
A compreensão do resultado eleitoral exige considerar a combinação entre rejeição política, identificação ideológica, desejo de mudança e prioridades econômicas, enquanto os desafios do próximo governo reforçam a importância da mobilização popular.
d’A Terra é Redonda | Por Liszt Vieira* | 27 de outubro de 2026
“Não rir, não lamentar, não detestar, mas compreender” (Spinoza).
1.
Baixada a poeira da eleição, é necessário compreender melhor como um candidato corrupto, cínico, mentiroso, submisso a Donald Trump a quem pediu para punir o Brasil com tarifaço, venceu o primeiro turno e perdeu por 3,5% o segundo turno. Por pouco, o Brasil se livrou de um bandido ligado aos milicianos e traficantes, ao Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem chamou de irmão e de quem recebeu a promessa de 132 milhões, já tendo recebido e desviado para seu bolso 61 milhões, e totalmente submisso a Donald Trump, a quem prometeu entregar as riquezas e o destino político do Brasil.
Há muitas abordagens possíveis para explicar essa questão. Desde a psicologia de massas para entender o comportamento dos bolsonaristas até uma análise crítica do governo Lula para mostrar o que foi mal feito ou deixou de ser feito para permitir o descalabro da ascensão eleitoral de um bandido corrupto como Flávio Bolsonaro. Sem esquecer, naturalmente, a cumplicidade da grande imprensa pelo que disse ou deixou de dizer em relação a seu candidato de extrema direita. Além da grande imprensa comercial, os grandes derrotados foram Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Meta e empresas transnacionais.
Após o susto com o resultado do primeiro turno, o segundo turno foi uma festa: a juventude foi às ruas, os idosos foram votar, a sociedade civil se engajou no Exército de Lula dirigido por André Janones que, apesar de um nome ruim (reforça uma ideologia militar), deu uma contribuição extraordinária para a vitória no segundo turno, compensando a mediocridade da coordenação da campanha eleitoral de Lula e a debilidade política dos partidos de apoio ao governo. É justo, porém, destacar duas iniciativas que pautaram a conjuntura política em favor de Lula: o fim da escala 6×1 e a proibição das bets.
O presente artigo busca analisar o comportamento do eleitorado e deixa para mais adiante a questão que será prioritária a partir do início de 2027: a estratégia da esquerda e do governo para enfrentar um Congresso dominado pela direita. A mobilização da sociedade civil, como ficou demonstrada na campanha eleitoral, será fundamental para dar sustentação ao governo Lula que será levado, sob pena de fracasso, a mudar sua estratégia de fazer aliança com a direita para garantir govenabilidade.
Tendo em vista a fraqueza política dos partidos, a mobilização do apoio popular será uma necessidade permanente, ainda mais se o governo quiser mesmo avançar e trabalhar para reduzir a elevadíssima taxa de juros que asfixia a economia e trava o desenvolvimento. Para isso, terá de enfrentar o mercado financeiro com o objetivo de acabar com o “suicídio” dos juros altos, relembrando a expressão do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.
2.
Ainda estamos em plena tempestade: o candidato derrotado, repetindo seu pai, negou o resultado das urnas, mancomunado com o governo de Donald Trump. Isso lembra a famosa frase de Marx sobre Hegel no livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte: a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
Agora, porém, a questão que colocamos para debate é saber como um candidato que enfrenta graves acusações de mentiras, cinismo, corrupção e submissão a um líder estrangeiro conseguiu conquistar votos suficientes para chegar à frente no primeiro turno e perder por 3,5% no segundo turno.
Os dados oficiais confirmam que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. E no segundo turno, o resultado oficial foi vitória de Lula com 51,79% e Flávio Bolsonaro com 48,21%, numa virada histórica sensacional.
Há alguns fatores políticos e eleitorais que ajudam a compreender esse resultado, sem presumir que todos os eleitores tenham as mesmas motivações. O primeiro é identificação ideológica, uma vez que parte do eleitorado pode priorizar conservadorismo, segurança pública, costumes e oposição ao PT, mesmo quando discorda de determinadas atitudes do candidato.
Pesam também outros fatores como o voto de rejeição, ou seja, alguns eleitores votam principalmente para impedir a vitória do adversário, e não por concordarem integralmente com quem escolhem. Quando a disputa se organiza em torno de dois campos fortemente opostos, a identidade partidária e a rejeição ao outro lado podem pesar mais do que controvérsias individuais.
