IA: Os contornos e sentidos da nova disputa

Imagem: StudioM1/ imaginima/ iStock

Como meia dúzia de empresas ocidentais está empilhando dinheiro, ao vender “soluções” que eliminam trabalho humano e produzem dependência. Por que é tolo esperar pelo estouro da bolha. Que propõe a China, como alternativa. Vale confiar?

Tal qual Vladimir e Estragon esperando Godot, parte dos analistas críticos das tecnologias pergunta-se diuturnamente quando a bolha da Inteligência Artificial (IA) vai estourar. Olham para os investimentos astronômicos que vêm sendo feitos, observam os modelos de negócio atuais, fatoram os crescentes custos energéticos e ambientais, e se lembram do que foi a bolha da Internet, lá no início dos anos 2000. Depois de um período de anos de vultosos investimentos de capital de risco em empresas novas e velhas — e de desavisados tentando surfar a onda, nutridos por altas expectativas de lucros –, tudo começou a vir abaixo em março de 2000, numa queda que só encontraria fundo em outubro de 2002, acumulando perdas de cerca de 78%.

A verdadeira recuperação das empresas pontocom só viria bem mais tarde, com o boom dos smartphones e das redes sociais, sobre as bases lançadas pela invenção e solidificação do capitalismo de vigilância como modelo de negócio. Nele, os dados dos usuários servem de insumo para operações de previsão e modificação de comportamentos, exploradas pelo marketing. Foram anos de crescimento e infiltração na vida cotidiana, presididos por empresas que priorizavam a expansão e o domínio de mercado sobre o lucro imediato, enquanto tateavam respostas para a construção do novo ciclo. Chegaram ao atual, que deu origem às Big Techs.

Com a IA, o roteiro se inverte: a alternativa lucrativa está sendo desenhada antes do eventual estouro da bolha, e não tateada anos depois dele. Uma estrutura inteira já se monta, altamente dependente dos absurdos e ainda incompreensíveis investimentos no desenvolvimento e na sustentação dos modelos fundacionais — o GPT da OpenAI, o Claude da Anthropic, o Gemini do Google e mesmo os chineses DeepSeek e Qwen, este da Alibaba. Não por acaso, são em boa parte as mesmas Big Techs nascidas do ciclo da vigilância que agora disputam a posse dessa nova camada, reinvestindo o poder ali acumulado para capturá-la. Nessa economia em formação, os tokens são a unidade básica de troca e os agentes de IA, os grandes consumidores. E assim como o petróleo foi a base energética do desenvolvimento industrial do século passado, os modelos fundacionais surgem como o insumo em torno do qual gravita um novo capitalismo, movido a agentes “inteligentes”.

Pensemos a indústria do software, hoje o caso mais visível. Empresas que antes vendiam o trabalho de seus programadores passam a operar exércitos de agentes que leem, escrevem e corrigem código de forma autônoma, cada tarefa queimando milhões de tokens comprados dos donos dos modelos. O ganho de produtividade é real, mas a dependência também: o custo dessa nova cadeia produtiva é, na prática, uma fatura de tokens que a empresa não controla, pois o preço é definido por quem detém o modelo fundacional. Se a tarifa sobe, se o acesso é cortado, se o modelo muda de comportamento, é o negócio inteiro que oscila. E o software é apenas o primeiro: a mesma lógica avança sobre o atendimento ao cliente, a análise jurídica, o diagnóstico médico, a pesquisa científica, qualquer setor onde a “inteligência” possa ser fatiada em tokens e terceirizada a um agente.

Vale entender a engrenagem. Um modelo fundacional é um sistema treinado, a um custo hoje na casa dos bilhões de dólares, sobre uma quantidade colossal de texto, código e imagens, num processo que exige data centers inteiros, energia e água em escala industrial, e chips avançados fabricados por pouquíssimas empresas no mundo. O resultado é um motor de propósito geral, capaz de responder, resumir, programar, traduzir. Mas esse motor não faz nada sozinho, ele apenas processa aquilo que recebe e devolve uma resposta, cobrando por unidade de texto processado (tokens).

É aí que entram os agentes. Um agente de IA é um programa que usa o modelo como “cérebro” para executar tarefas de forma autônoma. Quebra um objetivo em passos, consulta o modelo a cada passo, age (busca dados, escreve um arquivo, dispara um e-mail), avalia o resultado e consulta de novo. Cada uma dessas consultas gasta tokens. Quanto mais sofisticada a tarefa, mais idas e vindas, mais tokens queimados. O agente é, por assim dizer, o motor de combustão; o modelo fundacional, a refinaria; e o token, a gasolina que ela vende.

