
Qual invenção foi mais importante: o preservativo ou o avião? O gênio que patenteia o “novo” tem mais valor que a engenharia da manutenção? Livro polemiza: o futuro não é a eliminação do velho; e o compartilhamento e a imitação superam o “isolamento criativo”.
Por La Storia e le Idee | Tradução: Lucas Scatolini | OutrasPalavras – Tecnologia em Disputa | Publicado 25/09/2026 às 16:28
Há livros que não convencem completamente, mas que é preciso ler porque fazem refletir.
Este é o caso de The Shock Of The Old, o ensaio publicado em 2011 pelo historiador britânico de ciência e tecnologia David Edgerton.
O objetivo de Edgerton é desmontar o mito que associa a tecnologia apenas ao futuro e à novidade. A narrativa canônica de sua história, aquela que a reduz a uma sequência de triunfos e datas icônicas — o voo dos Wright em 1903, a energia nuclear em 1945, a internet em 1965 — é uma espécie de “conto de fadas para crianças”.
No mundo real, porém, as tecnologias que consideramos velhas — carvão, trens, papel, cimento — não apenas persistiram, como também cresceram em termos absolutos ao longo do século XX mais do que jamais haviam crescido antes.
A modernidade não é, portanto, a superação do velho, mas o novo que se acumula sobre estruturas que têm décadas, quando não séculos, de existência.
O preservativo e a bomba atômica
Para compreender o peso da tecnologia na história, precisamos parar de olhar exclusivamente para o alto, para os céus cortados pelos jatos, ou para o futuro, para as promessas da inteligência artificial. Precisamos aprender a olhar para onde a vida realmente acontece. Para isso, David Edgerton nos lança uma provocação: o preservativo é historicamente mais significativo do que o avião?
Se medirmos a relevância em termos de visibilidade cultural, o jato vence com folga: é espetacular, está presente nos noticiários, encarna o progresso. Mas, se o critério de avaliação passa a ser o impacto real sobre a vida humana, a demografia, a estrutura das famílias e a saúde global, o modesto preservativo salta para o primeiro plano. O problema é que nossa hierarquia da importância é distorcida por um preconceito neófilo que confunde a invenção com o uso real.
Essa distorção também é alimentada pelos modelos econômicos dominantes, que canonizaram a ideia das “General-Purpose Technologies” (GPT): vapor, eletricidade e hoje a informática (ICT). Esses esquemas sugerem que poucas tecnologias-chave conduzem épocas inteiras, assumindo implicitamente que não existiam alternativas válidas ao seu domínio. E, no entanto, poderíamos perguntar: por que não incluir o torno ou a química sintética entre essas tecnologias universais? A verdade é que o conceito de “significância” é frequentemente uma construção cultural baseada no prestígio, não na produtividade mensurável.
Para sair desse beco sem saída, devemos recorrer ao conceito econômico de contrafactual: o que teria acontecido se determinada tecnologia não tivesse existido? O historiador Robert Fogel aplicou esse método às ferrovias americanas do século XIX, demonstrando que, em comparação com uma alternativa baseada em canais e carroças puxadas por cavalos, as ferrovias aumentaram o PIB dos Estados Unidos em 1890 em menos de 5%. Em outras palavras, sem trens, os Estados Unidos teriam alcançado o mesmo nível de desenvolvimento apenas com alguns anos de atraso. Isso nos ensina que a importância de uma tecnologia não reside em sua onipresença, mas na margem de vantagem em relação à melhor alternativa, frequentemente uma tecnologia “de reserva” que permanece invisível até se tornar necessária ou mais conveniente.
Essa miopia torna-se trágica quando se analisa a irracionalidade militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sir Arthur “Butcher” Harris sustentou que os bombardeios em massa sobre as cidades alemãs eram o melhor meio de vencer, mas o posterior Strategic Bombing Survey revelou que tais ataques tiveram um impacto insignificante sobre a produção bélica inimiga em comparação com os bombardeios de precisão contra os transportes e as refinarias.
Ainda mais impressionante é o caso da bomba atômica. O programa atômico americano custou cerca de 2 bilhões de dólares da época, uma quantia que, se convertida em armas convencionais (tanques ou artilharia), talvez tivesse encurtado a guerra de maneira mais eficaz e poupado vidas humanas. A ideia de que a bomba tenha “salvado um milhão de soldados” é um mito do pós-guerra construído para justificar um gasto imenso com uma arma que, em termos de danos reais por dólar gasto, não era superior a um grande ataque convencional. Até mesmo o foguete alemão V-2, celebrado como prodígio tecnológico, foi um fracasso racional: custou mais vidas humanas em sua produção (pelo menos 10.000 trabalhadores escravizados) do que destruiu em seu emprego bélico (cerca de 5.000).
