Esquerda x Direita: qual é a origem das denominações dadas aos espectros políticos?

Uma disputa entre os deputados da Assembleia francesa em 1789 definiu os termos que se tornariam a base do vocabulário político mundial

A Assembleia dos Estados Gerais em maio de 1789. Gravura de Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet. Biblioteca Nacional da França, via Wikimedia Commons

Em época de eleição, poucas palavras provocam tantas paixões, desconfianças e conflitos quanto “direita” e “esquerda”. Elas atravessam debates televisivos, discursos de candidatos, conversas de família e discussões nas redes sociais, servindo tanto para identificar projetos políticos quanto para desqualificar adversários. Mas como esses termos onipresentes nas discussões contemporâneas passaram a representar essas visões de mundo diametralmente opostas?

Tudo começou com a Revolução Francesa, um ciclo de intensa agitação e transformações que moldaram boa parte do mundo de hoje. A revolução nasceu de uma grave crise política, econômica e social que havia levado a França à beira do colapso.

No fim do século 18, o reinado de Luís XVI enfrentava um grave desequilíbrio fiscal, com um déficit interno e uma dívida externa galopante. A crise financeira foi intensificada por uma sucessão de péssimas colheitas, elevando o custo de vida e jogando milhões de famílias na miséria. A Grande Fome iniciada em 1787 tornou o pão inacessível para a maioria dos trabalhadores, impulsionando uma série de revoltas pela França.

Enquanto os trabalhadores sofriam com a carestia, a burguesia se ressentia das barreiras que limitavam sua participação política. A insatisfação com o regime monárquico também era alimentada pela difusão das ideias iluministas, contestando os privilégios da aristocracia e a legitimidade do regime absolutista. Sob intensa pressão de seus súditos, o rei Luís XVI decidiu convocar a Assembleia dos Estados Gerais para discutir a crise econômica e política do reino. As reuniões tiveram início em 5 de maio de 1789.

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Os Estados Gerais consistiam nas três classes sociais em que a sociedade francesa estava dividida. O Primeiro Estado era o Alto Clero, composto por autoridades eclesiásticas que representavam 0,5% da população. O Segundo Estado era a Nobreza, formado pela monarquia e pelos aristocratas, cortesãos e palacianos, que respondiam por 1,5% dos franceses. O Terceiro Estado, explorado pelos outros dois, representava o grosso da população — 98% dos franceses, incluindo os burgueses, os camponeses sem terra e os “sans-culottes” (uma camada heterogênea composta por artesãos, aprendizes, proletários, etc.).

A Assembleia dos Estados Gerais logo teve sua legitimidade contestada. Isso porque os representantes de cada Estado tinham direito a um único voto. Assim, embora representasse a maioria absoluta da população, o poder político do Terceiro Estado era solapado pela convergência dos votos do Clero e da Nobreza, unidos pela manutenção dos seus privilégios.

Quando os deputados contestaram se o voto deveria ser por cabeça ou por estamento, o Conde de Mirabeau, favorável ao voto por cabeça, colocou-se à esquerda do presidente da Assembleia. Por sua vez, Pierre-Victor Malouet, favorável ao voto por Estado, sentou-se à direita. Os deputados votaram alinhando-se atrás de um ou de outro.

A proposta de voto por cabeça foi recusada. Em reação, os representantes do Terceiro Estado se rebelaram e criaram sua própria Assembleia Nacional, que logo evoluiria para se tornar uma Assembleia Constituinte. A rebelião do Terceiro Estado e a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, alarmaram a monarquia, demonstrando que a crise já havia ultrapassado os limites dos debates institucionais e mobilizava amplos setores da população.

O episódio protagonizado pelo Conde de Mirabeu e por Pierre-Victor Malouet voltou a se repetir durante as discussões da Assembleia Constituinte. Em 11 de setembro de 1789, enquanto os deputados deliberavam sobre o direito de veto do rei, os representantes da monarquia, favoráveis à manutenção dos privilégios da Nobreza e do Clero, sentaram-se à direita da presidência da Assembleia. Liderados por Jean-Joseph Mounier e próximos de Malouet, eles reivindicavam o veto absoluto, que permitiria a Luís XVI rejeitar de modo definitivo qualquer proposição da Assembleia.

