
Se você pretende votar em Flávio Bolsonaro, que promete escancarar o Brasil aos interesses dos EUA e gosta de beijar as mãos de Trump, como seu irmão Eduardo, convém conhecer um pouco de história.
Há uma velha doutrina estadunidense que, de tempos em tempos, muda de nome, de presidente e de discurso, mas conserva a convicção de que o continente americano seria, por direito histórico e força das armas, esfera privilegiada de Washington.
A primeira formulação clássica veio em 1823, quando o presidente James Monroe, com decisiva participação de seu secretário de Estado John Quincy Adams, apresentou ao Congresso a chamada Doutrina Monroe. Seu princípio, aparentemente defensivo, era de que as potências europeias não deveriam voltar a colonizar ou intervir nas Américas. Mas havia nisso uma manobra geopolítica evidente. Se a Europa ficava fora, quem ficava dentro? Washington. O próprio Departamento de Estado reconhece que a doutrina estabelecia duas esferas de influência — Europa e América — e posteriormente seria utilizada para justificar a expansão territorial e intervenções estadunidenses.
A fórmula tornou-se ainda mais explícita no final do século XIX. O senador Albert J. Beveridge, um dos grandes ideólogos do imperialismo, proclamou, em 1898, que os EUA tinham uma “missão” a cumprir e um “dever” perante o mundo. Para ele, a expansão não era simples ambição territorial, possuía uma espécie de mandato divino. Em seu célebre discurso The March of the Flag, Beveridge afirmou que Porto Rico seria dos EUA e defendeu a expansão estadunidense como destino nacional.
Outro personagem fundamental foi o almirante e historiador Alfred Thayer Mahan. Em The Influence of Sea Power upon History, de 1890, sustentou que a grandeza das potências dependia do domínio dos mares, das bases navais e das rotas comerciais. Suas ideias influenciaram diretamente políticos expansionistas como Beveridge, Henry Cabot Lodge e Theodore Roosevelt. O próprio Lodge, em 1895, proclamou no Senado que os EUA dominavam o hemisfério e tinham a obrigação de preservar e ampliar essa posição.
O resultado não ficou restrito aos discursos. Metade do México foi anexada. A experiência mexicana é talvez o exemplo mais eloquente da combinação entre ideologia expansionista e força militar.
A presidência de James K. Polk (1845-1849) esteve associada à expansão territorial e à ideia de Destino Manifesto. Em 1845, os EUA anexaram o Texas, que originalmente era do Império Espanhol, no século XVI, depois ficou independente, em 1821, e foi herdado pelo México. Em 1836 tornou-se independente de novo e quase dez anos depois foi anexado pelos EUA.
Em 1846 começou a guerra contra o México. O Tratado de Guadalupe Hidalgo, de 1848, transferiu aos EUA uma área que hoje corresponde à Califórnia, Nevada, Utah e partes de outros estados.
A justificativa ideológica era o Destino Manifesto, a crença de que a expansão dos EUA pelo continente constitui uma espécie de destino histórico. A expressão pode soar religiosa, patriótica e civilizatória. Na prática, significa guerra, conquista territorial e deslocamento de fronteiras.
Em 1898, estourou a guerra hispano-americana. O Tratado de Paris, assinado em 10 de dezembro daquele ano, determinou que a Espanha cedesse Porto Rico aos EUA, juntamente com Guam e as Filipinas. Porto Rico não se tornou um estado da grande nação do Norte. Tampouco continuou independente. Passou a integrar uma estrutura territorial subordinada a Washington.
Cuba, embora não tenha sido formalmente anexada, entrou igualmente na órbita estadunidense. O sistema estabelecido após a guerra permitiu a Washington exercer forte controle sobre a ilha. O historiador Leslie Bethell observa que a guerra de 1898 inaugurou um novo estágio da hegemonia dos EUA no Caribe, com Porto Rico anexado e Cuba transformada em protetorado de fato.
A partir daí, a Doutrina Monroe ganhou uma segunda vida. Se Monroe havia dito aos europeus “não entrem” no continente americano, Theodore Roosevelt acrescentou: “e nós decidimos o que acontece aqui”. Em 1904, o Corolário Roosevelt transformou a doutrina em justificativa para intervenções estadunidenses na América Latina. A partir de então, Washington passou a reivindicar um papel de polícia do hemisfério.
No século XX, o método sofreu modificações. Quando anexar territórios se tornou politicamente mais difícil, Washington recorreu a ocupações militares, governos aliados, pressão financeira, sanções e controle econômico. A chamada Diplomacia do Dólar, de William Howard Taft, foi uma dessas modalidades.
A América Latina descobriu que um país não precisa necessariamente colocar sua bandeira sobre uma praça para exercer poder. É o caso da Venezuela. Em 3 de janeiro de 2026, tropas estadunidenses sequestraram Nicolás Maduro e sua esposa e os internaram em uma prisão de Nova York. A operação foi apresentada pelo governo Trump como uma ação destinada a levá-lo à Justiça dos EUA; críticos questionam sua legalidade internacional.
Desde então, Washington amplia sua influência sobre a economia venezuelana. Em setembro de 2026, a Agência Reuters informou que o governo Trump buscava ampliar o acesso de empresas dos EUA não apenas ao petróleo, mas também ao ouro e a outros minerais venezuelanos. A reportagem descreveu a estratégia como parte de uma tentativa de aprofundar a influência econômica e estratégica da Casa Branca sobre o país.
O próprio Trump voltou a falar, em setembro, em uma política de reafirmação da “dominância” estadunidense no hemisfério, recuperando explicitamente a lógica da Doutrina Monroe e chegando a chamá-la de “Donroe Doctrine”.
A Venezuela não está sendo anexada aos EUA. Porém, passa a ser tutelada pela Casa Branca. Os acontecimentos recentes, como intervenção militar, mudança de governo, pressão sobre o petróleo e crescente interesse pelos recursos minerais, o comprovam.
A história latino-americana conhece bem esse filme: Primeiro, veio a doutrina. Em seguida, o Destino Manifesto. Logo, a guerra. Por fim, a bandeira. E quando a bandeira já não era conveniente, vieram o dólar, as bases militares, os tratados, as sanções e os governos sob pressão. México perdeu território. Porto Rico, a soberania. Cuba conheceu o protetorado. Panamá nasceu sob a sombra do Canal. Diversos países latino-americanos sofreram intervenções.
Agora, no século XXI, Washington parece ensaiar uma versão atualizada da velha doutrina. Não necessariamente anexar países, mas garantir que nenhum governo ou riquezas como petróleo e minerais possam escapar de sua esfera de influência no hemisfério.
A geografia continua a mesma. O que muda é o vocabulário. E justamente por isso é tão importante recordar a história.
Frei Betto é escritor, autor do romance “O Voo da Locomotiva” (Rocco), entre outros livros.
Fonte: Frei betto | Postado em
