serena: “Não é por mim, é por Maria”.

O tempo, que costuma apagar tantas coisas, trouxe companhia a José. Desde 2019, as ruas de São Paulo passaram a abrigar a Caminhada do Silêncio. Velhos camaradas da geração de 1968 juntaram-se a jovens militantes em uma marcha sem palavras de ordem, sem cânticos inflamados. Apenas passos mudos, lutando pela memória, pela verdade e pela justiça, lembrando as vítimas de um Estado que se voltou contra os seus.

A caminhada percorre o que chamam de “circuito militar”. Parte daquele conjunto de edifícios onde funcionou a maior máquina de dor da ditadura brasileira. A multidão silenciosa avança, passa pela praça que homenageia os pracinhas da Segunda Guerra, desce a Abílio Soares e cruza o Círculo Militar e o Comando Militar do Sudeste. Chega, por fim, à Assembleia Legislativa, onde discursos no passado selaram destinos trágicos, como o do jornalista Vladimir Herzog.

Mas a história de José e Maria tem suas próprias cicatrizes, desenhadas muito antes dessas caminhadas. Em 1976, José, formado em desenho industrial e trabalhando como projetista, foi traído. Um falso colega, um agente infiltrado que se dizia chamar Carlos, mas que a história revelaria ser Adolfo, escutou os planos de greve e os entregou.

A noite de março estava quente quando José chegou em casa e encontrou o terror sentado em sua sala. Maria estava algemada, o rosto já marcado pela violência. Os invasores, vestidos com roupas comuns para não despertar suspeitas na vizinhança, jogaram os dois em uma Kombi.

No DOI-CODI, a separação. Maria, alheia à militância do marido, sofreu o indizível. José, preso ao pau-de-arara, recebia choques enquanto seu corpo suportava o peso do mundo. Ele não entregava ninguém. A resistência de José enfureceu os torturadores, que trouxeram Maria. Diante das ameaças e do abuso sofrido pela mulher que amava, José cedeu. Assinou uma confissão forjada e entregou alguns nomes para “os filhos da puta” (era assim que eles os chamavam). Maria foi solta no dia seguinte. Ele, dias depois, voltou para casa em 31 de março. Uma data que o país lembrava por um motivo, mas que para ele ganhou o peso do fim.

A vida de José desmanchou-se aos poucos. Maria nunca mais foi a mesma. O trauma lhe roubou a fome, a paz e o amor. Em 15 de janeiro de 1985, enquanto o Brasil assistia à eleição indireta de Tancredo Neves e o Barão Vermelho cantava que o dia nasceria feliz, o coração de Maria parou.

Foi a partir de 1986 que José começou a se reerguer, cultivando o hábito de voltar àquele portão de ferro. Ele, um homem sem religião, não rezava. Apenas ficava ali, murmurando a canção de Roberto Carlos que Maria tanto amava: “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”. Uma música que, como ele descobriria mais tarde, também falava de exílio e de saudade.

E assim, em um dia bonito de outono em São Paulo, fotografei José de costas no instante exato de sua comunhão silenciosa. De cabelos brancos e escassos, vestindo uma camisa social azul de mangas curtas, suas mãos calejadas agarram com firmeza as grades cinzentas e espessas do portão do antigo porão ditatorial. Ele olha para dentro, para o pátio vazio e para os prédios de janelas basculantes que guardam tantos ecos. Atrás das grades, o passado; Vlado e tantos outros, do lado de cá, um homem que não esquece.

O silêncio coletivo da caminhada encontra o silêncio particular de José. Sem palavras de ordem, apenas pessoas caminhando democraticamente. Um país, e um homem, sempre em busca de sentido.

***

Os nomes e os eventos narrados na crônica são todos ficcionais, porém baseados em centenas de depoimentos de vítimas da repressão ouvidos pelo autor ao longo de seu trabalho como repórter e coordenador de comunicação da Comissão Nacional da Verdade (CNV). A foto de “José” foi tirada no dia 29 de março de 2026, na sexta edição da Caminhada do Silêncio, em São Paulo, aos 62 anos do golpe militar de 1964.

Edição: Thiago Domenici

 

Marcelo Oliveira
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‘Para nós é imprescindível cuidar das camadas mais necessitadas da sociedade’

Em Salvador, Lula visitou obras e recebeu carinho da população. | Ricardo Stuckert/PR

Melhorar as condições de vida das brasileiras e dos brasileiros que vivem em situação de vulnerabilidade e miséria é a prioridade do Governo, deixou claro o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista, nesta quinta-feira, 2, à TV Record da Bahia. O presidente teve agendas oficiais no estado, em Salvador, para inaugurar obras do Novo PAC.