Há também que levar em consideração a influência da família e das lideranças políticas: o sobrenome Bolsonaro, a base eleitoral construída por Jair Bolsonaro e o apoio de lideranças conservadoras são elementos relevantes para analisar a candidatura de Flávio.
Também influenciam o voto a economia e a avaliação do governo: renda, inflação, emprego e percepção sobre os resultados da administração federal. Além disso, pesou também o apoio político e financeiro do governo de Donald Trump ao candidato Flávio Bolsonaro que apoiou o tarifaço de Donald Trump. Mas um eleitor pode considerar a relação com Trump um problema, mas atribuir maior importância a outras questões; outro pode sequer considerar essa relação negativa.
Uma pesquisa do Datafolha realizada em 13 e 14 de outubro de 2026, com 2.520 eleitores de 153 municípios, investigou as motivações de quem pretendia votar no segundo turno. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, as principais razões declaradas para o voto no segundo turno foram as seguintes: Mudança e alternância de poder: 41% / Rejeição a Lula e ao PT: 31% / Economia e custo de vida: 16% / Propostas e qualidades do candidato: 15% (Os percentuais divulgados somam mais de 100%, possivelmente por arredondamento ou critérios de resposta).
Entre os eleitores de Lula, as razões declaradas para o voto foram as seguintes: Proteção social e defesa de sua classe: 48% / Desempenho e legado do presidente: 22% / Rejeição a Flávio: 17% / Valores, ideologia e democracia: 11%.
3.
O que esses números sugerem é que o voto em Flávio Bolsonaro não pode ser explicado apenas por uma avaliação pessoal de sua conduta. Para uma parcela dos seus eleitores, a alternância de poder e a rejeição ao PT aparecem como razões explícitas. Entre os eleitores de Lula, a proteção social e a avaliação de seu governo têm maior destaque nesse levantamento.
Uma pesquisa do Ipespe, realizada entre 6 e 8 de outubro com 1.500 eleitores, perguntou quais temas foram mais decisivos na escolha do voto do primeiro turno. O resultado foi o seguinte: Corrupção e crise no STF: 24% / Economia, emprego e preços: 17% / Saúde e educação: 12%. (Fonte: Ipespe, divulgado pela CNN Brasil em 10 de outubro de 2026. Margem de erro de 2,6 pontos percentuais).
A crise no STF veio a perder força nas pesquisas posteriores, mas esse resultado ajuda a compreender um mecanismo político importante: um candidato pode obter votos explorando temas que mobilizam o eleitorado, mesmo quando sua própria conduta é objeto de fortes acusações de corrupção. No caso de Flávio Bolsonaro, diretamente envolvido com a mega corrupção de Daniel Vorcaro, do Banco Master, corrupção não tirou voto.
A rejeição ao adversário pode superar as reservas em relação ao próprio candidato. Os dados do Datafolha identificam a rejeição a Lula e ao PT como uma motivação declarada por parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro. O desejo de mudança pode mobilizar votos independentemente da aprovação integral do candidato. Essa foi a principal razão declarada pelos eleitores de Flávio Bolsonaro no levantamento citado.
Em síntese: a explicação mais consistente com os dados disponíveis é que a escolha eleitoral envolve uma combinação de desejo de mudança, rejeição ao adversário, prioridades temáticas e identificação política. Não é possível concluir, apenas com o resultado das urnas, que os eleitores ignoraram as controvérsias, concordaram com elas ou não compreenderam suas consequências.
Há outras abordagens possíveis para explicar a força eleitoral do candidato da extrema direita, mas uma das lições a serem extraídas dessa eleição é a necessidade de os Partidos de esquerda não esgotarem suas energias nos meandros da institucionalidade, mas partirem para a mobilização das bases, como se viu no segundo turno.
Tendo em vista que o próximo Congresso será dominado pela direita, a mobilização permanente da sociedade civil será condição sine qua non para inserir na agenda política projetos sem apoio do Legislativo como, por exemplo, taxação de grandes fortunas, tarifa zero etc., bem como para garantir a sustentação política do governo Lula que não deveria mais repetir o cardápio de fazer aliança com a direita para barrar a extrema direita, sob pena de esvaziamento político e derrota fragorosa na próxima eleição.
*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de Fragmentos de um discurso ecológico (Editora Gaia). [https://link.amazon/B007S6fn6]
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