
Longe de ser uma quimera inalcançável, a utopia consolida-se como um projeto político e pedagógico viável que une a denúncia da injustiça ao anúncio de um novo mundo por meio da luta popular.
Por Guilherme E. Meyer* | A Terra é Redonda, 13 de junho de 2026
Querida Isabela,[i]
Gostaria de começar esta carta com a pergunta que tem me inquietado nos últimos anos: o que é utopia?
Na tarde em que nos conhecemos, você falou da utopia como um horizonte inalcançável, mas que nos motiva a seguir andando em sua direção, lembrando a famosa descrição atribuída a Eduardo Galeano.[ii] Essa forma de pensar na utopia enfatiza o ato e o processo de caminhar, de lutar.
À primeira vista ela está presente na obra de Paulo Freire, por exemplo quando ele fala do “sonho pela humanização, cuja concretização é sempre processo, e sempre devir”.[iii] Mas até nesses momentos ele fala da utopia como concretizável, ainda que essa concretização nunca chegue a um fim, pois nenhuma utopia atinge um estado de perfeição.[iv] As utopias são realizáveis, mas a sua realização é inacabável. Um aspecto central da noção freiriana de utopia é essa tensão dramática entre realizável e inacabável.
A todo momento, Paulo Freire nos convida a pensar nas utopias como sonhos possíveis ou inéditos viáveis, se opondo à noção muito difundida e em geral pejorativa de que utopias são planos ou sonhos irrealizáveis; ideias generosas, porém impossíveis.[v] Quando Paulo Freire fala de utopias que apontam para um mundo mais justo, fala de “sonhos possíveis a serem viabilizados pela ação política”[vi]. Como se vê nessa e tantas outras passagens, Freire ressalta tanto a luta quanto a possibilidade de realizar utopias por meio dela. É esse entendimento que tem norteado, ou melhor, suleado o meu pensamento.
Em uma nota de rodapé de Pedagogia do oprimido, Paulo Freire descreve a utopia como a “unidade inquebrantável entre a denúncia e o anúncio”.[vii] Prefiro chamar essa unidade de “utopismo”, levando em conta outro termo freiriano: profetismo[viii], também chamado de pensamento[ix] ou atitude profética.[x] Como ele mesmo indica, os adjetivos “profético” e “utópico” são sinônimos em sua obra.[xi]
Na minha concepção, o utopismo é uma certa atitude diante do mundo, e em especial do futuro. Essa atitude é esperançosa e até otimista, no sentido freiriano dos termos, em que cultivar esperança e otimismo jamais significa cruzar os braços e esperar; pelo contrário, sempre significa se engajar em formas de luta. Quanto ao futuro, esse caráter esperançoso e otimista tampouco se traduz na convicção de que o futuro será necessariamente mais justo, mas na convicção de que o futuro é problemático,[xii] aberto a diferentes futuros, inclusive revolucionários.
Acima de tudo, o utopismo é caracterizado pelo constante movimento de mão dupla entre a denúncia da sociedade em que vivemos e o anúncio de outras formas de viver juntos, com ênfase em seu aspecto anunciador de sonhos possíveis ou inéditos viáveis, ou seja, de utopias. Uma das melhores definições do anúncio utópico aparece em Pedagogia da indignação quando Paulo Freire nos convida a pensar no utopismo como um pensamento ou atitude que “implica o exercício articulado da imaginação de um mundo menos feio, menos cruel”[xiii]. Esse exercício é articulado porque conecta denúncia e anúncio, mas também por outro motivo importante: porque ele visa a elaboração cuidadosa e mais ou menos detalhada de utopias, quer dizer, a elaboração de utopias em forma de projetos.
Em diversos momentos, Paulo Freire traça um paralelo entre utopias e projetos de artefatos, fazendo alusão a Marx: “Enquanto projeto, enquanto desenho do “mundo” diferente, menos feio, o sonho é tão necessário aos sujeitos políticos, transformadores do mundo e não adaptáveis a ele, quanto, permita-me a repetição, fundamental é, para o trabalhador, que projete em seu cérebro o que vai executar antes mesmo da execução”.[xiv]
Tais passagens sugerem que a possibilidade de realizar utopias depende muito da nossa capacidade de projetá-las, de pensar utopias como o que Paulo Freire também chamava de projetos de sociedade[xv]. Por último e não menos importante, Freire salienta o direito das classes populares de participar da elaboração de utopias-projetos, se opondo a um tipo de utopismo que reserva esse trabalho ao filósofo ou romancista.[xvi]
Pedagogia do oprimido é um texto utópico, ensopado pelo utopismo, porque denuncia a educação bancária e anuncia a educação problematizadora como uma utopia-projeto a ser viabilizada pela ação política. O mesmo pode ser dito da obra de Freire como um todo. E, como você sabe melhor do que eu, Isabela, talvez não haja exemplo melhor de luta por essa utopia do que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Mas, se Pedagogia do oprimido é um texto utópico, a educação problematizadora que ele anuncia é ao mesmo tempo um projeto e uma prática utópica, pois, como prática, busca engajar estudantes no exercício articulado de denunciar e anunciar, estimulando, assim, o utopismo.