Ao citar os investimentos e as obras do Novo PAC em todo o país, Lula enfatizou o que considera ser obrigação do Estado: “Para nós é imprescindível cuidar das camadas mais necessitadas da sociedade, que têm que ter um olhar carinhoso da nossa parte”.

O presidente disse que os governos do PT promoveram os maiores avanços sociais do Brasil e a maior inclusão social. “As pessoas deixaram de ser tão miseráveis quanto eram. Isso é motivo de orgulho pra mim”, enfatizou. Lula, porém, reconheceu que o país ainda precisa avançar muito mais.

“Ainda falta muito pra fazer, mas houve uma melhora substancial no país”, disse o presidente, citando alguns dados econômicos significativos, como a menor inflação acumulada dos últimos quatro anos, o aumento da massa salarial e o aumento e recomposição do poder de compra do salário mínimo.

Lula explicou que ao longo de seus mandatos e dos de Dilma Rousseff foram criados mecanismos de proteção social que permitiram às pessoas mais humildes evoluir.

Ao mencionar os avanços dos indicadores sociais e a importância do Bolsa Família, um programa de transferência de renda para a população em situação de pobreza e extrema pobreza, Lula disse sonhar com o dia em que o país alcance um nível de desenvolvimento que permita às pessoas prescindir da ajuda direta do Estado.

“O sonho que eu tenho é que um dia o povo esteja tão bem de vida que não precise mais de Bolsa Família”, disse ele. O presidente reiterou a honestidade das pessoas humildes e também enfatizou que seu Governo não permitirá que quem não precise use o dinheiro público.

Maior programa habitacional da história do país

Um dos exemplos de inclusão citados pelo presidente foi o Minha Casa, Minha Vida. Lula comemorou a entrega de 3 milhões de casas, até o fim deste ano, com um investimento recorde de R$ 14 bilhões.

“Estamos colocando em prática o maior programa habitacional de toda a história do Brasil.”

O presidente antecipou, ainda, que está em estudo no Governo a adoção da “compra assistida”, uma modalidade em que a União adquire uma casa já pronta para a população de baixa renda. Lula disse que esse modelo foi implementado no Rio Grande do Sul e a experiência foi positiva. “Estamos estudando para ver se é possível colocar em prática no Brasil.”

Ainda assim, ele disse que o programa Minha Casa, Minha Vida vai continuar, pois não existe nada mais importante do que a pessoa ter “seu próprio ninho”.

Educação, saúde e segurança

Lula disse que o Governo do Brasil está fazendo um “trabalho muito sério” nos investimentos em educação e que o país deve em breve alcançar a meta de 80% das crianças alfabetizadas na idade certa, até o 2º ano do ensino fundamental. A meta é chegar a esse número em 2030, mas os investimentos federais já mostraram um resultado surpreendente: 66% das crianças alfabetizadas na idade certa até o momento.

Os prefeitos e os governadores, disse Lula, precisam também assumir compromissos com a educação. “Nenhum país teve salto de qualidade sem investir em educação”, afirmou.

Lula disse que o seu Governo quer que as escolas públicas tenham um ensino de excelência, sejam as melhores, e que a classe média coloque seus filhos na rede pública.

Na área da saúde, o presidente afirmou que o programa “Agora Tem Especialistas” é uma revolução e que já foram feitas 42% mais cirurgias eletivas no país neste ano. Ele destacou, ainda, a compra de 13 mil ambulâncias, atendimentos odontológicos e os mutirões do programa, sendo que o último atendeu quase 230 mil pessoas.

Outro tema da entrevista foi segurança pública. Lula disse que aguarda o Congresso votar a Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública para que possa ser criado um ministério e que seja criada a Guarda Nacional.

A PEC, explicou Lula, vai definir com clareza os papéis da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, entre outras instituições. E vai dar mais poder para a União atuar no combate ao crime organizado, fazendo as intervenções necessárias.

“Queremos chegar no andar de cima da corrupção, nos magnatas da corrupção”, afirmou Lula. Ele lembrou que pediu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que coopere com o Brasil na luta contra o crime organizado e entregue os brasileiros foragidos, envolvidos no crime organizado.

Rede PT de Comunicação.

