Arrependimento ou Remorso?…

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Arrependimento ou Remorso?…

“Ficai atentos!”

Lc 21, 36

O início do Ano Litúrgico da nossa Igreja, ao qual denominamos Advento, tempo de espera e preparação para a chegada de Jesus, é um período bastante favorável de renovação interior, cujas leituras propiciam meditações profundas a respeito de alguns assuntos muito significativos, dentre eles, a questão do “arrependimento” e do “remorso”. Estas situações de dor, sofrimento e até mesmo tristeza fazem parte da nossa condição humana; porém, a depender de suas causas, os efeitos serão completamente diferentes, gerando mais vida e renovação; ou morte e desolação. As consequências na vida dos dois apóstolos de Jesus – Simão Pedro e Judas Iscariotes– ilustram muito bem esta situação, pois “…a tristeza que vem de Deus produz arrependimento que leva para a salvação e que não volta atrás; a tristeza segundo este mundo produz a morte.” (2Cor 7, 10).

Resumidamente, poderemos dizer que o remorso é uma espécie de falso arrependimento que gera morte; enquanto o arrependimento verdadeiro ou genuíno gera a vida. Este (arrependimento) leva à reparação dos danos causados a algo ou a alguém, à regeneração do nosso próprio ser, ao recomeço em direção do bem, num movimento firme e constante na busca das virtudes favoráveis à vida. Já o remorso gera inquietação, abatimento da consciência que percebe ter cometido uma falta, uma desolação que paralisa, gerando o desânimo e a prostração.

A dinâmica do arrependimento gera movimento interior em favor da vida, implica na salvação da alma (Pedro se arrepende: Mt 26, 69-75); a inércia do remorso provoca uma estagnação que causa morte, favorecendo o remoer de coisas malignas que podem levar à depressão e até mesmo ao suicídio (Judas se enforca: Mt 27, 3-5). A atitude de Pedro parte da confiança (Fé) na misericórdia divina; o gesto de Judas provém de uma postura egoísta e desconfiada em relação a Deus. O arrependimento é, portanto, um ato de Fé verdadeira; o remorso, pura crença duvidosa.

Se formos esmiuçar as questões relativas ao arrependimento, a partir dos exemplos bíblicos, veremos que há vários tipos que têm muito mais a ver com remorso e, às vezes, nem isso! Cada traço de personalidade dessas figuras bíblicas pode refletir, ou não, um traço da nossa própria personalidade. Eis alguns exemplos de falsos arrependimentos:

  • Adão e Eva: após a desobediência a Deus, sentem um falso arrependimento (remorso) que gera medo e vergonha (Gn 3, 8);

  • A Serpente: natureza incapaz de sentir remorso, muito menos arrependimento, pois vive na base da mentira e enrolação (Gn 3, 4);

  • Caim: assemelha-se muito mais à própria Serpente, pois gera morte, dor, sofrimento e ainda fica na indiferença, fugindo e escondendo-se de Deus e dos outros irmãos (Gn 4, 9-10);

  • O Faraó: arrependimento de um pecador endurecido, que volta atrás na promessa que havia feito (Ex 9, 27-28);

  • Balaão: arrependimento de alguém inconstante que, reiteradamente, comete o mesmo delito (Nm 22, 32-34);

  • Saul: arrependimento de quem não é sincero, que engana aos outros, mas não a Deus (1Sm 15, 24-25);

  • Acã: arrependimento duvidoso de alguém muito ambicioso, egoísta e idólatra (Js 7, 20–21);

  • Judas Iscariotes: típico exemplo de alguém com remorso, chegando mesmo a se matar, uma vez que não confia na misericórdia divina (Mt 27, 3-5).

Felizmente, há também na Bíblia vários exemplos de arrependimentos verdadeiros, que geraram vida, alegria e santificação. Estes exemplos do passado também se refletem hoje em nossas ações e reações. Pela Graça de Deus, poderemos agir como alguns deles:

  • Simão Pedro: sincero e profundo arrependimento, gerando vida e salvação eterna (Mt 26, 69-75);

  • Davi: genuíno arrependimento, que leva o ser humano a louvar e glorificar a Deus por sua infinita misericórdia (Sl 51, 1-5);

  • Zaqueu: arrependimento verdadeiro, que gera vida e generosa reparação diante de todos os danos causados (Lc 19, 1-10);

  • O Filho Pródigo: sincero arrependimento de quem, realmente, cai em si de verdade e confia na misericórdia do Pai, fazendo uma legítima conversão à vida (Lc 15, 17-21);

  • São Paulo Apóstolo: arrependimento radical de quem chega a mudar o próprio nome, e até mesmo o rumo da história de sua vida (At 9, 3-19; 22, 6-16; 26, 12-18);

  • Santa Maria Madalena e demais Santos e Santas que se arrependeram verdadeiramente, mudando de vida e se deixando tocar pela Graça de Deus.

Após estas ilustrações, fica mais fácil distinguir entre o arrependimento e o remorso, a partir das características pertinentes a cada um deles:

Arrependimento: vem de Deus e gera: |  Remorso: vem do mundo e gera: 

1 – Vida (Salvação);                                       1 – Morte (Condenação);

2 – Esperança;                                                 2 – Abatimento;

3 – Confiança em Deus;                                 3 – Desconfiança da Misericórdia de Deus;

4 – Ânimo para mudar (MUDANÇA);           4 – Desânimo em prosseguir (INÉRCIA);

5 – Leva à Santificação;                                 5 – Leva ao Pecado;

6 – Cai em si para mudar;                              6 – Permanece no Egoísmo;

7 – Tristeza que gera vida;                             7 – Tristeza que gera Morte;

8 – Desejo de aproximação de Deus;           8 – Leva à separação de Deus;

9 – Choro com sinceridade;                           9 – Desespero de quem se sente arrasado;

10 – Tristeza transformada em alegria (ressignificação);    10 – Tristeza transformada em desespero;

11 – Mudança para melhor (movimento); 11 – Inércia, coisa estática, sem gerar mudança;

12 – Pensamento e sentimento fixados no Amor e na Misericórdia divina. 12- Pensamento e sentimento fixados no Castigo de Deus.

Quem se arrepende, de fato, reconhece o Amor de Deus e Nele confia, ergue a cabeça e segue em frente; quem sente apenas remorso julga Deus por si próprio, não confiando no perdão, justiça e misericórdia divinas. Neste caso, a pessoa é quem se condena a partir da sua própria crueldade e total desconfiança em relação ao Sagrado.

Que o Senhor da Vida nos livre sempre do remorso, dando-nos as condições necessárias para um verdadeiro arrependimento! Sigamos confiantes na Graça de Deus!

Pery-Açu

Peregrina da Esperança

Bananeiras-PB, 27 de novembro de 2022

Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.

E-mail: veraperiassu@gmail.com

 

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