Agências norte-americanas e ascensão do neoliberalismo (XIII)


A Terra é Redonda

Sob a máscara do ativismo ambiental e da ajuda humanitária, a máquina imperialista infiltra-se para saquear recursos e consolidar a ideologia do livre mercado.

Por Emiliano José* | A Terra é Reconda, 7 de agosto de 2026

1.

A professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, orienta e trabalha conjuntamente com vários alunos no sentido de compreender, entender como os EUA exercem o poder imperial sobre a América Latina, combinando violência, força, e essa metodologia é por demais evidente, e a estratégia da construção do consenso, pela qual conquista corações e mentes, e talvez seja este caminho o mais próprio, nesse momento, a explicar como a extrema-direita tem conseguido avançar em todo o continente.

No capítulo anterior dessa série tratávamos da entrevista feita por Bob Fernandes com João Gabriel Gaspar Balesteiro, ex-bolsista do Instituto de Estudos Latino-americanos (IELA), da UFSC, voltado ao estudo das relações Brasil-EUA em matéria de segurança pública, das relações bilaterais entre os dois países envolvendo polícia propriamente.

Tal instituto, nascido Observatório Latino-Americano (OLA) em 2004, consagrou-se como Instituto de Estudos Latino-americanos em 2006, referência nacional e internacional dos estudos latino-americanos, e segue a todo vapor, mais de 20 anos no esforço de compreender o continente e as relações de poder, especialmente a estratégia norte-americano para seguir dominando-o.

Mais duas ou três palavras sobre o instituto. O ano de 2004 marcava um período tomado por uma presença progressista em todo o continente latino-americano, a partir da eleição de Hugo Chávez, na Venezuela.

Mês de maio, e o professor Nildo Ouriques convoca a professora Beatriz Paiva para conversar sobre um projeto em torno da América Latina. A reunião conta também com as presenças das jornalistas Elaine Tavares e Raquel Moisés.

Objetivo: criar um Observatório das lutas sociais latino-americanas, amplas, intensas naquele momento. Em 7 de julho daquele ano, nascia o Observatório Latino-Americano, a ocupar uma minúscula sala no Departamento de Serviço Social da UFSC e da iniciativa, após quatro meses, organiza-se a Primeira Jornada Bolivariana, e mais tarde, como já dito, surge o Instituto de Estudos Latino-americanos, até hoje atuante.

 

2.

Na entrevista conduzida por Bob Fernandes, João Gabriel Gaspar Balesteiro comenta sobre uma espécie de divisão de trabalho entre os pesquisadores envolvidos em pesquisas sobre a tentativa permanente de construção de hegemonia e domínio dos EUA sobre a América Latina.

Há os voltados ao meio-ambiente – o ambientalismo constituiu-se numa ferramenta de dominação. E parece óbvio não haver, de parte do império, qualquer preocupação com a preservação propriamente do meio-ambiente. Trata-se, ao contrário, de chegar a áreas muitas vezes inexploradas, a exigir cuidados quando da chegada do ser humano, e delas tirar o máximo, especialmente em minérios e mesmo madeira.

Não é preciso muito esforço para compreender o quanto o capital é destruidor da natureza, e tanto mais quando ele já chegou à condição de capital imperialista. Chegar de mansinho, como quem pretende ajudar camponeses, indígenas, populações tradicionais, talvez até alfabetizá-los ou envolvê-los nas religiões cristãs, tentando sufocar línguas ou crenças, e a partir disso, extrair o que conseguir das riquezas existentes.

Primeiro, chegam as agências, centrais de pensamento, como quem nada querem, e querendo tudo, quase como missionárias, centrais de caridade, e depois, logo, logo, explorar, e dessa exploração, lucros e mais lucros. Nada a ver com preservação do meio-ambiente. Ao contrário, insista-se, é uma presença devastadora, pronta a produzir deserto.

Há, assim, pesquisadores da UFSC dedicados a essa investigação: sob a capa de preservação do meio-ambiente, o império abre caminho para a mais pura destruição, a par de produzir negócios em torno da biotecnologia, apropriar-se dos recursos voltados à produção de medicamentos, tantos outros expedientes, sempre a atentar contra a soberania dos países.