 

Fonte: PT, 02/04/2026 15h18

Internacionalismo, Utopia e Solidariedade

Opera Mundi – UOL

Em um mundo marcado por crises simultâneas — ambientais, econômicas, humanitárias e políticas — conceitos antes relegados ao campo das ideias abstratas ganham nova urgência e atualidade. Internacionalismo, utopia e solidariedade não são apenas palavras evocativas de um passado militante ou de projetos idealistas. São, hoje, propostas concretas para repensar o presente e moldar um futuro mais justo e sustentável.

O internacionalismo, historicamente vinculado a movimentos operários e lutas anticoloniais, reaparece como resposta à fragmentação e ao isolacionismo que crescem no século XXI. A pandemia de Covid-19, por exemplo, escancarou a interdependência entre os povos e a falência de modelos nacionalistas para enfrentar desafios globais. Nenhum país saiu ileso. A solidariedade entre nações, a troca de insumos, vacinas, informações e, principalmente, experiências, tornou-se necessidade vital.

Nesse contexto, o internacionalismo não deve ser confundido com globalização econômica. De fato, globocolonização. Enquanto esta visa integrar mercados sob a lógica do lucro e da competitividade, o internacionalismo propõe uma aliança entre povos, não entre capitais. É uma ética da cooperação, não da competição. A defesa dos direitos humanos, a luta por justiça climática e o apoio mútuo entre movimentos sociais são expressões contemporâneas desse ideal.

No entanto, para que o internacionalismo floresça precisa estar enraizado em uma visão utópica. Utopia, longe de ser uma fantasia irrealizável, funciona como horizonte mobilizador. É o que inspira movimentos e pessoas a acreditar que outras formas de organização social são possíveis. Utopia é motor da esperança, mas também bússola da ação política. É, em muitos sentidos, uma resposta ao ceticismo que impera em tempos de cinismo e desilusão. Dizer que “não há alternativa”, como pregam os neoliberais desde os anos 1980, é um projeto ideológico de imobilização. A utopia, ao contrário, afirma que há, sim, alternativas — e elas nascem da imaginação coletiva e da coragem para desafiar o status quo.

A solidariedade, por sua vez, é o elo que costura o internacionalismo e a utopia. Não se trata de caridade, mas de reconhecimento mútuo. É a percepção de que as dores do outro são também nossas, que a liberdade do outro condiciona a nossa. Em um mundo onde fronteiras são erguidas para pessoas e derrubadas para mercadorias, praticar a solidariedade é um gesto radical.

Exemplos concretos não faltam. O acolhimento de refugiados por redes voluntárias na Europa e na América Latina, o envio de médicos cubanos a países em crise sanitária, as campanhas transnacionais por justiça climática e os movimentos feministas e antirracistas que se articulam em escala planetária são provas de que a solidariedade internacional não apenas sobrevive, mas se reinventa.

Mas há obstáculos. O crescimento da extrema direita, do negacionismo e das fake news contribui para a desconfiança e o medo, sentimentos que corroem a empatia e alimentam o individualismo. Contra isso é preciso construir narrativas de pertencimento comum, de humanidade compartilhada. Isso exige educação, diálogo intercultural e fortalecimento das instituições democráticas — locais, nacionais e internacionais.

A tarefa é ambiciosa, mas necessária. Reafirmar o internacionalismo como prática política, cultivar a utopia como horizonte e exercer a solidariedade como valor cotidiano são atos de resistência e de criação. Não são antídotos mágicos para os problemas do mundo, mas ferramentas para enfrentá-los com dignidade e propósito.

Em um tempo onde impera o imediatismo, é revolucionário pensar a longo prazo. E mais revolucionário ainda é acreditar que esse futuro pode ser construído em comum. Afinal, como escreveu Eduardo Galeano, “a utopia está no horizonte. Sei muito bem que nunca a alcançarei. Mas ela serve para que eu não deixe de caminhar.”

Frei Betto é escritor, autor de “Fidel e a Religião”, entre outros livros.

Fonte: Frei Betto,

Um mês após decisão do STF, Instituto Marielle Franco articula pacote de leis contra violência política de gênero e raça

A ministra da Igualdade Racial e irmã de Marielle Franco, Anielle Franco durante ato que pede Justiça por Marielle e Anderson, em frente ao Tribunal de Justiça, no centro do Rio de Janeiro. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Um mês após o julgamento histórico no Supremo Tribunal Federal (STF) que responsabilizou os mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, o Instituto Marielle Franco anunciou a articulação de um pacote de projetos de lei voltados ao enfrentamento da violência política de gênero e raça no Brasil.

A iniciativa integra a mobilização #MarçoPorMarielle e reúne propostas para os níveis federal, estadual e municipal, com ênfase também na violência digital.