Para justificar investimentos estatais tão antieconômicos, recorreu-se frequentemente à narrativa do “spin-off”, a ideia de que as grandes aventuras tecnológicas produzem benefícios civis imprevistos. O caso mais emblemático é o do Teflon: associado no imaginário coletivo à NASA, foi na realidade inventado pela DuPont em 1938, muito antes da corrida espacial. Projetos guiados pela ideologia do progresso, como o avião supersônico Concorde ou os reatores nucleares britânicos Magnox e AGR, revelaram-se fracassos comerciais colossais, sustentados por Estados que preferiram o prestígio à racionalidade econômica.
Por fim, devemos reconhecer a força das “pequenas” tecnologias, capazes de produzir efeitos gigantescos e frequentemente trágicos. Vimos o triunfo do DDT e da cloroquina contra a malária, mas a confiança cega nesses “milagres” levou a negligenciar os sistemas de vigilância, favorecendo resistências que hoje nos obrigam a recuperar o “velho arsenal” de redes e drenagens. E, enquanto tememos as grandes epidemias, ignoramos que, no Sul global, o principal assassino tecnológico é o veículo motorizado: no Quênia, os acidentes rodoviários são a terceira causa de morte, superando muitas doenças históricas.
Avaliar a tecnologia significa, portanto, despojá-la da aura de novidade e observá-la em sua capacidade crua de alterar a vida e a morte, lembrando que, muitas vezes, o impacto real não viaja em foguetes para a Lua, mas se esconde nas dobras do cotidiano.
Cavalos e Fuscas
Se levantássemos os olhos para o céu do Egito dos anos 1920, poderíamos avistar um avião da Imperial Airways sobrevoando uma lenta caravana de camelos no deserto. Se hoje baixarmos os olhos para as costas de Bangladesh, veremos milhares de trabalhadores desmontando com as próprias mãos gigantescos colossos de aço oceânicos nas praias de Chittagong. Essas imagens não são acidentes da história, mas sua norma: o tempo tecnológico não é uma marcha triunfal rumo ao futuro, mas um emaranhado heterogêneo no qual o “velho” não apenas sobrevive, mas frequentemente prospera.
Fomos educados pelos museus de ciência para uma visão distorcida.
Nas galerias de Londres ou Paris, as linhas do tempo no chão celebram as “primeiras vezes”: o primeiro motor a vapor, o primeiro computador. No entanto, durante décadas, os visitantes do London Science Museum passaram ao lado de um enorme motor a vapor marítimo que todos confundiam com uma peça da Revolução Industrial; acontece que ele havia sido construído em 1928 para um barco pesqueiro e permanecera em uso por quase meio século. Os museus celebram o nascimento das máquinas, mas escondem sua longuíssima e obstinada vida real.
O mito do progresso cronológico nos leva a acreditar que uma tecnologia se difunde porque é “nova”. A realidade é mais venal: a difusão de uma invenção não depende do tempo, mas da renda. Se os europeus tiveram televisão ou máquina de lavar décadas depois dos americanos, não foi porque fossem “mentalmente atrasados”, mas simplesmente porque eram mais pobres; uma vez alcançado o mesmo nível de riqueza, adotaram as mesmas máquinas. A tecnologia é quase sempre uma função da carteira, não do calendário.
Tomemos o símbolo por excelência do atraso: o cavalo. Se tivéssemos de datar a era da tração animal com base em seu uso máximo, deveríamos situá-la no século XX, não na Idade Média. A metrópole de 1900 era uma cidade dominada pelos cavalos mais do que jamais havia sido antes, pois o desenvolvimento econômico e a urbanização exigiam milhares de carruagens e bondes para ligar as estações ferroviárias às casas. Nas zonas rurais americanas, o pico de cavalos e mulas foi alcançado em 1915, com 21 milhões de animais, justamente enquanto as fábricas de Detroit já produziam automóveis em ritmo acelerado.