Tal prática passa, algumas vezes, quase em branco, como se nada de mais grave estivesse acontecendo, como não passasse de operações beneméritas, e nunca são. Mutatis mutandis, cabe lembrar como os colonizadores chegaram à América Latina. Da mesma maneira, tentam chegar atualmente, especialmente quando falamos de áreas como a Amazônia, vasta região a abranger Brasil, a contar com mais de 60% da área de floresta, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa. Os olhos de águia do imperialismo não querem deixar escapar essa riqueza, e nunca por quaisquer preocupações com a preservação florestal ou do meio-ambiente.

Abrindo o leque, há os estudiosos da UFSC dedicados a entender o avanço do neoliberalismo em si. E ao falar assim não estamos pretendendo separar, por exemplo, o estudo da devastação do meio-ambiente da destruição provocada pelo neoliberalismo, essa praga iniciada no Chile, com Pinochet, e no Reino Unido, com Margareth Thatcher. Tudo junto e misturado, obviamente. Falamos apenas de uma espécie de divisão de trabalho entre estudiosos.

 

3.

Os pesquisadores da UFSC voltados à ênfase em torno do neoliberalismo preocupam-se em investigar como esse novo modo de ser do capitalismo na fase imperialista, pregadores do livre mercado, a partir da intervenção de agências norte-americanas, organizações não-governamentais, difunde, fortalece tal perspectiva, como vai tornando a visão da prevalência do mercado, da livre iniciativa, da meritocracia em oposição a políticas do Estado voltadas às maiorias, uma ideologia dominante.

Na verdade, dirá João Gabriel Gaspar Balesteiro, são, tais agências, instrumentos da ingerência norte-americana, um investimento em dólares incalculável, mas para o capital, absolutamente indispensável. É operação desenvolvida não apenas pelas agências norte-americanas, mas também por institutos nacionais, como no caso do Brasil.

Sob a aparência de ajuda humanitária, tais organizações não-governamentais ou até governamentais norte-americanas, trabalham politicamente para envolver pessoas e encontrar caminhos de modo a abrir portas para os negócios.

Na observação de João Gabriel Gaspar Balesteiro, eles sempre chegam para “quebrar o gelo”, conquistar, convencer, sempre suavemente. A turma da pesada é outra. Não foram preparados para a violência, para a força bruta. Podem até ajudar, e ajudam, quando houver necessidade de alguma invasão, algum golpe – podem preparar terreno para intervenções militares. Mas, trabalham no modo ameno, não obstante nunca se oponham quando a palavra de ordem for a força bruta.

Chegam tentando convencer o país, qualquer um, da boa vontade deles, tentam evidenciar serem gente boa, com boas intenções, e nós sabemos do velho e apropriado ditado: de boas intenções, o inferno está cheio. Como é do hábito norte-americano, desenvolvem um eficiente trabalho de lobby, de amaciar relações, facilitar a vida de um empresário ou uma grande companhia norte-americana, abrir portas para um grande negócio, um portentoso investimento, convencer da necessidade de ultrapassar “obstáculos burocráticos”, resolver alguma pendência na área de segurança pública sem seguir exatamente as normas legais, e tudo isso feito de forma discreta, como se nada estivesse acontecendo, como se nada quisessem, e querendo tudo.

João Gabriel Gaspar Balesteiro lida muito com a área policial, de segurança pública. Bob, na entrevista, quer dele uma visão sobre a questão da Defesa propriamente, quesito militar. O pesquisador não se nega. Fala dos exercícios conjuntos de forças militares brasileiras e norte-americanas, a chamada operação Combined Operation and Rotation (CORE), programa de atividades anuais comuns entre o Exército Brasileiro e o Exército dos EUA, fruto de um acordo de cooperação assinado em 2021, governo Bolsonaro, de vigência prevista até 2028.

 

4.

Atualmente, conforme João Gabriel Gaspar Balesteiro explica, é o principal exercício bilateral entre os dois exércitos, acordado ser um ano no Brasil, outro nos EUA. Em dezembro de 2021, aconteceu no Vale do Paraíba, São Paulo, entre Resende e Lorena, região obviamente estratégica do Brasil. Envolveu amplos contingentes militares, aeronaves, e cerca de 240 militares norte-americanos.

