
No território Karipuna, em Rondônia, Adriano Karipuna relata problemas de saúde desde o nascimento. “As crianças nascem com problemas, com doenças cardíacas. Há jovens e adolescentes que já têm dificuldade para respirar”, afirmou a liderança indígena.
O Cafezinho – Redação | 9 de setembro de 2026
Uma análise de 39 estudos científicos identificou exposição ao mercúrio em 249 comunidades indígenas e ribeirinhas do Brasil, da Bolívia e do Peru. Outras 702 ficam a menos de dois quilômetros dos rios examinados e podem enfrentar o mesmo risco, mas nunca passaram por avaliações.
O levantamento da Mongabay Latam acompanhou a contaminação por 2.763 quilômetros dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios. Ao todo, 951 comunidades aparecem no mapa da ameaça criada pela mineração ilegal de ouro.
Os trabalhos científicos foram publicados entre 1997 e 2024. Em 220 das 249 localidades avaliadas, ou 88%, os resultados ultrapassaram limites considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Crianças adoecem sem diagnóstico
Gladys Ordoñez levou a filha Bayolet para fazer exames quando a menina tinha 5 anos. “Ela já havia desmaiado duas vezes na escola e não sabíamos por quê”, contou a moradora da comunidade indígena de Shintuya, na Amazônia peruana.
No território Karipuna, em Rondônia, Adriano Karipuna relata problemas de saúde desde o nascimento. “As crianças nascem com problemas, com doenças cardíacas. Há jovens e adolescentes que já têm dificuldade para respirar”, afirmou a liderança indígena.
Limberth Miquere, corregedor e liderança indígena local da comunidade de Buena Vista, cobra atendimento na Bolívia. “Estamos cansados de pedir assistência médica”, disse.
A falta de diagnóstico também acompanha Iris Yante, mãe de três filhos na Amazônia peruana. “Não sei se meu marido está doente ou se sou eu. Quem pode explicar isso para nós?”, questionou.
Os relatos não comprovam sozinhos que cada sintoma tenha sido causado pelo metal. Eles mostram o vazio sanitário enfrentado por populações que consomem água e peixes de rios atingidos pela mineração e não recebem acompanhamento capaz de determinar a origem das doenças.
O ouro sobe e a contaminação avança
A mineração usa mercúrio para separar o ouro dos sedimentos. Depois de liberado, o metal alcança os rios, entra na cadeia alimentar e se concentra nos peixes consumidos pelas comunidades.
A exposição pode provocar dores de cabeça, perda de memória e danos ao sistema nervoso central. Gestantes, crianças e mães que amamentam enfrentam riscos maiores porque o mercúrio pode comprometer o desenvolvimento neurológico infantil.
A cotação internacional alimenta essa engrenagem. A onça de ouro chegou a US$ 5 mil em janeiro de 2026, e a valorização ampliou o incentivo econômico para que redes ilegais ocupem rios e florestas em busca do metal.
O lucro sai da Amazônia. O custo permanece nas aldeias, nas escolas, na alimentação e nos postos de saúde que não conseguem responder às famílias.
Mineração já destruiu 132 mil hectares
Dados da plataforma de análise por satélite MapBiomas mostram que a mineração destruiu mais de 95 mil hectares de floresta na bacia do Madre de Dios entre 1997 e 2024. A área devastada passa de 9 mil hectares na bacia do Beni e de 28 mil hectares na do Madeira.
As três bacias acumulam mais de 132 mil hectares atingidos. A perda florestal expõe apenas a parte visível de uma atividade que também contamina peixes, compromete fontes de água e pressiona territórios indígenas.
O estudo apresenta uma limitação decisiva. A exposição foi confirmada nas 249 comunidades incluídas nas pesquisas científicas, enquanto o risco atribuído às outras 702 decorre da proximidade com os rios e ainda precisa ser medido em campo.
A ausência de um levantamento regional impede saber quantas pessoas carregam mercúrio no organismo e quais localidades precisam de atendimento primeiro. Enquanto essas avaliações não chegam, famílias como as de Gladys, Adriano, Limberth e Iris continuam convivendo com sintomas sem diagnóstico e com rios explorados pela mineração ilegal.
