Nascer do Alto

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NASCER DO ALTO

Não se espante se Eu digo
que é preciso vocês nascerem do alto

Jo 3, 7

Neste Tempo Pascal, tenho meditado a respeito do diálogo entre Jesus e Nicodemos, um dos chefes dos judeus, fariseu e bastante conhecedor das Sagradas Escrituras. Na verdade, antes de se tornar discípulo, era um grande admirador do Mestre e procurou encontrar-se com Ele na calada da noite, pois encontrava-se dominado pelo medo.

Desejei um lugar calmo, tranquilo e agradável para meditar a respeito desta conversa tão densa; mas a vida, com seus paradoxos, me oferece o lugar mais inspirador, profundo e luminoso: o Calvário! É isso mesmo. Por incrível que pareça, em meio a dor e o sofrimento dos irmãos, no calvário deles e com eles, me vem uma inspiração como Luz em meio a tantas trevas, a partir do questionamento de Nicodemos, que também se torna hoje o nosso: o que é “Nascer do alto”?… (Jo 3, 7).

Nesta Jornada a caminho da Luz, melhor dizendo, neste “Novo Nascimento”, há momentos significativos que vão se mesclando e que, algumas vezes, nos deixam confusos/as. Não é que haja uma sequência metódica e sistemática destes momentos, nem mesmo uma rota segura por onde caminhar; algumas vezes nossa peregrinação por este mundo se faz bastante assustadora, com situações muito difíceis que teremos que enfrentar mais cedo ou mais tarde. Nesta “gestação para o alto”, ou seja, neste Caminho transcendente para a Luz, inevitavelmente, teremos que passar por algumas etapas bem desafiadoras. Em nossa “gestação para a terra”, enfrentamos grandes desafios neste processo da Imanência. Imagine se não o enfrentaríamos no processo da Transcendência?!…

Um dos grandes desafios que precisam ser enfrentados é o MEDO. Temos medo do que não conhecemos. Não seria por isso que os filósofos consideram a ignorância como a grande treva? Há um grande Medo, rodeando de tantos outros: temos medo da fome, do sofrimento, da doença, da dor, da violência, da falsidade, do desemprego, do escuro, do raio, do trovão, até do sapinho, da cobra e dos lagartos…, mas e o Medo maior, qual seria?… O medo da Morte – todos diremos. No entanto, há um medo bem maior do que este: é o medo de nascer de novo, de crescer como Ser Humano, de nascer para o alto, subir ou transcender, tornando-se parte da grande Luz. É maravilhoso quando uma criança nasce e todos dizem que a mulher “deu à Luz”. A mãe não tem condições e poder de dar a luz a nenhum ser; mas tem a capacidade de oferecê-lo à grande Luz, de onde viemos e para onde voltaremos um dia.

O maior Medo, a meu ver, é o de nos tornarmos Seres Humanos de verdade, pois, para isto, teremos que vencer o pior e mais destruidor de todos os nossos inimigos: o Egoísmo. Quanto mais nos tornamos humanos, mais nos divinizamos, pois uma centelha da Divindade habita em nós, em nossa Essência ou Ser mais profundo. Cortar o cordão umbilical com a nossa mãe da terra pode ser relativamente fácil, ou não; entretanto, cortar o cordão umbilical com a própria Terra é difícil por causa do nosso grande apego, fruto do egoísmo. Isto não significaria um desprezo à mãe Terra, muito pelo contrário, pois dela precisamos zelar e cuidar com muito carinho, o que não seria apego necessariamente. Mas estamos tão “entranhados” aqui embaixo (Imanência), que nem nos permitimos olhar para o alto (Transcendência). Olhar para o alto – ou nascer para o alto – aí vem outro paradoxo: é olhar para dentro de si mesmo, procurar se enxergar com os olhos da alma e do coração e perceber-se humano, verdadeiro, justo, nobre, bom – um Ser de luz, vindo da grande Luz – para onde voltará um dia. “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5, 14), disse o Senhor Jesus, como disse também que “Quem age conforme a verdade se aproxima da luz, para que suas ações sejam vistas, porque são feitas como Deus quer” (Jo 3, 21).

O Egoísmo gera o grande Medo de nascer de novo, de nascer para o alto. Graças à mensagem do Mestre Jesus (Mc 12, 28-31), temos uma resposta ou antídoto contra este terrível Medo: o AMOR, palavra tão desgastada e banalizada em nossos tempos. O verdadeiro Amor – o FRATERNO AMOR – vem de Deus, e quem ama está em Deus, porque Deus é Amor. Esta via é sempre de mão dupla: “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo” (Mc 12, 28-31. Na verdade, o AMOR é o centro da vida!

