O Leviatã digital

Imagem: Zulfugar Karimov

Ao converter reações emocionais em insumos preditivos, o poder algorítmico substitui o debate racional pela modulação invisível dos afetos.

Por Eduardo S. Vasconcelos* | A Terra é Redonda, 19 de julho de 2026

1.

A política contemporânea talvez esteja diante de uma transformação mais profunda do que supõem as análises habituais sobre fake news, polarização, inteligência artificial ou redes sociais. Esses fenômenos são importantes, mas talvez sejam apenas sintomas de uma mudança maior: o deslocamento do poder para o interior da própria formação da consciência pública.

O problema já não está apenas no que o cidadão pensa. Está no modo como ele passa a desejar, temer, reagir e perceber o mundo antes mesmo de pensar.

Durante muito tempo, imaginamos o poder como algo visível: o Estado, a lei, a polícia, o parlamento, o governo, o partido, a imprensa, a empresa, a igreja, a escola. Hoje, no entanto, uma parte decisiva do poder tornou-se ambiental. Ele não aparece como ordem. Aparece como recomendação. Não se impõe como censura direta. Aparece como fluxo. Não exige obediência explícita. Produz permanência, dependência, repetição e engajamento.

É nesse cenário que proponho pensar o conceito de “Leviatã digital”[1]: uma nova arquitetura de poder formada por plataformas, algoritmos, dados, vigilância, inteligência artificial, economia da atenção e administração dos afetos coletivos. Ele não substitui o Estado, mas passa a disputar com ele a organização da vida pública.

O Leviatã de Thomas Hobbes nasceu como resposta ao medo. Diante da ameaça da guerra de todos contra todos, os indivíduos entregariam parte de sua liberdade a uma autoridade soberana capaz de garantir ordem, segurança e previsibilidade.

O Leviatã clássico era visível. Tinha forma estatal. Legislava, punia, julgava, arrecadava, vigiava e comandava. O Leviatã digital é mais difuso. Não possui uma cabeça única. Não se limita ao Estado. É composto por empresas globais, plataformas digitais, infraestruturas algorítmicas, bancos de dados, sistemas de recomendação, publicidade comportamental, influenciadores, militâncias digitais e inteligência artificial.

Seu poder não está apenas em proibir. Está em orientar. Não está apenas em reprimir. Está em modular. Não está apenas em vigiar. Está em prever.

O poder soberano dizia: obedeça. O poder algorítmico sugere: continue rolando a tela.

 

2.

A atenção tornou-se uma das principais mercadorias do capitalismo contemporâneo. Mas ela não é uma mercadoria qualquer. A atenção é a porta de entrada da consciência. Quem controla a atenção controla parte da percepção. Quem controla a percepção influencia o julgamento. Quem influencia o julgamento interfere no comportamento político.

A economia da atenção transforma o cidadão em usuário, o usuário em dado, o dado em previsão e a previsão em mercadoria. A vida subjetiva passa a ser extraída, calculada, segmentada e vendida. Nesse ambiente, a política não precisa mais convencer apenas por argumentos. Ela precisa capturar afetos. Medo, raiva, ressentimento, indignação, humilhação e pertencimento tornam-se recursos de mobilização. A política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa pela arquitetura emocional da sociedade.

Jürgen Habermas pensou a esfera pública como espaço de argumentação, crítica e formação racional da vontade coletiva. Essa ideia nunca se realizou plenamente, mas serviu como horizonte democrático.

O Leviatã digital corrói esse horizonte. A esfera pública é fragmentada em bolhas. A realidade comum é substituída por versões afetivas da realidade. O debate vira reação. A divergência vira ameaça. A dúvida vira fraqueza. A complexidade vira inimiga da viralização.

A democracia precisa de tempo. O algoritmo exige velocidade. A democracia precisa de escuta. O algoritmo premia reação. A democracia precisa de mediação. O algoritmo radicaliza o conflito. O resultado é uma política cada vez mais emocionalizada, performática e tribalizada.

Shoshana Zuboff chamou atenção para o capitalismo de vigilância: um regime econômico baseado na captura de experiências humanas transformadas em dados comportamentais. Mas a questão não é apenas econômica. É política. Quando a subjetividade passa a ser rastreada, prevista e influenciada, a democracia enfrenta um problema novo. A manipulação deixa de ser apenas propaganda pública e passa a operar no nível micropsicológico da experiência individual.

Guy Debord mostrou que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo. Pierre Bourdieu mostrou que o poder simbólico opera quando é reconhecido como legítimo. Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não apenas reprime, mas produz sujeitos.

O Leviatã digital articula essas três dimensões: espetáculo, poder simbólico e produção de subjetividade. Ele produz o sujeito conectado, indignado, vigiado, segmentado, ansioso e permanentemente convocado a reagir.

 

3.

O cidadão contemporâneo já não é apenas eleitor, trabalhador ou consumidor. Ele é também terminal afetivo de circulação política. Recebe estímulos. Reage. Compartilha. Indigna-se. Confirma crenças. Ataca adversários. Defende identidades. Produz dados. Alimenta o sistema que o captura.

Essa é a sofisticação do Leviatã digital: ele transforma participação em extração. Cada gesto de engajamento parece liberdade, mas também alimenta a máquina que aprende a conduzir novos gestos. O sujeito acredita estar apenas expressando sua opinião. Muitas vezes, porém, está funcionando como vetor de circulação de narrativas que foram desenhadas para explorar suas vulnerabilidades.

A democracia não desaparece. As eleições continuam. Os parlamentos continuam. Os tribunais continuam. Os partidos continuam. Mas todos passam a funcionar sob pressão de uma nova camada de poder.

Parlamentares precisam performar para suas bases digitais. Governos precisam disputar narrativas em tempo real. Gestores públicos passam a ser pressionados por métricas de imagem. Campanhas eleitorais segmentam medos. Crises institucionais são aceleradas por cortes virais. A mentira organizada circula mais rápido que sua correção.

A política pública, que exige continuidade e planejamento, passa a concorrer com a lógica do espetáculo permanente. O risco é grave: governar deixa de ser resolver problemas e passa a ser administrar percepções.

Nenhuma sociedade enfrenta aquilo que não consegue nomear. O conceito de “Leviatã digital” não pretende substituir outras categorias já fundamentais, como capitalismo de vigilância, sociedade do espetáculo, esfera pública, biopolítica ou poder simbólico. Ele procura articular essas dimensões em uma imagem política capaz de descrever o nosso tempo.

Estamos diante de uma estrutura que não apenas comunica a política. Ela reorganiza a política. Não apenas transmite conflitos. Produz conflitos. Não apenas informa cidadãos. Modela percepções. Não apenas observa comportamentos. Aprende a induzi-los.

A democracia brasileira ainda discute, com razão, eleições, instituições, golpes, corrupção, desigualdade e representação. Mas precisa acrescentar outra pergunta ao seu vocabulário crítico: quem controla o ambiente mental no qual os cidadãos formam suas escolhas políticas?

O Leviatã Digital ainda não governa como Estado. Mas talvez já esteja aprendendo a governar antes do Estado. E é precisamente por isso que compreendê-lo deixou de ser uma curiosidade teórica. Tornou-se uma urgência democrática.

Eduardo S. Vasconcelos, professor e diretor geral do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), é doutor em ciências pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Referências


ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Nota


[1] Leviatã Digital é uma categoria analítica proposta pelo para designar a arquitetura contemporânea de poder constituída pela interação entre plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial, economia da atenção, vigilância de dados e produção de capital simbólico, cuja atuação influencia a formação da opinião pública e o funcionamento das democracias contemporâneas.

 

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