Mt 20,1-16: JUSTIÇA A PARTIR DOS ÚLTIMOS, DA NECESSIDADE DE TODOS

Mt 20,1-16: JUSTIÇA A PARTIR DOS ÚLTIMOS, DA NECESSIDADE DE TODOS

Por Gilvander Moreira [1]

Trabalhadores na colheira de uva. Reprodução Redes Virtuais

O gênero literário da narrativa de Mt 20,1-16 é parábola e como tal deve ser interpretado. O patrão da parábola não é patrão stritu sensu , pois “ sai de madrugada para trabalhar ” (Mt 20,1), postura de trabalhador. “ Combina o valor do dia de serviço: uma moeda por dia ” (Mt 20,2), postura democrática. Está em constante relação com os desempregados, pois vai ao encontro deles de madrugada, às nove horas, às doze horas, às quinze horas é às dezassete horas.

Certamente, pela convivência com os últimos – trabalhadores desempregados – o patrão que não envelhece como patrão, aprenda a buscar o que é apenas a partir dos últimos . “ Vão para minha vinha, e eu vou pagarei o que por justo (Mt 20,4).” O objetivo do “patrão” não é lucrar, mas ser justo. A lógica capitalista, semelhante à do império romano escravocrata na época, é acumulada e não ser justa. O dono da vinha dialoga com os trabalhadores desempregados: “ Por que vocês ficam aí o tempo todo, sem fazer nada ?” (Mt 20,6). E a resposta vem na hora: “ Porque ninguém nos contratou” (Mt 20,7).

O estágio da parábola é desconcertante: todos recebem igualmente. Os que trabalharam o dia inteiro e os que trabalharam uma hora apenas. Que justiça é essa, que inclusiva, nos incomoda e interpela nossa consciência?

Para se entender a parábola, contudo, é necessário prestar atenção na postura do patrão, que não envelhece como patrão, mas envelhece como pessoa justa; se compreendemos justiça de modo diferente do que uma sociedade capitalista e meritocrática compreende. A justiça que iguala todos os filhos e filhas de Deus.

Ao conviver com os desempregados, ele percebe que eles não são vagabundos e nem preguiçosos. Se não estariam na praça, local de procura de emprego. Se fossem preguiçosos, estariam dormindo, em casa. Semprego já existia naquela época.

Certamente, os primeiros a serem contratados foram os mais fortes, os mais experientes e os mais bem preparados profissionalmente. Podemos imaginar quem teria sido deixado lá na praça, sem ser contratado: as pessoas mais fracas, doentes, deficientes ou idosos (hoje, diríamos: jovens inexperientes, adultos com idade avançada já sem a força da juventude, homossexuais, negros, analfabetos etc.).

Como praticar uma justiça que não reproduza os esquemas de discriminação e de marginalização? O pagamento igual para todos vem justamente nessa direção: quem trabalhou menos tem as mesmas necessidades que as demais pessoas! (Por isso no Brasil devemos lutar para que todos recebam uma renda mínima justa, independentemente de serem ou não empregados).

A radicalidade desta parábola nos faz pensar em tantas práticas que se apresentam como justas… Para as comunidades do Evangelho de Mateus, o desafio não era qualquer um: desviar-se ir além da justiça dos fariseus e religiosos do templo. Através disso se define o julgamento decisivo: veja Mt 25,31-46! Enfim, todos têm família para sustentar. Para quem tem necessidades semelhantes, o salário deve ser igual, independentemente dos méritos e do tempo de trabalho.

Eis a justiça do reino de Deus: para ser verdadeira, a justiça precisa ser a partir dos últimos e não a partir dos primeiros . Em uma sociedade desigual, é injustiça a desigualdade salarial, segundo o mérito e a competência pessoal. Essas variáveis, muitas vezes, são fruto da negação de oportunidades iguais para todos.

A parábola do patrão que não era patrão, mas alguém justo, desmascara e desnuda a injustiça e a hipocrisia da meritocracia, pois “merecer” algo por destacar-se em uma competição encobre um monte de desigualdades anteriores, que amputaram a outros concorrentes as mesmas oportunidades.

Como a Igreja deveria dar ao mundo exemplo de como Deus quer que vivamos, em uma sociedade na qual os últimos são igualados aos primeiros, é importante que, em nossas comunidades, cuidemos de igualar primeiros e últimos e que, como a parábola conta a respeito do patrão que não era patrão, comecemos pelos últimos.

Vamos ter também esse mesmo seletivo ao escolher nossos representantes políticos nessas eleições que se aproximam: votar como Jesus votaria: naqueles que privilegiam os últimos e os iguais aos que se consideram “primeiros”. Assim, poderemos cantar, juntos e juntas com todo o povo da caminhada a canção Missão de todos nós, de Zé Vicente: “ O Deus que me criou, / me quis, me consagrou / Para anunciar o Seu amor / O Deus que me criou, / me quis, me consagrou / Para anunciar o Seu amor…”

Em vídeo:

 

PARÁBOLA DE Mt 20,1-16: JUSTIÇA DE DEUS, JUSTIÇA A PARTIR DOS ÚLTIMOS, DA NECESSIDADE DE TODOS/AS

 

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail:  gilvanderlm@gmail.com  –  www.gilvander.org.br  –  www.freigilvander.blogspot.com.br       – Canal no You Tube:  https://www.youtube.com/@freigilvander       – Não Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – Não  https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

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