
O Brasil precisa melhorar o resultado primário, conter o crescimento das despesas obrigatórias, reduzir o custo de juros e estabilizar a dívida bruta. Mas não deve ser descrito como um país dependente, em primeiro lugar, de financiamento público estrangeiro. Com 9,6% do PIB em dívida externa pública, sua exposição externa está entre as menores observadas na comparação internacional.
A discussão sobre as contas públicas brasileiras costuma terminar na dívida bruta, no resultado nominal e na taxa de juros. Esses indicadores são importantes, mas falta uma pergunta essencial: a quem o Estado brasileiro deve? A resposta muda o diagnóstico. O Brasil tem dívida pública elevada, porém sua dívida externa pública é baixa em relação ao tamanho da economia. No primeiro trimestre de 2026, ela equivalia a 9,6% do PIB, uma das menores proporções entre os países com dados comparáveis.
Esse número não elimina os problemas fiscais. O resultado primário continua deficitário, a dívida bruta exige estabilização e o custo dos juros é alto. O que ele mostra é que a principal vulnerabilidade brasileira está no financiamento doméstico, não em uma dependência predominante de credores estrangeiros. Em um mundo de juros internacionais altos, volatilidade cambial e crises de liquidez, essa diferença tem valor estratégico.
Fonte: Banco Mundial, QEDS, e FMI, WEO de abril de 2026. O Brasil está destacado em azul.
Na mesma base, a Argentina aparece com dívida externa pública de 25,4% do PIB. O México registra 12,3% e a Coreia do Sul, 10,7%. Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, Austrália e França apresentam proporções maiores, entre 15,2% e 57,2%. A China aparece com 1,9%, mas sua última observação válida é do quarto trimestre de 2025. Entre os países selecionados com dado válido em 2026Q1, o Brasil tem o menor percentual.
No universo da QEDS com dados válidos, o Brasil ficou em 86º lugar entre 98 países, em uma classificação ordenada do maior para o menor percentual. Está na parte inferior da distribuição. Não se trata de um ranking de todos os países do planeta, pois a cobertura depende do envio de informações pelas autoridades nacionais. Ainda assim, é uma comparação oficial e ampla que confirma a baixa exposição externa pública brasileira.

Fonte: Banco Mundial, QEDS, e FMI, WEO de abril de 2026. O gráfico mostra as 20 maiores proporções entre 98 observações válidas.
A comparação com a Argentina torna o contraste concreto. A dívida externa pública argentina equivalia a 23,7% do PIB no fim de 2023 e chegou a 25,4% no primeiro trimestre de 2026. Em dólares, o estoque passou de US$ 153,6 bilhões para US$ 174,6 bilhões, alta nominal de 13,7%.2
Isso não autoriza uma leitura triunfalista. O RAF nº 115 da Instituição Fiscal Independente informa déficit primário efetivo de R$ 81,2 bilhões no governo central entre janeiro e julho de 2026. No mesmo período, a receita primária líquida cresceu 6,0% acima da inflação, enquanto a despesa primária aumentou 6,3% em termos reais. A IFI e o governo projetam déficit primário efetivo de 0,4% do PIB em 2026. Para estabilizar a dívida bruta, a IFI estima que seria necessário superávit primário de 2,1% do PIB.3
O ponto decisivo é separar o resultado efetivo da meta formal. Deduções legais permitem projetar o cumprimento da meta mesmo com déficit primário efetivo. A IFI resume a questão: “Para efeito da trajetória da dívida pública, importa o resultado primário efetivo”.3 O déficit estrutural, que retira efeitos temporários e cíclicos, chegou a 1,4% do PIB no acumulado de quatro trimestres até junho de 2026, contra 0,7% no mesmo período de 2025. Há um problema fiscal real e uma necessidade de ajuste estrutural.

Fonte: FMI, Fiscal Monitor, abril de 2026. Valores positivos representam superávit.
Ao mesmo tempo, o Brasil não é uma exceção isolada entre as grandes economias. No painel do FMI para 2025, o resultado primário brasileiro foi estimado em -0,4% do PIB e o resultado nominal, que inclui juros, em -8,1%. Estados Unidos e China também registraram déficits nominais expressivos. Argentina e México tiveram resultados primários positivos, mas isso não basta para medir vulnerabilidade externa ou sustentabilidade de longo prazo.8

Fonte: FMI, Fiscal Monitor, abril de 2026. O resultado nominal inclui o efeito dos juros.
No Brasil, o resultado nominal acumulado em doze meses até junho de 2026 correspondeu a déficit de 8,98% do PIB, enquanto o resultado primário ficou negativo em 1,06%, segundo o Banco Central. A diferença evidencia o peso dos juros. Uma redução futura da Selic tende a aliviar o custo marginal de rolagem, mas ocorre com defasagem e não substitui o ajuste primário. Em agosto, a taxa básica estava em 14% ao ano. O Focus apontava Selic de 13,75% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027.4
A economia oferece algum espaço para uma transição ordenada. O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre anterior. A taxa de desemprego ficou em 5,4% no segundo trimestre. O IPCA acumulou 4,44% em doze meses até julho, abaixo dos 4,64% anteriores, embora as expectativas para 2026 ainda estivessem acima do centro da meta.3 6 Não é um quadro sem riscos. É diferente, porém, de uma recessão profunda acompanhada de fuga de capitais e crise de financiamento externo.
A conclusão combina as duas partes do diagnóstico. O Brasil precisa melhorar o resultado primário, conter o crescimento das despesas obrigatórias, reduzir o custo de juros e estabilizar a dívida bruta. Mas não deve ser descrito como um país dependente, em primeiro lugar, de financiamento público estrangeiro. Com 9,6% do PIB em dívida externa pública, sua exposição externa está entre as menores observadas na comparação internacional.
Nota metodológica
Os percentuais de dívida externa pública foram calculados dividindo o estoque QEDS do primeiro trimestre de 2026 pelo PIB nominal anual de 2026 projetado no World Economic Outlook do FMI. Trata-se de um proxy comparável de magnitude, não de uma razão trimestral calculada com PIB observado. Os conceitos de Governo Geral, governo central, dívida bruta e dívida líquida não são intercambiáveis. Data da pesquisa: 22 de agosto de 2026.

Miguel do Rosário