
Com base em sua trajetória acadêmica e na defesa da autonomia universitária, o autor argumenta que a continuidade do bolsonarismo ameaça o ensino superior, a ciência e o desenvolvimento regional.
Na validade do estado democrático e de direito, ainda vigente no Brasil apesar dos constantes ataques de forças do obscurantismo político às instituições republicanas, nós, os eleitores, somos chamados novamente a escolher nosso presidente.
Tal escolha é feita, e assim deve ser, a partir da análise livre e informada que o cidadão faz do conjunto de ideias e propostas de cada grupo que disputa o poder. A avaliação do posicionamento dos candidatos sobre assuntos de interesse nacional, regional e também local servem de base para o voto.
Para 80% dos brasileiros a democracia é inegociável (Pesquisa DataFolha, TSE – BR-08039/2026) e é considerada o maior valor a ser preservado e fortalecido, pois sem ela todos os avanços civilizatórios ficam comprometidos.
No atual contexto esta parte da análise fica muito facilitada uma vez que a escolha se dará entre dois candidatos que, longe de serem neófitos, se apresentam com larga história de atuação no mundo político nacional. Basta um pequeno exercício de memória para termos nitidamente delineado o perfil de cada um dos candidatos com referência aos valores democráticos.
Um candidato exerceu a presidência da República por três mandatos, sem um ato sequer de desafio ou atitudes contrárias aos preceitos constitucionais de divisão de poderes e com total respeito às instituições republicanas.
O outro, político de carreira, ao iniciar sua vida pública e profissional aos 19 anos, de imediato apresentou uma característica vedada ao comum dos mortais: o dom da ubiquidade. O jovem advogado conseguia ao mesmo tempo estar em Brasília como assessor técnico do PPB, hoje PP, no Rio de Janeiro assistindo as aulas do curso de direito, 100% presencial, e ainda estágio profissional duas vezes por semana (reportagem BBCNEWS Brasil, 23/01/2019).
Os interesses regionais e locais, embora devam estar circunscritos aos interesses maiores da nação, certamente apresentam peculiaridades e valores específicos a serem atendidos. Compete aos cidadãos com todas as suas formas de expressão de cidadania, individual ou em conjunto como associações, grupos, coletivos, uniões, sindicatos se posicionar e definir qual o candidato que melhor satisfaz às suas necessidades ou aspirações. Assim acontece em todas as cidades e regiões do Brasil, assim acontece em Santa Maria e região.
De meu humilde banquinho de cidadão, mas sem abnegar a responsabilidade que me compete por ter sido estudante, professor e dirigente de uma instituição – a UFSM, que foi atingida de forma violenta, injusta e inaceitável por palavras e ações durante o governo de Jair Bolsonaro e de seus acólitos, e que o candidato Flavio Bolsonaro já declarou que seu possível governo será a continuidade do governo do pai (“Flavio assume o sobrenome ao revelar seu programa”, Análise, Folha d São Paulo, 07/10/2026), não posso deixar de declarar alto e bom som, que meu voto será LULA.
Vou votar “errado” na companhia de Carlos Ayres Brito, Joaquim Barbosa, Nelson Jobim, Carlos Veloso e mais de 7 mil juristas, políticos e artistas que entendem que a continuidade do desgoverno de Jair Bolsonaro seria “um risco ao Estado Democrático…e aos valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”.
Vou votar “errado” – meu voto é Lula-, porque não posso de maneira alguma, aceitar que nos governe um grupo que faz das instituições científicas nacionais seus principais inimigos a serem destruídos; um governo que vem sistematicamente retirando recursos orçamentários das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) e das instituições de ciência e tecnologia, para garantir as lamentáveis Emendas de Relator ou “orçamento secreto”.
Vou votar “errado” – meu voto é Lula, em companhia da deputada Simone Tebet que declarou com relação ao orçamento secreto “…podemos estar diante do maior esquema de corrupção do planeta terra”. Mecanismo descaradamente utilizado na compra de votos.
Vou votar “errado” – meu voto é Lula-, pois como santa-mariense de nascimento e de coração tenho acompanhando o desenvolvimento de Santa Maria e da região desde há muitas décadas e posso, sem medo de errar, afirmar que o fator básico responsável por transformar a pacata e rural Santa Maria de minha infância no pungente e próspero centro regional de desenvolvimento foi o sonho sonhado pelo Dr. José Mariano da Rocha- Marianinho, já nos anos 1950. Lembrando Don Helder Câmara “(…) um sonho é só um sonho enquanto sonhado por uma pessoa, mas quando compartilhado por muitos se torna uma realidade”.
Vou votar “errado” – meu voto é Lula-, porque primeiro como estudante, depois como professor, chefe de departamento, diretor de centro e reitor da UFSM e como presidente da associação nacional das IFES – reivindico aqui meu direito de “lugar de fala” ou “falando de cadeira” na expressão de minha juventude – tenho acompanhado o tratamento e atenção que ao longo de décadas os diferentes governos têm dispensado ao sistema universitário e em particular à nossa UFSM.
Todos eles, evidentemente dentro da temporalidade e das características próprias na forma e conteúdo, tiveram sempre um relacionamento construtivo e de respeito ao preceito constitucional da autonomia das universidades. Todos eles sempre reconheceram o papel das IFES no desenvolvimento e na construção de eixos portadores de futuro para a nação. Todos, com exceção do atual governo que desde os primeiros minutos da gestão sempre fez questão de deixar muito claro através de palavras e de atos seu incômodo com o sistema de IFES, por ele considerado como um entrave e um mal a ser extirpado.
Portanto, vou votar “errado” – meu voto é Lula-. Tenho este dever como beneficiário do sonho de Marianinho tornado realidade e como cidadão testemunha do papel da UFSM no desenvolvimento de Santa Maria e região e que percebe, com todo o respeito que merecem os dirigentes das diferentes associações que assinam a NOTA, que a continuidade da linha de atuação do atual governo com respeito às universidades significa o desmonte do parque de instituições de ensino superior criado em Santa Maria a partir da implantação da UFSM. Tal desmonte, escusado dizer, significa evidentemente um tremendo choque negativo nas condições econômicas, sociais e de desenvolvimento futuro para Santa Maria e região. Ou pode passar despercebido a alguém de bom senso que o status de Santa Maria como grande prestadora de serviços se deve à existência e desenvolvimento da UFSM? Ou a razão da cidade apresentar um nível de empreendimento imobiliários bem acima das cidades do entorno? Ou ser um centro de serviços de saúde reconhecido nacionalmente?
Novamente declarando meu respeito aos que se posicionaram pela reeleição do atual governo, devo considerar a defesa da continuidade de um governo inimigo declarado das universidades como uma traição à obra de um santa-mariense visionário que já em meados do século passado pensava e agia para criar uma cidade progressista, igualitária.
Um tremendo petardo contra a manutenção e criação de empregos e contra o desenvolvimento de Santa Maria e região.
Sobre o autor
Odilon Antonio Marcuzzo do Canto
Eng. Civil pela Universidade Federal de Santa Maria(1968), mestrado em Eng. Nuclear pela University of California- Berkeley(1979) e doutorado em Eng. Nuclear pela University of California- Berkeley(1984). Foi Reitor da UFSM, Presidente da FINE e da Fundação de Ciência e Tecnologia.
Fonte: Rede Estação Democrática – RED | Publicado em 13 de outubro de 2026 às 8:00 | Editado em 12 de outubro de 2026 às 19:30
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