Relato da Primeira Jornada da XVI Semana Teológica Pe. José Comblin

Foto: José Comblin | Comissão Pastoral da Terra Nordeste II (CPT)

Neste mês de junho de 2026, mais especificamente no dia 06/06, realizamos a Primeira Jornada da Semana Teológica em memória do Pe. José Comblin, hoje em sua XVI edição, trazendo para o centro da reflexão o tema: Discipulado de Iguais x Patriarcalismo/Clericalismo: contribuições de Agostinha Vieira de Melo, Elisabeth Schüssler Fiorenza e José Comblin 

A Primeira Jornada, realizada no Centro de Formação José Comblin, em Café do Vento – Sobrado – PB, contou com a presença de Pe. Hermínio, Tânia, Alder, Glória, Lúcia Maria, Inês, Cida, Edna, Ulisses, Socorro Araújo, Socorro Barbosa, Socorro Borges, Ir. Maria Lúcia, Ir. Vitória, Ir. Silvana, Ir. Jardiane, Salene e Pe. Wanceley, representantes de diferentes grupos co-organizadores das Semanas Teológicas, que seguem unidos e esperançosos nesta caminhada, como os Grupos Comblin, Kairós, CEBI-PB (Litoral, Borborema, Itabaiana, etc.) e CPT.  

Como de costume, na chegada formos recepcionados(as) pelo Pe. Hermínio, que nos ofereceu, com a contribuição de Alcione nos preparativos, uma merenda, antes de darmos início aos trabalhos. Após a acolhida,seguimos para o Salão São José para iniciarmos as atividades programadas. 

O anfitrião abriu a sessão dando as boas-vindas às pessoas presentes e, em seguida, passou a palavra a Cida que conduziu a dinâmica de apresentação entre os participantes. Findas as apresentações, Glória dirigiu a Mística inicial, entoando canto: “Mudarei o sertão em açude”, de Irmã Agostinha, passando a palavra a Lúcia Maria que fez a leitura do Evangelho de Mc 7, 24-30 – a passagem do diálogo entre a mulher sírio-fenícia e Jesus -, o que gerou uma rica reflexão entre os(as) participantes que reconhecem, na leitura, a condição da mulher no escritos bíblicos. Inquietações como: Quem, naquela época, tinha livre acesso a Jesus? Qual onome da mulher? O que a moveu ao procurar Jesus? Ela recebeu, de imediato, um SIM de Jesus? Quem tem acesso aos bens materiais e à saúde? Quem tem acesso ao pão de cada dia e quem vive de migalhas? Ante as “migalhas”, uma vez interpelado pela mulher, Jesus tem um apelo à conversão; As “migalhas” também importam; Mulheres e crianças têm palavra de cura, de conversão, de ensinamento… a sabedoria também está com as mulheres e as crianças; Com as mulheres e as crianças se faz o “discipulado de iguais”. Após a rica reflexão da assembleia, Edna recitou a oração “Santa Mãe de Tudo que Vive”, de Elizabeth Schüssler Fiorenza(In. Discipulado de Iguais… Capítulo “Invocações”. p.234-35). Segue a oração: 

 

SANTA MÃE DE TUDO QUE VIVE 

Nós pecamos contra ti
por falta de respeito próprio
por falta de auto-afirmação
por falta de amor-próprio
por falta de solidariedade com outras mulheres.
Como podemos prestar-te culto
a ti, de quem somos imagem e semelhança,
se ignoramos o respeito a nós mesmas?
Como louvar tua glória
da qual somos imagem e semelhança
se não nos afirmamos?
Como havemos de amar o próximo que é a nossa irmã,
se não nos amamos a nós mesmas?
Perdoa-nos as nossas ofensas
assim como perdoamos aos que nos têm ofendido
aos que nos banalizam
aos que nos faltam com respeito
aos que nos enfraquecem e tiram o poder
aos que fomentam em nossos corações e mentes e aversão a nós mesmas.
E não nos deixes cair em tentação 
mas livrai-nos do mal da dominação patriarcal.
Amém. 

 

No passo seguinte, Cida fez uma breve Memória das Semanas Teológicas, desde as origens aos dias atuais (2011-2025), a partir das informações contidas no Site “Teologia Nordeste Net”(https://www.teologianordeste.net/index.php). Para o evento atual, Cida procura contextualizar a escolha do tema considerando os índices de violência contra a mulher que, em 2025, atingiram o alarmante número de 1.470 casos de feminicídio*, correspondendo a 4 mulheres assassinadas por dia, sendo as taxas gerais daquele ano (assassinatos, estupros, violência doméstica, entre outras) as mais elevadas dos últimos 15 anos (*dados da Procuradoria Especial da Mulher, Senado Federal , disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/noticias/violencia-de-genero-no-brasil). Não bastassem os dados concretos até então registrados, e o fato de iniciarmos 2026 com igual tendência de violência contra as mulheres, os poderes constituídos se mobilizam em torno da aprovação de Lei que amplia o alcance da criminalização do aborto, com o aval de parte da sociedade civil (os conservadores de extrema direita) e da própria CNBB. Estas foram as questões fundantes que levaram os grupos co-organizadores das Semanas Teológicas a definirem o tema central dessa XVI edição do evento.  