Toda desarmonia começa quando se inverte o processo, dando-se ênfase ao egoísmo e querendo ser “o Tao”. Somente Deus – fonte da vida – é o Tao. Quando o ser humano, em sua autossuficiência e arrogância, quer ser mais do que Deus, e Dele se afasta, gera um vazio existencial muito grande, perde-se o sentido da vida e a desordem se instala: em si mesmo/a, na sociedade e no mundo como um todo. A Vida não é o caos, é o Cosmos; somos, inclusive, um Microcosmo dentro do Macrocosmo. No entanto, o mundo fica “de cabeça pra baixo” quando enxergamos somente a nós mesmos, a nós mesmas. Do egoísmo, surgem todas as mazelas – e isto nos impede de crescer, subir, nascer de novo. Pensar somente em si mesmo/a inverte a ordem natural das coisas e nos puxa cada vez mais para baixo, numa via egoísta de mão única: o eu inferior ocupa o lugar do Eu superior (ou “Self”); o eu individualista se esquece do Outro e, enfim, o eu autossuficiente toma o lugar do próprio Deus.

Percebe-se que, além do medo da própria morte corporal, há o grande e maior de todos os medos: o de “nascer de novo”, tornando-se gente, pessoa de verdade, Ser Humano autêntico e verdadeiro, uma vez que para isto ocorrer é imprescindível livrar-se do egoísmo. Todos os males provenientes desta forma de sobreviver (aparência) vão tentando embaçar e embaraçar o nosso verdadeiro conteúdo (essência), tal qual um corpo com suas roupas, capas e máscaras. Daí não nos surpreende esta sociedade do supérfluo, da inconsistência, da mediocridade, do vazio e da superficialidade.

A grande reviravolta ou revolução ocorrerá no nosso interior, dentro do nosso próprio coração, quando tomarmos consciência de que estamos neste mundo de passagem, de que não somos “donos” de nada nem de ninguém, nem mesmo da própria vida. Estamos numa grande peregrinação rumo à Luz Maior, porque também somos luz. Um ser de luz é um ser de Amor Fraterno, que olha para cada irmão ou cada irmã como sendo membros da sua própria família, a grande e mesma Família Universal. Não basta saber que Deus é meu Pai e que está em mim; é preciso internalizar que eu estou Nele, tal qual um peixinho dentro do mar, aprendendo a Amar e Servir em Seu Nome. Este nome divino pode até mudar de forma (ou significante): Javé, Jeová, Alá, Tupã etc.; mas o conteúdo (ou significado) permanece sempre o mesmo: AMOR, e “Onde reina o Amor, Fraterno Amor, Deus aí está!” Deus em mim, eu em Deus: Comunhão perfeita!

*Perfeita Comunhão:

Deus em mim… Eu em Deus!”

Questionado sobre as coisas inerentes a este mundo, Jesus nos disse que devemos “Dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mc 12, 17). Esta harmonia ou equilíbrio entre céu e terra, transcendência e imanência, matéria e espírito, humanidade e divindade ilumina este nosso Novo Nascimento. A fim de harmonizar estes dois planos, Jesus é enviado por Amor para nos ensinar a viver no Amor e nos dá um novo Mandamento: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 34). Os traços da própria cruz apresentam um ponto de intersecção entre o horizontal (Humanidade) e o vertical (Divindade), revelados na pessoa do próprio Jesus, que ao mesmo tempo que dizia ter “Vindo dos Céus”, se autodenominava o “Filho do Homem” – modelo perfeito da criação e Luz para todos os povos. Seu apelo a Nicodemos é o mesmo para todos nós ainda hoje: “Vós deveis nascer do alto” (Jo 3, 7), ou seja, nascer para o Amor que gera Vida Nova Nele porque, segundo Ele mesmo: “Vocês são a luz do mundo!” (Mt 5, 14). O Senhor da Vida, referindo-se ao Filho Amado, dizia ao profeta Isaías, e hoje a todos nós: “Faço de você uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da Terra” (Is 49, 6). O Amor é semente de Luz do Novo Nascimento e da Nova Vida!

Jesus: pontífice (ponte/intersecção) entre terra e céu.   

AMOR: centro do Ser Humano/Divino

Pery-Açu
Peregrina da Esperança”
“Irmã do Fraterno Amor”

Bananeiras-PB: 19 de abril de 2023

Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.

E-mail: veraperiassu@gmail.com

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