A base psicossocial do antipetismo

A Terra é Redonda

A estigmatização midiática do PT e o medo da proletarização convertem setores médios em sócios simbólicos das elites e em base psicossocial do antipetismo.

Por Diogo Valença de Azevedo Costa* | A Terra é Redonda, 12 de outubro de 2026

1.

As condições histórico-concretas das ditaduras se transformam à medida que evoluem as formas de exploração capitalista em escala mundial. O nazifascismo clássico emerge numa situação de crise política entre as disputas interimperialistas das nações europeias: Alemanha e Itália procuravam se expandir e, para tanto, precisavam arregimentar forças sociais de massa para anular as classes trabalhadoras e sufocar qualquer oposição, mesmo a do liberalismo envergonhado.

Os Estados totalitários de extrema direita resultam da complacência dos setores liberais, que preferem as soluções autocráticas a ter de dividir o poder com as classes trabalhadoras e o conjunto das camadas populares.

Desde a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, a grande mídia corporativa fez o possível para estigmatizar a organização autônoma das classes trabalhadoras, valendo-se da cultura autoritária brasileira. Um trabalhador reivindicar um lugar ao sol sempre soou como uma afronta às elites das classes dominantes. Era preciso estigmatizá-lo a todo custo, atribuindo-lhe a pecha de suas próprias práticas.

A corrupção no Brasil é obra da direita: o capitalismo, como regime baseado na especulação e no enriquecimento privado, é, em sua essência, um sistema corrupto. Os grandes escândalos de corrupção da ditadura militar de 1964 sempre foram ocultados.

Um operário subir ao poder, à cadeira presidencial, seria uma afronta. Lula foi preso durante as greves do ABC Paulista, depois foi julgado junto com Chico Mendes e, por fim, encarcerado pela farsa da Operação Lava Jato. Se não há provas, elas podem ser falsificadas. As elites e as mídias corporativas sabem se servir e utilizar mecanismos psicossociais profundos: as classes médias e parcela dos setores populares se identificam com o estilo de vida das elites e sonham em um dia alcançar seu padrão social.

Atiçam o ódio de classe para estigmatizar o PT e sua figura central, justamente um operário que cometeu o disparate de se tornar Presidente da República. Está na lógica da situação que ajam assim, pois defendem seus próprios interesses como sócias do grande capital financeiro internacional e imperialista.

Na era atual de capital flexível e volátil, em que as novas condições técnicas da produção permitem desagregar as classes trabalhadoras, torna-se ainda mais fácil estimular, no conjunto da população, sentimentos de autonegação: as classes médias, que, na verdade, são parte da classe trabalhadora, se julgam indivíduos autônomos que ascenderam por mérito próprio.

Na verdade, muitos emergiram por conta das políticas públicas dos governos petistas, mas não o reconhecem, pois foram apanhados pelas ideologias ultraegoísticas da teologia da prosperidade. Revoltam-se contra o que chamam de assistencialismo e temem ser nivelados socialmente. Acreditam-se superiores e, como compensação simbólica de status, equiparam-se às elites das classes dominantes. Mas essas últimas as desprezam social e racialmente.

 

2.

Essa é a base psicossocial do antipetismo. A lavagem cerebral subliminar da mídia brasileira se incrustou em grande parte da população brasileira. O candidato Luís Inácio Lula da Silva, neste segundo turno das eleições presidenciais, enfrenta não apenas um candidato obscuro da extrema direita, antipatriótico, antinacionalista, antissocial e antidemocrático. Lula enfrenta todo o acúmulo do ódio histórico das elites das classes dominantes contra a luta dos trabalhadores.

O atual Presidente da República tem história: sofreu as consequências da sua opção política, tendo sido perseguido e preso por ter sido fiel à sua classe social de origem. Desafiou os poderosos e sofreu perdas pessoais dolorosas e irreparáveis. Aos 80 anos, continua firme e lutando. A alta burguesia é incapaz de compreender tal firmeza de propósito. Podemos até mesmo discordar de Lula, mas não podemos deixar de admirar sua grandeza histórica.

Quem é o projeto de ditador da extrema direita? Flávio Bolsonaro é filho da classe média invejosa. Toma como valores os símbolos de outra sociedade: a cultura de consumo dos Estados Unidos. A família Bolsonaro vive da política e não para a política. Trata-se de um negócio de família. Lula ainda mora no seu apartamento em São Bernardo. O assim chamado 01, numa alusão inconsciente aos irmãos metralhas, possui uma mansão milionária em Brasília, avaliada em R$ 6 milhões.

Ele não foge aos seus. Quando tinha 19 anos, foi funcionário fantasma da Câmara dos Deputados (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46828487). Em muitos setores das classes médias, o serviço público é visto como um privilégio, uma mamata. O apelo ao discurso religioso torna-se um meio de alcançar poder e riqueza. O fascismo emerge como um sentimento de ódio das classes médias que temem a proletarização. Esse estrato mais baixo da burguesia recorre, se preciso, à violência para agradar às elites das classes dominantes, inclusive barganhando com a soberania nacional.

A ditadura de 1964 rediviva poderá ter mais força, pois agora conta com uma massa reacionária disposta a qualquer coisa. Essa ditadura contará com estratos baixos da classe média dispostos a prestar serviço: os torturadores da ditadura militar eram os chamados “cidadãos de bem” e “homens honrados”, como se referiu o ex-vice-presidente, General Mourão, ao facínora Brilhante Ustra.

Um eventual segundo governo dinástico dos Bolsonaros poderá conduzir a uma ditadura miliciano-fascista, pró-imperialista e de regressão neocolonial. Se as classes trabalhadoras se organizarem, essa será a resposta do regime autocrático que poderá se instalar no Brasil. Temos a oportunidade histórica de impedir esse desfecho, votando em Lula no dia 25 de outubro. É dever de toda e todo brasileiro barrar o avanço do fascismo na sociedade brasileira!

*Diogo Valença de Azevedo Costa é professor de sociologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

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