O Caminho da Paz

Imagem: Do Google

“Eu deixo para vocês a paz, Eu lhes dou a minha paz.
A paz que Eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá.”

Jo 14, 27

Estas são palavras de Jesus dirigidas aos seus Apóstolos naquele tempo, e hoje, a Nós como seus seguidores. Aparentemente, é uma grande contradição Jesus falar de paz num momento tão tenso, pois sua morte estava para acontecer. Na verdade, sua vitória sobre a morte realiza a paz, sinalizando a grande novidade do Reino de Deus, onde a vida fala mais alto e a morte não tem a palavra final. Jesus é, portanto, o verdadeiro caminho para a VIDA e aquele que nos traz a verdadeira PAZ. À luz da Fé, estas palavras nos trazem consolação e, por incrível que pareça, mesmo em meio à pandemias, guerras, violências, e até ameaça de extinção total, permanecemos firmes e confiantes em suas palavras: “Não fiquem perturbados, nem tenham medo.” (Jo 14, 27).

O profeta Isaías anunciava Jesus como o “Príncipe da Paz”, cujo reino seria alicerçado, firmado e reforçado com o Direito e a Justiça (Is 9, 5-6). Zacarias, o pai de João Batista, cheio do Espírito Santo, também profetizou a respeito de Jesus: “… o sol que nasce do alto nos visitará, para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte; para guiar nossos passos no caminho da paz.” Paulo, em sua carta aos romanos, retoma um trecho bíblico do Eclesiastes, dizendo que “Não há homem justo…Não há homem sensato… Todos se desviaram, e juntos se corromperam… Não conhecem o caminho da paz…” (Rm 3, 11-18). Em sua carta aos efésios, o mesmo Paulo revela que “Cristo é a nossa paz… derrubou o muro da separação: o ódio… veio anunciar a paz…” (Ef 2, 14.17).

Quando ressuscita e aparece aos discípulos, as primeiras palavras de Jesus são estas: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20, 19)); no entanto, quando fala para que os seguidores perseverem, mesmo em meio aos conflitos, diz o seguinte; “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada.” (Mt 10, 34). “Eu vim para lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que já estivesse aceso […] Vocês pensam que Eu vim trazer a paz sobre a Terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão.” (Lc 12, 49-51). E agora?… Se Jesus é a verdadeira Paz, por que diz que não veio trazer a paz à terra, e sim a espada, a divisão? Isto significa que é violento e que está em contradição consigo mesmo?… De modo algum; quem estaria em contradição não seríamos nós? Estamos sempre em contradição por querermos entender a paz como esta que o mundo oferece, buscando consegui-la, muitas vezes, por meio de guerras e na base da violência. Aqui, as palavras “paz” e “espada” merecem um pouco mais da nossa atenção.

A paz, a qual Jesus se refere, não corresponde às expectativas do mundo, nem tampouco àquelas dos judeus, que esperavam um Messias forte, majestoso, glorioso e imponente, e ainda hoje esperam… Na verdade, o Messias Jesus é tudo isso e muito mais, no entanto, eles queriam que também o fosse nas “aparências”, por isso, o rejeitaram, e ainda hoje o rejeitam… A paz, relacionada ao entendimento e harmonia entre as pessoas, só será possível como consequência de um relacionamento profundo entre Deus e o próprio Ser Humano, e do próprio Ser Humano consigo mesmo e com os outros/as. Imagine uma grande família, onde os filhos lutam pela paz entre si, mas não levam em consideração as orientações e conselhos do próprio pai. Fazem tudo à sua moda, do seu jeito, apelando, inclusive, para a violência. Neste caso, a espada poderá ser entendida em sentido literal, ou seja, ao “pé da letra”, cuja finalidade é mesmo cortar, dividir, separar. Com toda certeza, não é a esta espada que Jesus se refere. Biblicamente falando, estes “cortes”, “separações” e “divisões” referem-se àqueles que aderem ao projeto do Reino, ou não. Entre o Projeto de Deus, baseado no direito e na justiça, que gera vida digna para todos, e o projeto do mundo, baseado no egoísmo e ambição, que gera morte, há que haver mesmo uma clara divisão. Daí a espada como símbolo de um “corte radical” entre o projeto da vida, anunciado por Jesus Cristo, e o projeto da sociedade centrado na ganância e no lucro. A adesão ao Evangelho, ou seja, ao próprio Mestre Jesus – Palavra encarnada de Deus – significa trazer esta “espada/divisão” e não se conformar e acomodar com uma paz aparente.

