
Crônica em texto e fotos. Há as “árvores oprimidas”, cujas raízes encontram brechas para respirar em meio ao asfalto e concreto. O que elas nos dizem sobre renúncias forçadas para convivência coletiva? Baudelaire, Tom Zé, a música caipira e Freud dão pistas…
Por Thiago Esperandio | Outras Palavras – Outras Cidades | Publicado em 14/07/2026 às 16:42 – Atualizado em 14/07/2026 às 20:07
E se, nas raízes das calçadas, enxergarmos as raízes de nossas questões pessoais e políticas?
Caminhando por São Paulo, desde adolescente, observo as condições precárias de nossas árvores, nas calçadas.
O tempo foi passando e sempre fui tentando elaborar o motivo de eu ter esse interesse, ou diria, até certa identificação com essas raízes.
Hoje, sou psicanalista e sigo com muitas perguntas que vão se ramificando em outras e outras, como galhos.
Mais do que olhar para essas árvores como algo externo, olhá-las sempre vai além, pois me levanta perguntas sobre nós mesmos: pessoas, cidadãos…
Até quanto as condições dessas árvores e suas raízes fincadas no asfalto dizem sobre nós?
Essas perguntas têm gerado uma série de fotos que chamo de Raízes Calçadas e que, no momento, vou registrando em uma página no Instagram @raizescalcadas
Espero, em um futuro breve, transformar essas imagens em uma exposição de fotos e reflexões.
As Raízes Calçadas
Entre as mais comuns, estão árvores que são plantadas no limite da calçada e sofrem os tipos mais bizarros de intervenções para que não invadam as ruas, privilégios dos carros.

Plantadas em calçadas estreitas é nítido que, a elas, só é permitido crescer com alguma liberdade em um sentido determinado: o das calçadas… e que as podas para que não invadam as ruas são feitas de formas totalmente descabidas.
Qualquer semelhança conosco seria mera coincidência?

As podas são descabidas a ponto de, muitas vezes, ser o baú de caminhões e a carroceria dos ônibus que vão moldando suas copas, na medida em que passam apressados.
Isso sem falar na fiação que vai disputando espaço com suas copas.
Há também as árvores que são plantadas em pequenas caixas das calçadas e que pagam o preço pela precariedade e inadequação do lugar, ou porque crescem demais e acabam sendo cortadas por isso, ou porque acabam tendo suas raízes moldadas pelo espaço inadequado.


Há aquelas cujas raízes são cimentadas até o limite máximo e acabam tendo que quebrar o chão, levantar muros, engolir postes, ou deformar seus troncos para poderem atravessar o cimento e se desenvolver.

