O colapso da humanidade na literatura

Imagem: Kouji Tsuru

Das pragas medievais às ameaças tecnológicas, a ficção apocalíptica funciona como um espelho dos horrores históricos e celebra a inesgotável capacidade humana de resistência.

Por Michel Goulart da Silva* | A Terra é Redonda | 

1.

Diante da pandemia que assolou o mundo, oficialmente iniciada em março de 2020, provocada pela Covid-19, que levou ao adoecimento massivo de pessoas e a milhões de mortes, foi comum encontrar um medo generalizado entre as pessoas. Essa percepção de uma tragédia há séculos vem levando à criação de imagens que acabam sendo reproduzidas e recriadas pela ficção artística, literária e audiovisual. Epidemias, pandemias, contágios misteriosos, surtos, quantidade massiva de mortes, entre outros aspectos vistos no cenário mundial recente, encontram semelhanças em muitas obras literárias e cinematográficas.

A ideia de um vírus ou bactéria que afeta massivamente a população, levando a surtos, epidemias e pandemias, e chega a colocar em risco a humanidade, não é novidade em obras literárias. Uma das obras mais antigas que se passa em um cenário de mortes de amplos contingentes da população é o Decamerão, de Giovanni Boccaccio, escrito no século XIV. Essa obra se constitui em uma coleção de cem contos narrados por um grupo de pessoas que se refugiam em uma vila nos arredores de Florença para escapar da peste negra.

Séculos depois, em 1826, Mary Shelley retratou a história do último sobrevivente de uma praga devastadora que extermina a humanidade, em seu livro O último homem. Nessa obra, em certo momento se apresenta um panorama da situação vivida pela humanidade:

“Eu espalhei toda a terra como um mapa diante de mim. Em nenhum lugar de sua superfície poderia eu colocar meu dedo e afirmar, aqui é seguro. No sul, a doença, virulenta e irremediável, havia aniquilado praticamente a raça dos homens; tempestade e inundação, venenosos ventos e ruínas, enchiam a medida do sofrimento. No norte, era pior – a ínfima população gradualmente declinou e a fome e a peste mantinham-se atentas aos sobreviventes que, indefesos e débeis, estavam preparados para cair como presa fácil em suas mãos”.[i]

Embora algumas obras remontem aos séculos anteriores, o século XX parece ter sido um cenário propício para a escrita de narrativas que mostravam o risco de extinção da humanidade. Contudo, se a ideia do colapso da humanidade não é novidade, fazendo parte do imaginário cristão ou mesmo de outras religiões, seu adiamento também é uma constante. Observa-se a permanência de “uma história das expectativas, ou, melhor dizendo, de uma contínua expectativa do final dos tempos” e, por outro lado, “também a história dos repetidos adiamentos desse mesmo fim do mundo”.[ii]

 

2.

As obras que narram ameaças de extinção são justamente uma forma de mostrar que, por mais que haja a destruição, sempre há sobreviventes e, apesar do sofrimento causado pela dizimação de grande parte da população, existe a possibilidade de reconstrução, como é mostrado em muitas produções em torno do apocalipse zumbi. Essas produções artísticas vêm sendo uma espécie de crônicas da tantas vezes adiada expectativa de dizimação da humanidade.

Essa expressão literária parece ganhar força no final do século XIX. Ela parece expressar a época imperialista, marcada pela crise econômica e pela necessidade do capital em promover guerras e destruição como forma de se manter vivo. Publicada em 1895, A máquina do tempo, de H. G. Wells, mostrou um futuro marcado pela destruição da humanidade. Em meio a um mundo destruído, na obra, o viajante do futuro parece ser o único capaz de levar uma solução para mitigar os problemas enfrentados por aquela sociedade.

Contudo, são as guerras que parecem ter influenciado de forma mais marcante essas representações do colapso da humanidade no século XX. Um marco desse processo talvez se expresse diante da Primeira Guerra, ocorrida entre 1914 e 1918. Nessa guerra, o massacre de pessoas parecia ser tratado como algo normal.

Diante disso, percebe-se que a guerra não trouxe “senão destruição e nenhuma outra promessa que não a esperança, quase imediatamente desenganada, de que ela será, de que ela deve ser a primeira e a última do gênero. De uma crença em um progresso racional, contínuo e dominado, passa-se em alguns anos ao sentimento quase geral de um mundo refém do caos, de um tempo marcado pela descontinuidade, de uma história repentinamente – e mais uma vez – fora de si”.[iii]

O período entre guerras foi marcado pelo aprofundamento da crise econômica e pela instabilidade política. Essa época teve marcos “como o nazismo, a produção de mortes em escala industrial e a ascensão de ditaduras fascistas, servindo de pano de fundo para a criação de inúmeras obras”.[iv]Na literatura, a principal obra desse período que trata do colapso da humanidade foi o romance Admirável mundo novo, publicado por Aldous Huxley, em 1932.

