Uma aproximação entre Mia Couto e a Paixão de Cristo

Por Gedeon de Oliveira*

“Não é de amor que careço. Sofro apenas da memória de ter amado. O que mais me dói, porém, é a condenação de um verbo sem futuro.” (Mia Couto)

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!” (Mt 16,21-27)

“Não é de amor que careço. Sofro apenas da memória de ter amado”, escreve Mia Couto, como quem descobre que certas experiências não terminam quando terminam: permanecem como memória, ausência e pergunta. Talvez seja justamente aí que a palavra de Jesus, em Mateus 16,21-27, encontre a existência humana: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Seguir Jesus não significa apagar aquilo que fomos, mas atravessar aquilo que nos constitui. A cruz pode ser compreendida como o lugar onde nossas perdas, escolhas, fracassos e esperanças deixam de ser apenas feridas e tornam-se caminho. Há amores que não possuem futuro, mas continuam interrogando o presente. E talvez seguir seja justamente aprender a caminhar com aquilo que não podemos mudar: como jesus, somos condenados a amar!

Há uma analogia muito fecunda entre a Paixão de Cristo e a literatura de Mia Couto, sobretudo se tomarmos como ponto de partida a ideia de que o amor não é apenas aquilo que recebemos, mas também aquilo que somos capazes de sustentar quando tudo parece perdido.

Na Paixão, Jesus experimenta o abandono, a violência, a incompreensão e a morte. O amor não aparece como sentimento triunfante, mas como fidelidade no limite. É justamente quando tudo lhe é retirado, poder, reconhecimento, segurança, até a própria vida, que sua existência se revela como entrega.

Em Mia Couto encontramos frequentemente personagens e mundos marcados pela ausência, pela perda, pela memória e pela necessidade de reconstruir sentidos. Seu universo literário parece perguntar: o que resta de nós quando aquilo que nos sustentava desaparece? E talvez a resposta seja semelhante àquela que podemos encontrar na Paixão: resta a capacidade de estabelecer uma relação com o outro, de não permitir que a violência tenha a última palavra sobre nossa humanidade.

“Não é de amor que careço”. Se tomarmos essa expressão como chave de leitura, podemos colocá-la diante da Paixão de uma maneira provocadora:

Cristo não sofre porque lhe faltou amor. Ele sofre justamente porque amou. Há uma inversão importante. A cruz não é simplesmente a história de alguém que procura amor e não o encontra. É a história daquele que ama mesmo quando o amor não é correspondido.

Pedro nega. Judas trai. Os discípulos fogem. A multidão oscila. As autoridades condenam. Os soldados violentam. E, mesmo assim, Cristo não transforma a experiência da rejeição em uma justificativa para deixar de amar. Aqui podemos aproximar Cristo de uma questão muito presente em Mia Couto: como continuar humano depois de atravessar aquilo que poderia nos desumanizar?

A Paixão responde existencialmente: não permitindo que o sofrimento determine completamente aquilo que somos. Na cruz, Cristo está radicalmente exposto ao outro. Ele não controla mais a situação, pois é por amor a nós que Ele assume a Cruz. É o outro que decide sobre seu corpo, sua vida e sua morte. A cruz é, nesse sentido, o lugar extremo da vulnerabilidade. E é justamente aí que aparece uma dimensão fundamental do amor cristão: amar o outro sem transformá-lo em objeto de posse.

Cristo, na Paixão, não responde à violência reproduzindo a violência. Ele interrompe o ciclo da vingança. Por isso, a cruz pode ser compreendida não apenas como sofrimento, mas como uma espécie de ruptura com a lógica da reciprocidade violenta: eu não preciso destruir aquele que me destrói para provar que existo.

E aqui aparece outra imagem muito bonita: a travessia. Mia Couto escreve frequentemente a partir de personagens que precisam atravessar perdas, guerras, deslocamentos, mortes e rupturas. Cristo também atravessa. Mas a Paixão não termina no sepulcro. A ressurreição modifica retrospectivamente o sentido da própria cruz: aquilo que parecia apenas fracasso torna-se passagem.  Há experiências que não podemos evitar, mas podemos transformar em passagem. A separação, a perda, o fracasso, a solidão e até a morte podem parecer o último degrau. Entretanto, a tradição cristã afirma que podem tornar-se também o lugar de uma transformação. Talvez seja por isso que a Paixão tenha tanta força humana: Cristo não passa pela dor de fora dela. Ele atravessa a dor. E atravessar não significa gostar do sofrimento, nem o romantizar. Significa não permitir que aquilo que nos aconteceu seja a única definição possível de quem somos. E talvez aqui esteja a aproximação mais bonita. Mia Couto parece frequentemente escrever sobre pessoas que precisam reinventar a vida depois que a vida já não pode ser a mesma. O Evangelho da Paixão diz algo semelhante: depois da cruz, Cristo não volta simplesmente a ser quem era antes.

A ressurreição não é um retorno ao passado. É uma existência transformada. E talvez seja justamente aí que Mia Couto e a Paixão de Cristo se encontram: não na ausência de amor, mas na transformação que acontece quando o amor atravessa a perda.

O amor que permanece depois da ruptura já não é necessariamente o amor da posse. Pode ser um amor que diz: “Você fez parte da minha história. Eu não preciso possuir você para reconhecer o que você significou em minha vida.” Essa talvez seja uma das formas mais difíceis, e mais maduras, de amar. Quem quer me seguir, tome seu amor e me siga, orienta Jesus.

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(*) Meu caminho — aliás, o caminho construído —, pois ninguém constrói um caminho sozinho, iniciou-se com a Teologia, na graduação e no mestrado, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Seguiu-se com a graduação em Filosofia, na UNISINOS; o mestrado em Filosofia, na UFPB; e, finalmente, o doutorado em Filosofia, na UFC. Meu tema é a alteridade. Desse modo, não me vejo sozinho: é o Outro, em sua distância infinita, que me torna carente e, ao mesmo tempo, me constitui. É o Outro que me constrói enquanto caminho, porque o caminho que percorro não é apenas meu; ele se faz no encontro, na distância e na presença daquele que, sendo Outro, também me possibilita existir.

Foto: ‘São Cristóvão Carregando o Menino Jesus’ (1500), de Hieronymus Bosch (Revista Cult 328)

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