Por causa do nosso livre arbítrio, este corte (espada da determinação) que separa bem e mal, joio e trigo, frutos do espírito e instintos egoístas só acontece, de fato, no interior de cada um de nós. A partir deste entendimento, fica mais fácil compreender que a Paz verdadeira começa em cada pessoa, de modo particular, mas tudo isso pela graça de Deus, que nada impõe e nos deixa, realmente, livres. Portanto, quanto mais adesão ao Projeto da Vida, revelado por Jesus, mais e mais a verdadeira Paz irá se concretizando e gerando um mundo novo. Conforme nos diz Nando Cordel em sua canção: “A paz do mundo começa em mim.”

Falsa, inconstante, insegura e perigosa é, portanto, essa paz que o mundo oferece: fruto da mentira, da guerra e da violência. Como se conseguir a paz por meio da guerra e da propaganda enganosa?… Eis uma das grandes contradições da humanidade, desde tempos imemoriais. Na raiz de todo mal (guerra, violência, fome, sofrimento etc.) estão os instintos egoístas, a autossuficiência e ambição desenfreada pelo poder. Contra tudo isso, a resposta é viver segundo o Espírito, pois “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Contra essas coisas não existe lei” (Gl 5, 22-23). No Sermão da Montanha, Jesus diz que são “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5, 9).

Vida ou morte, bênçãos ou maldições dependem de nós (Dt 30, 15-19). Não culpemos Deus por nossas decisões precipitadas, interesseiras e autossuficientes. Somos uma geração rebelde e arrogante que, por descartar o Criador e as próprias criaturas, optando pelo “ter”, “prazer” e “poder”, fazemos nossas próprias leis, gerando caos interior (egoísmo, ambição, inveja, orgulho, ódio etc.) e, consequentemente, caos exterior (poluição, fome, miséria, violência, guerra etc.). “Os desejos dos instintos egoístas levam à morte, ao passo que os desejos do Espírito levam para a vida e a paz” (Rm 8, 6). Nessa mesma carta, São Paulo acrescenta que “O Reino de Deus não é apenas questão de comida ou bebida; é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17).

A Paz é fruto da Justiça, melhor dizendo, a construção de uma sociedade fundada no Direito e na Justiça é o caminho para a verdadeira Paz. Assim sendo, numa sociedade justa, humana e fraterna, “Justiça e Paz se abraçam” (Sl 85, 11), sendo este o caminho indicado por Deus a todas as pessoas de boa vontade. Segundo Isaías, “os injustos não conhecem o caminho da Paz, pois não existe o direito em seus passos…” (Is 59, 8). Afastar-se do mal e praticar o bem, buscar a paz e procurar segui-la são as recomendações encontradas na primeira carta de Pedro, isto porque “Os olhos do Senhor estão sobre os justos…” (1Pd 3, 11-12). O profeta Zacarias anuncia o Messias como sendo “Justo e Pobre”, revelando que Ele “destruirá os carros de guerra…quebrará o arco de guerra. Anunciará paz a todas as nações…” (Zc 9, 9-10).

Confiantes em Jesus – Caminho, Verdade e Vida – sonhemos com um Novo Mundo, onde não imperem mais a fome, a peste, a guerra e a morte – os quatro cavaleiros do apocalipse – (Ap 6, 1-8); onde tudo seja transformado, inclusive os instrumentos que geram destruição, transformados em instrumentos que produzam vida: “De suas espadas, eles fabricarão enxadas, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra, e ninguém mais vai se treinar para a guerra” (Is 2, 4). Este “novo céu e nova terra”, revelados por João Evangelista como “A Esposa do Cordeiro” (Ap 21, 1-14), refere-se a uma nova relação existente entre Deus e a humanidade. Esta nossa Esperança está em consonância com o que já dizia o profeta Isaías, referindo-se à chegada do Messias e à dinâmica desse Mundo Novo: “Será derramado outra vez sobre nós um espírito que vem do alto. Então o deserto se tornará um jardim, e o jardim será considerado um bosque. No deserto habitará o direito, e a justiça habitará no jardim. O fruto da justiça será a paz. De fato, o trabalho da justiça resultará em tranquilidade e segurança permanentes” (Is 32, 15-17).

Peçamos a bênção de Deus sobre todos nós, como sinal de Sua presença protetora e vivificante. Numa das bênçãos mais antigas, onde o Senhor é invocado três vezes (Nm 6, 24-26), fica evidente que somente Ele poderá nos dar a verdadeira Paz: “O Senhor o abençoe e guarde! O Senhor lhe mostre seu rosto brilhante e tenha piedade de você! O Senhor lhe mostre seu rosto e lhe conceda a Paz!”

PerYaçu
Peregrina da Paz

Bananeiras-PB, 20 de março de 2022

Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve poesias, contos, crônicas e também cordel.

E-mail: veraperiassu@gmail.com

Deixe um comentário