Essa dependência do músculo e do feno ficou evidente durante os grandes conflitos mundiais. A Segunda Guerra Mundial é frequentemente retratada como uma guerra de tanques e aviões, mas foi, em termos numéricos, a maior guerra de cavalos da história. O exército alemão que invadiu a URSS em 1941 dispunha de muito mais cavalos do que Napoleão em 1812. Cada divisão de infantaria da Wehrmacht necessitava de cerca de 5.000 animais para se movimentar; sem eles, a “guerra-relâmpago” teria sido um lento atolamento na lama. E, quando o sistema entra em colapso, o velho retorna com força: na Cuba pós-soviética dos anos 1990, a falta de peças de reposição e combustível levou o governo a substituir 40.000 tratores por parelhas de bois, reconstruindo do zero toda uma infraestrutura técnica para a criação de animais de tração.
Também a indústria “moderna” está cheia de fantasmas operacionais. No Lancashire britânico, coração da revolução do algodão, as máquinas de fiação conhecidas como “mule”, inventadas no século XIX, permaneceram em funcionamento até o fim dos anos 1950. Enquanto o resto do mundo adotava anéis de fiação mais modernos, os proprietários ingleses preferiram não investir, espremendo as velhas máquinas até que o Estado teve de intervir, em 1959, com campanhas de sucateamento para destruir fisicamente milhões de fusos que tinham setenta ou oitenta anos de vida.
Hoje, essa persistência manifesta-se no que poderíamos chamar de “tecnologia da pobreza” das megalópoles do Sul global. As favelas de Lagos ou Mumbai não são feitas de materiais tradicionais, mas de materiais banais e revolucionários em sua simplicidade: a chapa metálica ondulada (os “tin roofs”) e o fibrocimento (o Eternit). Esses materiais permitiram uma urbanização planetária rapidíssima e espontânea, fora dos padrões da modernidade de Le Corbusier, criando um mundo de “cidades de metal” onde a reciclagem é a norma.
É aqui que nascem as “tecnologias crioulas”: invenções ocidentais que, uma vez mortas ou obsoletas em sua pátria, migram e renascem em outros lugares com uma vitalidade inesperada. Pensemos na motocicleta Royal Enfield Bullet: um modelo de 1955 que continua a ser produzido na Índia ainda hoje, quase idêntico a si mesmo. Ou no automóvel Hindustan Ambassador, baseado no Morris Oxford dos anos 1950, que dominou as estradas indianas durante meio século. Até mesmo o icônico Fusca Volkswagen continuou saindo das linhas de montagem no México até 2003, muito tempo depois de ter se tornado um objeto de coleção na Europa.
Os Bits e o Cimento
A narrativa dominante, frequentemente alimentada pelos gurus da “nova economia” nos anos 1990, descreve-nos um mundo que estaria progressivamente se “desmaterializando” graças à informática e aos serviços. No entanto, os dados contam uma história obstinadamente diferente: a modernidade não abandonou o ferro e o cimento em favor dos bits – acessórios de encaixe utilizados em parafusadeiras e furadeiras para apertar ou soltar parafusos, aplicados instalação de drywall, estruturas metálicas, fixação de telhados e montagem de móveis de canteiro de obras – mas simplesmente aprendeu a consumir quantidades sem precedentes deles, escondendo a produção real sob um véu de retórica futurista.
O século XX foi, materialmente falando, o século do aço, do cimento, do papel e do carvão. A produção mundial de aço, por exemplo, triplicou entre 1950 e 1970. Aquilo que hoje chamamos de economia de serviços é, na realidade, sustentado por uma velha economia de matérias-primas pesadas, cujo volume está em constante aumento: a tonelagem da frota mercante mundial passou de 85 milhões de toneladas em 1950 para nada menos que 553 milhões em 2000.
A produção do século XX não se limitou aos metais, mas aplicou a lógica da linha de montagem até mesmo à biologia. O exemplo mais brutal é a industrialização da criação de aves. A partir dos anos 1930, o frango foi transformado em um objeto industrial: a integração de vitamina D à dieta (para permitir a vida em ambientes fechados), a iluminação elétrica constante e o uso maciço de antibióticos como promotores de crescimento reduziram pela metade o tempo necessário para levar um exemplar à maturidade. No fim do século XX, o número de frangos abatidos para consumo de carne a cada ano passou de 6 bilhões (em 1960) para 45 bilhões. É uma “produção em massa” biológica que derrubou os preços da carne muito mais rapidamente do que ocorreu em setores menos automatizáveis, como o bovino.
Estamos acostumados a pensar na produção moderna como uma linha de montagem infinita que produz produtos idênticos (o modelo fordista). No entanto, a realidade industrial sempre foi mais fragmentada. Ainda em 1969, nos Estados Unidos, nada menos que 75% da produção industrial era realizada em lotes (batch production), e não em linhas de montagem contínuas.
