Para que servem as leis?

Nenhuma instituição é perfeita, e todas precisam ser permanentemente acompanhadas e cobradas pela sociedade democrática. | Foto: Pavel Danilyuk / Pexels.

Entre o trânsito, a vida pública e os desafios do Brasil, as leis existem para limitar abusos, proteger a convivência e sustentar a democracia.

Galáxias, planetas, corpos celestes e organismos vivos obedecem a leis que não foram inventadas por parlamentos nem sancionadas por governos. São leis da física, da química, da biologia — leis da vida. Quanto mais a ciência avança na compreensão da origem do universo, mais revela uma ordem silenciosa sustentando a complexidade do mundo. Nada se move inteiramente por acaso. Há forças, equilíbrios, limites e relações que permitem a continuidade da existência.

Essa relação entre natureza e sociedade ajuda a compreender por que as leis não são meras imposições externas. Elas organizam a vida comum porque reconhecem que a liberdade humana, diferentemente dos fenômenos naturais, precisa ser orientada por limites compartilhados.

Na vida em sociedade, essa constatação ganha forma concreta. Se a existência depende de forças, equilíbrios e limites, a convivência humana também precisa de regras que contenham excessos e protejam o espaço comum.

Onde há pessoas, desejos, interesses e visões de mundo diferentes, a lei aparece como linguagem comum. Ela não elimina os conflitos, mas impede que eles se transformem em violência, abuso ou abandono.

A lei justa nasce para impedir que a força e o dinheiro substituam o direito

As leis servem, antes de tudo, para lembrar que a liberdade de cada um só ganha sentido quando reconhece a liberdade do outro. Sem esse reconhecimento, a vida coletiva se transforma em uma disputa permanente entre fortes e fracos, entre quem impõe sua vontade e quem é obrigado a se submeter.

Por isso, leis justas limitam o poder, o desejo, a ambição e a
violência: elas impedem que a força ocupe o lugar do direito.

 

No trânsito, por exemplo, as leis se materializam em sinais, faixas, semáforos, placas de advertência e limites de velocidade. Para quem enfrenta diariamente avenidas cheias, com motocicletas, ônibus, bicicletas e pedestres disputando espaço, essas regras podem parecer obstáculos ao desejo individual de chegar mais rápido.

No entanto, quando o sinal vermelho obriga um motorista a parar, protege o direito de outro seguir. Quando uma placa alerta para uma curva perigosa, ela não suprime a liberdade: preserva a vida. O pequeno incômodo de obedecer a uma regra se converte em segurança coletiva e confere legitimidade à lei.

O mesmo ocorre no futebol. Em campo, há paixão, confronto, velocidade, disputa e emoção. Sem regras, porém, a partida deixaria de ser esporte e se tornaria agressão. O juiz, tantas vezes vaiado, é indispensável porque representa a norma que impede a força física de prevalecer sobre a habilidade, a estratégia e o espírito de equipe. A regra não mata o futebol; torna-o possível.

As primeiras lições se aprendem na família

Na família, na escola, no trabalho, na comunidade e até na fila do mercado, convivemos com normas explícitas ou implícitas. Aprendemos desde cedo que não podemos tomar tudo para nós; que é preciso esperar a vez, escutar o outro, cuidar dos espaços comuns e responder pelas consequências dos próprios atos. Essas experiências formam a base ética da cidadania. Uma sociedade que despreza suas regras mais simples abre caminho para o desrespeito em escala maior.

É no campo político e social, contudo, que a importância das leis se torna ainda mais evidente. Gestores públicos administram recursos que pertencem à coletividade: o dinheiro que deveria chegar à escola, ao hospital, à estrada, ao saneamento, à segurança e às políticas de convivência com o semiárido. Por isso, não podem agir como donos do patrimônio público nem confundir interesses particulares com responsabilidades institucionais.

