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Moderna Barbárie

A Revista Veja, que circula num país onde 40 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar, ou fome, segundo o IBGE, estampou na capa de uma de suas últimas edições a figura de Thor Batista, herdeiro da oitava maior fortuna do mundo, os tantos bilhões de Eike Batista, empresário famosíssimo no Brasil.

A Revista Veja, que circula num país onde 40 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar, ou fome, segundo o IBGE, estampou na capa de uma de suas últimas edições a figura de Thor Batista, herdeiro da oitava maior fortuna do mundo, os tantos bilhões de Eike Batista, empresário famosíssimo no Brasil. Entre elogios e adjetivos, a revista enaltece o rapaz de 20 e poucos anos que terminou a escola por meio de um supletivo e trancou a matrícula da faculdade particular ainda no primeiro período, por considerá-la “puxada” demais. Isso tudo apesar das fartas condições financeiras que o sustentam desde o berço – e que são responsáveis, entre outras coisas, por seu carro de 1,3 milhão de reais, comprados com o dinheiro vindo do próprio esforço de aplicar na bolsa o dinheiro do pai. No sistema capitalista financeiro mundial é assim: quanto mais você tem, mais fácil é ter. Mesmo apesar de toda esta cansativa atividade que rende milhões, o rapaz quer trabalhar mais: vai abrir um conglomerado de baladas no Rio de Janeiro, “comandar a noite carioca”. E como se não bastasse o tremendo fiador que carrega no nome, a revistinha dá seu recado de lambe-botas ao papai Eike, fazendo lobby pelo novo empreendimento do mais novo filhão bom-moço do país.

É uma situação um tanto quanto caricata, e que merece sérias e detidas análises sociológicas, políticas, econômicas – e quiçá antropológicas – sobre a revista, seus realizadores, leitores e outros agentes mais. Mas ler toda a ‘matéria’ foi o suficiente e pretendo, portanto, tratar de um aspecto que pode passar desapercebido ao olhar desatento e desacostumado ao furor da grande imprensa brasileira.

O caso é que, no Brasil, a palavra democracia é uma beleza, mas o conceito é uma mentira. Não demoro a explicar:

ponto 1: em democracias reais, todo cidadão tem os mesmos direitos e deveres.

ponto 2: na nossa democracia, um mega-empresário, por exemplo, pode contribuir com quantos milhões estiver disposto à campanha eleitoral de um candidato à presidência. Este mega-empresário, ao contrário do que muitas vezes se diz por aí, vai cobrar deste candidato, se eleito, contrapartida ao seu aporte financeiro, que em se tratando das eleições brasileiras, definidas em maior escala pelo espetáculo midiático (que realmente custa muitos milhões de reais), é indispensável para a vitória eleitoral.

ponto 3: este poder direto sobre as eleições o possuem pequeníssima parcela da população de cidadãos comuns do Brasil.

conclusão: alguns cidadãos, devido a sua condição financeira, possuem mais poder sobre o processo eleitoral, que define em grande medida a pauta política do país.

O empresário Eike Batista é um síbolo deste exemplo. O que diz a revistinha sobre ele:

“Eike Batista é tradicionalmente um mão-aberta nas campanhas eleitorais. Em 2006, doou 1 milhão de reais à campanha de Lula e mais 3,4 milhões de reais a outros onze políticos, como Roseana Sarney, Sérgio Cabral e Cristovam Buarque. Suas doações têm a particularidade de ser na condição de pessoa física, e não em nome das suas companhias, como é a prática do empresariado. E, agora, o que fará Eike? Decidiu doar 2 milhões de reais às campanhas de José Serra e Dilma Rousseff (metade para cada uma delas). Abrirá o cofre também para várias campanhas nos estados em que seu grupo atua.”

Ora, ora! Que coincidência atroz! Abriu o cofre para campanhas nos estados onde seu grupo atua. Claro, depois de consumada a eleição, com seus lacaios já em seus postos de governo, Eike envia a fatura: uma aprovaçãozinha aqui, uma concessãozinha ali, uma flexibilizaçãozinha acolá, e aí está a sentença condenatória daquilo que entendemos conceitualmente como democracia. Ilustração: nos útlimos sete anos, o minerador conseguiu 108 licenças ambientais. O Eike Batista, que não possui cargo público nenhum, não foi escolhido como representante de ninguém, que formalmente não possui poder político algum, na prática, tem muito mais poder político que eu, você, meus vizinhos, seus vizinhos e todas as nossas famílias. Juntas. Não sou eu quem digo, é o próprio: “nossos projetos estão em vários Estados e não vão ficar parados por questões políticas”.

Logo, melhor do que a palavra democracia, o que define o nosso sistema de governo poderia ser capitalcracia, ou mesmo democracia burguesa, onde quem detém o dinheiro (ou, em outras palavras, os meios de produção) detém também o poder. Veja você que Eike Batista foi competente ao garantir seu espaço nas reivindicações ao governo. Fez doações de campanha aos dois únicos concorrentes reais do pleito presidencial, que, sendo igualmente representantes dos interesses da burguesia (com detalhes e pormenores diferenciando-os), não hesitaram em aceitar o ‘empréstimo’, dispostos a pagar depois com este salgado preço: afogar o processo democrático.