Um dos maiores erros da história econômica também foi ignorar o papel do reprodução familiar como unidade produtiva. Embora o trabalho doméstico não apareça nos cálculos do PIB porque não é remunerado, estudos baseados no uso do tempo indicam que ele representa uma parcela variável entre 30% e mais de 100% do PIB convencionalmente medido.
A introdução de tecnologias como a máquina de lavar, o aspirador de pó ou o fogão a gás não presenteou as donas de casa com “tempo livre”, como prometia a publicidade, mas transformou seu papel de “supervisoras de empregados domésticos” em “operadoras de máquinas”. A produtividade do trabalho doméstico aumentou vertiginosamente, levando não a menos esforço, mas a uma produção interna mais intensa: roupas mais limpas, refeições mais complexas e padrões de higiene mais elevados. Nesse sentido, a casa moderna foi um dos locais industriais mais significativos do século, equipada com “bens duráveis” que são, para todos os efeitos, instrumentos de produção em massa.
Em conclusão, a produção global ainda é um processo físico alimentado por materiais pesados e transportado por navios carregados de contêineres (uma “banal” inovação dos anos 1950 que transformou o comércio mundial). Os maiores empregadores de nosso tempo, como o Walmart, não são empresas de software, mas administradores de imensas cadeias de distribuição de objetos materiais produzidos em massa, frequentemente em nações que basearam seu crescimento na imitação de técnicas “velhas”, em vez da constante invenção do novo.
Jogar fora ou reparar?
Se a história da tecnologia fosse um drama teatral, nossa cultura atribuiria o papel de protagonista absoluto ao inovador, o gênio que patenteia o “novo”, deixando na sombra, nos bastidores, uma multidão incontável de figurantes: os profissionais da manutenção. E, no entanto, é somente através do universo da manutenção e do reparo que o mundo material continua funcionando.
Existe uma profunda desvalorização cultural da manutenção em favor da inovação. A inovação está associada ao otimismo, ao futuro e à criatividade; a manutenção é percebida como uma atividade banal, repetitiva e, em certos aspectos, irritante. Essa distorção influencia até mesmo a percepção profissional: nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, os engenheiros frequentemente rejeitam a associação com o “trapo engordurado” e a chave inglesa, preferindo apresentar-se como designers ou pesquisadores.
No entanto, a realidade dos dados inverte essa narrativa. Um estudo realizado com engenheiros suecos em 1980 revelou que nada menos que 72% deles não inventavam nada, mas passavam a vida supervisionando e mantendo infraestruturas e máquinas existentes. Até mesmo o termo “terotecnologia”, cunhado nos anos 1960 para enobrecer a engenharia da manutenção, testemunha o esforço quase desesperado de conferir dignidade científica a um trabalho considerado subsidiário. O fato é que, enquanto os inventores estão concentrados em poucos lugares, os profissionais da manutenção estão em toda parte onde há uso: são a forma mais difundida de competência técnica do planeta.
Um objeto tecnológico não “existe” historicamente apenas no momento de sua invenção, mas durante todo o tempo em que é mantido vivo. A manutenção não é um acessório, mas a condição ontológica da máquina. Paradoxalmente, os custos de manutenção ao longo de todo o ciclo de vida de um avião ou de um computador frequentemente superam o preço de aquisição inicial. Para um PC moderno, estima-se que o custo de aquisição represente apenas 10% do total; os 90% restantes desaparecem em atualizações, reparos e suporte técnico.
A tecnologia é, em essência, uma entidade que exige vigilância eterna. Como no célebre “machado do avô”, ao qual foram trocados tanto o cabo quanto a lâmina, mas que continua sendo “o mesmo machado”, a identidade de uma máquina é um processo de contínua reconstrução. Os navios de guerra ou bombardeiros como o B-52, em serviço desde os anos 1950 e previstos para permanecer até 2040, não são objetos estáticos, mas configurações fluidas que sobrevivem graças à constante substituição de peças, lubrificação e trabalho manual. Nessa perspectiva, o reparo não é um retorno ao passado, mas a única maneira de permitir que a tecnologia habite o presente.
Aqui emerge uma diferença sociológica entre as nações ricas e as pobres. No mundo opulento do Norte global, a manutenção doméstica quase desapareceu em favor de uma cultura do descartável. Reparar hoje uma torradeira elétrica custa mais do que comprar uma nova, pois o tempo de trabalho de um técnico tem um preço superior ao próprio objeto. As máquinas modernas funcionam durante toda a sua vida sem jamais serem lubrificadas, para então serem jogadas fora ao primeiro defeito.
