
“Façam tudo o que Ele disser.”
Nesta passagem do Evangelho de João (Jo 2, 5), Maria, de forma simples e discreta, orienta os servos a fazer tudo o que Jesus mandar. A Mãe de Jesus, e nossa Mãe, com seu jeito firme, persistente e delicado de ser, resume em poucas palavras o que é prioritário na caminhada: fazer tudo a partir do que o Mestre fala, ou seja, escutá-Lo com a alma e o coração, a fim de agir em conformidade com o Projeto do Reino por Ele revelado. Portanto, é fundamental que o Discipulado, a escuta obediente que gera uma Vida Nova em Cristo, “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Cor 5, 17), preceda a Missão, isto é, a nossa ação missionária em prol de um mundo novo, de uma nova sociedade, de uma Nova Vida!
No Evangelho de João, dentre os sete sinais com os quais o Filho Amado revela à humanidade o ser e o agir de Deus-Pai, encontra-se a passagem bastante conhecida como as “Bodas de Caná”, ocasião em que Jesus transforma a água em vinho. Este é considerado, portanto, o primeiro sinal ou milagre, sendo um gesto revelador de quem é Jesus (o Filho de Deus), da sua íntima relação com o Pai e do que Ele propõe a quem deseja tornar-se seu seguidor, sua seguidora.
Na Festa de Casamento em Caná da Galileia, o Vinho Novo da Nova Aliança é o principal assunto. Este vinho do Amor e da Fidelidade é a marca essencial do novo compromisso firmado no direito e na justiça, na alegria e na paz. “Amor e Fidelidade se encontram, Justiça e Paz se abraçam” (Sl 85, 11). Meditando a partir das Bodas de Caná, já se começa a vislumbrar a aurora deste novo tempo na pessoa de Jesus – o noivo por excelência – e mediante esta passagem bíblica, de maneira bem ampla e geral, há três questionamentos que poderemos fazer, logo de início:
1º- Por que Jesus, no começo da sua missão, revela-se como o enviado do Pai, exatamente, numa Festa de Casamento?…
*Para iluminar:
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“Como o jovem se casa com uma jovem, o seu Criador casará com você; como o esposo que se alegra com a esposa, seu Deus se alegrará com você. (Is 62, 5).
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“O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho.” (Mt 22, 2)
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“Vocês acham que os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? (Mc 2, 18).
2º- Que toque especial nos indica a presença de Maria e dos Discípulos nessa Festa de Casamento?…
*Para iluminar:
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“Vamos ficar alegres e contentes, vamos dar glória a Deus, porque chegou o tempo do casamento do Cordeiro, e sua esposa já está pronta […] (Apoc 19, 7).
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“Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro.” (Apoc 19, 9).
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“Enquanto o noivo está presente, os convidados não podem fazer jejum.” (Mc 2, 18).
3º- O que precisa ser transformado em minha vida (água) para estar em sintonia com a novidade (vinho) do Reino?…
*Para iluminar:
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“Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova, pronta como esposa que se enfeitou para o seu marido.” (Apoc 21, 2).
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“Ninguém coloca vinho novo em barris velhos; porque o vinho novo arrebenta os barris velhos, e o vinho e os barris se perdem. Por isso, vinho novo deve ser colocado em barris novos.” (Mc 2, 22).
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“Necessário vos é nascer de novo.” (Jo 3, 7).
O Vinho Novo da Nova e Eterna Aliança nos leva a romper com antigas estruturas e velhos esquemas. Esta ruptura se faz necessária para quem, a exemplo de Nicodemos (Jo 3, 1-8), deseja encontrar-se com o Mestre e viver de acordo com o seu Projeto de Vida, Amor, Justiça, Paz e Fraternidade. Na sociedade dos velhos barris da mentira e enrolação (fake news e falcatruas), onde “Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior” (Jo 2, 10), não há condições de conciliação, arrumadinhos e jeitinhos para que se fique “tudo bem”, numa falsa e aparente “paz”. “Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Mt 6, 24).
A Vida Nova em Cristo Jesus, que gera uma Nova Vida para o Mundo e para a Humanidade, é um novo jeito de viver e conviver; tratando-se de uma outra via ou novo modelo que não se encaixa nos velhos esquemas, retratando uma nova realidade alicerçada na fé, esperança e amor/caridade. Na festa de casamento (Jo 2, 1-12), e com riqueza de detalhes, apresenta-se o passo a passo desta nova caminhada com o Mestre. Em relação a esta nova jornada, há sete palavras-trilhas deste novo caminhar: CHAMADO / PARTICIPAÇÃO / PERCEPÇÃO / INTERCESSÃO / CONFIANÇA / OBEDIÊNCIA / AÇÃO. A fim de melhor dinamizar estas palavras-chave e dar ritmo ao processo, passemos às ações (verbos) que cada uma delas poderia expressar, na meditação e vivência de alguns desses momentos:
1º- MOMENTO: CHAMAR / CONVIDAR

“Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento,
junto com os seus discípulos.” (Jo 2, 2)
Todos somos chamados/as à missão de amar e servir “pois o Filho do Homem não veio para ser servido; Ele veio para servir…” (Mt 20, 28). A Vida é Missão! É sempre Jesus quem toma a iniciativa de nos chamar para esta missão, e não desiste de nós em momento algum, mesmo diante da nossa indiferença e comodismo. Nem sempre o convidamos para estar e permanecer conosco, dando sentido à nossa vida e aos nossos projetos. Muitas vezes, nem o consultamos, nem o ouvimos.
Chama a nossa atenção o fato de Jesus “também” ter sido convidado para esta festa de casamento. Neste significativo processo de inclusão, estão também a Mãe de Jesus e seus discípulos.
*Para meditar:
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Quanto a mim, como discípula/o de Jesus, sinto-me também incluída/o nesta festa? Digo SIM ao Seu convite? Qual é, na verdade, a festa?
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Em que situações eu percebo que Jesus continua me chamando a segui-Lo? Quais os seus apelos mais fortes e constantes?
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E nas minhas escolhas e decisões pessoais, em tudo que vou fazer, eu também o convido? Eu lhe dou espaço em minha vida? Eu o escuto de verdade?
2º- MOMENTO: PARTICIPAR / ENVOLVER-SE

“Houve uma festa de casamento em Caná da Galileia,
e a Mãe de Jesus estava aí.” (Jo 2, 1)
Na dinâmica do Reino de Deus, nesta Festa da Vida, Jesus (o noivo) é sinal de presença amorosa que dá sentido a tudo, alegrando e transformando os corações (vinho novo). Onde está Jesus, costumam estar também a sua Mãe e os seus Discípulos. E eu? Estou junto com eles?…
*Para meditar:
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Sinto esta presença amorosa de Jesus em minha vida?
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A participação de Maria e dos discípulos me sugere alguma coisa?
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Quanto a mim, a exemplo do Mestre, costumo ser presença amorosa junto aos irmãos e irmãs?
3º- MOMENTO: PERCEBER / NOTAR

“Faltou vinho…” (Jo 2, 3)
Maria, como mãe e discípula de Jesus, é sensível diante das situações difíceis. Na Festa da Vida, não basta apenas participar sem se envolver; não resolve nada ver sem procurar enxergar; não tem efeito nenhum ouvir sem escutar. Jesus e Maria agiam sempre a partir do coração, sentindo compaixão pelas pessoas e procurando ajudá-las. O verdadeiro discípulo, diferentemente dos fariseus que só costumam observar, analisar, julgar e sentir pena das pessoas, age movido pela compaixão.
*Para meditar:
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Na sociedade do indiferentismo, como tenho reagido, e agido, diante do sofrimento de tantos irmãos? Noto (percebo) suas carências, ou apenas observo?
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Procuro participar e me envolver no seguimento de Jesus, ou apenas fico “de longe”, cumprindo metas e tarefas?
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Sinto-me movida/o pela compaixão em relação às outras pessoas, ao mundo e a mim mesma/o?
4º-MOMENTO: PEDIR / RECORRER / INTERCEDER

“…e a Mãe de Jesus lhe disse:
Eles não têm mais vinho!” (Jo 2, 3)
Aliviar a situação, agindo em favor do próximo, é um grande gesto de Amor! Maria sempre foi solidária, inclusive não mediu esforços para ser presença amorosa junto à sua prima Isabel. (Lc 1, 39-45). Com ela, a “Nova Eva” – “Mãe do Noivo e dos Viventes” – aprendemos a recorrer ao Mestre Jesus em favor dos nossos irmãos e irmãs, sem desanimar; e não apenas com pedidos egoístas, que apenas visam os nossos interesses particulares.
*Para meditar:
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Diante das situações difíceis, procuro ajudar (ser solidária/o) ou apenas criticar e jogar a culpa nos outros?
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Percebo, em minha realidade, o vinho (amor) que está faltando?
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Recorro a Jesus com confiança e paciência, aguardando que chegue a Sua hora? Ou ajo com impaciência, querendo que Ele satisfaça logo as minhas vontades?
5º-MOMENTO: CONFIAR / ENTREGAR

