Teorias do mais-valor

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Trecho da apresentação da obra póstuma de Karl Marx, recém-editada no Brasil.

Por Editores da Mega* | A Terra é Redonda, 12 de junho 2026

1.

Este livro contém o início das Teorias do mais-valor que ocupam metade (cadernos VI a XV) do extenso manuscrito intitulado Para a crítica da economia política, que Karl Marx redigiu entre agosto de 1861 e julho de 1863. Além desse texto, o manuscrito contém vários estudos e esboços dispersos, alguns deles bastante extensos, sobre a história e a crítica da economia política burguesa.

As Teorias do mais-valor ocupam um lugar importante na história do surgimento da doutrina econômica de Marx. Essa parte do manuscrito de 1861-1863 contém, de forma particularmente concentrada, descobertas teóricas e resultados das investigações científicas que caracterizam o período como uma nova etapa na elaboração da obra principal de Marx. Quando Marx começou a escrever as Teorias do mais-valor, ele já havia elaborado amplamente os fundamentos da teoria do valor e do mais-valor, e a origem do mais-valor em sua forma pura no processo de produção já havia sido esclarecida em termos teóricos.

No entanto, a consecução científica completa, a conclusão da teoria do valor e do mais-valor, ainda estava pendente; Marx tinha pela frente a tarefa de pesquisar e apresentar de maneira abrangente as formas concretas em que o mais-valor se manifesta na superfície da sociedade burguesa: lucro, juros e renda. Até então, havia apenas algumas teses iniciais, embora marcantes. Não foi por acaso que Marx analisou essas categorias pela primeira vez na parte histórica de sua obra. Os economistas burgueses, incluindo seus principais representantes, Smith e Ricardo, não conheciam o mais-valor em sua forma pura e original.

“Todos os economistas”, escreveu Marx na introdução das Teorias do mais-valor, “cometem o erro de não considerar o mais-valor puramente como tal, mas sob as formas particulares de lucro e de renda”. A análise e a crítica de Marx às visões burguesas sobre o mais-valor tiveram, portanto, de se entrelaçar com a análise e a crítica das teorias burguesas sobre o lucro, a renda e os juros. Era totalmente condizente com o método de trabalho de Marx que ele fosse além da crítica de concepções errôneas e insuficientes, elaborando sua própria visão teórica sobre o problema em questão e contrapondo-a às visões dos economistas burgueses.

As novas investigações intensivas, que se tornaram necessárias para questionar teses fundamentais, principalmente dos representantes da economia política burguesa clássica, levaram Marx, em suas Teorias do mais-valor, a uma série de resultados extremamente significativos, como a primeira elaboração teórica abrangente dos principais problemas da taxa média de lucro e do preço de produção, do valor de mercado, dos juros, da renda fundiária, em particular da renda absoluta, da reprodução do capital social total, da acumulação de capital, das crises econômicas e, finalmente, da discussão do problema do trabalho produtivo e improdutivo.

 

2.

Assim, as Teorias do mais-valor são, pela riqueza teórica, uma fonte de profundos conhecimentos científicos. Seu valor é ainda maior pelo fato de algumas questões, que em O capital são apresentadas de maneira sucinta e concisa, serem aqui tratadas de forma mais detalhada, embora ainda parcialmente rudimentar. Isso se aplica, por exemplo, à distinção entre trabalho produtivo e improdutivo, à inevitabilidade das crises no capitalismo, à teoria da renda, em particular a teoria da renda absoluta, ou à relação entre o valor individual e o valor de mercado das mercadorias. Aqui se observam o surgimento das ideias, a formação dos conhecimentos; Marx pondera detalhadamente os prós e os contras de seus argumentos, fundamentando os conhecimentos teóricos adquiridos com exemplos práticos e cálculos.

Além disso, o manuscrito das Teorias do mais-valor, com suas transformações e substituições de texto, mostra a luta de Marx pela melhor e mais adequada representação do que pesquisou e reconheceu. Muito disso não se encontra mais na obra finalizada. O resultado das investigações econômicas de Marx pode, portanto, ser compreendido mais a fundo quando considerado em conjunto com sua história de origem.

