
Encontrei o meu avô Zequinha apenas uma vez na vida. Ele morava em Rio Verde (GO). Eu tinha em torno de oito anos e morávamos em Goiânia quando fomos visitá-lo. Lembro que ele criava um macaco que ficava no quintal e que me avisou para não mexer com o bicho, pois era bravo. Não me importei com o aviso e peguei o macaco, que imediatamente mordeu minha mão direita. Levei seis pontos, e a cicatriz restou como recordação.
Hoje, tantos anos depois, estar com as poesias do meu avô em mãos — no livro impresso Espiral de Sonhos, publicado pelo meu primo Gilberto Cruvinel Guimarães, em 1998, — foi poder processar seus sentimentos e conhecer de perto a sensibilidade e a alma poeta desse nosso escritor que amava as letras, as rimas, as estrofes, sentindo-o bem pertinho da gente.
José da Silva Guimarães — poeta, jornalista e político — nasceu em 24 de janeiro de 1897 na cidade de Macaé (RJ), onde morou até os 18 anos. Faleceu em 26 de julho de 1970, aos 73 anos, na cidade de Rio Verde. Em 6 de janeiro de 1916, no distrito de Cachoeira da Fumaça (GO), casou-se com Maria Coelho Guimarães e, dessa união, tiveram doze filhos. Em 1924, mudou-se para Rio Verde com seus quatro primeiros filhos.
Começou a escrever aos 20 anos e chegou a publicar Oásis e Crisálidas, dois pequenos opúsculos de versos dos quais não encontramos nenhum exemplar. Redigiu, aos 21 anos, o histórico Almanaque Cachoeirense. Escrevia para o jornal A Tribuna, de Uberlândia, e, simultaneamente, exercia o cargo de Secretário de Intendência Municipal. Posteriormente, em 1947, foi Diretor Municipal de Obras. Era ferrenho udenista e orgulhava-se do seu filho Willmar Guimarães, que por várias vezes foi eleito deputado. Preocupava-se com as pessoas necessitadas, ajudando a todos que o procuravam. Era vaidoso e gostava de usar uma rosa branca no bolso do paletó. Sua casa simples estava sempre cheia; recebia a todos, que disputavam as cadeiras da sala para um bom bate-papo.
Os poemas Fiat Brasília (1957), Et Brasília Facta Est (1960) e Súplicas pelo Nordeste foram publicados na fase áurea dos seus sessenta anos. Já o poema Goiânia, Eu Te Saúdo (1933) foi feito na inauguração da capital.
O livro, dedicado a seus filhos, traz o seguinte texto sob o título Espiral de Sonhos: “significa o versejar pelo espaço de quarenta anos, em cujo estro influiu no modo pelo qual encarei a vida e senti-lhes as emoções”, em 24 de fevereiro de 1961, José da Silva Guimarães.
Dentre tantos poemas delineados que abordam temas bem diversificados, como amor, solidão, fé, patriotismo, natureza, escolhi a poesia Cantos Brasílicos para apresentar nesta página.
CANTOS BRASÍLICOS
Ergue-te, ó Brasil Infante!
Com teu grito retumbante,
Dizes ao mundo: eu sou colosso,
E gigante ainda bem moço;
Tenho o segredo da grandeza.
No poder da Natureza,
Tenho a glória, a primazia.
Durmo sono à fidalguia,
Nesse leito de primores,
Que é meu berço de esplendores.
Sou a “Terra Prometida”,
Que por séculos esquecida,
Fez sonhar nossos avós.
Não há mantos tutelares,
Nem na terra nem nos mares.
Sou mais livre que o Albatroz,
Tenho o dorso colossal,
Sem no mundo outro rival,
Quando brado ou quando grito,
Temo ao Deus do Infinito!
É meu seio gazalhoso,
Mais sublime e portentoso,
Onde a luz é LIBERDADE,
A grandeza, ETERNIDADE.
No meu Céu iluminado,
Um Cruzeiro desenhado,
Assinala a maior glória:
Marca os louros da vitória,
Como símbolo redentor,
De um futuro promissor.
Tenho gênios colossais,
De mais brilho que os cristais.
Como a Grécia tantos sábios,
Tive um Ruy de puros lábios;
Como a França de um Balzac;
Foi meu seio de um Bilac;
De mais dons e mais afetos
Também brilha um Coelho Neto;
Ainda vive nos proscênios
A falange de outros gênios!
Tenho picos altaneiros,
Onde a voz de meus guerreiros
Fala sempre em meus heróis.
Como o dia tem seus sóis,
Tenho o brilho dos rubis,
O fulgor dos colibris,
E o trinar dos sabiás.
No meu seio tenho a paz,
No meu peito a gratidão,
No meu céu a redenção.
Estrangeiros que chegais,
Se é tesouro que buscais,
De graça vô-lo oferto.
Mas, se o tendes a braço aberto,
Se riquezas só quereis,
Vede bem: não afronteis
O gigante que dormita;
Que se a cólera o supita,
De princípio ele reage
A toda afronta e a todo ultraje!!
José da Silva Guimarães

Parabéns a querida prima pela bela iniciativa da homenagem justa e merecida do Poeta Silva Guimarães.