Do outro lado do salão, à esquerda da presidência da Assembleia, sentavam-se os representantes do Terceiro Estado, que reivindicavam o fim dos privilégios da aristocracia e a imposição de limites aos direitos do rei. Eles rejeitavam enfaticamente o veto régio absoluto, aceitando, no máximo, um veto suspensivo.

A repartição se enraizou a partir de outubro, quando a Assembleia deu continuidade às deliberações. Os deputados que queriam conter a Revolução, preservar autoridade do rei, manter os privilégios dos aristocratas e da Igreja e preservar a hierarquia social se agrupavam à direita. Já os deputados favoráveis à Revolução, à abolição dos privilégios do Clero e da Nobreza e à defesa soberania popular e da igualdade civil reuniam-se na ala esquerda da Assembleia.

Depois que a Assembleia Constituinte se mudou para Paris, a disposição em hemiciclo, com a presidência ao centro, reforçou a nova linguagem. Os jornais e panfletos começaram a se referir ao “lado direito” e ao “lado esquerdo” como forças políticas.

A Assembleia dos Estados Gerais em maio de 1789. Gravura de Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet. Biblioteca Nacional da França, via Wikimedia Commons
A Assembleia dos Estados Gerais em maio de 1789. Gravura de Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet. Biblioteca Nacional da França via Wikimedia Commons

A divisão se manteve mesmo após a queda da monarquia e a execução de Luís XVI na guilhotina. Agora, à esquerda da presidência, ficavam os Jacobinos — a pequena burguesia revolucionária, liderada por Robespierre, Marat e Danton, além dos representantes dos “sans-culottes” e das camadas populares do Terceiro Estado.

Do lado direito, passaram a se agrupar os Girondinos, os representantes da burguesia moderada, que defendiam reformas mais conservadoras. Ao centro, ficavam os deputados do “Pântano” — um grupo de sem posição política definida, ora se alinhando com os Jacobinos, ora com os Girondinos.

Essa disposição espacial ecoava o próprio desenvolvimento do processo revolucionário. A alta burguesia, que inicialmente se alinhara às camadas populares para ajudar a derrubar o rei, abandonou seus pares na “ala esquerda” e se acomodou, simbólica e concretamente, o mesmo local que antes era ocupado pelos monarcas e pelos aristocratas.

Assim, a expressão “direita política” passou a caracterizar a posição ideológica associada ao conservadorismo, à manutenção do status quo e à defesa dos interesses da alta burguesia e da elite econômica. A expressão “esquerda política”, por sua vez, passou a ser associada ao pensamento progressista, ao apoio às mudanças políticas e sociais e à defesa dos interesses das camadas mais populares da sociedade.

Ao longo do tempo, essas definições adquiriram maior complexidade e ambiguidade. A chamada “Primavera dos Povos” espalhou as revoluções pela Europa pavimentou o caminho para o surgimento de uma nova esquerda democrática e social, herdeira, em parte, dos valores expressos por lideranças jacobinas.

Socialistas utópicos como Saint-Simon, Fourier e Owen e, sobretudo, pensadores como Karl Marx e Friedrich Engels deslocaram a fronteira da esquerda para propostas de transformação econômica profunda. A Primeira Internacional (1864) e, mais tarde, os partidos social-democratas, anarquistas e comunistas organizaram essa nova corrente político.

Esse processo resvalou em outras mudanças no lado oposto. O liberalismo, que inicialmente se aproximava dos valores da esquerda por defender a igualdade e a liberdade e por rejeitar o absolutismo, passou a se perfilar progressivamente a os setores da direita, uma vez que sua defesa intransigente da propriedade privada e do livre mercado o colocava em franca oposição ao movimento operário.

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