Ao contrário, nos países pobres, onde o capital é escasso e os bens importados são preciosos, a manutenção torna-se uma forma de gênio coletivo. Em Gana, a área de Suame Magazine, em Kumasi, tornou-se lendária: um enorme centro a céu aberto onde 40.000 “fitters” (reparadores) mantêm vivos veículos que no Ocidente seriam sucateados há décadas. Esses artesãos não se limitam a reparar; praticam uma “tropicalização” dos veículos, transformando os veículos originais por meio de uma interação constante entre oficina e estrada. Criam juntas a partir de pneus velhos e substituem fusíveis por fios de cobre, alcançando um “estado de equilíbrio” no qual a máquina parece poder funcionar indefinidamente e talvez nos ensinando que o futuro estará na capacidade de não deixar as coisas morrerem.
Autarquia e Nacionalismo
Existe uma forma de chauvinismo profundamente arraigada no discurso público: o mito nacionalista da inovação.
Essa narrativa nos acostumou a medir o sucesso de uma nação com base no número de patentes registradas ou no volume de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). No entanto, David Edgerton demonstra que a equação “mais invenção igual a mais crescimento” é historicamente falsa.
O pressuposto convencional sugere que as nações precisam inventar para não decair. Mas os dados do século XX contam uma história de compartilhamento e imitação, não de isolamento criativo. Tomemos o caso do chamado “ultrapassamento” italiano dos anos 1980: a Itália ultrapassou o Reino Unido em termos de produção por habitante, apesar de gastar uma fração mínima em P&D em comparação com os britânicos. Enquanto os cientistas italianos lamentavam a falta de inovação local, o país prosperava imitando, importando e utilizando tecnologias nascidas em outros lugares.
Da mesma forma, a Espanha viveu décadas de crescimento espetacular apesar de ser definida como um “sistema tecnológico que progride sem inovar”. Também o milagre japonês e a recente ascensão chinesa não são filhos de uma súbita explosão de invenções radicais, mas de uma maciça operação de convergência tecnológica: esses países recorreram a um conjunto global de conhecimentos, demonstrando que o uso inteligente das máquinas alheias é economicamente mais rentável do que a obsessão pelo “feito em casa”. Ao contrário, nações como a União Soviética, que nos anos 1970 ostentava a maior força de trabalho do mundo empregada em P&D, fracassaram em traduzir essa primazia inventiva em bem-estar material, permanecendo presas a um atraso tecnológico crônico em relação ao Ocidente.
Se a inovação é globalizada, a política frequentemente permaneceu obstinadamente nacionalista. Ao longo do século XX, muitos Estados procuraram “nacionalizar” a tecnologia para fins de prestígio ou autossuficiência militar, caindo na armadilha da autarquia. George Orwell observou perspicazmente, em 1944, que, ao contrário das promessas dos futuristas que viam no avião e no rádio instrumentos de fraternidade universal, essas tecnologias eram usadas para reforçar as fronteiras e alimentar novos despotismos nacionais.
Os projetos autárquicos mais ambiciosos, como a produção de petróleo a partir do carvão (hidrogenação) na Alemanha nazista ou na África do Sul do apartheid, são exemplos evidentes dessa irracionalidade. Eram tecnologias criadas não por eficiência econômica — o petróleo sintético não podia competir com o natural —, mas para isolar a nação do mercado mundial. Paradoxalmente, até mesmo esses esforços de isolamento estavam impregnados de transnacionalismo: as patentes para a hidrogenação eram controladas por um cartel que incluía a alemã IG Farben, a americana Standard Oil e a anglo-holandesa Shell.
A realidade é que as conexões tecnológicas entre os povos quase nunca seguem as fronteiras dos Estados. Edgerton cita o exemplo esclarecedor de Aliano, uma pobre aldeia da Basilicata em 1935: em pleno regime fascista e autárquico, os instrumentos agrícolas dos camponeses, tesouras, machados, lâminas, não vinham de Roma ou Turim, mas eram enviados por parentes emigrados para Pittsburgh e Nova York. Eles estavam mais conectados tecnologicamente aos Estados Unidos do que ao restante da Itália.
Até mesmo a tecnologia militar mais “nacional” frequentemente foi fruto de intercâmbios subterrâneos ou autorizados. Nos céus da Coreia, os MiG-15 soviéticos voavam graças a motores a jato britânicos (o Rolls-Royce Nene), cujos projetos haviam sido transferidos com autorização oficial em 1946. E o programa atômico soviético foi uma quase cópia da bomba de plutônio americana, possibilitada por espionagem e colaborações internacionais.
