
Nas reflexões sobre o trabalho e o tempo livre na obra de Beto Guedes, “a abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou”. Em belas imagens, canta que o “sono é sagrado”, mas torna-se escasso – e nele estão os sonhos que alimentam horizonte de utopias…
Por Michel Goulart da Silva / Outras Palavras – Poéticas / Publicado em 29/05/2026 às 16:31 – Atualizado em 29/05/2026 às 16:35
O Brasil tem uma longa tradição de artistas engajados, em espaços como literatura, música, cinema, teatro, emergindo nomes como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Chico Buarque, Glauber Rocha, entre outros. Contudo, houve também artistas que, mesmo sem ter um engajamento político explícito, tiveram posturas de crítica social, como o grupo reunido em torno do projeto Clube da Esquina, no início da década de 1970. Milton Nascimento, inclusive, realizou algumas frutíferas parcerias com Chico Buarque, como na música “Cálice”, lançada em 1978.1
Contudo, a despeito dos exemplos mais famosos, talvez uma das músicas mais politizadas e críticas da música popular brasileira seja a aparentemente singela “Amor de índio”, escrita por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, lançada em 1978.Essa música acabou ficando mais conhecida na voz de Milton Nascimento, em interpretações ao vivo, e, mais recentemente, teve uma nova versão, que fez parte da trilha sonora da refilmagem da novela Pantanal.
Embora difundida como uma canção de amor – o que de fato é uma interpretação válida e coerente – pode ser vista como uma canção sobre a exploração capitalista, se constituindo em uma das mais belas metáforas sobre o trabalho. Não há na música nada que explicite uma filiação teórica ou política, mas apenas um conjunto de imagens que permite compreender a sociedade capitalista.
O trabalho é apresentado em belas imagens, abrindo a possibilidade de reflexões sobre o processo de exploração. Na segunda estrofe, encontra-se a seguinte passagem:
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa no azul pintado pra durar
A abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou
Essa passagem remete ao tempo gasto na produção do mais valor, ou seja, ao tempo de trabalho dedicado ao que é apropriado pelo proprietário privado dos meios de produção. Como a classe trabalhadora na sociedade capitalista, a abelha é definida pelo “tempo que não voou”. Uma das passagens mais conhecidas de O capital é aquela em que Marx diferencia o trabalho humano daquelas atividades realizadas pela aranha e pela abelha. Marx afirma:
“Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a estrutura de sua colmeia. Porém, o que desde o início distingue o pior arquiteto da melhor abelha, é o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de construí-la com a cera. No final do processo de trabalho chega-se a um resultado que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente”.2
Essa menção à situação da classe trabalhadora aparece também na quinta estrofe da música, onde canta-se:
Se todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Nessa imagem, a ideia de massa pode ser entendida de duas formas. Uma delas é próprio produto do trabalho, realizado pelas mãos e marcada pelo suor provocado pelo esforço. Mas, também, pode remeter ao coletivo, na ideia de massa, que remete a um grupo que realizada determinada ação. Essa ideia de que alguém que trabalha, que faz o pão, permite também pensar que, na sociedade capitalista, “o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção de seu possuidor”.3
Reflete-se na música também sobre o tempo livre, na sexta estrofe, trazendo inclusive a ideia de utopia. Canta-se assim: “Lembra que o sono é sagrado / E alimenta de horizontes o tempo acordado de viver”. Na música, procura-se refletir como o tempo de trabalho, que deveria ser apenas uma parte da vida, torna-se instrumento de exaustão. E o tempo livre, que deveria ser espaço de criação, de encontro, de descanso, é tomado pela lógica produtiva do capital.
Na lógica do capital, o trabalho mostra-se como centro da sociabilidade e produção do ser, se constituindo em fonte de sofrimento e de estranhamento. Segundo a música, o sono, por um lado, é sagrado por ser momento de descanso, mas, também, por alimentar o horizonte, as utopias e expectativas, numa imagem que remete aos sonhos. O tempo livre é condição para a vida, para a cultura, para a política, para os sentimentos.
Por fim, na sétima estrofe, a música traz um olhar para esse sonho que se vislumbra no “tempo acordado”. Canta-se assim:
No inverno, te proteger
No verão, sair pra pescar
No outono, te conhecer
Primavera, poder gostar
Embora não de forma explícita, essa estrofe lembra bastante um famoso fragmento da obra A ideologia alemã, escrita por Marx e Engels no final da década de 1840. Na obra dos fundadores do materialismo histórico, essa passagem é um dos raros momentos em que descrevem o vislumbre a uma futura sociedade:
“[…] na sociedade comunista, onde cada um não tem um campo de atividade exclusivo, mas pode aperfeiçoar-se em todos os ramos que lhe agradam, a sociedade regula a produção geral e me confere, assim, a possibilidade de hoje fazer isto, amanhã aquilo, de caçar pela manhã, pescar à tarde, à noite dedicar-me à criação de gado, criticar após o jantar, exatamente de acordo com a minha vontade, sem que eu jamais me torne caçador, pescador, pastor ou crítico”.4
Portanto, a música de Beto Guedes e Ronaldo Bastos nos remete à reflexão sobre a sociedade capitalista, na qual exploração do trabalho garante a produção do valor. O tempo livre, que deveria ser pleno, é reduzido a um intervalo que não permite ao trabalhador sequer recuperar suas próprias forças. O sono, que a canção diz ser sagrado, torna-se escasso, consumido pela necessidade de estar pronto para o próximo turno.
O fruto do trabalho, quando colhido sob exploração, perde seu brilho. O trabalho e seu produto ternam-se algo estranho e irreconhecível. Conforme sugere a música, os momentos fora do trabalho não podem ser vistos como uma perda ou desperdício, mas como tempo “para ser o que for / E ser tudo”. Esse é o ser pleno que se busca numa nova sociedade. Que o “azul pintado pra durar” não seja apenas promessa, mas uma realidade vivida, em dias que não sejam só de trabalho, mas de vida, de amor e de liberdade.
Notas
1 Escrita em 1973, por Chico Buarque e Gilberto Gil, a música enfrentou longos anos de censura por parte da ditadura até conseguir ser finalmente lançada em um álbum.
2 Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 255-6
3 Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 245.
4 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 38.
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