
Qual o vínculo entre a teologia da prosperidade e o vício em jogos online? Que relação têm com o desespero existencial de brasileiros oprimidos? Como ambos trabalham com a “fantasia da salvação mágica”, e a falência dos ideias de caridade e solidariedade?
Por Sinésio Ferraz Bueno | Outras Palavras – Crise Brasileira | Publicado em 04/08/2026 às 15:36
Em artigo recentemente publicado na Folha de São Paulo, Waldemar Magaldi Filho acertou na mosca ao expor o vínculo sinistro existente entre o dízimo cobrado pelas agremiações religiosas neopentecostais inspiradas pela teologia da prosperidade e o vício em jogos eletrônicos popularizado pelas bets1. O que dois sistemas que parecem ser antagônicos sob a ótica de uma análise moral ingênua apresentam em comum, segundo o autor, é a astúcia exploradora do desespero existencial de brasileiros economicamente oprimidos. Pastores evangélicos que ameaçam suas ovelhas com a danação do fogo eterno e celebridades midiáticas que mobilizam a fantasia infantil do enriquecimento instantâneo atuam como autênticos vigaristas especializados na manipulação das fraquezas alheias. A fé pentecostal que anseia recompensas materiais, assim como o cérebro viciado em apostas digitais, desempenham um único processo de exploração material: “é fascinante observar como os mecanismos de transferência de renda dos mais vulneráveis para os mais espertos são idênticos”2.
O vínculo mais expressivo entre a crença neopentecostal e o vício nos jogos eletrônicos popularizados pelas bets é evidenciado pelo fato de que, entre religiosos, os evangélicos representam o grupo que mais adere à jogatina on-line3. Segundo pesquisa do Poder Data, 41% dos evangélicos revelaram já ter realizado apostas em jogos on-line, ao passo que, entre católicos, esse índice é de 34%. Uma estudiosa do tema assinala a convergência entre o marketing das empresas de apostas e o apelo à profecia, tão caro aos cristãos, traduzida no slogan “profetizou jogou, sacou”4. Também não será mera coincidência que “pastores de várias denominações evangélicas estão em alerta com o crescente número de fieis que têm abandonado o dízimo para investir em apostas online”5. É bem possível que a questão mais decisiva na disputa entre igrejas pentecostais e bets não sejam dilemas morais a perturbar a consciência dos crentes, mas sim quem serão os beneficiados com o suor do trabalho alheio: “podem ser pastores com suas roupas, relógios e carros de luxo e cintilantes ou influenciadores digitais ostentando desde a camisa do seu time do coração até jatinhos e iates caríssimos”6.
Embora à primeira vista pareça haver uma relação antagônica entre vertentes religiosas neopentecostais e cassinos, um olhar crítico atento saberá localizar uma clara afinidade entre ambas instituições. O mesmo fenômeno que torna uma pessoa suscetível a crenças religiosas relacionadas ao sucesso financeiro e a rituais específicos para quebrar maldições espirituais também a torna vulnerável a se sentir abençoada quando tenta a sorte em sites de apostas. Esses dois tipos de crença podem coexistir perfeitamente na consciência de um crente religioso pois, segundo Magaldi Filho, manifestam “fantasias de salvação mágica” astuciosamente manipuladas. Ambos são diferentes manifestações de um mesmo fenômeno social que pode ser adequadamente compreendido mediante o conceito dialético-materialista de reificação, ou coisificação da consciência.
Este é um dos conceitos filosóficos mais importantes do século XX, e foi proposto pelo pensador húngaro György Lúkács, com o objetivo de demonstrar que a estrutura do capitalismo não se limita a operar uma relação de exploração econômica do trabalho, pois ela produz também uma forma específica de percepção da realidade pela qual os próprios sujeitos se relacionam entre si e consigo mesmos como se fossem meras coisas, ou seja, simples objetos manipuláveis. A originalidade de Lukács consistiu em esclarecer que a metamorfose operada pela lógica capitalista de abstrair o valor de uso da mercadoria em favor de seu valor de troca no mercado não afeta apenas as coisas materiais, mas também a própria subjetividade. A lógica acumuladora do capital se manifesta historicamente como um gigantesco sistema de controle baseado em direitos de propriedade, e poder coercitivo privado e estatal, constituindo uma totalidade social que parece ser completamente independente e estranha aos seres humanos. Escreve o filósofo: “a personalidade se torna espectador impotente de tudo o que acontece à sua própria existência, parcela isolada e integrada num sistema estranho”7.
Na medida em que a mercadoria se torna a forma universal da sociedade capitalista, uma racionalidade instrumental invade todas as esferas da vida, significando que as relações entre pessoas pareçam ser relações entre objetos, que suas qualidades singulares sejam vistas como quantidades mensuráveis, e que os sujeitos se relacionem consigo mesmos de acordo com padrões utilitários. A maior implicação desse gigantesco processo de coisificação da consciência para nossa análise, é que ela afeta a relação do ser humano com a esfera divina, reduzindo a própria transcendência religiosa a termos meramente instrumentais e utilitários. O conceito de coisificação da consciência possibilita compreender como foi possível que, no período pós-guerra, desde os Estados Unidos (templo sagrado do capitalismo), pregadores neopentecostais tenham substituído os ideais cristãos tradicionais relacionados à caridade, à resignação diante do sofrimento e à solidariedade universal, pela interpretação da prosperidade material como bênção direta e visível proporcionada por Deus. Sua redução da relação entre o ser humano e Deus pela lógica da recompensa material imediata vigente no mercado tornou-se uma expressiva manifestação do fenômeno social e material da coisificação da consciência.