Em essência, a nação não é a unidade de medida correta para compreender o progresso material. As empresas multinacionais, os fluxos migratórios e a capacidade de imitação pesam muito mais do que a bandeira fincada no primeiro protótipo. O sucesso econômico no século XX não pertenceu àqueles que inventaram mais, mas àqueles que souberam tirar melhor proveito dessas descobertas.
Lama e Wunderwaffen
Se entrarmos em um museu de ciência, a história da guerra nos parecerá uma sequência ordenada de “armas milagrosas”: o radar que rasga as trevas, o jato que supera o som, a bomba atômica que põe fim a tudo.
No entanto, se deslocarmos o olhar dos protótipos reluzentes para a realidade crua do front, descobriremos que o século XX não foi o século do futuro radiante, mas o da produção em massa de tecnologias velhas, robustas e letais.
A distinção canônica entre uma Primeira Guerra Mundial dos “químicos” (pelos gases) e uma Segunda dos “físicos” (pelo átomo e pelo radar) é uma ilusão de ótica. A verdade é que o massacre foi perpetrado por instrumentos que também poderiam ter sido compreendidos pelos generais do final do século XIX. Na Grande Guerra, quem matou não foram tanto as novidades, mas a artilharia pesada e os fuzis: dos 10 milhões de mortos, 5 milhões caíram sob o fogo dos canhões e 3 milhões sob o das armas leves. Até mesmo a “revolução nos assuntos militares”, que hoje associamos aos computadores, já estava concluída em 1917, não graças a chips eletrônicos, mas por meio da coordenação sistemática de mapas, comunicações telefônicas e observação aérea para dirigir o fogo de velhos canhões de maneira científica.
O mito da primazia científica cai miseravelmente diante da logística. Estamos acostumados a pensar na Segunda Guerra Mundial como um desfile de divisões blindadas, mas, para a Wehrmacht alemã, o motor da conquista não foram os tanques, mas os cavalos. No Oriente, a impressionante conquista da Malásia pelos japoneses em 1941 ocorreu com uma “blitzkrieg de bicicleta”: as tropas imperiais requisitaram milhares de bicicletas da população local, deslocando-se pelas estradas muito mais rapidamente do que a logística motorizada britânica poderia prever.
As guerras do século XX foram vencidas não pela arma mais avançada, mas pela capacidade industrial de padronizar o velho. O fuzil Lee-Enfield, por exemplo, permaneceu como eixo central do exército britânico e indiano desde o início do século até o final dos anos 1950. Mas o verdadeiro soberano do campo de batalha pós-guerra foi o Kalashnikov (AK-47): uma arma projetada em 1947, simples, rudimentar e produzida em cerca de 100 milhões de exemplares. É essa “baixa tecnologia” que matou muito mais do que jamais fizeram os bombardeiros estratégicos ou os mísseis intercontinentais.
A memória histórica, contudo, realiza uma remoção sistemática do uso do tradicional. Celebramos os computadores de Alan Turing em Bletchley Park, mas esquecemos que a maioria das mensagens militares soviéticas ainda viajava em papel transportado por mensageiros. Analisamos o conflito no Vietnã como o ápice do poder tecnológico americano, que utilizou o dobro da quantidade de munições da Segunda Guerra Mundial para saturar a selva de fogo, mas o resultado foi a derrota do colosso tecnológico diante de uma economia pobre. Nesse conflito, as bicicletas da trilha Ho Chi Minh derrotaram os B-52. Enquanto os Estados Unidos gastavam bilhões em sensores e desfolhantes como o Agente Laranja, os vietnamitas venciam transportando suprimentos sobre quadros de bicicletas reforçados, demonstrando que a superioridade técnica é um “tigre de papel” se não souber habitar a lama da realidade.
A história da guerra nos ensina que o progresso bélico não é uma linha reta rumo ao futuro, mas uma acumulação de instrumentos. As trincheiras, o arame farpado e os sacos de areia convivem com os drones.
A Banalidade da Morte
O processo civilizatório foi frequentemente descrito como o progressivo afastamento da violência da esfera pública, mas o século XX não reduziu a matança, tornou-a invisível, deslocando a execução do criminoso ou o abate do gado para trás das paredes de estruturas fechadas e especializadas. David Edgerton nos convida a observar uma “história de tirar a vida” que não segue o raio luminoso da alta tecnologia, mas se esconde na sombra de instrumentos antigos, processos industriais medíocres e inovações inesperadas.