O livro mostra um mundo no qual as pessoas são programadas em laboratório e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente divididas. Outro aspecto desse período, a constituição de governos autoritários, foi tratada principalmente por uma obra publicada depois da Segunda Guerra, 1984, de George Orwell, de 1949.

 

3.

Depois da Segunda Guerra, observa-se o crescimento no número de produções literárias que tematizam a extinção da humanidade. Em alguns casos, apontam para algum tipo de evento catastrófico que teria levado à morte da maior parte da população e colocado o mundo em uma situação caótica. Esse fenômeno destrutivo pode ser algum desastre ambiental ou consequência de alguma ação humana. Um dos exemplos é o livro Eu sou a lenda, de Richard Matheson, publicado em 1954. O livro, adaptado para o cinema em 2007, se passa em um mundo pós-apocalíptico onde uma praga devastadora transformou a maioria da humanidade em criaturas que se assemelham a vampiros.

Outras obras artísticas apontam para algum desastre que possui relação com o desenvolvimento científico ou tecnológico. Possivelmente a obra mais conhecida dessa tipologia seja Androides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip K. Dick, publicado em 1968, que serviu de inspiração para o filme Blade Runner. O livro se passa em uma Terra pós-apocalíptica, devastada por uma guerra nuclear.

Naquele contexto, “ninguém lembrava o motivo da guerra ou quem, se é que alguém, tinha vencido. A Poeira que havia contaminado a maior parte da superfície do planeta não tinha surgido em nenhum país em particular e ninguém, nem mesmo os inimigos de guerra, havia planejado isso”.[v]

Pode-se considerar, nesse mesmo sentido, uma série de obras que colocam em cena invasores extraterrestres que chegam ao planeta. Uma das mais importantes dessas obras talvez seja O fim da infância, de Arthur C. Clarke, de 1953. O livro narra a chegada de uma raça alienígena que impõe a paz na Terra, eliminando guerras e conflitos e, apesar da ausência de liberdades, leva a humanidade a uma época de prosperidade. Embora não narre uma versão da extinção humana, o livro tem esse tema como pano de fundo, o que fica evidente em diferentes momentos, entre os quais quando o líder dos alienígenas afirma: “Como banimos as armas nucleares e os demais brinquedos mortíferos que vocês acumulavam em seus arsenais, o perigo da aniquilação física foi afastado”.[vi]

Uma dimensão que também pode ser observada em muitas dessas obras passa por uma perspectiva de resistência, como no conjunto de livros Jogos vorazes, de Suzanne Collins, cuja história se passa em Panem, “o país que se ergueu das cinzas de um lugar que no passado foi chamado de América do Norte”.[vii] Os livros têm como protagonista uma jovem vinda de uma das regiões mais pobres de Panem e que se torna um símbolo da resistência que vai se organizando contra a Capital.

Quando a humanidade se vê ameaçada por um perigo, seja um vírus microscópico ou um monstro gigantesco, colocando o risco de sua extinção, expressa seus sentimentos e percepções também nas produções artísticas. Essa forma se expressar seus medos ocorre há séculos. O imaginário das últimas décadas, construído depois de guerras e diversos desastres, como o holocausto ou mesmo o surgimento de diversos vírus, constrói-se na expectativa de grandes tragédias.

Nas pessoas acaba por se expressar um certo pessimismo ou mesmo desespero, ainda que os desastres observados não levem necessariamente à extinção da humanidade. Nessas obras se expressa sempre também algum sentimento de resistência. Com a epidemia recente ficou demonstrado esse espírito de resistência, em que as pessoas procuraram defender seus direitos e sua vida, enfrentando governos e patrões, mesmo diante do medo do desconhecido, não se furtaram a lutar.

*Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).

Notas


[i] SHELLEY, Mary. O último homem. São Paulo: Landmark, 2023, p. 357.

[ii] KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC-RJ, 2006, p. 24.

[iii] ROUSSO, Henry. A última catástrofe: a História, o presente, o contemporâneo. Rio de Janeiro: FGV, 2016, p. 100.

[iv] RANGEL, Luiz Aloysio. História e ficção científica. São Paulo: Contexto, 2024, p. 126.

[v] DICK, Philip K. Androides sonham com ovelhas elétricas? São Paulo: Aleph, 2014, p. 27.

[vi] CLARKE, Arthur C. O fim da infância. São Paulo: Aleph, 2019, p. 233.

[vii] COLLINS, Suzanne. Jogos Vorazes. Rio de Janeiro: Rocco 2010, p. 24.

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