
O combate efetivo ao medo cotidiano e à corrosão democrática exige responsabilizar diretamente o crime organizado, o Congresso e a elite financeira pela perpetuação estrutural da desigualdade e da violência.
Por Monica Stival* | A Terra é Redonda, 26 de setembro de 2026
1.
Congresso inimigo do povo. Taxação dos super-ricos. Hugo Nem se Importa. Tudo isso desapareceu neste ano de campanha e o povo ficou sem inimigo.
É verdade que há um inimigo que se apresenta nesses termos e que vem do exterior. Mas, isso não explica para as pessoas a realidade da desigualdade social, a experiência da desigualdade que é marcada no dia a dia pela percepção difusa de que há algo ou alguém contra nós. As dificuldades concretas do cotidiano são pioradas na medida em que as pessoas estão aterrorizadas pela violência, pelo crime, pelo roubo.
O esforço do trabalho traduzido em um consumo suado desaparece em um instante, como um celular no assalto veloz. Ou como o tempo de lazer arrancado pela impossibilidade de se deslocar na comunidade. Ou como a taxa extorquida por chantagem. E mil outras formas.
A segurança pública é o que marca mais claramente o que é o inimigo. Não adianta explicar as minúcias e astúcias envolvidas na designação do inimigo da vida cotidiana como terrorismo. Não faz sentido insistir que aquele inimigo externo, os EUA, usam o termo narcoterrorismo para legitimar a ingerência direta na organização social brasileira.
Principalmente para o segundo turno, se houver, é urgente afirmar: as facções são o inimigo número 1 do povo. Lula deveria, acredito, sustentar com convicção que a partir daqui as facções criminosas são o inimigo número 1 do Estado brasileiro. É preciso rebatizar o problema sem diluir a oposição que dá cara à violência.
Nem adianta valorizar a tática de estrangulamento financeiro, embora justa, quando a rotina é impactada pelo medo constante. Nem dizer que reconhece a legitimidade do terror que as pessoas sentem. É preciso anunciar quem é o outro e que estamos sim em guerra.
E o que isso tem a ver com o congresso inimigo do povo ou com os bilionários?
Tudo. Estes últimos precisam ser taxados inclusive para financiar a segurança pública. A grana lavada faz tanta falta quanto a grana que o Estado deixa de cobrar de quem vive com o suficiente para gerações inteiras de ócio improdutivo.
O congresso é o espaço institucional privilegiado para criar e evitar essas taxações. Também é responsável por fortalecer grupos que estão diretamente ligados a conflitos e crimes no campo, que é o análogo do terror da ocupação de territórios nas cidades. Assim, as leis do agro que passaram praticamente em branco no debate público há poucos meses permitem também o crime, não “apenas” ambiental. Mas, Hugo Nem se Importa. Davi Alcolumbre também não.
2.
E aqui estamos nós repactuados com o congresso inimigo do povo, como se o monstro que vem do exterior não estivesse confortável por contar com aliados diretos, os entreguistas bolsonaristas raiz, e com aliados indiretos (ou cínicos), confortavelmente instalados no congresso nacional.
Portanto, para que nossa pauta tenha concretude, é preciso recompor a cara do inimigo, recuperar a nossa unidade política. É preciso saber contra o que estamos lutando. Não apenas contra o “de fora”, mas quem são os inimigos caseiros. Porque sem estes, as facções aparecem como um desvio de sucesso que não conta com nenhuma ajuda de agentes institucionais ou, pior ainda, que ninguém nas instituições tem algo a ver com isso.
Se não há inimigo do povo nesses espaços, a questão é só incompetência. E se não damos conta sozinhos de parar o terror, que venha a ajuda de fora. Soberania: o que é isso, afinal? Diante da urgência do cotidiano, nada.
E esse outro do povo que se espalha e se dilui nas instituições e em espaços de poder, disfarçados sob a bandeira da unidade nacional, é fundamental para que o mostro externo possa abocanhar a vida nacional.