Em 2023, aconteceu pela primeira vez na Amazônia, envolvendo Amapá e Pará. Operações na selva, a contar com cerca de 1.500 militares dos dois países. Estamos falando de treinamentos em duas áreas estratégicas do Brasil: uma, no coração industrial e financeiro, outra numa área essencial, cuja preservação é fundamental ao país e a todo o mundo, e cujos interesses comerciais dos EUA são por demais evidentes.

Tais treinamentos não podem ser tratados como parte de simples rotinas, como se nada houvesse por trás. Os militares norte-americanos não vêm ao Brasil para passear.

Para não sermos inocentes, é óbvio a utilidade de tais manobras militares para o Exército norte-americano pelo simples e notório fato de experimentar, sondar, conhecer terrenos estratégicos do Brasil, de grande utilidade numa hipótese de qualquer intervenção militar no pís, algo defendido pelas hostes bolsonaristas, inclusive pelo atual candidato, filho do ex-presidente, agora preso pelo fato de ter liderado uma tentativa de golpe de Estado.

Havia o plano de fazer o CORE-25 noutra região estratégica: aconteceria entre Petrolina e Juazeiro, coração do Nordeste, suspenso devido às óbvias tensões diplomáticas, decorrentes das medidas de Donald Trump, investindo com taxações contra o Brasil, tensão cuja intensidade tem crescido ininterruptamente.

A última medida, revogação do visto da embaixadora brasileira naquele país, Maria Luiza Ribeiro Viotti, no dia 4 de agosto deste ano. Tudo a indicar a pretensão de interferir nas eleições presidenciais brasileiras, acossando o Brasil no máximo que puder, atendendo aos pedidos da família do ex-presidente brasileiro.

João Gabriel Gaspar Balesteiro lembra: tudo isso começa em 2017. Tais exercícios se intensificaram a partir da posse de Michel Temer, catapultado ao poder pelo golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, autêntico abre-alas para a intensificação do neoliberalismo e para a chegada do bolsonarismo ao poder.

Exercícios militares com presença multinacional são antigos. Há o exemplo da Operação UNITAS, criado em 1959, em plena Guerra Fria, treinamento militar marítimo de natureza multinacional, um dos mais antigos do mundo, senão o mais antigo.

UNITAS reúne marinhas de dezenas de países das Américas e de outras regiões para treinamento de combate naval, defesa cibernética e, não podia faltar, ajuda humanitária, modo a dourar a pílula.

Surge após a Conferência Naval do Panamá, em 1959, idealizado, e não podia ser diferente, pela Marinha dos EUA, envolvendo regularmente Marinha dos EUA, do Brasil, outros países da América Latina, e convidados da Europa e da Ásia, sempre considerando os interesses geopolíticos do império norte-americano. Em 2023, a UNITAS aconteceu no litoral do Rio de Janeiro e Espírito Santo, pretensamente celebrando o bicentenário da independência do Brasil, pra inglês ver.

Esse conjunto de informações, dando conta de uma impressionante presença militar dos EUA no Brasil, de uma insistente ingerência no aparelho policial, pretendendo passar uma orientação à SWAT aos agentes brasileiros, indica inegavelmente que, ao lado de uma intensa atividade cultural-ideológica de agências norte-americanas, concertadas com institutos brasileiros, visando à afirmação da visão de mundo neoliberal, acontece outro movimento, de natureza militar.

De uma forma ou de outra, tais treinamentos militares, tal educação de nossa polícia, não podem ser compreendidos como quaisquer gestos de boa vontade, mas como uma espécie de efetiva preparação para qualquer emergência, e por isso, queremos dizer qualquer necessidade de interferir militarmente no Brasil, expediente, como já dito, sugerido pela família do ex-presidente, e especialmente pelo candidato bolsonarista.

A atitude face à Venezuela, o sequestro de um presidente da República e da mulher dele, não pode ser vista como um ato isolado. Hora de colocar as barbas de molho, se ainda não o fizemos.

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]

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