
O ano era 2005 quando se conheceram no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, na cidade do Porto, em Portugal. O voo dela para São Paulo estava atrasado, e o dele seria algumas horas mais tarde, com destino a Bucareste, capital da Romênia.
Ela se dirigiu à lanchonete para tomar um café quando ele chegou e pegou a fila logo atrás. Ao pedir o café com uma nota de 50 euros, a atendente respondeu que não tinha troco, e ele prontamente se ofereceu para pagar, pedindo dois cafés. Ela sorriu e agradeceu; pegaram as xícaras e se sentaram em uma mesa próxima.
Ele falava bem o português e deu para conversarem. Parecia que se conheciam há muito tempo. Riam, brincavam um com o outro e falavam sobre as cidades, as comidas e os costumes. O tempo foi passando sem que percebessem.
Adira havia ido para Portugal para tentar um emprego, estudar e permanecer. Tinha uma amiga que já morava lá e a convidou para ficar em sua casa até se estabelecer. Estava com 23 anos, havia terminado o curso de Informática e embarcou cheia de sonhos. Porém, tentou várias empresas no ramo, mas nenhuma quis aceitar uma brasileira para trabalhar. Os empregos que arrumava eram de garçonete, arrumadeira e bilheteira, e o que recebia mal dava para se manter. Depois de dois anos nessa situação, com a amiga já cansada da rotina, ela percebeu que era hora de retornar.
Bruce foi criado em Portugal, mas sua origem era romena. Filho de ciganos, seus traços eram marcantes e bem delineados. Tinha 28 anos, era formado em Comércio Exterior e trabalhava na venda de peças automotivas. Embora os ciganos casassem cedo, o caso dele era uma exceção, pois a noiva que havia sido prometida falecera dias antes do casamento, de mal súbito. Até então estava solteiro, dedicando-se muito ao trabalho e tratando de negócios por vários países da Europa.
Ela, atenta ao seu voo, ouviu pelo sistema de som que a partida somente seria liberada para o dia seguinte, no mesmo horário, devido ao forte temporal na cidade de onde o avião partiria. Por coincidência, o voo dele vinha da mesma região.
Bruce e Adira se olharam. Ela pensou em ter que voltar para a casa da amiga, mas não queria fazer isso; já tinham se despedido sentindo o alívio mútuo, e estava com pouco dinheiro para ir para um hotel. Bruce morava sozinho em um pequeno e confortável apartamento alugado e a convidou para ficar lá. Ela, sem outra opção, aceitou um pouco envergonhada. Pegaram as malas, tomaram um táxi e chegaram ao local.
Ao entrar, deparou-se com uma vista linda da cidade a partir da varanda do 15º andar. Ficou alguns minutos a contemplar, quando Bruce a chamou para mostrar o quarto, o banheiro e a minicozinha. Estavam com fome, e ele resolveu preparar um fettuccine ao molho branco com fatias malpassadas de rosbife, acompanhado de um vinho. Tudo feito com eficiência e esmero, jantaram com bastante apetite.
Após recolherem os pratos, sentaram-se no sofá e de repente se olharam de uma maneira que até então não havia acontecido. Ambos sentiram um impulso e uma sensação maravilhosa; devagar, seus lábios se tocaram em um beijo fascinante, gerando uma conexão até então desconhecida. Abraçados, dirigiram-se para o quarto e se amaram como nunca na vida de ambos.
Adormeceram juntinhos e acordaram lá pelas 10 horas da manhã. Ela, encantada, parecia estar sonhando. Ele se levantou, preparou o café da manhã para ambos e a pegou no colo até a mesa, que estava posta como a de um hotel cinco estrelas. Depois, voltaram para a cama e ficaram até perto do horário do voo. Tomaram banho e saíram correndo para o aeroporto.
Adira nem acreditava no que estava vivendo e não podia imaginar que aquelas 24 horas seriam as melhores da sua vida com uma pessoa que mal conhecia. Ele a fez se sentir a mulher que ela sabia que era, mas que estava camuflada pelas decepções dos últimos dois anos. Chegaram em cima da hora, despacharam as malas e, com os cartões de embarque em mãos, se despediram sem terem tempo de combinar como seria a vida dos dois daquele momento em diante.
Ela foi se encaminhando para o embarque e, de vez em quando, virava o rosto e o via dando adeus e mandando beijos. De repente, estava dentro do avião, sentada em sua cadeira com o coração em ebulição. A vontade era de sair dali e ir ao encontro dele. Foram tantas emoções nas últimas horas! Ficava lembrando dos momentos, do sentimento que a pegou de surpresa e tomou conta de toda a sua estrutura. Como seria daqui para frente? Será que se encontrariam novamente? Eles não sabiam quase nada um do outro, não tiveram tempo; o que viveram estava ali com ela, no seu corpo, nos seus lábios, no cheiro e na voz dele, nas risadas. Não estava entendendo: ele estava ali, mas não estava. Foram 8 horas de voo nesse êxtase de recordações. De repente, o avião aterrissou em São Paulo; ela teve que parar, encarar a realidade e mudar, por enquanto, os pensamentos. Meio zonza, pegou as malas e viu de longe sua família que a aguardava.
Ele também embarcou e, durante as 2 horas de voo, ficou a lembrar de Adira. Sentindo seu perfume e o doce dos seus lábios rosados, encantado com que haviam vivido, feliz, sorria sozinho.
Quanto ao futuro dos dois, ainda não tinham noção de nada.
Ana Amélia Guimarães
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