Há também outras que, como exceção, conseguem crescer e invadir as ruas.
Os exemplos são muitos. Olhando para eles, podemos ver desde a poética da vida que resiste até a crítica ao descaso de nossa sociedade com as árvores. Uma coisa não exclui a outra.
E mais… por que não podemos ir além e enxergar nelas nossas condições materiais e até psíquicas da vida urbana?
A migração do campo para a cidade.
O processo de industrialização gerou, como fenômeno mundial, ondas massivas e abruptas de migração do campo para a cidade.
Pegando um caso brasileiro como exemplo, São Paulo tinha em torno de 240 mil habitantes em 1900. Quando Tom Zé escreveu “São São Paulo quanta dor, São São Paulo, meu amor”, ao fim da década de 1960, a cidade já tinha 8 milhões.
Hoje, 60 anos após a canção que retrata a relação ambivalente que “rima amor e dor”, temos cerca de 12 milhões na cidade de São Paulo e mais de 21 milhões se incluirmos a Região Metropolitana.
A desordem deste processo, causado, em boa parte, pelos interesses do capital sobre o bem-estar das pessoas, tem seu resultado a olhos vistos.
Os rios de São Paulo já bastam se quisermos ficar em um exemplo rápido. Desde seus cursos, até a degradação acelerada de suas águas já falam por si só.
Minha mãe me conta que, na década de 1940, meu tio nadava no rio Tietê. O Rio era diversão na cidade e sediava disputas de remo e outros esportes náuticos.
Para além dos rios, o que dizer das árvores, das raízes calçadas? e, o que dizer de nós?
“Veja o que temos feito de nós e a isso considerado a vitória de cada dia”
– Clarice Lispector
Os efeitos dessa migração em massa do campo para a cidade provocaram mudanças profundas nos nossos modos de vida e em nossa psique.
Isso ficou abundantemente registrado no pensamento do século XX desde sociólogos, urbanistas, historiadores.
Não foi diferente com artistas:
No poema o Cisne, Baudelaire fala sobre seu estranhamento diante da mudança brusca de Paris, mais rápida do que o tempo do poeta:
A velha Paris não é mais! (uma cidade
Muda mais rápido, ai, que um coração mortal);
Em Uma Passante, Baudelaire fala sobre a mulher que poderia ser o amor da sua vida e que passa anônima e se perde na multidão impessoal da cidade grande, com seus ritmos industriais:
“So te verei um dia e já na eternidade? Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente! Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado — e o sabias demais!”
Guimarães Rosa, em Primeiras Estórias (1962), aborda o tema do advento abrupto da construção de Brasília no sensível conto “As Margens da Alegria”.
Eduardo Galeano falando sobre a sociedade do consumo nos traz um traço dessa característica de nossa sociedade urbana: “Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite”.
A música caipira do século XX também registrou essa dor da migração e da dificuldade de adaptação para um ambiente urbano e pouco acolhedor.
Em Saudade da Minha Terra (composta pela dupla Goiá e Belmonte na década de 1960), o eu-lírico abre mão de um amor pois não aguenta mais a vida na cidade:
“Saudade de Minha Terra
De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar
Adeus paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão eu quero voltar”
Uma das mais belas, em minha opinião, é Triste Berrante (Adauto Santos, composta em 1978), onde o eu-lírico sente falta de uma paisagem que mudou completa e subitamente.
“Mas sempre foi assim e sempre será O novo vem e o velho tem que parar O progresso cobriu a poeira da estrada E esse tudo que é o meu nada Eu hoje tenho que acatar e chorar Mas mesmo vendo gente, carros passando Meus olhos estão enxergando uma boiada passar”
O mal-estar na civilização
Em uma de suas obras mais emblemáticas, Freud falou sobre as dores de viver em sociedade.
Resumindo muito uma parte do que o autor diz, correndo até certo risco de ficar superficial demais, digo que ele abordou o quanto nos é caro renunciar aos nossos impulsos para viver em sociedade.
O “pai da psicanálise” diz que a compensação ao sofrimento dessas renúncias estaria na sublimação. Em termos simplificados, a fruição e produção da arte, os ganhos simbólicos, que essas renúncias poderiam oferecer… penso na convivência com amigos, uma profissão onde nos realizamos, passar 4 anos estudando por um diploma, entre tantas outras coisas.
No entanto, não é mais do que justo diferenciar renúncias de precariedade?
Viver em cubículos, abrir mão de crescer plenamente para dar lugar a carros apressados, restringir-se a pequenas calçadas, dividir seu pequeno espaço de respiro com postes de aço e concreto…
Tudo isso está muito distante de significar renúncia a nossos impulsos em troca de uma vida em sociedade, o que por si só já nos geraria sofrimentos inevitáveis, embora em troca de um bem compensatório ou necessário.
No caso dessas raízes, trata-se de viver uma vida em ambientes de descaso.

A partir daí, penso que observar as raízes calçadas podem ser um grande mergulho em nossa realidade social e humana.
Até onde nossas renúncias são necessárias para uma convivência coletiva? Até quanto, o que vivemos não se trata de renúncia, mas precarização da vida?
Essa sociedade da qual fala Galeano que não deixa dormir as flores, as galinhas e as pessoas, também não permite que as árvores vivam com um mínimo de dignidade.
Parodiando a já citada Clarice Lispector, eu diria que ainda querem nos vender isso como “a vitória nossas de cada dia”
Desde que comecei a divulgar as fotos de raízes, muita gente me escreve dizendo que não consegue mais andar pelas ruas sem observá-las.
Quem sabe essas raízes nos ajudem a andar pelas ruas observando mais também a nós mesmos.
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