A morte industrial não nasceu nos totalitarismos do século XX. As raízes técnicas desse fenômeno estão fincadas no capitalismo americano do final do século XIX. Os matadouros de Chicago, descritos por Upton Sinclair em The Jungle, não eram apenas locais de produção de alimentos, mas os precursores de um modelo organizacional baseado na “discrição” e na eficiência mecânica. Ali, pela primeira vez, aplicou-se a lógica da linha de montagem, ou melhor, de “desmontagem”, na qual a gravidade e os transportadores aéreos conduziam a transformação do ser vivo em matéria inerte em ritmos vertiginosos.
Essa tecnologia de abate, que em Chicago ou no complexo de Fray Bentos, no Uruguai, permitia abater milhões de cabeças de gado por ano com o uso brutal de martelos e facas, forneceu o modelo logístico para a morte em massa de seres humanos. Embora Auschwitz-Birkenau seja frequentemente citado como a “fábrica da morte” por excelência, Edgerton desmistifica sua natureza puramente “hi-tech”. As estruturas de extermínio nazistas não eram instalações fluidas e automatizadas; eram frequentemente locais precários, onde os fornos crematórios quebravam e era necessário recorrer a métodos antigos, como valas comuns ou fogueiras ao ar livre. O paradoxo é que a capacidade de matar dois milhões de pessoas em um ano, um número que assombra por sua escala, já era tecnicamente possível no início do século utilizando os métodos dos matadouros de Chicago, baseados simplesmente na força de trabalho e em instrumentos primordiais como o machado de lâmina longa.
Nossa fixação pela arma atômica ou pelos mísseis nos impede de ver quais foram os verdadeiros instrumentos da destruição humana. A esmagadora maioria dos massacres do século XX foi perpetrada com tecnologias velhas e de baixo custo.
No caso do genocídio ruandês de 1994, em apenas cem dias, centenas de milhares de pessoas foram mortas a uma velocidade que rivaliza com a do sistema nazista, mas sem câmaras de gás ou trens blindados. O principal instrumento não foi o computador ou o sensor a laser, mas o facão: uma tecnologia agrícola antiquíssima que o governo hutu transformou em máquina de extermínio, importando um milhão de unidades em 1993, uma para cada três homens do país. Essa “inovação no uso” de um objeto banal demonstra que a eficácia do massacre depende menos da complexidade científica do que da capilaridade e da gestão política do trabalho manual do carrasco.
Mesmo no coração do Estado de direito, a tecnologia da pena de morte desafia a ideia de um progresso moral paralelo ao progresso técnico. As democracias ocidentais mantiveram durante muito tempo instrumentos mecânicos e medievais de execução: a Grã-Bretanha utilizou a forca até meados dos anos 1960, a Espanha, o garrote, e a França, a guilhotina, o icônico resíduo da Revolução que viveu um pico macabro de utilização justamente sob o regime nazista (que encomendou vinte exemplares para suas prisões).
O caso dos Estados Unidos é emblemático de uma frenesi inovadora que esconde uma continuidade obstinada. Da passagem da cadeira elétrica (final do século XIX) para a câmara de gás (1924), até a introdução da injeção letal em 1982, o objetivo não foi reduzir a violência, mas minimizar a deformação visual do cadáver e o trauma do pessoal. E, no entanto, as antigas máquinas de gaseificação ou cadeiras elétricas permaneceram em serviço durante décadas, frequentemente porque eram mais fáceis de manter ou por preguiça burocrática, até que o desgaste as tornou impraticáveis. A recente difusão da injeção letal não sinaliza um salto ético, mas a adoção de um método “limpo” e burocratizado que permite ao Estado continuar matando sem romper a barreira do visível.
Também na história tecnológica da violência o velho nunca morre completamente, e a verdadeira modernidade não reside na novidade do instrumento, mas na assustadora capacidade de utilizar instrumentos do passado para fins que o passado jamais teria imaginado.
Invenções e Fracassos
Estamos acostumados a imaginar o inventor como um semideus beijado pela inspiração, um Prometeu moderno que rasga o véu do amanhã. A história da tecnologia é um relato de triunfos: lembramos do jato, do computador, do mapeamento do DNA porque venceram.
Mas é uma história manipulada, escrita com o benefício do retrospecto. Se realmente quisermos compreender o engenho humano, precisamos descer às criptas empoeiradas dos escritórios de patentes onde estão enterrados inúmeros fracassos.
