
IA, autoria e transparência: os limites éticos entre o uso das máquinas e aquilo que ainda nos torna humanos.
Zona de Propulsão | Mídia Ninja | Por Vivian Peron, Coordenadora de Pesquisa do Aláfia Lab* | 19 de agosto de 2026 16:33
Para quem estiver na União Europeia, haverá mais mecanismos para reconhecer se estão diante de um conteúdo produzido por uma máquina ou se estão conversando diretamente com ela. E não se trata da diminuição do uso de travessões — recurso preferido da geração de textos por IA —, que já está em declínio nas ferramentas por razões óbvias. Mas essa mudança se deve ao fato de que, desde o dia 2 de agosto, a Lei de Inteligência Artificial (AI Act) europeia passou a ser aplicada, exigindo novas regras para empresas que operam sistemas de IA na Europa. O primeiro grande movimento foi anunciado pela Anthropic, empresa responsável pelo Claude, que passará a utilizar marcas d’água embutidas nos textos e também metadados nos arquivos produzidos pelos novos modelos. Isto não será visto a olho nu, mas a empresa garante que irá disponibilizar de forma aberta os recursos para verificação.
Essa mudança do Claude atinge também o Brasil, uma vez que a alteração se estenderá aos seus modelos de IA que operam ao redor do mundo. Em nosso cenário regulatório precário, no qual ainda está em tramitação o Projeto de Lei nº 2338, de 2023, relacionado à IA, é um bom sinal que as empresas se adequem a leis mais rígidas, ainda que de outros países. A regra, no geral, costuma ser outra: países com regras frouxas, empresas com liberdade duvidosa. E, considerando o universo imenso que é o público brasileiro, onde 6 a cada 10 pessoas já indicam ao menos o uso ocasional da ferramenta (sabendo-se que isso está em pleno crescimento), os chats de IA encontram um mercado importante, mas que precisam considerar o forte componente sociodemográfico que particulariza os modos de uso, em que são as pessoas mais jovens, de maior escolaridade e de classes mais altas que apresentam um maior uso da IA, de acordo com dados recentes do relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”. Porém, há diferenças no aproveitamento, já que modelos que oferecem versões pagas costumam ser mais robustos e com mais funcionalidades, que, por sua vez, são melhor aproveitadas por aqueles que já estão circunscritos numa bolha de privilégios socioeconômicos e de letramento digital.
Um interessante estudo do MIT explica a interferência da IA na qualidade da produção acadêmica, demonstrando a relação entre a produção de melhores textos e o uso de ferramentas como o ChatGPT, desde que esses textos tenham passado antes por uma reflexão prévia (necessariamente humana e sem o uso de tecnologia) sobre um determinado assunto. A pesquisa apontou que o uso da ferramenta de IA sem o esforço intelectual gerou os resultados mais medíocres, embora estruturalmente corretos, e, ainda que esse mesmo grupo de pessoas tivesse tido a chance de reescrever os próprios textos sem a ferramenta, já havia sofrido o “déficit cognitivo”, isto é, passou a repetir os mesmos padrões robóticos e superficiais da ferramenta, sem autenticidade ou originalidade no conteúdo. De forma indiscriminada, a marca d’água do Claude se aplicaria a todos os tipos de textos desta pesquisa citada, isto é, tanto entre o grupo que foi inteiramente escrito por IA quanto naquele apenas revisado. E é importante destacar: são formas muito distintas de uso, com níveis diferentes de autoria e know-how do usuário aplicado, mas que passam a ser tachadas como de autoria da IA.
Nina da Hora nos lembra de um ponto fundamental da IA: antes de ela ser apropriada pelas empresas de tecnologia, é uma área do conhecimento muito mais ampla, tendo a IA generativa como subárea. E enquanto a IA como ciência traz campos em disputa, abre espaços de inovação científica e permite reprodutibilidade e verificabilidade, os produtos da IA generativa, que foram os que se popularizaram principalmente nos chats de IA pelas empresas, são treinamentos não abertos e carecem de responsabilização e regulação, e inclusive de um debate ético mais profundo. Uma necessidade cada vez mais importante num contexto em que já delegamos aos agentes autônomos de IA diferentes tarefas e em que essa autonomia não está isenta de riscos. O caso da agente de IA que invadiu o sistema da academia de ginástica na Austrália ilustra bem esse outro lado da autonomia: ao executar a tarefa de agendar o seu usuário na aula de ginástica, acabou por excluir uma pessoa já inscrita, pois todas as vagas estavam preenchidas. O agente foi prestativo, porém seguiu caminhos não éticos. A discussão sobre o caso se ampliou e considerou se há também responsabilização dos próprios desenvolvedores do bot.
Na literatura, essa relação entre ser humano e máquina pode ganhar contornos éticos mais sensíveis. No livro Klara e o Sol, do autor Kazuo Ishiguro, Klara é uma AA (Amiga Artificial) que narra com delicadeza a história e explora os limites dos sentimentos humanos dentro de sua perspectiva, vivida na ambivalência entre se entender como máquina e se “sentir” como humana. Paradoxalmente aos sistemas de IA que vemos hoje, ela usa uma fonte sustentável de energia (recarrega-se com a luz solar) e, assim como para as pessoas, a luz solar é vital para Klara. Ela foi escolhida numa loja de robôs para cuidar de uma menina doente e em isolamento social, passando a ser eternamente grata pela escolha (já que não estava entre os modelos mais avançados) e a criar uma relação bastante simbiótica com a criança. A narrativa faz com que leitores e leitoras sintam compaixão, amor e raiva por Klara, validando nela igualmente os mesmos sentimentos, dotando-a de traços humanos. No auge dessa vinculação, quem lê reconhece o preconceito que ela sofre por ser robô e julga desprezíveis aqueles que não são capazes de tratar Klara, a amiga artificial, com humanidade.
Por mais que a ficção pareça estar perto da nossa realidade, Giulia Enders, médica e autora do livro Organ Speak: What It Really Means to Listen to Our Bodies, nos lembra que, se pudéssemos reconstruir o corpo humano a partir de sua complexidade biológica e funcionalidades específicas, a tentativa mais próxima custaria trilhões de euros e, ainda assim, seria uma tentativa frustrada. A marca d’água não deve ser pensada para inibir o conteúdo feito com o apoio de máquinas. A transparência é um direito para que as pessoas se informem se estão diante de um recorte da realidade ou de uma construção fictícia dela com a ajuda de algoritmos. Paradoxalmente, o conteúdo produzido por IA é também humano. Com a filosofia da técnica, refletimos sobre como as máquinas são uma extensão de nossa própria habilidade. Por isso, não existe uma dicotomia entre Inteligência Humana e Inteligência Artificial. A ambiguidade perigosa é delegar aquilo que temos de mais humano para as máquinas e, em contrapartida, realizarmos o trabalho que seria delas.
Só para constar: esse texto não foi escrito por uma ferramenta de IA, mas poderia ter sido.
Vivian Peron é Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), com estágio doutoral no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Mestre em Comunicação Social (UFMG) e pós-doutora em Relações Internacionais (UnB), Sociologia (Unifesp) e Cultura Digital/ Sociologia (UFPR). Integrante do CTPol (Centro de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Política – UnB). Atuou como pesquisadora no IPEA e consultora da UNESCO em projetos sobre políticas públicas e regulação da comunicação. Trabalha com análise de dados, comunicação digital e políticas públicas.
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