A economia do século XX foi altamente dependente do petróleo, e quem controlava esse recurso controlava também o ritmo do mundo industrializado. Em 1960, países produtores (não só árabes, mas também a Venezuela e o Irã, entre outros) se organizaram na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Em 1973, transformaram esse recurso em arma geopolítica, cortando o fluxo de energia barata para as economias industrializadas e provocando uma recessão mundial. Por décadas, as empresas mais valiosas do planeta foram as petrolíferas. Esse posto só mudou de mãos quando as big techs assumiram a liderança. Não por acaso, o novo recurso estratégico deixou de ser o que se extrai do solo e passou a ser o que se extrai de nós – os dados, e o que se constrói a partir deles, os modelos. Capazes de seguir coletando esses dados e aprimorando seus modelos, tudo indica que as corporações de IA verão a dependência a elas só se aprofundar. Quem tiver acesso facilitado aos modelos colherá os benefícios; quem erguer sua operação sobre os modelos alheios pode terminar com uma fatura de tokens impossível de pagar.

Construir alternativas, porém, é possível. A lição da OPEP talvez possa ser lida ao contrário. Não se trata de formar um cartel que fecha a torneira para extrair renda, mas de coordenar esforços soberanos para abrir o acesso e quebrar a dependência. O DeepSeek, que usou código aberto e alegou ter chegado perto da fronteira com muito menos capital, mostra que o caminho existe. Mas estamos assistindo apenas ao nascimento de um processo longo e complexo. Para de fato fazer frente às big techs, será preciso cooperar e coordenar em escala: compartilhar infraestruturas que, ao mesmo tempo, facilitem o acesso aos eventuais benefícios e minimizem os prejuízos, sobretudo os ambientais, de uma indústria que consome energia e água em escala brutal.

É nesse tabuleiro que entra a China. Desde 2018 o país realiza anualmente, em Shanghai, o World Artificial Intelligence Conference (WAIC). Para a edição de 2026, marcada para julho, prepara o lançamento de algo mais ambicioso: a WAICO, a World Artificial Intelligence Cooperation Organization, uma organização intergovernamental de cooperação em IA. A proposta foi apresentada em 2025 pelo primeiro-ministro Li Qiang, que defendeu uma governança conjunta da tecnologia e a formação de um marco global de regras com amplo consenso. O enquadramento é deliberado: a IA como “bem público internacional”, e a China disposta a compartilhar sua experiência e seus produtos tecnológicos para ajudar os países a fortalecer suas capacidades — com menção explícita e repetida ao Sul Global.

Enquanto os Estados Unidos atacam e enfraquecem o sistema ONU, a China faz referência a resoluções propostas pelo próprio país e já aceitas por unanimidade pelos Estados- membros. O comunicado sobre o evento de 2026, e sobre a nova organização, menciona explicitamente a resolução A/RES/78/311 da ONU, que aponta para a necessária conexão entre IA, desenvolvimento sustentável e soberania nacional. A retórica do documento é altamente não-intervencionista, com ênfase no respeito à “soberania de cada país ao direito a seu caminho próprio de desenvolvimento” com IA sendo tratada como um “bem público em vez de um monopólio de poucas firmas ou poderes”.

Nada disso dispensa a cautela. Uma organização proposta e localizada em Shanghai aponta também para um centro de poder específico. Porém, é um centro que se entende como parte do Sul Global e que vem construindo institucionalidades alternativas e mais horizontais como os Brics. Além disso, convém comparar as propostas que estão de fato sobre a mesa. De um lado, os Estados Unidos, que se retiram dos foros multilaterais, tratam a IA como instrumento de dominação e oferecem ao mundo a adesão a um stack proprietário cujas regras são escritas alhures. De outro, uma proposta que, ainda que tomada com suspeita pelos mais céticos, acena para a continuidade de um multilateralismo. Talvez imperfeito, mas revisado, mais atento às diferenças e à ideia de que os países podem crescer juntos em vez de uns às custas dos outros.

O que torna essa aposta interessante não é a boa vontade, mas o princípio que carrega. A China construiu sua própria ascensão apostando que a riqueza se produz distribuindo capacidade, e não concentrando-a. É essa lógica que, transposta para a IA, interessa ao Sul Global. Um recurso compartilhado em vez de cativo; uma base tecnológica comum, energeticamente mais racional do que a corrida de cada país erguendo seus próprios data centers redundantes; cooperação genuína no desenvolvimento em vez da compra perpétua de tokens a preço de senhorio. É o oposto exato da economia que descrevi no início deste texto, aquela em que poucas empresas destilam inteligência e cobram por gota. Esforços como o da WAICO podem não cumprir tudo o que prometem — mas apontam, ao menos, para a direção certa: a de que o petróleo do século XXI não precise ter donos. E essa direção, hoje, o Sul Global só terá se ajudar a construí-la, e não se esperar sentado que ela chegue pronta.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.

Deixe uma resposta