Buscamos então o diálogo entre José Comblin, que nos apresenta as “Beguinas” (mulheres da Idade Média que se destacam por sua espiritualidade vivida na experiência e na convivência com os pobres de sua época), e as teólogas e missionárias Elizabeth Schüssler Fiorenza e Agostinha Vieira de Melo, as quais, cada uma ao seu modo, sendo exemplo de vida e de escolhas, centradas no serviço e na promoção da causa das mulheres seja na Igreja, seja na sociedade, dando margem ao entendimento de que somos todas e todos convidados a formarmos um grande “discipulado de iguais”.  

Logo após essa contextualização do tema, e ainda na perspectiva da responsabilização da CNBB, demonstrando a sua insensibilidade à causa das mulheres, Salene fez a leitura de uma carta-denúncia intitulada “Carta a um amigo teólogo sobre o aborto nas eleições de 2010”, que José Comblin destinou à comunidade eclesial brasileira, a qual se encontra no Site “O Arcanjo no Ar” (https://oarcanjo.net/site/carta-a-um-amigo-teologo-sobre-o-aborto-nas-eleicoes-de-2010/). Em seguida, Alder ao apresentar “Agostinha e Elizabeth: Quem são essas mulheres?”, falou-nos brevemente sobre a história de vida dessas “beguinas” dos dias de hoje. 

Finda essa primeira parte dos trabalhos, seguimos para o foco central da programação. Em pequenos grupos: fazer a leitura e a reflexão dos textos indicados, tendo cada um deles duas questões orientadoras para o debate; quatro grupos foram aleatoriamente definidos; a cada grupo coube trabalhar dois dos três textos, sendo recomendável a todos a leitura do texto 2 “A maioria silenciosa começa a falar” (Elizabeth Fiorenza); os textos 1 “Liberdade da vida religiosa leiga” (José Comblin) e 3 “De águas, vento, palavras e papel. Poemas da Ir. Agostinha” ficaram para a livre escolha. Findo o prazo de uma hora, previamente estipulado para a leitura e reflexão, os grupos se reuniram em assembleia onde suas relatoras apresentaram os aspectos mais relevantes destacados nos textos lidos.  

Todos os grupos ressaltaram a densidade do texto 2, de Elizabeth Schüssler, identificando os critérios que ela apresenta quando trata da questão da invisibilidade e do silenciamento das mulheres, impostos pela hierarquia da Igreja.   

Apenas um grupo fez menção à figura das “beguinas” – de sua força e de sua coragem no enfrentamento da hierarquia clerical na Idade Média -, presente no Texto 1, de autoria de José Comblin. Relacionaram as beguinas às Irmãs e Missionárias de hoje, que fizeram suas opções pelos empobrecidos(as), indo morar nas periferias, convivendo com o povo, levando a eles a palavra bíblica como palavra de vida, ensinando e aprendendo com eles, a partir de suas próprias histórias, suas dores e suas lutas. Mencionaram como exemplo, entre tantas, a Ir. Marlene e a Ir. Agostinha. Fazer a opção pelos pobres significa ter respeito pela diversidade; ter amadurecimento para o respeito mútuo e só assim formar a “unidade na diversidade”. O grupo reconheceu que não se formam mais missionários e missionárias como antes; que é necessário repensar a formação humanista, social e política nos espaços de formação de religiosos e religiosas e também de leigas e leigos atuantes nas comunidades. 

Os demais grupos se detiveram ao Texto 2, de autoria de Elizabeh Schüssler. Os destaques dados ao texto “A maioria silenciosa começa a falar”, nos lembram que o silenciamento das mulheres remonta a própria escrita da Bíblia. Desde Eva, colocada como a segunda no plano da criação (“criada a partir da costela de Adão”) e como sendo a porta de entrada do pecado no Paraíso, passando por outras mulheres apontadas como pecadoras, transgressoras, perversas, indignas… até chegar a Maria, escolhida para a encarnação do Filho de Deus, mas que, mesmo santa, não redimiu a figura de Eva. A interpretação bíblica dominante traz Maria como exemplo de pureza e castidade a ser seguido, e usa Eva para julgar e condenar as mulheres; o próprio Paulo fortalece a discriminação e o silenciamento das mulheres nos ambientes da época. E nas Igrejas, a catequese cumpre esse papel ao reforçar essa narrativa do subjugo e dominação das mulheres, reforçando a ideia de que o pecado está impregnado nas mulheres, uma narrativa que fundamenta a violência contra as mulheres, tão presente nos dias de hoje. Outras colocações ressaltam que o processo de Cristandade, sobretudo desde Constantino (sec. IV), com o distanciamento entre o Jesus humano (Jesus histórico) e o Jesus divino (o Cristo, o Ungido), o Patriarcado é consolidado notadamente com o advento do Capitalismo; Fiorenza chama a atenção para a necessidade de ruptura com esse sistema.  

