
Estudo clássico sobre apostas baseou-se nas rinhas de galo, numa ilha da Indonésia. Lá, prática está ligada a afirmações do ego e status. Aqui, finge premiar a “teimosia” e a paixão esportiva. Mas a corrosão das famílias diz muito sobre o triunfo tóxico do capitalismo tardio.
Por Lucas G. Tonaco Ferreira | OutrasPalavras – Crise Civilizatória | Publicado em 09/10/2026 às 17:17
“O que a briga de galos diz que diz, em um vocabulário de sentimentos – é a emoção do risco, o desespero da perda, o prazer do triunfo. Assim, o que diz não é apenas que o risco é excitante, a perda deprimente, ou o triunfo gratificantes, tautologias banais de afeto, mas que é destas emoções, assim exemplificadas, que a sociedade é construída e indivíduos são colocado juntos. Ir às brigas de galos e participar delas é, para o balinês, uma espécie de educação sentimental” (Geertz, 1978: 449).
Recentemente também abordadas em questões eleitorais, as ditas “bets” são para além de discussões econômicas, financeiras ou legais, e claro, de saúde mental relacionadas à ludopatia – um assunto cultural, ou seja, do universo humano simbólico.
A aposta em si já foi alvo recorrente daquilo que se pode ter como risco mais profundo das ambições humanas, seja com a aposta de Fausto no frenesi da vida em Goethe ou com histórias e estórias que todos já vimos ou ouvimos sobre os infortúnios de quem ficou rico em alguma loteria mas que perdeu tudo ao longo dos anos, dos vícios e dos anseios, no cotidiano humano, filiar-se a uma perspectiva única mesmo que não racional, contra todas as estatísticas e inimizar contra aquilo que seria sensato ou transpor as circunstâncias. 0,5% de chance, uma em um milhão, cinco para cem, não importante, a aposta é algo que como já dizia o título do texto de Celso Vianna Bezerra de Menezes – há “Razões que a ‘razão’ desconhece“ – e esse mesmo desconhecimento faz portanto o tema que aborda o texto é sobre Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (2005), do antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard, e versando sobre o pragmatismo paradoxal, magia ou o infortúnio cotidiano, os antropólogos sempre tentaram entender o que faz um homem em suas “sãs” faculdades mentais e optar pelo risco, pelo imprevisível ou pelo improvável mesmo quando não há possibilidade ou quiçá probabilidade tangível, e “por que” ou os “por quês”, persistem e o que há nessa crença (ou descrença da irracionalidade. Em termos de “Hard Science”, não somos bons em estatística, nem mesmo especialistas, Amos Tversky e Daniel Kahneman já receberam prêmios Nobel comprovando isso.
Longe de ser um problema isolado, procurar este porquê, como vimos recentemente, possui impacto político eleitoral de repercussão nacional e não é à toa – se considerar aqui dados divulgados pela StartSe mostram que cerca de R$ 143 bilhões saíram do comércio varejista para ir para os sites de apostas, impacto é maior nas famílias das classes C, D e E, que usam parte do orçamento de itens essenciais para apostar – as apostas se tornaram um dos maiores motivos de endividamento no país, superando o efeito de juros e empréstimos tradicionais em alguns setores e segundo o MADE, como a maioria das pessoas perde o dinheiro apostado, o valor não retorna para a economia real em forma de produtos ou serviços. Na temática antropológica não há novidades na dita relação entre valores, crenças e economia, para ficarmos no exemplo clássico, Bronisław Malinowski, o funcionalista que edificou a observação participante como método nos Argonautas do Pacífico Ocidental esteve bem interessado nessa interpretação de trocas e reciprocidades de valores, dos Kula de ilhas do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné entre 1914 e 1918 – válido lembrar que o mesmo também se interessou pela temática simbólica dos valores em si, tendo estudado na London School of Economics (LSE) em Londres. Para não desviar na curiosidade infinita e da fascinação das antropólogas e dos antropólogos sobre crenças, valores, acúmulos e economia, passamos aqui ao exemplo para além da antropologia econômica, o de Clifford Geertz e sua obra “A Interpretação das Culturas” de 1973.
Clifford Geertz, considerado um antropólogo pós-moderno ou como representante da antropologia interpretativista têm aqui um curioso caso de como a antropologia pode emanar algumas hipóteses, observações ou ilustrações sobre as ditas apostas, e é no capítulo artigo “Jogo Profundo: Notas sobre a Briga de Galo em Bali“. Geertz, vai até Bali analisar como tratá-la como um passatempo ou um rito, as duas alternativas mais óbvias, mas que estas tenderiam a obscurecer seu uso fundamental como “finalidade cognitiva e emocional” ou seja – um jogo mais profundo. Geertz observa que a construção emocional à partir dos absurdos quantitativos das apostas criava naquele povo uma construção afetiva sobre como o risco estabelecia uma lógica nada racional de tal dinâmica chegando a construir uma tabela e provando numericamente isso. A construção da individualidade e da masculinidade e, portanto, a construção de uma personalidade à partir das apostas de brigas de galo era peça teatral (como Macbeth) que revela as tensões da natureza humana e da hierarquia local (USP), guerra de Eus Simbólicos, pois os galos representam os próprios donos (sabung); eles funcionam como extensões metafóricas da masculinidade, do ego, do orgulho e da honra dos homens balineses e a disputa de Status e Hierarquia. O que está em jogo nas apostas pesadas não é o ganho financeiro em si, mas o status, o prestígio e a posição das facções e linhagens dentro da aldeia. Como se insere isso no contexto brasileiro da contemporaneidade sobre as as bets?
