O jacaré vermelho volta a atacar

Henfil

O Brasil tem, segundo balanço divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral em maio, mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar nas eleições presidenciais deste ano. No cenário de primeiro turno divulgado hoje pelo Datafolha e publicado pela Folha de S.Paulo, os 40% atribuídos a Lula correspondem a aproximadamente 63,2 milhões de votos potenciais.

Flávio Bolsonaro, com 31%, teria cerca de 49 milhões de votos potenciais. A diferença entre os dois, de nove pontos percentuais, equivale a aproximadamente 14,2 milhões de eleitores.

A boca do jacaré começou a se abrir.

 

22.05.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Entrevista ao programa Sem Censura, nos estúdios da EBC. Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

A soma de todos os demais candidatos, votos em branco, nulos, nenhum e indecisos chega a 29%, ou cerca de 45,8 milhões de eleitores. Ou seja, Lula aparece isolado na liderança, com vantagem superior ao conjunto formado pelo pelotão intermediário, brancos, nulos e indecisos.

A nova pesquisa Datafolha foi publicada nesta sexta-feira, 22 de maio, pela Folha de S.Paulo. O levantamento foi realizado presencialmente com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 139 municípios, nos dias 20 e 21 de maio.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No principal cenário de primeiro turno, sem Michelle Bolsonaro na disputa, Lula marca 40%, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, de 13 de maio, a distância entre os dois era de apenas três pontos.

A mudança em uma semana é relevante: Flávio caiu quatro pontos, enquanto Lula subiu dois. Com isso, a vantagem petista passou de três para nove pontos percentuais.

Ronaldo Caiado aparece com 4%. Romeu Zema, Renan Santos e Samara Martins têm 3% cada.

Augusto Cury marca 2%. Aldo Rebelo, Cabo Daciolo e Rui Costa Pimenta aparecem com 1% cada.

Hertz Dias não pontua. Brancos, nulos ou nenhum somam 9%, e os que não sabem também são 3%.

O dado mais relevante da rodada é o recuo de Flávio Bolsonaro. O senador havia registrado 35% em abril e mantido o mesmo percentual em 13 de maio, mas agora aparece com 31%.

Lula, por sua vez, estava em 39% em abril, oscilou para 38% na pesquisa anterior e chegou agora a 40%. O resultado interrompe, ao menos nesta fotografia, a aproximação de Flávio em relação ao presidente.

No segundo turno, Lula também aparece à frente. O presidente marca 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro.

Considerando o universo de 158 milhões de eleitores aptos, isso equivale a cerca de 74,3 milhões de votos potenciais para Lula e 67,9 milhões para Flávio. A diferença de quatro pontos corresponde a aproximadamente 6,3 milhões de eleitores.

Na rodada anterior, de 13 de maio, os dois estavam empatados em 45%. Esse percentual equivalia a cerca de 71,1 milhões de votos potenciais para cada um, sempre considerando o eleitorado total apto e sem descontar abstenções.

A série do segundo turno mostra uma disputa que vinha se estreitando desde o fim de 2025. Lula tinha 51% em dezembro, caiu para 46% em março, chegou a 45% em abril e repetiu esse percentual em 13 de maio.

Flávio fez o movimento inverso nesse período. Saiu de 36% em dezembro, subiu para 43% em março, chegou a 46% em abril e empatou com Lula em 45% na pesquisa anterior.

Na nova rodada, porém, a curva se inverteu. Lula voltou a 47%, enquanto Flávio recuou para 43%.

A pesquisa ocorre após a repercussão do caso “Dark Horse”, revelado pelo Intercept Brasil, envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O episódio gira em torno da tentativa de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, prevista para ser lançada em meio ao ciclo eleitoral.

Segundo as reportagens publicadas sobre o caso, Flávio buscou apoio de Vorcaro para o filme em valores milionários. Parte das apurações aponta repasses já identificados e tratativas sobre cifras bem mais altas, ainda sob disputa política e investigação jornalística.

O caso também envolve suspeitas sobre o uso indireto de dinheiro público. A produtora ligada ao filme recebeu mais de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda, mas há questionamentos sobre a quantidade efetivamente entregue em relação ao que havia sido prometido.

Outra frente envolve emendas parlamentares destinadas por deputados bolsonaristas a entidades e empresas ligadas ao entorno da produção. O STF também passou a cobrar explicações sobre a destinação de recursos e sobre a viagem internacional de Mario Frias, produtor-executivo de “Dark Horse”, ao Bahrein e aos Estados Unidos.

O trecho mais constrangedor da crise veio com a divulgação das conversas e áudios. Em uma das mensagens, Flávio trata Vorcaro em tom de intimidade e escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

A frase pegou mal porque contrastou com as explicações posteriores do senador. Primeiro, Flávio tentou reduzir o vínculo com Vorcaro; depois, diante das mensagens e áudios, ficou evidente que a relação era bem mais próxima do que a versão inicial sugeria.

O próprio Flávio Bolsonaro confirmou depois que esteve pessoalmente na casa de Vorcaro quando o banqueiro estava em prisão domiciliar. Segundo ele, a visita teria ocorrido para “pôr um ponto final” nas tratativas sobre o filme, explicação que abriu nova rodada de questionamentos.

Também entrou no radar a viagem de Mario Frias ao Bahrein. No campo das suspeitas políticas, a ida ao país passou a ser associada por críticos à pergunta sobre o destino de recursos ainda não esclarecidos, embora não haja confirmação pública de que dinheiro do projeto tenha sido movimentado no exterior.

O desgaste aparece na pesquisa. Segundo a Folha, 64% dos entrevistados disseram ter ouvido falar do caso “Dark Horse”, e o mesmo percentual avaliou que Flávio Bolsonaro agiu mal no episódio.

A reportagem registra que o levantamento anterior havia sido feito em parte antes de o caso ganhar maior repercussão pública. A nova rodada, por sua vez, foi realizada já com o episódio amplamente conhecido pelo eleitorado.

O Datafolha também testou Michelle Bolsonaro como possível alternativa da direita. No cenário de segundo turno contra Lula, ela aparece com 43%, enquanto o presidente marca 48%.

No primeiro turno, porém, Michelle tem desempenho inferior ao de Flávio. Ela aparece com 22%, contra 41% de Lula.

Como diria o Henfil, tem uma esperança despontando no horizonte!

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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