Desmatamento e mineração impulsionam surto de Ebola na África

No Brasil dois casos suspeitos de ebola foram descartados após exames unplash

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou recentemente um surto de Ebola como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, levantando uma questão: como uma doença que permaneceu relativamente controlada durante décadas passou a provocar surtos cada vez maiores?

De acordo com a jornalista Sonia Shah, em artigo publicado pelo The Guardian e baseado, entre outras fontes, em um estudo do CDC liderado por Carson Telford e publicado na revista Emerging Infectious Diseases, a explicação mais convencional para a ampliação dos surtos de Ebola está relacionada ao crescimento populacional e à maior integração entre regiões e países. Com a expansão das cidades, das estradas, dos aeroportos e de outros meios de transporte, a circulação de pessoas aumentou significativamente, facilitando também a disseminação de patógenos.

No entanto, não é apenas o vírus que está se espalhando com mais facilidade. O próprio ambiente em que ele circula está passando por profundas transformações, já que vírus como o Ebola vivem silenciosamente nos corpos de seus hospedeiros animais, principalmente morcegos. Porém, as florestas onde esses animais habitam vêm sendo desmatadas pela crescente demanda por minerais utilizados na indústria de alta tecnologia, aumentando o contato entre humanos e possíveis reservatórios do vírus.

Segundo o periódico, morcegos infectados vivem em regiões como a República Democrática do Congo (RDC), país que abriga cerca de 60% da segunda maior floresta tropical do mundo. Nessas áreas, os surtos historicamente costumavam atingir poucas pessoas e permanecer relativamente localizados.

Contudo, quando os habitats naturais desses animais são destruídos, os morcegos não desaparecem. Em vez disso, concentram-se nos fragmentos de floresta que restam, muitas vezes mais próximos de áreas ocupadas por seres humanos. Isso aumenta a probabilidade de contato com sangue, saliva e excrementos potencialmente contaminados pelo vírus.

Segundo o economista Malte Ladewig, da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida, o crescente interesse pela chamada mineração artesanal tem levado moradores locais a extrair minerais como ouro, coltan e cobalto para abastecer a cadeia global de suprimentos, frequentemente por meio de redes informais de intermediários e contrabandistas.

Corrida por minerais

Vale ressaltar que pessoas que vivem próximas a morcegos portadores do vírus podem desenvolver algum grau de proteção imunológica após exposições repetidas. Entretanto, a atual corrida por minerais altera a ecologia do Ebola de maneiras específicas, ampliando as possibilidades de transmissão. Enquanto a expansão agrícola costuma avançar gradualmente a partir das bordas da floresta, a mineração leva trabalhadores diretamente ao interior de áreas remotas e pouco exploradas.

É nesse contexto que surge um dos principais problemas. A valorização dos minerais no mercado internacional atrai trabalhadores de diversas regiões, incluindo pessoas que não tiveram a mesma exposição histórica ao vírus observada entre populações tradicionais da floresta.

Longe de centros urbanos e mercados agrícolas, muitos desses trabalhadores dependem da caça para sobreviver, aumentando o contato entre seres humanos e animais silvestres. Caso suas presas incluam espécies que hospedam variantes do vírus Ebola, como o Bundibugyo, a transmissão pode ocorrer com facilidade.

Em comunidades mineradoras improvisadas, marcadas por saneamento precário e infraestrutura de saúde limitada, qualquer surto tem potencial para se espalhar rapidamente.

A combinação entre desmatamento, mineração e avanço humano sobre áreas florestais reforça a importância da preservação dos ecossistemas para a prevenção de futuras epidemias . Além da resposta sanitária e do desenvolvimento de vacinas, especialistas ouvidos pelo jornal britânico apontam que a proteção das florestas pode desempenhar um papel fundamental na redução do risco de surgimento de novas doenças.

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