
A conversão do saber em ativo mercantil e o desafio de preservar a reflexão crítica em um sistema educacional pautado pelo desempenho e pela produtividade.
Por Joaquim Neto* / A Terra é Redonda,
1.
A educação costuma ser apresentada como o grande passaporte para o futuro, quase como uma promessa silenciosa – dessas que a gente aprende a acreditar desde cedo – de ascensão e realização individual. À primeira vista, tudo parece se alinhar: estuda-se, avança-se, conquista-se. Mas, olhando melhor, com um pouco mais de atenção, surgem fissuras que atravessam essa narrativa aparentemente sólida.
Inserida no interior das sociedades capitalistas, a educação não segue um caminho próprio; ela é atravessada, tensionada e moldada por estruturas que, muitas vezes, operam de forma discreta, mas constante. Daí a inquietação que insiste em permanecer: a educação forma sujeitos críticos ou vai, pouco a pouco, ajustando indivíduos às engrenagens do mercado?
Com o tempo – e isso não acontece de uma hora para outra – a expansão do ensino, especialmente no setor privado, foi aproximando a educação de uma lógica cada vez mais mercantil. Instituições passam a agir como empresas, orientadas por metas, crescimento e competitividade, como se o saber pudesse ser organizado, precificado e distribuído sob demanda.
O conhecimento, nesse movimento, deixa de ser apenas construção coletiva e passa a circular como produto; e o estudante, ainda que nem sempre perceba esse deslocamento, ocupa o lugar de consumidor. Aos poucos, o processo educativo vai sendo reorganizado: menos formação ampla, mais eficiência; menos reflexão, mais resultado imediato.
Não surpreende, portanto, que o próprio conteúdo do ensino acompanhe esse deslocamento. Habilidades técnicas ganham destaque – quase como se fossem a única chave possível – enquanto áreas voltadas à reflexão crítica vão sendo empurradas para as margens, de maneira silenciosa, mas persistente. Como observa Karl Marx, “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”, o que ajuda a compreender por que a educação, em vez de tensionar a realidade, tantas vezes a reafirma. O espaço que poderia provocar estranhamento e questionamento passa, assim, a reforçar aquilo que já parece dado.
Ao mesmo tempo – e aqui a questão se aprofunda – a desigualdade social encontra na educação um de seus reflexos mais evidentes. Não se trata apenas de acesso, mas de permanência e condições. Enquanto alguns estudantes percorrem trajetórias marcadas por recursos, apoio e estabilidade, outros enfrentam obstáculos que se acumulam ao longo do caminho, como se cada etapa trouxesse novos desafios.
Nesse sentido, como aponta Pierre Bourdieu, a escola pode contribuir para a reprodução das desigualdades sociais, ao legitimar diferenças que têm origem fora dela, muitas vezes apresentando-as como resultado exclusivo do mérito individual. E, convenhamos, quando o ponto de partida é desigual, o resultado dificilmente será justo.
2.
E como se isso não bastasse, cresce também a necessidade de medir tudo. Notas, índices, rankings – a educação vai sendo traduzida em números, como se sua complexidade pudesse caber em gráficos e tabelas bem organizadas. É claro que esses instrumentos têm sua função, mas o problema surge quando passam a orientar, quase sozinhos, o sentido do ensino. O que não é facilmente mensurável – criatividade, autonomia, pensamento crítico – acaba ficando à margem, como se fosse secundário. Aos poucos, aprender deixa de ser descoberta e passa a ser desempenho.
Essa lógica de mensuração se soma à padronização crescente. O ensino, que poderia ser diverso e sensível às realidades, vai se tornando uniforme, previsível, quase automático. Aprende-se para acertar, não para compreender; para responder, não para perguntar. E assim, sem grandes rupturas aparentes, a educação vai perdendo parte de sua vitalidade, como um campo que, de tanto ser controlado, já não floresce com a mesma intensidade
Nesse contexto, vale ainda olhar com mais cuidado para o papel das tecnologias educacionais, frequentemente apresentadas – quase como uma promessa pronta – de solução para os desafios do ensino. Plataformas digitais, ensino remoto e ferramentas automatizadas ampliam o acesso e, sem dúvida, abrem novas possibilidades; disso não se pode negar. Ainda assim, quando entram em cena sob a mesma lógica de mercado, acabam, não raro, reforçando desigualdades já existentes e estimulando uma relação mais apressada com o conhecimento.
Aprende-se rápido, consome-se conteúdo em sequência, como quem percorre uma vitrine infinita, mas nem sempre se constrói uma compreensão que permaneça. O saber, nesse ritmo, corre o risco de se fragmentar, quase como algo que se usa e logo se deixa para trás. Assim, aquilo que poderia expandir horizontes pode, em certas condições, estreitá-los, ao priorizar a velocidade em detrimento da reflexão – e, no fim das contas, o que parecia avanço pode carregar, silenciosamente, novas limitações.
3.
No ensino superior, esse movimento se intensifica. A expansão de instituições privadas, muitas vezes voltadas à rapidez e à funcionalidade, reforça a ideia de uma formação acelerada. Cursos são organizados com foco na empregabilidade imediata, priorizando conteúdos pragmáticos e reduzindo espaços de reflexão mais aprofundada. Forma-se, assim, um profissional preparado para executar – o que, sem dúvida, tem seu valor – mas nem sempre para questionar. A educação passa a funcionar como uma ponte direta para o mercado: eficiente, sim, mas estreita demais para comportar outras dimensões da formação.
Ainda assim, nem tudo segue essa direção. Há concepções que insistem em lembrar que a educação pode ser outra coisa. Como afirma Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção”. Essa perspectiva aponta para uma educação viva, construída no diálogo, na curiosidade e na inquietação. Uma educação que não se limita ao imediato, mas que se abre ao pensamento crítico e à transformação social.
Diante dessas tensões, torna-se difícil sustentar que a educação, no capitalismo, cumpra plenamente um papel emancipador. Ao priorizar a adaptação, corre o risco de silenciar a crítica; ao valorizar o desempenho, pode esvaziar o sentido; ao se alinhar à lógica do mercado, tende a reforçar desigualdades que já são profundas. A promessa de ascensão, repetida tantas vezes, revela-se, na prática, atravessada por limites que não dependem apenas do esforço individual.
Mas reconhecer essas contradições não significa desistir da educação. Pelo contrário. É justamente aí que se abre espaço para repensá-la. Uma educação comprometida com a crítica, com a igualdade e com a autonomia não é um ideal distante, mas uma necessidade urgente. Mais do que formar para o mercado, trata-se de formar para a vida em sociedade, para o pensamento livre e para a construção de caminhos que ainda não estão dados.
No fim das contas, a educação permanece como um campo em disputa. Pode seguir funcionando como engrenagem de adaptação ou pode, mesmo em meio às contradições, afirmar-se como espaço de transformação. E talvez seja justamente nesse “entre” – nem totalmente capturada, nem completamente livre – que resida sua maior potência.
*Joaquim Neto é estudante do ensino médio.