O eixo central das medidas é o combate à violência política de gênero e raça, especialmente em ambientes online. Pesquisa do Instituto Marielle Franco, lançada em 2025, revela que 63% das ameaças de morte nesses casos fazem referência ao assassinato da vereadora, evidenciando a persistência e a gravidade desse tipo de violência no país.

No âmbito federal, o pacote prevê alterações na Lei nº 14.192/2021, ampliando instrumentos de enfrentamento. Entre as propostas estão a regulamentação de plataformas digitais, a criação de obrigações para partidos políticos e a definição de diretrizes relacionadas ao financiamento de campanhas.

Segundo Luyara Franco, diretora executiva do Instituto Marielle Franco, a iniciativa busca transformar memória em ação política concreta. “Um mês após o julgamento, seguimos transformando esse marco em ação concreta. Enfrentar a violência política de gênero e raça é garantir que mais mulheres, especialmente mulheres negras, possam ocupar a política com segurança. Esse conjunto de propostas nasce do legado de Marielle e aponta para o futuro que queremos construir”, afirmou.

Na Câmara dos Deputados, a articulação para o protocolo das propostas é liderada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. A mobilização ocorre em meio a episódios recentes de ataques direcionados à parlamentar, o que reforça a urgência do tema.

Nos níveis estadual e municipal, os projetos preveem a criação de políticas públicas específicas para prevenir e enfrentar a violência política de gênero e raça, com diretrizes adaptadas às realidades locais. Entre os avanços propostos estão a adoção do conceito de gênero, a incorporação da perspectiva racial e interseccional, a ampliação da definição de vítima e do período em que a violência pode ser caracterizada, além da tipificação da violência política digital.

As propostas também instituem a Semana Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça, a ser realizada anualmente entre 8 e 14 de março, com ações voltadas à memória, conscientização e mobilização social.

A iniciativa faz parte do programa Plantando Sementes, da Agenda Marielle Franco, criada em 2021 para estimular a produção legislativa inspirada no legado da vereadora. Esta é a terceira edição da ação, que busca fortalecer a atuação parlamentar nos territórios, ampliar a incidência política e consolidar uma rede nacional de enfrentamento à violência política.

Segurança: Para tirar a esquerda do labirinto

Imagem: Riel | Outras Palavras

A sete meses das eleições, faltam horizonte e projeto em tema central. Do encarceramento em massa à impunidade dos crimes policiais; da militarização aos salários arrochados dos PMs – tudo precisa ser revisto. Eis uma proposta de roteiro.

FRATERNIDADE E MORADIA, CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

FRATERNIDADE E MORADIA, TEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, COM O LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

CÍRCULO BÍBLICO elaborado por frei Gilvander Moreira[1]

1 – Acolher todos/as e todes. Canto inicial e oração inicial.

2 – FATO DA VIDA

No Brasil continua existindo e se reproduzindo uma brutal Injustiça Habitacional. Segundo a Fundação João Pinheiro (2023), o déficit habitacional brasileiro ultrapassa 5,8 milhões de moradias, concentrando-se nas regiões metropolitanas. O número de sem-moradia “cresceu 4,2% em comparação com 2019” (CF 2026, nº 30). Acima de 30% da população sobrevive em favelas e assentamentos precários. Cerca de 11 milhões de pessoas sobrevivem em favelas (IBGE, 2022), com infraestrutura inadequada. Há também desigualdade regional: as regiões Norte e Nordeste concentram 60% do déficit habitacional, apesar de terem apenas 42% da população. Em muitas capitais, famílias de baixa renda gastam mais de 50% do orçamento com aluguel. A população em situação de rua está crescendo muito. Estima-se que cerca de 330 mil pessoas esteja em situação de rua, em “2024, um aumento de 25% em relação a dezembro de 2023” (CF 2026, nº 43).

“Entre 2010 e 2022, o número de favelas dobrou e o número de habitantes [nelas] cresceu em 40%” (texto-base da CF 2026, nº 55). De 30 a 40% da população carrega o peso da cruz do aluguel ou da humilhação que é sobreviver de favor em casa de parente. Muita gente clama: “O aluguel come no nosso prato todos os dias. Muitas vezes temos que tirar alimento da boca dos nossos filhos para pagar aluguel.” “Sobreviver de favor em casa de parente é humilhação o tempo todo. Não temos liberdade pra nada. As crianças não podem brincar, pois incomodam quem é dono da casa. Não podemos convidar uma pessoa amiga para nos visitar. Vivemos amontoados.” “Uma pessoa/família sem moradia é como um pássaro que voa, voa, se cansa e não tem um ninho para se assentar.”