As Teorias do mais-valor documentam de modo particularmente claro e impressionante uma característica fundamental do método de Marx: o desenvolvimento de sua teoria econômica sempre esteve intimamente ligado à pesquisa e à apresentação da história das doutrinas econômicas. O desenvolvimento da economia política burguesa como ciência se reflete em todas as etapas da obra econômica de Marx. O aspecto histórico é parte inseparável de sua teoria econômica não como elemento contemplativo, mas como crítica, como contraposição frutífera. Já em 1844, Marx queria escrever uma “crítica da política e da economia política”. Todos os grandes manuscritos preparatórios dos anos 1850 e 1860, que precedem a obra principal de Marx e a preparam gradualmente, têm, com pequenas variações, o título Para a crítica da economia política.

 

3.

A primeira publicação parcial, datada de 1859, apareceu com essa designação. E a obra final, que Marx chamou de O capital, manteve o subtítulo Crítica da economia política. Para Marx, a crítica da economia política era sinônimo de crítica da sociedade burguesa, e a suplantação da teoria econômica vigente pelo desenvolvimento de sua própria teoria deveria culminar na constatação de que essa sociedade da exploração seria eliminada e substituída por uma nova sociedade, livre da exploração: a sociedade comunista.

O estudo intensivo da realidade capitalista, o conhecimento preciso e a crítica construtiva de todos os resultados da ciência econômica burguesa, em especial da economia política clássica, possibilitaram a Marx criar a economia política da classe trabalhadora e, com isso, fundamentar de maneira abrangente a missão histórica do proletariado. O próprio Marx apontou isso quando, criticando a abordagem de Lassalle de questões teóricas, escreveu a Engels: “É uma coisa completamente diferente resumir uma ciência por meio da crítica, a fim de apresentá-la dialeticamente, ou aplicar um sistema lógico abstrato e acabado a intuições de um sistema de tal tipo”.

O modo de abordagem histórico, característico de toda a teoria de Marx, foi aprofundado por seus estudos da economia burguesa científica, desde seus primórdios, com Petty, passando pelos fisiocratas, até seu ponto culminante, com Smith e Ricardo. Pois a história do desenvolvimento da economia política burguesa refletia, em suas linhas gerais, a história do desenvolvimento da sociedade capitalista, cuja lei de movimento Marx se propôs a investigar. “Como na história”, escreveu Friedrich Engels, “e em seu reflexo literário, o desenvolvimento no todo e em geral também passa, em cada caso, pelas experiências mais concisas, o desenvolvimento histórico-literário da economia política forneceu um guia natural ao qual a crítica pôde se ligar, e, no todo e em geral, as categorias econômicas apareceriam na mesma ordem em que aparecem no desenvolvimento histórico”, no qual “o desenvolvimento real é seguido”.

Mas também são muito importantes as afirmações diretas de Marx sobre o método da economia política nas Teorias do mais-valor. Ele iniciou a crítica à teoria de Ricardo com a análise do método utilizado por ele e por Adam Smith. Explicou que Ricardo partiu da determinação da grandeza de valor das mercadorias pelo tempo de trabalho e, em seguida, examinou se as demais relações e categorias econômicas contradiziam ou modificavam essa determinação do valor. “À primeira vista”, escreveu Marx, “veem-se tanto a justificativa histórica desse tipo de procedimento – sua necessidade científica na história da economia – quanto sua insuficiência científica, uma insuficiência que não apenas se mostra no tipo de representação (formal), mas também conduz a resultados errôneos, pois ignora os meios necessários e tenta provar de forma direta a congruência das categorias econômicas entre si”.

Marx explicou que o método de Ricardo resultou “também na arquitetônica extraordinariamente peculiar e necessariamente invertida de sua obra”, na qual os dois primeiros capítulos já esgotam toda a teoria de Ricardo, enquanto os trinta restantes oferecem apenas explicações, aditamentos e detalhes. Somente após a análise do método de Ricardo Marx passou a investigar categorias específicas do sistema de Ricardo, ressaltando repetidamente que algumas deficiências da teoria deste devem ser buscadas nas deficiências de seu método.

 

4.

A crítica fundamental ao método da economia política burguesa clássica nas Teorias do mais-valorlevou, sem dúvida, ao aperfeiçoamento do método de Marx, assim como a crítica à “arquitetônica invertida” da obra principal de Ricardo contribuiu para aperfeiçoar a estrutura de sua própria obra, O capital.