Virou até modinha hoje constatar que as democracias morrem por dentro, por meio das instituições. Já era evidente no golpe de 2016 e, antes disso, no que talvez tenha sido um caso experimental em tempos de capitalismo renovado, no Paraguai de Fernando Lugo, em 2012.
Essa história mostra que é fundamental prestar atenção às oposições internas, domésticas. Para um golpe que tenha sucesso do ponto de vista do imperialismo estadunidense, é preciso uma base institucional relevante no país absorvido. Só assim a aparência de soberania se mantém em todos os países escondidos sob o escudo das Américas. Estão aconchegados ideologicamente sob as asas da águia de rapina.
No Paraguai foi preciso o congresso inimigo do povo, no Brasil de 2016 foi preciso o congresso inimigo do povo. E hoje parece que Ninguém se Importa. Serão quase todos reeleitos.
Porém, foi e é preciso um pouco mais do que isso para dobrar os joelhos da sociedade brasileira. Uma parcela maior do que a habitual do judiciário, por exemplo. E uma produção contínua de ideologia, processo facilitado e organizado pelas redes digitais e demais aparatos tecnológicos.
3.
Essa constituição de um campo social próprio dos inimigos do povo organizou possibilidades de percepção e raciocínio que surpreendem a cada dia. Alguns chamam de fascismo, como Vladimir Safatle, mas não penso que o termo descreve o outro a partir do qual estamos construindo nosso “eu”, possivelmente chamado democracia.
Como alternativa à ameaça sem nome definido, muitos reafirmam a necessidade da frente ampla. A frente ampla é uma unidade defensiva que se estabelece como barreira de contenção diante da ameaça apresentada como outro, como inimigo (isto, exatamente na medida em que ameaça o modo de existência social coletivo e solidário que defendemos). Nessa linha, outros, como André Singer, amenizam a designação ressaltando nesse movimento de contracorrente um “viés fascista”.
No momento, para designar o outro em termos analíticos e próprios da teoria política, o que nem sempre é apropriado na disputa política eleitoral, tendo a concordar mais com a fórmula de Florestan Fernandes, que em 1971 apresentava aos gringos o fascismo na América Latina. Ele analisava então a “fascistização sem fascismo” que “fomenta a guerra civil a frio” e cabe muito bem na “normalidade constitucional”.
Parece que muito antes de Fernando Lugo já se percebia que a fascistização dispensa o fascismo; isto é, esse processo social não requer o fechamento da democracia, em si mesma para lá de restrita aqui e em toda a América Latina.
Onde está e quem é o inimigo do povo? Essa oposição a algo ou alguém que ameaça, que dá sentido à própria ideia de povo, precisa ser reafirmada a cada momento. Para isso, é preciso que o outro tenha uma cara. Mais do que isso, é fundamental que não seja a cada vez um vilão de ocasião. A violência que restringe a democracia e a vida concreta diária tem muitas camadas e se efetiva de diversas formas.
Mas seus personagens estão vinculados uns aos outros e não se pode pactuar com alguns sem legitimar os demais. É só assim que a fascistização pode se embrenhar na vida civil, disfarçada de solução para a insegurança real, e compor uma unidade difusa suficientemente forte para receber os inimigos do povo, domésticos e importados, de braços abertos.
Contra isso, é urgente assumirmos que temos inimigos internos. Os bilionários que lucram com a desigualdade, incluindo aí as bets, a maior parte do congresso, figuras destacadas da política institucional. E as facções. Não seria difícil mostrar em um powerpoint que os personagens concretos de todos esses espaços estão vinculados ao candidato. Não deixemos, portanto, de nomear todos os personagens que compõem a ameaça – às instituições da democracia e à vida cotidiana – como inimigos do povo.
*Monica Loyola Stival é professora de filosofia na UFSCar. Autora, entre outros livros, de Que sujeito somos nós? Poder, racionalidade (neo)liberal e democracia (Edufscar) [https://amzn.to/4tOB4gH]

