A Casa de Betânia

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A CASA DE BETÂNIA
Lc 10, 38-42

Na “Casa de Betânia”, que é a nossa própria Casa, ou a nossa própria Vida, estamos, constantemente, nos deparando com as seguintes questões:

      –O que é importante em minha vida?
      –   O que é prioridade em minha vida?
      –   Como discernir entre o importante e o prioritário?

Na verdade, apenas Deus tem o Discernimento Absoluto; o Ser Humano não tem este discernimento, e querer tê-lo é tornar-se autossuficiente, ou seja, querer ser mais do que o próprio Deus. O texto de Gn 3, 1-2 já nos apresenta esta situação de autossuficiência (pecado original), referindo-se à “árvore do conhecimento do bem e do mal” (discernimento absoluto), que leva à plenitude da vida, isto é, à “árvore da vida”. O ser humano tem, portanto, esta ambiguidade: querer ser Deus, mesmo sendo homem; fazendo suas escolhas e tomando suas decisões sem levar em conta os propósitos de Deus.

Posso fazer tudo o que quero. Sim, mas nem tudo me convém. Posso fazer tudo o que quero, mas não deixarei que nada me escravize.” (1Cor 6, 12). Discernir entre o que convém ou não convém: eis a questão! Sozinhos, sempre teremos dúvidas entre o que é mais importante em nossa vida e quais são, na verdade, as prioridades. Por isso, humildemente, precisamos estar aos pés de Jesus, entrar em comunhão com Ele, como fez Maria na casa de Betânia.

SERVIR o Mestre e ESCUTAR o Mestre são, na verdade, duas coisas muito boas e importantes. A escolha difícil nunca foi entre o que é bom e o que é ruim, pois nossa escolha óbvia sempre será pelo que é bom. Segundo Santo Inácio de Loyola, em seus Exercícios na Vida Cotidiana (EVC), o difícil é escolher (discernir) entre duas coisas boas. Em nossa Casa de Betânia, sempre estaremos lidando com esta situação de escolha entre o importante e o prioritário, entre o essencial e o secundário. Para escolher o “prioritário” dentre tantas coisas “importantes”, precisamos da Graça de Deus, da Luz do Seu Santo Espírito, que nos orientará sempre para o melhor, afinal, somente Ele tem o discernimento absoluto e nos conduzirá a atitudes que geram vida, paz e harmonia.

É importante que nos questionemos: As atitudes de Marta e Maria poderiam ser as nossas próprias atitudes no dia a dia? Será que poderemos aprender com ambas um melhor jeito de ser, de viver e conviver? Quanto há de Marta em nós? Quanto há de Maria em nossos movimentos e disposições interiores?

Enquanto caminhavam, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa” (Lc 10, 38). O verbo no plural “caminhavam” nos indica que Jesus não chegou sozinho à Casa de Betânia. Ele sempre chega acompanhado! Com Ele, sempre chegam outras pessoas que precisam de acolhida, de apoio, de ajuda, de suporte… “Marta O recebeu em sua casa.” Em nome de Jesus, e por causa Dele, recebe também a todos que o acompanhavam. Esta acolhida, receptividade e hospitalidade de Marta a Jesus é muito importante e nos serve de exemplo, pois é extensiva aos irmãos, nos fazendo lembrar as palavras do próprio Mestre: “…todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizeram.” (Mt 25, 40). Vale lembrar também o que Jesus nos garante: “…quem recebe aquele que Eu envio, está recebendo a Mim, e quem Me recebe, está recebendo Aquele que Me enviou.” (Jo 13, 20).