A partir deste entendimento, traço um raciocínio lógico e bastante simples: eu poderia doar 10 reais à campanha da Dilma. Isso não seria nenhuma garantia de atendimento aos meus interesses particulares, como, por exemplo, uma permissão para instalar uma modesta banquinha de frutas em local proibido da praia de ipanema – que trabalho anda difícil de se conseguir, e de vez em quando é preciso comer. Tenho certeza que a “coordenação inédita entre as polícias e os governos municipal, estadual e federal”, encarnados na política de segurança pública do Rio de Janeiro, não tardaria em me agredir como bandido que traz o caos à cidade. Está aí o implacável Choque de Ordem para comprovar.

Eu poderia, com grande esforço, doar 100 reais à campanha. Igualmente, de nada me adiantaria.

Na prática eu não poderia, mas admitamos hipoteticamente que eu pudesse doar 10 mil reais à campanha da atual presidente. Possivelmente a coisa mudaria de figura, e talvez uma banquinha de frutas já fosse viável – embora eu ache que o investimento não fosse tão inteligente.

Imaginemos, pois, que eu pudesse doar 1 milhão à campanha de Dilma Roussef à presidência da República. A campanha custou, ao todo, 177 milhões de reais. Minha contribuição seria de cerca de 0,5% de todo o dinheiro gasto. Não é pouco se pensamos que o país possui cerca de 190 milhões de pessoas ‘iguais’. Não tenho dúvida alguma que muitas regalias me seriam oferecidas em troca.

Então, comprovado o fato de que quem possui poder financeiro possui poder político, passo adiante (embora esteja voltando àquele assunto primeiro). Sendo Eike Batista o homem mais rico do Brasil, com fortuna avaliada em mais de 30 bilhões de dólares, acumula também, na boca pequena, o título nada desprezível de homem mais poderoso do Brasil. O homem que possui mais poder de influenciar a cena política, embora não tenha nenhuma ligação institucional com nenhuma instância de governo.

Voltemos ao rapaz Thor. O grande título que até agora foi capaz de angariar é o de ‘Herdeiro de Eike’, o menino que arrendará toda a fortuna que o pai criou a custa de muita exploração de trabalhadores comuns. No dia em que Eike Batista morrer, automaticamente o primogênito será detentor da maior fortuna do Brasil (e talvez do mundo, já que o pai recentemente manifestou sua intenção de brigar pelo topo do ranking promovido pela revista Forbes) e ocupará o trono do pai, vai passar a influenciar determinantemente a vida pública do país. Vamos, pois, aos fatos.

Teremos como a pessoa mais poderosa do Brasil um homem que nunca leu um livro inteiro. Só se interessa por leitura sobre carros e fisiculturismo. Uma pessoa que não sonha em imaginar o que é uma necessidade. Cujo maior ídolo é o ator Arnold Schwarzenegger, seguido pelo próprio pai. Certamente nunca andou de ônibus na vida.

Não é possível que seja apenas um devaneio meu. Há alguma coisa de muito errada nesse mundo. Nossa memória social, recortada pelos jornais, nos fará repetir novamente erros que estão aí, à disposição da revisita, como serventia e salvaguarda de nosso futuro. Lembro-me das aulas de história na escola onde me formei, da comoção que me causou saber que um rapaz de 15 anos, foi, certa feita, nomeado imperador do Brasil. Lembro dos déspotas esclarecidos, trogloditas ignorantes que governavam desde e para dentro de seus gigantescos palácios. Ou dos monarcas absolutistas, empenhados em melhorar sua vida e manter o poder, às custas do sangue do povo.

O que mudou? Agora, no lugar da linhagem e da vontade divina, temos o dinheiro e as intenções do Capitalismo. A barbárie se modernizou, trocamos simbologias, bandeiras e hinos, mas o mundo continua afogado no mar dos interesses escusos das classes dominantes. No lugar de um Príncipe de Sangue Azul, aceitaremos em nossa moderníssima era um Príncipe de Saldo Azul, azulíssimo, nas suas contas espalhadas pelo mundo, nos seus meios de produção que aprisionam a vida de milhares e milhares de homens que suam suor de verdade, sangram sangue rubro e trabalham, e trabalham e trabalham para mal-sobreviver. É terrível constatar que não se trata de novidade, de caso inédito, de conjugação única do acaso. O próprio gibi responsável pela publicação que motiva este artigo já trabalhou muitas vezes nesta tarefa, de promover toda a sorte de figuras bizarras ao poder: genocidas, torturadores, marajás, exploradores, opressores. Não é digna de surpresa a tônica heróica da reportagem sobre Thor Batista. O rapaz possui nome de Deus, bíceps de quarenta e cinco centímetros e, a se julgar pelas informações disponíveis, um cérebro pouquíssimo desenvolvido.

O que mais a Veja – e junto com ela a burguesia em crise precisando de favores, os mega-empresários precisando de licitações, os corruptos precisando livrar suas caras – poderia pedir aos céus? Que venham os trovões da moderna barbárie!

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