Esse entendimento de utopia ensopa os textos do período final da vida de Freire, muitos dos quais citam o MST, em especial a segunda carta pedagógica de Pedagogia da indignação – “Do direito e do dever de mudar o mundo” – inspirada pela histórica Marcha Nacional por Emprego, Justiça e Reforma Agrária ocorrida em 1997, um ano depois do massacre de Eldorado dos Carajás.
Nessa carta, Paulo Freire escreve que “os sonhos são projetos pelos quais se luta. Sua realização não se verifica facilmente, sem obstáculos. Implica, pelo contrário, avanços, recuos, marchas às vezes demoradas. Implica luta”[xvii]. No mesmo parágrafo, Paulo Freire cita a luta pela reforma agrária, nos convidando a pensar nela como a luta por uma utopia, por um projeto de sociedade para o Brasil. Quer dizer, se é Freire quem nos dá o conceito de utopia-projeto, é o MST que nos dá um dos seus mais poderosos exemplos, o projeto de Reforma Agrária Popular que vem sustentando a luta do movimento.
Esse conceito de utopia se refere principalmente a amplos e elaborados projetos de sociedade que orientam as lutas de movimentos sociais. Mas, como sugeri antes, ele também pode se referir a “desenhos” de práticas e espaços contra-hegemônicos, a exemplo da própria educação problematizadora desenhada por Freire. Nesse sentido, as escolas construídas ao longo das últimas décadas pelo MST também são utopias, desde as escolas itinerantes que você, Isabela, ajudou a criar e sobre as quais escreveu, até espaços como o Instituto de Educação Josué de Castro, onde hoje tenho a alegria de dar aulas, e a Escola Nacional Florestan Fernandes.
Esses espaços demonstram, até literalmente, o que significa projetar utopias que guiam a sua construção. Eles também demonstram que essa construção nunca termina. O Instituto Josué de Castro, por exemplo, acaba de se tornar a primeira faculdade do MST. Para citar Paulo Freire mais uma vez, “Isto é a utopia ou o sonho que nos instiga a lutar”.[xviii]
Como comentei com você naquela tarde, Paulo Freire é um teórico indispensável para reafirmarmos a importância do utopismo hoje. Primeiro, pela própria noção de utopismo como uma atitude diante do mundo que se opõe radicalmente ao fatalismo que nos imobiliza e que tem se tornado cada vez mais prevalente. Segundo, porque nos convida a pensar que utopias são projetos pelos quais se luta. Esse conceito é uma das tantas sementes para esperançar que Paulo Freire semeou e que hoje mais do que nunca precisamos cultivar.
Com carinho, Guilherme.
*Guilherme E. Meyer é doutor em literatura inglesa e americana pela New York University e professor de literatura no Institute for Social Ecology.
Referências
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022a.
FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. Organização de Ana Maria Araújo Freire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025a.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Organização de Ana Maria Araújo Freire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022b.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025.
MICHAELIS. Michaelis on-line. Melhoramentos, 2026.
SARGISSON, Lucy. Fool’s gold: utopianism in the twenty-first century. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2012.
Notas
[i] Isabela Camini, do setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autora de várias obras, entre elas: Escola itinerante:na fronteira de uma nova escola, Expressão Popular, 2009; e Cartas de afeto e aprendizagens – uma relação entre educandos e educadora, Saluz, 2024.
[ii] Na verdade, como Galeano explicou em algumas ocasiões, quem descreveu a utopia desta forma foi o cineasta argentino Fernando Birri.
[iii] 2025a, p. 137.
[iv] Segundo Lucy Sargisson, a tendência de pensar nas utopias como irrealizáveis se deve à tendência de pensar nelas como perfeitas, de modo que uma coisa anda junto com a outra (2012, p. 27).
[v] MICHAELIS, 2026, “utopia”.
[vi] 2022b, p. 47.
[vii] 2025, p. 102.
[viii] 2025, p. 102.
[ix] 2022b, p. 137.
[x] 2022a, p. 208.
[xi] 2022b, p. 137.
[xii] FREIRE, 2022b, p. 91.
[xiii] 2022b, p. 43.
[xiv] 2025a, p. 127, grifo meu.
[xv] 2022b, p. 47.
[xvi] 2022b, p. 48.
[xvii] 2022b, p. 62.
[xviii] 2022b, p. 154.