Receber a Jesus e, em nome Dele, receber a todos os irmãos é muito importante, mas não é ainda o essencial. O SERVIÇO (ou Missão) pressupõe algo que o antecede e que é prioritário: a ESCUTA da Palavra de Deus. É preciso ouvir o Mestre Jesus, antes de qualquer outra atividade, por mais importante que seja. Antes da Missão, há que haver o Discipulado, pois, sem esta escuta (Oração), tudo perde o sentido e fica confuso. Neste caso, “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42) pois “sentou-se aos pés do Senhor e ficou escutando a sua palavra” (Lc 10, 39). Maria tem atitude de “Discípula”, tem sede de aprender com o Mestre. Esta sempre será a primeira e mais importante postura diante da vida e do mundo, esta é a prioridade!

Marta estava ocupada com muitos afazeres” (Lc 10, 40) e, mesmo sendo coisas importantes, não eram prioritárias para aquele momento. Jesus estava lá, em sua casa! Maria não perde esta oportunidade de ficar com o Mestre, de ouvi-Lo, mesmo enfrentando os tabus e preconceitos da época, uma vez que mulher não poderia estar junto e muito menos conversar com os homens. Marta, infelizmente, desperdiça esta oportunidade, porque além da preocupação e ansiedade em fazer as coisas, ainda se encaixava naquele velho esquema de que a mulher era para os afazeres domésticos, de preferência na cozinha. Não satisfeita, e desejosa de que Jesus dê apoio a este seu velho esquema, ainda reclama ou murmura contra sua irmã, aproximando-se e falando: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!” (Lc 10, 40).

Jesus, felizmente, não entra no esquema de Marta, pois um amigo de verdade nem sempre concorda com as atitudes do outro, ajuda-o a enxergar melhor as coisas, a ver com mais profundidade. Com seu jeito carinhoso, chama a atenção da amiga, advertindo-a para o essencial: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas, porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc 10, 41-42).

Em relação à minha própria “Casa de Betânia”, posso fazer algumas indagações: Qual a melhor parte e que não me será tirada?… Até que ponto eu ajo (o fazer) como Marta?… Até que ponto eu vivo (o ser) como Maria?…

No mundo do FAZER, com tanta agitação, preocupação e ansiedade, nosso lado MARTA acaba falando mais alto, não nos deixando sossegar. É verdade que precisamos nos mexer, precisamos agir, trabalhar, estudar, produzir… No entanto, é necessário que haja um equilíbrio, a fim de não sufocar o nosso SER. A atitude de MARIA nos ensina o que é prioritário, em meio a tantas coisas importantes. A melhor parte não nos será tirada, segundo o próprio Mestre, pois trata-se de parar tudo para ouvi-Lo, aprender com Ele a ser e viver como Discípulas e Discípulos, colocando-o no centro da nossa vida, aderindo ao seu Projeto de Vida, Justiça, Amor e Paz.

Na Casa de Betânia (a nossa casa, a nossa vida), é necessário e fundamental que Jesus seja o centro, a prioridade, o sentido da nossa vida e existência. Ele é o amigo maior, que precisa ser “escutado” constantemente. Não basta apenas ter fé e confiança em Jesus, é preciso ter atitudes de Discípula; afinal, Marta sempre reconheceu e acreditou que Jesus era o Messias esperado, chegando a dizer, por ocasião da morte do seu irmão Lázaro: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11, 21) e, quando Jesus lhe pergunta se ela acredita que Ele é a ressurreição e a vida, responde com muita convicção e firmeza: “Sim, Senhor. Eu acredito que Tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo.” (Jo 11, 27)

Portanto, a Casa de Betânia (casa dos amigos de Jesus) tem muito a nos ensinar: à Missão (serviço, atividade, ação missionária) antecede o Discipulado (escuta, aprendizado, espiritualidade). Que a Divina Ruah, o Espírito Santo de Deus, nos ajude a ver todas as coisas que são importantes, enxergando sempre o que é o melhor, ou seja, que nos ajude a discernir o essencial em nossa vida de Discípulas(os)-Missionárias(os) de Jesus de Nazaré.

Pery-Açu
“Peregrina da Esperança”

Ariquemes-RO: 20 de novembro de 2021

Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve poesias, contos, crônicas e também cordel.

E-Mail: veraperiassu@gmail.com

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