Desde que a ética calvinista interpretou o sucesso material como critério da premeditação divina, a prosperidade econômica pôde ser atribuída ao mérito moral do indivíduo, mas essa concepção pressupõe abstrair as condições históricas e sociais que tornam possível o enriquecimento. De acordo com o marxismo, que é a teoria mais apropriada para refletir sobre essa questão, a riqueza material é o resultado de condições econômicas desiguais, relativas à propriedade dos meios de produção, e por esse motivo, ela não deve ser concebida como resultado das qualidades morais de um indivíduo qualquer. Explicar a riqueza apenas como resultado do merecimento individual de pessoas que creem em Deus implica uma concepção ideológica que faz as relações sociais aparecerem sob a forma de propriedades naturais das coisas, ocultando as práticas sociais concretas de exploração do trabalho humano. Os processos sociais de coisificação da consciência, ao identificarem a prosperidade econômica com virtude moral e bênção divina, justificam as desigualdades sociais como se fossem expressões de uma justiça onipotente, obscurecendo sua compreensão crítica. Esse é um dos resultados mais nefastos da mentalidade neopentecostal, inclusive sob um ponto de vista cristão que privilegie a empatia com o sofrimento alheio e a solidariedade universal.
A coisificação da consciência constitui um imperativo que se tornou universal na relação dos seres humanos entre si e consigo mesmos, pois é por meio dela que os critérios de eficiência, competitividade e valor de mercado se tornam decisivos para as relações intersubjetivas. A atualidade da análise de Lukács torna-se evidente em uma sociedade fortemente determinada por métricas e algoritmos, que reduzem a identidade pessoal a indicadores quantificáveis traduzidos por pontuações de crédito, quantidade de seguidores em redes sociais e potencial de consumo. Nesse sentido, a coisificação é uma modalidade perversa da dialética do reconhecimento postulada pelo filósofo Hegel no século XIX. Para este, a consciência é movida por um desejo fundamental de dissolução da estranheza do mundo que não se contenta com a simples posse de riquezas e objetos materiais, pois sua meta essencial é ser reconhecida por uma outra consciência livre. No contexto da coisificação, esse reconhecimento é corrompido eticamente, convertendo-se em uma relação instrumental que reduz o outro a mero objeto funcional.
No caso específico do Brasil, a transformação de algumas seitas pentecostais em núcleos do poder econômico e político evidencia a afinidade profunda entre fascismo e religião. Um exame atento da atuação dos pastores evangélicos de grande sucesso midiático, notadamente junto a populações economicamente desfavorecidas, explicita o emprego de dispositivos retóricos comuns a líderes fascistas. A esse respeito, é significativo que muitos líderes religiosos apelem a oposições simplistas entre os crentes seguidores e o restante da humanidade, frequentemente baseadas em critérios morais, de maneira a favorecer o engrandecimento narcísico dos seguidores e a fúria contra os representantes imaginários do mal. De maneira semelhante aos demagogos fascistas, muito pastores evangélicos se comportam de maneira calculadamente dissimulada e cínica, ajustando-se a demandas de identificação emocional que são as mesmas que sustentam os agrupamentos fascistas.
Na medida em que os ideais tradicionais de caridade e solidariedade se tornam secundários frente à ênfase individualista na prosperidade material, a fé neopentecostal se expõe abertamente à coisificação da consciência, justificando a aproximação entre a teologia da prosperidade e o vício na jogatina digital. Ao passo que o senso comum estabeleceria uma relação antagônica entre a crença neopentecostal e o vício em jogos digitais, uma análise crítica consegue localizar uma afinidade inesperada entre os dois âmbitos. Tanto esse tipo de crença religiosa quanto o vício no jogo são comportamentos estruturados por uma consciência que assume critérios instrumentais para se relacionar com o Outro e consigo própria, tornando-se capaz de estabelecer uma relação coisificada com o próprio ser divino.
Referências
Filho, W.M. Bets e dízimo a igrejas moem pobres com fantasia de salvação mágica. In: FolhadeSãoPaulo, 16/06/2026.
Filho, W.M., idem.
Lukács, G. Históriaeconsciênciadeclasse. Rio de Janeiro, Elfos, 1989, p. 100.
Karter, J. 41% dos evangélicos apostam nas bets; católicos, 34%. Poder 360, 02/10/2025.
Cesar, M.C. O profeta das bets está seduzindo os evangélicos. FolhadeSãoPaulo, 11/09/2024.
Junior, M. Fieis trocam dízimo por apostas em Bets e preocupam pastores. Folha de São Paulo, 10/11/2024.
Filho, W.M., idem.
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