Como em 2022, CNBB fica do lado certo da História

Imagem de Nossa Senhora Aparecida
Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Posicionamento firme da entidade diante de ataques e da manipulação religiosa reafirma seu compromisso histórico com a verdade e a justiça social.

Autor: Paulo Henrique Arantes | Brasil 247 | Publicado em 30 de setembro de 2026 às 08:42

Este jornalista nutre forte simpatia pela parcela progressista da Igreja Católica, que defende excluídos, critica opressores, condena preconceitos, ataca discriminações, combate a desigualdade e denuncia os privilégios. É a Igreja de Júlio Lancellotti, hoje, e de Paulo Evaristo Arns, ontem. É a Igreja das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação, de Leonardo Boff. É a Igreja dos Papas João XXIII e Francisco. Essa Igreja Católica sobrevive, ainda que não unanimemente, no âmbito da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, a qual, agredida por Flávio Bolsonaro, engrandece-se.

O Brasil conta mais uma vez com a CNBB, a exemplo de 2022, quando exerceu seu papel com coragem e repreendeu a sanha religioso-reacionária. À época, a entidade dos sacerdotes católicos denunciou o uso de fake news e relacionou-o com “manipulação religiosa”, em clara estocada nos pastores bolsonaristas que povoavam — e povoam — o Congresso Nacional. “A manipulação religiosa, protagonizada por políticos e religiosos, desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados no Brasil. É fundamental um compromisso autêntico com o Evangelho e com a verdade”, pronunciou-se a CNBB.

É sintomático que aqueles que pregam o ódio e a violência e que destilam preconceitos de raça e de gênero sejam os que mais utilizam a religião no exercício da política. O jogo deles é o do vale-tudo para comover os incautos. A turma vai de Bíblia na mão e revólver na cinta. Entre seus alvos, Nossa Senhora — quem não se lembra do pastor dando pontapés na imagem da Santa?

Parêntesis: Flávio Bolsonaro não disse que removeria Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil se eleito presidente, mas a hipótese de que tente fazê-lo é mais que possível — é provável, como sugerem suas falas pregressas e, especialmente, as do seu entorno religioso.

Esse é um papel político louvável, que os verdadeiros sacerdotes devem exercer por obrigação cristã. Essa missão pastoral requer a coragem de participar da contenda eleitoral exigindo dos candidatos — de todos eles — que assumam compromisso com a reversão dos quadros de miséria. Sua tarefa não é, definitivamente, usar o nome de Deus para fazer proselitismo partidário junto aos fiéis.

No Brasil convivem religiões diversas, num ecumenismo que sugere fraternidade e respeito. Tal característica brasileira está sendo vilipendiada por uma distorção aberrante da palavra divina e pela utilização do nome de Deus em cima de carros de som e em meio a estímulos de ódio. Pregadores argentários autoproclamam-se enviados de Deus numa contradição absoluta ao que nos ensina o Antigo Testamento, em Êxodo 20, versículo 7: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão”.

O caldeirão de falsa religiosidade em que a campanha eleitoral está jogada aceita tudo, desde promessa de salvação a quem votar em determinado candidato até inculcação de temor por eventual vitória do demônio, encarnado em outro postulante. Como chegamos a esse ponto? Por que tanta gente acredita em tais absurdos?

 

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