“A Mãe de Jesus disse aos que estavam servindo:
‘Façam o que Ele mandar’.” (Jo 2, 5)
Maria, nossa Mãe, nos convida a fazer o que Jesus mandar! Neste evento de Caná (Festa de Casamento) acontece uma espécie de resumo do programa de vida de Jesus. A partir da sua ação missionária, as relações dos homens com Deus e dos homens entre si serão transformadas. Na Antiga Aliança, este casamento é símbolo do amor de Deus pela humanidade, através de Moisés; agora, significa a união do próprio Messias com a Sua Igreja (vinho novo do Amor, da Alegria e da Paz).
*Para meditar:
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Procuro seguir, de fato, a orientação e convite de Maria para fazer o que Jesus manda? O que Ele manda mesmo fazer?
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Assim como Maria, oriento e convido as pessoas a seguirem Jesus?
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Confio, realmente, neste Noivo? Ou apenas acredito e acho interessante? Sou seu seguidor/a, ou simplesmente, seu admirador/a?
6º- MOMENTO: OBEDECER / SEGUIR

“Jesus disse aos que serviam: ‘Encham de água esses potes’.
Eles encheram os potes até a boca.” (Jo 2, 7)
Os serventes levaram em conta as orientações de Maria e obedeceram à palavra de Jesus, enchendo as seis talhas de água até as bordas. Somente eles (servidores) sabiam o que estava realmente acontecendo “nos bastidores” da Festa; enquanto isso, o mestre-sala estava totalmente por fora do ocorrido. A atuação de Jesus acontece com a colaboração daqueles que servem e obedecem à sua voz, uma vez que “Encher as talhas” será sempre tarefa nossa.
Para meditar:
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No seguimento ao Mestre, de que maneira posso colaborar (enchendo as talhas), para que haja a transformação da água em vinho?
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Como ando me sentindo nessa tarefa de “encher as talhas? Sigo confiante, animada/o, obediente, esperançoso/a…, ou não?
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Em relação à vida e ao mundo, sigo atenta/o ao que se passa, tal qual Maria? Ajo como servidor/a obediente? Ou estou mais para um mestre-sala alheio ao que realmente se passa?
7º- MOMENTO: AGIR / REALIZAR

Depois Jesus disse: ‘Agora tirem e levem ao mestre-sala’.
Então levaram ao mestre-sala.” (Jo 2, 8)
Na sociedade dos velhos barris e falsos vinhos, mestres-salas alienados e funcionários burocratas, pessoas indiferentes às dificuldades do próximo, insensíveis à dor da humanidade e alheias até de si mesmas, precisamos, mais do que nunca, cultivar nossa intimidade com Jesus. É urgente convidá-Lo a fazer parte da nossa história, numa aliança eterna (casamento) de fidelidade e compromisso com o seu Reino de Vida, Amor, Justiça e Paz.
A presença amorosa de Jesus dá sentido à nossa vida, nos inspira a viver como discípulos/as-missionários/as: sensíveis e solidários/as (como Maria), obedientes e confiantes (como os empregados da festa), amigos/as e companheiros/as (como os discípulos que O acompanhavam). Agir conforme a Sua vontade nos alegra e realiza como pessoas, pois somente Ele proporciona o melhor vinho da Nova Vida.
Para meditar:
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O Vinho do Amor e da Alegria não pode faltar na Festa da Vida! Como anda a minha festa (vida)? O que falta para melhorar?
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Apesar das adversidades, eu me alegro na festa da vida? De que modo?
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Estou disposta/o a colaborar com Jesus na animação das outras pessoas, a começar por mim mesma, a fim de que “a festa” continue alegre e animada?
Antes de tornar-se vinho, a uva passa por muitos e muitos apertos, mas vale a perna, e a vida ganha um novo sabor!
Pery-Açu
Bananeiras-PB: novembro de 2022
Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.
E-mail: veraperiassu@gmail.com
