
A Torre de Genebra
A morada é uma caixa
De concreto e solidão
Amálgama impiedoso
Que lacera o coração.
Numa urbe assim tão grande
Todo asfalto se expande
Sufocando a sensatez.
Toda a via desatina
𝐶𝑜𝑛𝑐𝑖𝑒𝑟𝑡𝑜 só de buzina
Jamais o de Aranjuez.
As ruas já não têm sombra
Nem pessoas no passeio
Só carros desembestados
Em desatino, sem freio.
Eles estão sempre indo
Mesmo até quando estão vindo
A caminho do amanhã.
Ouvem axé, “breganejo”
MPB… nem solfejo…
É companhia tardã!
Aglomerados de caixas
Já quase arranhando o céu
Impessoais, sem história
Com jeito de mausoléu.
Aqui o sol sai mais cedo
Esperançando o enredo
Que o destino traçou.
Talvez mais perto de Deus
Em vez de adorar pneus
Adorem quem os criou.
O prédio rouba a paisagem
E a brisa que vem do mar
É o concreto devastando
O rio, a mata, o luar…
A cidade e a Natureza
Em simbiose é defesa
De ser socioambiental.
Mas o lobby construtor
Venceu mais um promotor
Na peleja desigual.
Na praia o esgoto abundando
Provindo de bundas várias
Das elitistas, burguesas
E também das proletárias.
Pelo Rio Jaguaribe
Ele escorre e se exibe
Ao morador e ao turista.
O prefeito interpelado
Declara “fui enganado
Por esse sanitarista”.
O modelo é predatório
Neste “desenvolvimento”
Desigual, fragmentado
O lucro por fundamento.
Sem dimensão social
Política e ambiental
Ao fracasso se destina.
A escola que defende
Do todo ela se desprende
Em uma só disciplina.
A riqueza é concentrada
Em um por cento do povo
Ao resto só cabe o resto
Em João Pessoa ou Kosovo.
E muitos, sem ter comida
Se agarram ao “salva-vida”
Padre Júlio Lancellotti.
Acolhendo cada um
Ele faz do desjejum
O motivo deste mote.
A grave concentração
(Salário, renda e riqueza)
Traz um personagem que
Não tem assento na mesa.
Nessa condição passível
Ele é escravo invisível
Num verso quase sofista:
Um meliante imprestável
Estorvo vil, descartável
Refugo capitalista.
Martim Assueros, 16/01/2026
assuerosmartimg@gmail.com
Bacharel em Ciências Sociais, ambientalista e poeta.