Quando há corrupção, favorecimento, abuso de autoridade ou descaso com o bem comum, a lei precisa reparar danos, estabelecer responsabilidades e impedir que os mesmos erros se repitam. Quando as leis são desacreditadas, a democracia é ameaçada.

Nesse ponto, juízes, promotores, defensores, advogados, legisladores e servidores públicos exercem função decisiva. Nenhuma instituição é perfeita, e todas precisam ser permanentemente acompanhadas e cobradas pela sociedade democrática. Mas enfraquecer sistematicamente as instituições encarregadas de proteger a legalidade significa abrir espaço para o arbítrio.

Quando a Justiça é desacreditada apenas porque incomoda interesses poderosos, a democracia perde uma de suas principais defesas.

Vivemos uma época em que a tecnologia ampliou, de modo
extraordinário, a capacidade humana de criar, comunicar,
produzir e transformar. Essa mesma potência, porém, também
pode ser usada para controlar, manipular, excluir e destruir.

No Nordeste, onde a relação com a água, a terra, o trabalho e a migração fazem parte da história de tantas famílias, fica ainda mais claro que desenvolvimento não pode significar exploração sem limite. Diante desse cenário, leis ambientais, trabalhistas, civis e constitucionais lembram que nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente aceitável.

Não por acaso, legisladores, magistrados e instituições públicas são alvo frequente de críticas e tentativas de desmoralização. A crítica é essencial à democracia, porque ajuda a corrigir erros, revelar abusos e aperfeiçoar instituições. O descrédito sistemático, porém, tem outra natureza.

Criticar para melhorar é saudável; destruir a confiança coletiva em toda forma de mediação institucional é perigoso. Quando a população passa a acreditar que nenhuma lei vale, que nenhuma instituição presta e que apenas a força resolve, instala-se uma cultura de ressentimento e vingança.

A lei também educa

Ela ensina que a convivência exige renúncias, que a vida em comum pressupõe limites e que o bem coletivo não nasce da simples soma dos egoísmos individuais. Em tempos de discursos de ódio, intolerância, polarização e pressa, precisamos reaprender uma lição simples: o outro não é obstáculo à minha existência. O outro é parte da vida que construímos juntos.

Por isso, defender as leis não significa submissão cega ao legalismo. Leis injustas podem e devem ser questionadas, reformadas e superadas. A história mostra que muitos avanços sociais nasceram da coragem de denunciar normas que humilhavam, excluíam ou exploravam.

A verdadeira questão, portanto, não é escolher entre lei e liberdade, mas construir leis a serviço da dignidade humana. A boa lei não oprime a sociedade; protege a convivência contra a violência e o abuso.

A lei frustra o forte que quer dominar o fraco

No plano internacional, a mesma reflexão se impõe. A geopolítica inspirada pelo multilateralismo buscava reconhecer que nenhum país, por mais poderoso que fosse, poderia decidir sozinho o destino do mundo.

Quando práticas unilaterais, guerras, ameaças e interesses econômicos passam por cima de acordos coletivos, todos pagam o preço — inclusive populações distantes dos centros de decisão. A lei, nesse sentido, é também uma tentativa de impedir que a vontade dos mais fortes se imponha sobre a vida dos mais vulneráveis.

Leis servem para organizar a convivência, limitar abusos,
proteger os frágeis, responsabilizar os poderosos e preservar a
possibilidade de um futuro comum. Servem para que a fila ande
com justiça, o dinheiro público chegue a quem precisa, a
diferença não se transforme em inimizade e a força não
substitua o direito.

 

Em uma sociedade democrática, obedecer a leis justas e trabalhar para aperfeiçoá-las não é fraqueza: é compromisso cidadão. Sem leis, vencem o grito mais alto, o braço mais forte e o interesse mais agressivo. Com leis justas, ainda podemos acreditar que a vida coletiva é possível.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br

Fonte: Diário do Nordeste, 10 de Setembro de 2026 – 06:00

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