3 – O que a Bíblia nos diz sobre o direito à moradia

O Lema bíblico “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14) nos mostra que o Deus da vida, solidário e libertador, por amor assumiu nosso corpo como sua moradia. Largou o céu (Ap 21,1-5) e veio morar conosco. Logo, toda pessoa é sagrada, é “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27), é “templo do Espírito Santo” (1Cor 6,19).  E a dignidade humana é o princípio basilar da nossa Constituição Federal de 1988 que deve ser respeitado. A falta de moradia ou a precariedade da moradia avilta, viola e pisoteia a dignidade humana.

Na Bíblia, há inúmeras passagens proféticas que nos mostram que nós discípulos/as de Jesus Cristo, que nasceu sem-teto e ao final de sua missão nos alerta “eu era estrangeiro e vocês me receberam eu sua casa” (Mt 25,35), temos que lutar para que ninguém fique sem moradia digna e adequada, conforme nos exortou o papa Francisco: “Nenhuma pessoa sem moradia…”

“Não oprimirás o estrangeiro… porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êx 23,9). “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio de país…” (Is 5,8). Ou seja, a brutal cruz que é imposta sobre mais de 30% da população brasileira não é por acaso e não por irresponsabilidade pessoal ou preguiça do povo, mas trata, sim, de um projeto capitalista de acumulação de riqueza e poder nas mãos de uma minoria. Milhões são forçados a sobreviverem sem moradia digna e adequada para que uma minoria lucre muito com aluguel e com a especulação imobiliária.

Solidariedade libertadora não pode se limitar a doação de roupas, alimentos ou pequenas ajudas, é preciso incluir necessariamente compromisso com a luta para que as pessoas sem moradia conquistem moradia digna e adequada. A conquista da moradia é base que sustentará a luta para se conquistar outros direitos.

A Bíblia apresenta a moradia não apenas como abrigo físico, mas numa visão integral como espaço de dignidade, segurança e desenvolvimento familiar. Isto é, para que a moradia seja digna e adequada é preciso estar em ambiental saudável, com acesso a saneamento, transporte público de qualidade, educação e saúde pública, cultura, lazer.

4 – MOMENTO DE REFLEXÃO

Não podemos normalizar a financeirização da moradia, que é um bem essencial à vida, um direito humano fundamental, inscrito no art. 6º da Constituição Federal, desde o ano de 2.000.

  • Qual minha/nossa história sobre moradia? Nasci sem-casa? Vivo de aluguel? Ou em que tipo de casa vivo? E nossa responsabilidade ética sobre Moradia adequada para todos/as? Como é a situação de moradia do povo da minha comunidade, bairro e cidade?
  • O que devemos fazer e como para que a Campanha da Fraternidade de 2026 sobre Moradia fortaleça a luta dos sem-teto por moradia adequada? Você conhece e participa de algum dos Movimentos Sociais que lutam por moradia (Por exemplo, Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Movimento dos Sem Teto (MTST) ou outro movimento)?

5 – MÃOS À OBRA

  • Que compromisso vamos assumir a partir deste Círculo Bíblico?

6 – Oração final e agradecimento a todos/as pela participação.

 

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

Unicef – Rede Pode Falar: Canal de escuta acolhedora para adolescentes e jovens

A UNICEF, em parceria com outras instituições brasileiras, CVV inclusive, lançou o programa

Pode Falar,

um canal anônimo de escuta, destinado a adolescentes e jovens entre 13 e 24 anos, com o objetivo de reduzir a violência e abuso infanto-juvenil, autolesões, tentativas e finalizações de suicídios.

Vamos divulgar esse projeto?

www.podefalar.org.br

✅ Sugiro divulgar nos grupos de família, do condomínio/ vizinhos e escola.

 

Sem medo de ser feliz!

Aqui não tem uma militância

Tem uma ânsia, isso sim, de respirar melhor

Catar flores no meio do asfalto

Alto lá

Bandidagem aqui não.

Agem nas sombras

Deseducam, confundem

Afundam países

Desfazem o humano.

Este ano teremos a possibilidade de insistir no melhor

Lula lá de novo!

Como se faz um país?

Com uma revolução pacífica, na qual todos e todas temos um lugar

Sem medo de ser feliz

Sem medo de ser

Feliz.

Nos meus anos de caminhada por este mundo

Que não são tantos, no entanto, entretanto

Tento me manter fiel o que fui capaz de entrever

Seguir o amor, viver no amor, ser amor

É o que consigo ser.