
São João me trouxe de volta
Para o céu de Aldebarã
Este sítio, meu refúgio
Esta invernia tardã…
Minha jornada estelar
Faz a minha alma bailar
No vento da madrugada.
Da constelação de Touro
Olho o passado vindouro
Qual nostalgia avistada.
Deitado na areia branca
Que lastreia a estrada afora
Me perco velando o céu
Até onde o olhar se arvora.
Na Voyager me alberguei
E minha alma acelerei
Sabendo-a minha trincheira.
Ali, no espaço profundo
Vi que o tamanho do mundo
É maior do que Teixeira.
Viajo então com Carl Sagan
O poeta das estrelas
Pela vastidão do cosmos
Esperançoso de vê-las.
Da nave o olhar encerra
Ao longe a minúscula Terra
Um Pálido Ponto Azul®.
Qual fosse um grão de poeira
Noticiado em primeira
Pela Raquel Krähenbühl.
Quando avisto o meu passado
Numa estrela milenar
Eu me sinto eternidade
Mesmo quando me apagar.
Com a mesma exuberância
Daquele céu da infância
Que um dia me extasiou.
E sobre o Sítio Machados
Ele enfeitava os roçados
Que meu pai agricultou.
Vejo o brilho do passado
Em cada piscar de estrelas
Pois talvez já não existam
Mesmo quando eu possa vê-las.
Ó, grandioso universo
Quão pequenino meu verso
Frente à tua imensidão…!
Em ti vejo meu reflexo
Pois eu sou fruto do sexo
Da luz com a escuridão.
Daquela estrela brilhante
A luz viaja veloz
Mas gasta uma eternidade
Para chegar até nós.
Sua demora é tamanha
Que se transforma em façanha
Clarão do que se apagou.
Parecer paradoxal
É metáfora seminal
Que o universo criou.
Na lente do telescópio
Há ecos de luz divina
Numa epifania cósmica
Que aos poucos me ilumina.
E salpicando meu peito
Ressoa como um preceito
Uma doutrina, lição.
Que foi trançada no céu
Pelas mãos de Rapunzel
Até o meu coração.
Martim Assueros
Gravatá, São João de 2026
Bacharel em Ciências Sociais, ambientalista e poeta.

Impossível não ressoar mesmo que someramente este toque de eternidade, estes reflexos do sentir pleno do poeta Martim Assueros Gomes que me alcança nesta madrugada. São estas ações livres do espírito, que me forçam a insistir na poesia, na leitura, no canto, como formas de preservação e expansão do ser que somos, que cada pessoa é, desde que se deixe aninhar na arte.