A esmagadora maioria das patentes, de fato, jamais foi utilizada, não gerou um centavo e revelou-se um beco sem saída econômico. Cerca de 90% das patentes desaparecem antes do término legal da proteção porque ninguém está disposto a pagar para mantê-las vivas.
E, no entanto, nossa cultura sofre de um crônico “boosterismo” tecnológico que confunde novidade com importância. Tratamos a invenção como se fosse um destino manifesto, esquecendo que viver em uma época inventiva exige, paradoxalmente, a capacidade de rejeitar a maior parte das novidades oferecidas.
Essa amnésia histórica nos impede de ver que a invenção não é uma marcha triunfal, mas um processo de acumulação desordenada no qual o “novo” frequentemente não é nem um pouco melhor do que o “velho” e no qual a inovação mais frenética não ocorre necessariamente nos setores hi-tech, mas naqueles que consideramos obsoletos. É a ironia do “efeito navio à vela”: a indústria dos veleiros produziu seus maiores avanços técnicos justamente quando estava ameaçada pelo vapor.
Outro pilar de nosso imaginário é o grande laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento empresarial ou estatal. Imaginamos esses lugares como as únicas forjas da mudança global. Certamente foram importantes, mas sua centralidade foi exagerada. Muitas das invenções mais radicais nasceram no uso cotidiano, sob o controle de usuários que adaptavam as máquinas às próprias necessidades, longe dos jalecos brancos.
Os dados sobre os gastos em P&D no final do século XX oferecem um delicioso contraponto aos profetas da “nova economia”: no topo da lista dos maiores investidores mundiais não estavam a Microsoft ou gigantes do software, mas a General Motors e a Ford.
Frequentemente, inovações organizacionais e comerciais, que não têm nada de “científico” no sentido acadêmico do termo, tiveram um impacto incrível. Enquanto o mundo celebrava a desmaterialização digital e a informática, Ingvar Kamprad, o fundador da IKEA, acumulava uma riqueza que, segundo algumas estimativas, superava a de Bill Gates, vendendo a coisa mais material e antiga do mundo: móveis de madeira. A invenção de Kamprad não foi uma descoberta de laboratório, mas a padronização no design flat-pack e na transformação dos consumidores em trabalhadores não remunerados, que montam seus próprios móveis em casa. A IKEA vendeu 28 milhões de estantes Billy: essa é uma massa material que transformou a paisagem doméstica planetária, é uma vitória da produção em massa aplicada ao cotidiano banal, transportada por navios carregados de contêineres, outra “caixa” banal que domina o comércio mundial.
Em uma velha piada soviética, o inventor que propõe uma máquina para fazer casas de botão ouve o ministro responder: «Camarada, não precisamos disso, você não vê que estamos na era do Sputnik?». Assim, frequentemente investimos bilhões em setores “de prestígio”, como o aeroespacial ou o nuclear, que muitas vezes produziram apenas fracassos comerciais, enquanto a verdadeira transformação do mundo material acontecia em outros lugares.
Conclusão
Como antecipei no início, a visão de David Edgerton não me convenceu plenamente. Alguns de seus exemplos são, na minha opinião, “forçados” para fazê-los coincidir com sua narrativa que, por sua vez, carece de uma visão sistêmica completamente coerente.
Porém, quando, na conclusão, ele diz que é preciso parar de falar de “tecnologia” e começar a falar de “coisas”, porque o termo “tecnologia” tornou-se um fetiche ideológico usado para evocar uma força histórica independente que nos arrasta rumo a um amanhã inevitável, toca em aspectos ligados às nossas dificuldades cotidianas.
Aceitamos passivamente a desindustrialização de nossas sociedades porque nos venderam um futuro de “setor terciário avançado” que, na prática, está se transformando, para muitos, em trabalhos antigos e cansativos, como o garçom em um restaurante turístico ou o entregador de pizzas, porque nem todos os 60 milhões de italianos podem ser programadores de inteligência artificial.
A retórica futurista tende a subestimar o passado e superestimar o presente, ignorando que a mudança estrutural no mundo rico não foi mais rápida nas últimas décadas do que em meados do século XX, e Edgerton ressalta que a história não é apenas crescimento, mas também pode ser declínio e regressão.
Repensar a história da tecnologia significa, portanto, repensar a história do mundo. Quando colocamos no centro a tecnologia que realmente importa, aquela difundida, persistente e cotidiana, descobrimos que o mundo não se tornou uma “aldeia global” imaterial, mas continua sendo um lugar definido por fronteiras, nações, guerras reais e uma obstinada acumulação de objetos materiais nos quais a maioria das pessoas utiliza ferramentas que não possui.
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