Da relação entre a teoria e a prática, cogitou-se a necessidade de se encontrar caminhos para além do acadêmico, valorizando ações práticas mais próximas ao povo; indagou-se se uma ênfase teórico-abstrata não configuraria uma disputa de narrativas, como se a luta das mulheres tivesse como objetivo ocupar, na hierarquia, o lugar que hoje é dominado exclusivamente por homens…  

Sobre essa questão da disputa intra-eclesial, Alder esclarece que Elizabeth não vislumbra uma inversão de lugar, uma tomada de assento na hierarquia por parte das mulheres. Ela defende a pauta da tomada de decisãopor parte das mulheres na Igreja, em pé de igualdade com os homens; de seguir em frente, atuando segundo a sua “vocação e espiritualidade”, independentemente do consentimento de Papas, Bispos, Padres. As mulheres precisam se sentir livres para agirem e atuarem segundo a inspiração do Espírito. 

Dando continuidade às discussões, argumentou-se que uma das estratégias do patriarcalismo clerical para seguir no seu projeto de dominação e silenciamento das mulheres é a de atribuir a si, com exclusividade, a competência pela interpretação dos textos bíblicos e a detenção do conhecimento teológico, sendo reticente a outras interpretações como as da hermenêutica da memória; da hermenêutica da suspeita (isso é palavra de Deus?); da hermenêutica da crítica (enfoque no estudo os pobres); da hermenêutica da imaginação; da hermenêutica da proclamação (incluindo alternativas ao que é proclamado); da hermenêutica da solidariedade (de natureza ética e comunitária), etc.  

– Qual a saída? Avançar nos estudos que fundamentam a “leitura feminista da Bíblia”; fortalecer a “espiritualidade da Libertação” nos pequenos grupos, rodas de conversa, desenvolver a sororidade, a irmandade. Afinal, o que é Igreja? A Igreja somos nós; a divindade está em todo lugar.  

– É preciso sair do círculo hierárquico. Enfrentar o conflito. Quebrar esse silêncio é enfrentar a marginalidade a que as mulheres se acham submetidas, seja na Igreja, seja na sociedade; é necessário investir na formação. 

– É preciso Decolonizar o pensamento; exercitar a “Pedagogia da encruzilhada”. Hoje, no Brasil, 34.000 crianças, vivem em situação marital e a hierarquia clerical e a sociedade fecham os olhos para isso. 

– O mundo está um lugar perigoso para se viver. Estamos em crise. É uma crise de humanidade. Nesse contexto, qual lente estamos usando para ler e agir no mundo? 

É urgente mudar a Sociedade e com ela, mudar a Igreja. Queremos exercer o nosso direito de decidir. 

Ao final das reflexões se reconheceu a importância e a profundidade dos textos indicados para a leitura. Muitas inquietações foram afloradas a partir das leituras e questionou-se o curto espaço de tempo para a densidade do material disponibilizado. Faltou um espaço maior para as falas e exposição das questões deles decorrentes. Reforçou-se a necessidade da formação, ampla e continuada, como estratégia de enfrentamento de tal crise. “O conhecimento liberta”. Por fim, recomendou-se como estudo complementar, a leitura do livro “Espiritualidade da Libertação”, de Dom Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil.  

Após as discussões na plenária, Glória conduz a oração final, e em seguida passa a palavra ao Pe. Hermínio para os informes. Juntamente com Ulisses do CEBI-Borborema, eles apresentaram a retomada do Projeto de Formação da Escola Missionária – Pe. José Comblin: Fé, Justiça e Amor a Serviço da Vida -, com o Curso sob o tema: “Feminicídio: As múltiplas formas de violências praticadas contra as mulheres (físicas e psicológicas)”, que acontecerá no período de 28/06/2026 a 05/07/2026, no Centro de Formação Padre Mazza, no Alto do Mateus, João Pessoa – PB. Em seguida Cida lembrou que a Jornada de Encerramento da XVI STPJC vai acontecer no dia 22/08/2026, na Casa dos Sonhos, em Várzea Nova, Santa Rita – PB. O anfitrião nos convida então a um brinde seguido do almoço generosamente preparado pela Alcione.   

Revigoradas/dos e agradecidas/dos, no horário previsto, retornamos à João Pessoa. 

João Pessoa, 10 de junho de 2026 

Uma contribuição do Grupo Kairós

Deixe uma resposta