
Crítico histórico do militarismo e das guerras, cientista alemão mudou de postura ao perceber risco existencial representado pelo nazismo.
Entre as obras mais conhecidas do ilustrador Charles Raymond Macauley, destaca-se uma caricatura intitulada “Einstein empunha a espada”. Publicado pelo jornal norte-americano Brooklyn Eagle em 1933, o desenho mostra o cientista alemão despindo-se das asas do “pacifismo não resistente” e agarrando a “espada da preparação”, enquanto arregaça as mangas.
A obra faz referência à mudança de postura de Albert Einstein provocada pela chegada de Adolf Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha. Durante décadas, Einstein foi um convicto defensor do pacifismo, escrevendo diversos textos condenando as guerras, o militarismo e o ufanismo. Mas ao identificar na ascensão do nazismo uma ameaça sem precedentes à humanidade, o físico alemão concluiu que a defesa do pacifismo absoluto poderia se transformar em cumplicidade com a barbárie.
O pacifismo de Einstein
Universalmente reconhecido como o cientista que revolucionou a compreensão do espaço, do tempo e da gravidade, Albert Einstein também se destacou por sua militância política. O físico condenava as mazelas e a desumanização do capitalismo, simpatizava com as ideias socialistas e, acima de tudo, se destacava como defensor intransigente da paz.
O pacifismo de Einstein foi moldado em sua juventude, quando viveu sob o Império Alemão de Guilherme II, uma sociedade profundamente militarizada. O sistema educacional prussiano, marcado pela disciplina rígida, pela obediência incondicional e pela valorização da autoridade, sempre lhe causou desconforto. Em diversas ocasiões, Einstein denunciou que as escolas alemãs se pareciam com quartéis, ambientes onde a criatividade era sufocada pela imposição da hierarquia.
O cientista criticava fortemente a obsessão europeia pelo armamentismo e o fomento ao patriotismo chauvinista. Para Einstein, as guerras não eram um fenômeno inevitável da natureza humana, mas um produto das estruturas políticas, econômicas e ideológicas, destruindo populações inteiras para garantir os interesses das classes dominantes.
O pacifismo de Einstein se fortaleceu ainda mais diante do horror da Primeira Guerra Mundial. Enquanto boa parte da comunidade científica alemã apoiava o esforço de guerra do Kaiser – chegando inclusive a assinar o infame Manifesto dos 93, legitimando as ofensivas militares da Alemanha e a invasão da Bélgica –, Einstein criticava fortemente a atitude dos colegas e denunciava o conflito como uma tragédia provocada pelo nacionalismo cego e pela competição entre os impérios europeus.
Após o término do conflito, o físico se tornou um dos mais destacados militantes do movimento pacifista internacional. Tomava parte dos congressos pela paz, promovia os manifestos em favor do desarmamento e defendia a criação e o fortalecimento de órgãos supranacionais capazes de substituir a lógica da guerra pelo direito internacional.
Einstein liderou iniciativas incentivando os jovens a recusarem o serviço militar obrigatório. Ele considerava a objeção de consciência uma poderosa forma de resistência ao militarismo e uma estratégia útil para neutralizar a capacidade dos Estados de travar guerras.
Também intensificou as críticas ao patriotismo cego, argumentando que o desenvolvimento científico havia tornado o mundo cada vez mais interdependente e que o futuro da civilização dependia da superação dos sentimentos ufanistas. Dizia que “o nacionalismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade”.
Revendo convicções
A ascensão de Adolf Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha em 1933 forçou Einstein a uma mudança de postura. A rapidez com que o novo regime desmontou as instituições democráticas e os mecanismos de participação política confirmou seus piores temores.
Em pouco tempo, os nazistas baniram os partidos políticos, dissolveram os sindicatos, iniciaram a prisão em massa de opositores e impuseram o controle ideológico sobre as escolas e as universidades. Livros foram queimados em praça pública, intelectuais passaram a ser perseguidos e a população judia foi submetida à crescente violência.
Einstein esteva entre os primeiros alvos das ofensivas nazistas. Sua residência foi confiscada, seus bens foram apreendidos e seu nome passou a figurar nas listas de inimigos do regime. A propaganda do Terceiro Reich retratava sua teoria da relatividade como exemplo de uma suposta “ciência judaica”, incompatível com a ideologia racial do regime. Organizações nazistas chegaram até mesmo a oferecer recompensas a quem o assassinasse.