Boa parte das apostas, são apostas esportivas e estas mesmas cresceram de forma expressiva no Brasil, com alta de 734,6% no volume de empresas e serviços do setor entre 2021 e 2024, e um aumento de 153% no número de plataformas ativas no mesmo intervalo (MADE) sendo um total de 50 milhões de jogadores (MADE). A origem do campo em si, é essencialmente relacionada com a expansão autorizada por Michel Temer das bets, mas a essência, é como já disse Nelson Rodrigues: “para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais” – na intercessão entre sociedade brasileira, aposta e esporte cria-se então a “tempestade perfeita” para a afetividade, a financeirização nessa fase atual do capitalismo catastrófico, tecnologias digitais, propaganda e as formas mais absurdas de evasões de divisas e lavagem de dinheiro aproveitam, pois há como extrair (e concentrar) valor à partir de tal afetividade simples: na metafísica da crenças – e como não há nada mais metafísico do que o senso comum, poder mudar de vida baseado em saber quantos cartões vermelhos em um jogo ou quiçá se o seu time ganha, é criar a tal tautologia de afetos.
Tal tautologia de afetos, diga-se que aqui com uma referência importante para o texto de Geertz – enquanto aposta em brigas de galos seria fator agregador da sociedade balinesa, a nossa, está sendo motivo de desagregação, pois apesar do efeito manada produzido pelas bets, a sociedade capitalista contemporânea centra-se na lógica individual, na lógica que o indivíduo ficará rico só contra todos ou contra todas as circunstâncias, também muito amparado numa espécie de “salvacionismo” heróico da figura bíblica e Davi em uma sociedade em franca expansão neopentecostal. A insistência mesmo apesar da perda (que claro, possui aspectos de saúde mental) têm a centralidade nas formas de masculinidade expressadas pelas apostas em bets a partir da narrativa ou do arco do herói, e é quase que como Santiago no Velho e o Mar de Hemingway, em que acreditava que sua teimosia deveria ser premiada. Aqui, então, mistura-se: a crença com a narrativa em si de alguém especial mesmo que na derrota com a descrente improbabilidade numérica exposta. Em Bali, a aposta ocorre entre pares na praça pública, em um ritual frente a frente onde o dinheiro circula dentro da própria comunidade (mesmo que haja redistribuição de status). Nas bets, o dinheiro sai da comunidade e vai para paraísos fiscais (extração predatória de renda por plataformas algorítmicas sediadas em Curaçao, Malta).
Claro, Bali não é o Brasil, e futebol não são brigas e de galo, mas o ponto: há muito o que se falar e há mais ainda o que se perguntar e ler sobre a temática da antropologia, crença e o colapso do capitalismo atual e suas relações com a toxicidade da persistente autodestruição que determinados comportamentos têm se colocado – principalmente de como politicamente isso é aproveitado pela extrema-direita e pelos mecanismos de extração de valores atuais; O que foi escrito anteriormente é só uma amostra do tempo em que estamos e de como devemos olhar para antropologia não como mero instrumento ou ferramenta de análise com relação ao comportamento humano ou social – há raízes profundas no simbolismo na cultura, e principalmente: há na antropologia um espelho virado para dentro que nenhum mecanismo estatístico vai poder capturar, que é a densidade das emoções e sentimentos humanos, a agência das mesmas sobre uma sociedade inteira e o quão estamos inseridos em sistemas complexos demais ao ponto de apenas a exterioridade de nós dar significado há alguma coisa, aliás, deveras talvez seja o oposto ou pelo menos, a aposta no oposto.
Referências Bibliográficas:
EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Edição abreviada. Tradução de Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora, 1989. [Inclui o capítulo “Jogo profundo: notas sobre a briga de galos em Bali”, p. 185–221].
GEERTZ, Clifford. Jogo profundo: notas sobre a briga de galos em Bali. In: GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. p. 449. [Referência específica correspondente à citação direta no texto].
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia. Tradução de Jenny Klabin Segall. São Paulo: Editora 34, 2004.
HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.
MALINOWSKI, Bronislaw. Os argonautas do Pacífico Ocidental: um relato da empresa e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanesia. Tradução de Anton P. Carr. São Paulo: Abril Cultural, 1976. (Os Pensadores).
MENEZES, Celso Vianna Bezerra de. Razões que a “razão” desconhece: notas sobre infortúnio, feitiçaria e pragmatismo entre os Azande. In: Cadernos de Campo (São Paulo – 1991), v. 14, n. 13, p. 1-15, 2005. [Ou referência correlata ao ensaio citado sobre a obra de Evans-Pritchard].
RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
MADE – Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (USP). Apostando no colapso: os impactos socioeconômicos das apostas online no Brasil. Nota de Política Econômica, São Paulo, 2024.
STARTSE. Raio-X das apostas online no Brasil: o impacto das Bets no consumo, varejo e endividamento das famílias. Reportagem/Análise de mercado, 2024.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). A antropologia da aposta e o status social: leitoras e leitores de Clifford Geertz. Portal de Notícias USP / Jornal da USP, São Paulo, 2024.
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