Marx começou a escrever as Teorias do mais-valor no item 5 do manuscrito econômico de 1861-1863 com a intenção de adicioná-las como um excurso histórico às seções teóricas sobre a produção do mais-valor e, assim, concluí-las. Do mesmo modo, ele já havia começado em 1859 sua obra Para a crítica da economia política e acrescentou aos dois capítulos, sobre a mercadoria e o dinheiro, um total de três estudos sobre a história da teoria. No decurso do trabalho, o manuscrito das Teorias do mais-valor assumiu uma extensão extraordinária. O leque de problemas investigados por Marx ampliou-se visivelmente. Na contraposição aos economistas burgueses, Marx só pôde referir-se em casos isolados a partes teóricas já elaboradas de sua obra; para a seção “O processo de produção do capital”, havia apenas um esboço (cadernos I a V), e para as seções “O processo de circulação do capital” e “A unidade dos dois, ou capital e lucro, juros”, havia apenas alguns esboços preliminares no manuscrito de 1857-1858.

Por isso, ao redigir as Teorias do mais-valor, foi preciso esclarecer e responder positivamente às questões teóricas à medida que elas surgiam no decorrer de suas investigações sobre a história das teorias. Na maioria dos casos, isso foi feito com grande detalhamento. Durante o trabalho sobre essas questões teóricas, em contraposição à economia política burguesa, a unidade entre o universal e o particular foi fundamentada na análise do capital, em especial no que concerne à teoria do valor e do mais-valor. Esse processo de investigação, por meio do qual Marx adquiriu clareza crescente sobre a concepção de “capital”, também contribuiu consideravelmente para a elaboração das Teorias do mais-valor. Não apenas em termos de extensão, mas principalmente em termos de conteúdo, pela diversidade de temas, questões e categorias abordados, essa parte do manuscrito foi muito além de sua finalidade original.

Em janeiro de 1863, Marx ainda pretendia distribuir o material histórico-crítico pelas seções teóricas – em parte já escritas e, em parte planejadas – de sua investigação sobre “O capital em geral”. Isso fica claro nos esboços preliminares para a primeira e a terceira partes de sua obra. No entanto, tornou-se cada vez mais evidente, sobretudo nos esboços mencionados, a importância dessa divisão em três partes para toda a obra teórica, que Marx originalmente tinha previsto para um único capítulo, a saber: 1. “O processo de produção do capital”; 2. “O processo de circulação do capital”; 3. “A unidade dos dois, ou capital e lucro, juros”. Essa composição se mostrou tão decisiva que, gradualmente, as ideias básicas de outros temas que, segundo o plano original, deveriam constituir seções de todo autônomas, como concorrência, crédito e propriedade fundiária, foram incluídas nela. Enquanto as três partes teóricas do processo de trabalho de Marx assumiam uma forma cada vez mais clara e abrangiam aos poucos os problemas teóricos mais importantes da economia política marxiana, Marx desenvolveu a ideia de que as Teorias do mais-valor deveriam constituir uma parte independente e concluir a obra completa como seu quarto livro.

 

5.

Essa ideia tornou-se um projeto quando Marx, dois anos mais tarde, elaborou e ampliou o material existente em um novo manuscrito econômico e passou a ter diante de si o esboço das três partes teóricas de O capital. Isso é confirmado por uma carta a Engels, datada dessa época e na qual é mencionado pela primeira vez um quarto livro de O capital. Nela se lê: “Ainda faltam escrever três capítulos para concluir a parte teórica (os três primeiros livros). Depois, resta escrever o quarto livro, o histórico-literário, que para mim é relativamente mais fácil, uma vez que todas as questões foram resolvidas nos três primeiros livros; o último é, portanto, mais uma repetição em forma histórica”. Quando o primeiro volume de O capital foi publicado no outono de 1867, Marx também comunicou publicamente sua intenção. No fim do prefácio, lê-se: “O segundo volume deste escrito tratará do processo de circulação do capital (Livro II) e das configurações do processo global (Livro III); o terceiro (Livro IV), da história da teoria”. Como é sabido, nem Marx nem Engels chegaram a concretizar tal intenção, expressa em várias ocasiões, de publicar o quarto livro de O capital. As Teorias do mais-valor foram publicadas pela primeira vez por Karl Kautsky.