Enquanto as burguesias ocidentais exaltavam Hitler por suas realizações econômicas e por “levar ordem” à Alemanha, Einstein denunciava o nazismo como um regime assentado sobre premissas extremamente perigosas, pregando a eliminação física dos adversários políticos e de grupos humanos rotulados como “inferiores”.
O cientista logo percebeu que a defesa do pacifismo só fazia sentido em um contexto em que os adversários estivessem dispostos, em algum grau, a respeitar princípios morais e normas jurídicas. O nazismo, entretanto, era exatamente o oposto.
O pacifismo absoluto perdia completamente o sentido quando colocado diante de um projeto político que pregava o extermínio de povos inteiros. Defender a resistência armada contra Hitler, concluiu Einstein, não era apenas uma posição legítima, mas uma obrigação ética.
Einstein passou a defender veementemente a necessidade de preparação para uma intervenção armada, reivindicando investimentos na indústria bélica e recomendando campanhas para que os jovens se alistassem nas forças armadas.
Acusado de incoerência, o físico elucidou sua posição: “jamais disse que era um pacifista absoluto, mas sim um pacifista convicto. E embora eu seja um pacifista convicto, há circunstâncias em que acredito que o uso da força é apropriado – sobretudo diante de um inimigo incondicionalmente determinado a me destruir e ao meu povo. (…) Eu me oponho ao uso da força sob quaisquer circunstâncias, exceto quando confrontado por um inimigo que busca a destruição da vida como um fim em si mesmo”.
O cientista complementou: “na minha opinião, não é razoável apegar-se incondicionalmente ao princípio (do pacifismo). Uma exceção deve necessariamente ser feita se uma potência hostil ameaçar a destruição em massa de um grupo”.
A bomba atômica
Einstein também criticou duramente a política de concessões e apaziguamento que as nações europeias vinham adotando em relação ao regime nazista. Enquanto líderes como Neville Chamberlain propagandeavam os acordos com Hitler como a garantia da paz, o físico alertava que cada concessão apenas fortaleceria a máquina militar alemã e arrastaria o mundo para uma guerra devastadora.
O episódio mais emblemático da mudança de postura de Einstein ocorreu em 1939, quando um grupo de cientistas refugiados o alertou sobre os avanços na fissão nuclear e o risco de a Alemanha desenvolver uma bomba atômica. Einstein resolveu então subscrever a carta endereçada por Leó Szilárd ao presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, recomendando a criação imediata de um programa de fabricação de armas nucleares.
O documento levaria à criação do Projeto Manhattan. Einstein nunca trabalhou no projeto, não visitou seus laboratórios e não teve acesso às informações secretas. O governo dos Estados Unidos recusou-se a conceder-lhe autorização de segurança, em função de seu apoio aberto às ideias socialistas.
À medida que a guerra avançava, começaram a surgir evidências de que o programa nuclear alemão estava muito menos desenvolvido do que inicialmente se imaginava. Quando ficou claro que Hitler dificilmente conseguiria construir uma bomba antes da derrota do Terceiro Reich, Einstein passou a acompanhar com crescente aflição o avanço do projeto norte-americano.
O cientista ficou profundamente consternado ao testemunhar os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Einstein passou a considerar a sua carta um erro. “Se eu soubesse que os alemães não conseguiriam desenvolver a bomba atômica, não teria feito nada”, declarou em uma ocasião. Em 1954, em uma correspondência endereçada a Linus Pauling, classificou sua intervenção junto a Roosevelt como “o maior erro da minha vida”.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Einstein retomou plenamente sua militância em favor do desarmamento. Defendeu o fortalecimento das Nações Unidas, propôs formas de gestão internacional sobre a energia atômica e participou de campanhas em favor da limitação dos arsenais nucleares. Em seus últimos anos de vida, alertava repetidamente que uma nova guerra mundial dificilmente deixaria vencedores.
Poucos dias antes de morrer, em 1955, o físico assinou o célebre Manifesto Russell-Einstein, elaborado em parceria com Bertrand Russell. O documento conclamava cientistas e governos a reconhecerem que a continuidade da corrida armamentista colocava em risco a própria sobrevivência da espécie humana.
Seu apelo final se tornou uma das frases mais marcantes da história do movimento pacifista: “lembrem-se de sua humanidade e esqueçam o resto. Se assim o fizerem, o caminho para um novo paraíso estará aberto; se não o fizerem, o risco da morte universal estará diante de vocês”.