Na história de edição e pesquisa das Teorias do mais-valor, que durou décadas, a questão de saber se esse manuscrito representa ou não o quarto volume de O capital desempenhou um papel considerável. Ela só pode ser respondida de maneira adequada se todos os fatores importantes forem levados em consideração.

Entre eles estão a história do surgimento do manuscrito, as intenções que Marx e Engels nutriam em relação a ele após a conclusão e a publicação dos três volumes teóricos de O capital – intenções que eles expressaram abertamente em várias ocasiões – e, sem dúvida, o conteúdo do próprio manuscrito.

Daí resulta que, durante todo o tempo em que Marx trabalhou nas Teorias do mais-valor, ele tinha a intenção de distribuir o material pelas passagens teóricas correspondentes. A ideia de um quarto volume não existia naquela época, assim como a estrutura da obra teórica completa em três partes ainda se via longe de estar totalmente elaborada. Objetivamente, porém, a estrutura desse manuscrito mostra que Marx, ao escrevê-lo, traçou o curso histórico da economia política burguesa, um curso que nem sempre foi linear, mas que era consequente em sua tendência principal. Ele delineou seus primórdios, sua fase de ascensão como ciência, seu apogeu, alcançado com Ricardo, e sua fase de declínio, que desemboca na economia vulgar e na apologética.

Assim, tornou-se o rascunho do quarto volume de O capital, que deveria abranger toda a história da economia política, focando em mostrar “de que forma esses economistas criticam, em parte a si mesmos, em parte as formas historicamente decisivas nas quais as leis da economia política foram enunciadas pela primeira vez e desenvolvidas posteriormente”. Desde 1865, Marx considerava as Teorias do mais-valor o quarto volume de O capital, embora ainda “na forma bruta”, que “possui toda pesquisa original”. Dois anos após a morte de Marx, Engels publicou o Livro II de O capital. No prefácio deste, Engels informou que estava preparando o Livro III para impressão e que pretendia publicar as Teorias do mais-valor como Livro IV. Portanto, não há motivo para questionar as intenções de Marx e Engels, especialmente porque o conteúdo das Teorias do mais-valor as confirma plenamente. Na Marx-Engels-Gesamtausgabe, as Teorias do mais-valor aparecem na forma e no lugar em que foram deixadas por Marx: como parte do manuscrito econômico de 1861-1863, Zur Kritik der politischen Ôkonomie.

A amplitude das Teorias do mais-valor, contudo, torna necessária sua divisão em vários livros. Marx não faz nenhuma referência direta a isso. No entanto, apresenta-se uma divisão em três partes, justificada pelo conteúdo. Marx buscou principalmente acompanhar até que ponto os economistas burgueses haviam avançado na solução do problema do mais-valor. Ao tratar dos problemas, era inevitável voltar aos economistas já mencionados; por sua vez, ao tratar de economistas específicos, voltar-se a abordar problemas que já haviam sido discutidos em outro contexto. Sob esse ponto de vista restritivo, a divisão em três partes apresenta as seguintes linhas principais:

Na primeira parte das Teorias do mais-valor, Marx aborda o período de ascensão da economia política burguesa até seu apogeu. A atenção é voltada para o economista mais importante do período manufatureiro, Adam Smith. Os problemas teóricos agrupam-se em torno da troca entre capital e trabalho com base na lei do valor. A segunda parte é dedicada ao apogeu da economia política clássica burguesa, à teoria de Ricardo. O principal problema teórico é a conclusão da teoria do valor e do mais-valor, a investigação das formas concretas e derivadas em que o mais-valor aparece na sociedade capitalista. Na terceira parte, são analisados o declínio da economia burguesa, seu fim como economia política científica e sua necessária transformação em economia vulgar.

*Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA) é a coleção dos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels. Trata-se de uma edição histórico-crítica que visa publicar todas as suas obras escritas em seus idiomas originais, incluindo manuscritos, cartas e cadernos.

Referência

Karl Marx. Teorias do mais-valor. Volume I. Tradução: Ronaldo Vielmi Fortes. São Paulo, Boitempo, 2025 396 págs. [https://amzn.to/4w5sZVN]

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